Metas Subconscientes – Sobre como materializar os seus objetivos.

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Acredito firmemente que só conseguimos conquistar um objetivo quando estamos alinhados com o nosso subconsciente. Cheguei a essa conclusão depois de um bom tempo de pesquisas, dezenas de livros, artigos e histórias. Compartilho aqui o processo, o que encontrei de melhor e minhas hipóteses, pra que você tire suas próprias conclusões, e experimente, caso decida.

O Jim Carrey conta numa entrevista que deu pra Oprah Winfrey como ele visualizava o seu sucesso quando ainda era um desconhecido ator canadense. Em meados dos anos 80, ele almejava o sucesso em hollywood, assim como milhares de pessoas. Sem contatos, dinheiro ou fama, ele sabia da dificuldade que seria, mas visualizava constantemente seus objetivos sendo alcançados, seu trabalho sendo reconhecido, os contatos acontecendo e tudo o mais. Certo dia, ele escreveu um cheque pra si próprio no valor de 10 milhões de dollares, por “serviços de atuação prestados” e colocou a data “ação de graças, 1995”. E guardou o cheque, manteve ele o tempo todo na carteira. Exatamente no dia de ação de graças de 1995, ele recebeu a notícia de que iria receber 10 milhões pelo filme “Debi e Lóide”.

Essa história é super interessante por alguns pontos. Como ele mesmo diz, ele não fez o cheque e ficou sentando em casa assistindo a TV. Ele visualizava todo dia o sucesso que desejava, e seguia fazendo todo o possível pra materializar o seu sonho. Ele fazia todos os cursos que encontrava, buscava contatos, agentes, enviava seu material, ia pra audições, testes, fazia tudo a seu alcance. Tudo.

A maior críticas dos céticos, as pessoas que ouvem falar sobre visualizar seu sonho ou fazer afirmações diárias e sentem uma repulsa imediata, é sobre a passividade. Sobre as pessoas que acreditam que visualizar, rezar, pedir ao universo é tudo o que precisam fazer, e depois podem apenas sentar e esperar seus desejos caírem no colo como se tivessem a lâmpada do Aladin. O ceticismo tem seu valor e seu motivo de existir. Ninguém deve acreditar em algo apenas porque outro diz ser verdade, ou porque é mais agradável acreditar. Devemos coletar fatos e experiências e usar a lógica pra chegar às conclusões, sem pender a um dos extremos, o estado de nem querer ouvir sobre um assunto, tendo a certeza de que é pura baboseira, tampouco aceitando sem filtro tudo que é dito por ser coerente com o que se quer acreditar.

Acredito que as visualizações, afirmações e outros rituais são formas de comunicar algo pra nós mesmos, de definir nossas prioridades com o nosso subconsciente. Que, especialmente no ocidente, damos uma importância excessiva à mente racional e deixamos o subconsciente de lado. Acreditamos que somos nossa mente racional, somos o comandante e controlamos tudo por meio da força de vontade. Existe verdade e valor ai, de fato temos um bom material sobre como alcançar nossas metas a partir dessa premissa. Definimos as metas, com objetivo, valor e prazo, montamos planos de ação, desdobramos as atividades e definimos indicadores e forma de acompanhar o progresso. Essas ferramentas e processos são de grande utilidade, mas são uma solução incompleta. Enquanto deixarmos o subconsciente fora da equação, não estaremos com algo que realmente nos faça alcançar os objetivos.

Se fosse só seguir o consciente, toda dieta daria certo. Bastaria definir o que comer, o que não comer, uma rotina de exercícios e, pronto, em poucas semanas já se veriam os resultados. Mas as pessoas se sabotam, elas fogem da dieta, fazem num momento o oposto do que definiram lá atrás. Porque? Porque não somos apenas nossa mente racional, que decide que quer ter um corpo saudável e bonito e acabou. A verdade é mais perto do que mostra o filme da pixar “Inside Out”. Temos uma série de crenças e objetivos, muitas vezes conflitantes. Quero economizar dinheiro e ter a segurança de uma reserva financeira, ao mesmo tempo que quero viajar e aproveitar a vida gastando o que tenho. Quero estar saudável e sarado e ao mesmo tempo quero o prazer do sorvete, da pizza com os amigos. Quero aprofundar meu relacionamento e ser fiel e também quero dar vazão aos desejos que surgem com a gatinha que flertou comigo.

Todos esses conflitos existem no nosso subconsciente, e de vez em quando percebemos um ou outro, mas eles existem o tempo todo. O subconsciente tem um poder incrível. Seu coração está batendo, seu sistema imunológico combatendo corpos estranhos, milhões de funções acontecendo de forma automática. O subconsciente controla isso tudo. E muito mais, estamos ainda apenas arranhando o assunto sobre descobrir o poder do subconsciente.

O efeito placebo mostra um lado incrível do subconsciente em ação. Ao acreditar estar tomando um remédio, puramente pela conversa com um médico de jaleco branco dizendo que esse é um comprimido super potente, as pessoas tem reações físicas reais. Não estou falando apenas de melhorar uma dor de cabeça, mas de reações físicas intensas, bolhas na pele, manchas, rápida cicatrização, estancamento de sangramentos e muito mais. É um efeito real absolutamente reconhecido pela ciência. Se apenas acreditar em algo pode ter esse efeito, o que mais nossa crença influencia?

Um estudo feito numa universidade dos EUA pediu que os participantes contassem o número de imagens num jornal em um tempo curto. Quem acertasse, iria ganhar 100 dollares. Sem que eles soubessem, como em muitos experimentos, havia outra coisa sendo testada além da atenção de cada um. Em uma pequena caixa de texto em uma das páginas havia a seguinte frase “se você leu isso aqui, pare o experimento e receba 150 dollares”.

Cada participante havia preenchido um questionário com informações básicas, como nome, idade, etc, mas uma aparentemente inocente pergunta dentre outras foi “Você se considera uma pessoa sortuda?”. No fim do experimento, os pesquisadores descobriram algo incrível. Separando os resultados em grupos, mais de 80% do pessoal que se considerava sortudo percebeu o texto e ganhou os $150. Do grupo que não se considerava sortudo, menos de 15% percebeu o texto. O que isso significa?

Nosso subconsciente funciona como um filtro, pois o volume de informações que nos chega a cada instante é infinitamente maior do que nosso consciente consegue lidar. São milhares de imagens, sons, cheiros, sensações, demais pra lidar a cada instante, então precisamos desse filtro. Mas o subconsciente não sabe por si só o que é bom ou ruim, ele apenas segue suas próprias crenças, as regras que você criou, sabendo ou não.

Então, no estudo, a visão periférica de todos os participantes captou o texto, todos os subconsciente perceberam. Mas apenas alguns passaram essa informação pro consciente, pois apenas pra alguns isso fazia sentido. Não existe pessoa sortuda ou não, mas existe pessoa que se considera sortuda ou não, e isso faz toda a diferença. O subconsciente ao perceber algo assim, manda essa informação pra pessoa, que do seu ponto de vista apenas nota a caixinha com o texto no jornal, fica feliz com a surpresa e alimenta imediatamente a crença na própria sorte, reforçando aquela certeza de ser sortuda no subconsciente. Já os que não se consideram sortudos, o subconsciente não manda essa informação, junto com tantas outras coisas que ele considera não-importantes.

Por exemplo, é muito fácil ouvir o próprio nome sendo falado num local barulhento. Porque? Pois o seu subconsciente foi treinado a reconhecer esse nome, ele associa a essa palavra um valor especial, e você percebe isso como o nome chegando com clareza no meio do burburinho. Seria impossível prestar atenção a dezenas de conversas que acontecem ao mesmo tempo, por isso apenas percebemos esses sons misturados, o burburinho. Se focarmos nossa atenção, até conseguimos ouvir alguma conversa, mas não mais de uma ao mesmo tempo. O subconsciente filtra todos esses sons, até ouvir um que chama a atenção, que é passado ao consciente. Quando não, ouvimos um barulho sem sentido, o burburinho, que é o barulho sem foco, tudo sendo filtrado.

E tem que ser assim. Imagina se o seu subconsciente não filtrasse e deixasse tudo passar. Toda informação o tempo todo, a roupa de cada pessoa, o tom de voz, o que é falado a cada instante, a placa de cada carro, a marca de cada ítem, todos os cheiros e textos e tudo, seria impossível viver, uma tsunami de informação a cada segundo. Só conseguimos funcionar com esses filtros reduzindo muito, muito mesmo o que nos chega ao consciente.

Essas são apenas algumas das formas que o subconsciente controla nossas vidas. Por isso que se você tem um objetivo que não é alinhado com seu subconsciente, a chance de você se sabotar em algum momento é enorme. Você diz que quer ficar rico, faz seus planos, está crescendo no trabalho, leu o livro e seguiu o planejamento, mas no dia de uma grande reunião de venda você acorda atrasado, se embola ao falar com investidores, esquece de mencionar algo, se mostra um pouco menos simpático que o normal. Azar? Não era o seu dia? É o subconsciente.

Se você tem alguma regra contra ficar rico, por exemplo, se cresceu numa família que ao passar por uma mansão falava mal dos ricaços, essas pessoas egoístas, que só dá pra ficar rico sendo desonesto, que esses milionários sempre são assim ou assado, você irá se sabotar. Repare que não foi uma regra consciente, em nenhum momento alguém chegou e disse que ser rico era errado, mas você foi observando diversas interações, o tom de voz de desprezo que pessoas que você admirava usavam, e essa regra foi se criando. O subconsciente funciona assim, ele aprende observando padrões, observa jeitos, posturas e tons de voz. Especialmente de pessoas que você admira, respeita. Ele pode criar um entendimento que “Ser rico é errado, ricos são egoístas e desonestos” ou algo assim.

E por outro lado, você teve outras experiências que te mostraram que ser rico é ótimo e o que você deseja. Sua mente racional acredita mesmo nisso. Mas é um desejo incompleto. No fundo, ou seja, no subconsciente, existe uma parte de você que não aceita isso, que luta contra. E isso se mostra na famosa auto-sabotagem. Pois você ao mesmo tempo quer e não quer algo. Como isso é possível? Pois você não é uma coisa única. Parte sua quer ficar rico, e parte despreza essa identidade e quer fugir disso.

O seu subconsciente não tem a necessidade de ser coerente o tempo todo. Ele vive com regras incoerentes, como “quero ser rico” e “não quero ser rico”. E por isso temos dúvidas, voltamos atrás, decidimos fazer dieta e em uma semana estamos comendo o que prometemos não comer na outra.

Josh Waitzkin foi um campeão de xadrez que depois virou um artista marcial. Certo dia ele quebrou o braço treinando, e os médicos disseram que ele teria que deixar o braço engessado por 4 meses. Logo depois desse período ele tinha um campeonato de luta, e ele sabia que com o braço imobilizado por tanto tempo ele iria perder músculo, e com o atrofiamento seria impossível competir. Ele resolveu testar uma forma bem particular de visualização. Todo dia ele ia se exercitar, ele malhava normalmente o braço esquerdo, que estava bom, e depois ficava visualizando o mesmo exercício com o braço direito, que estava imobilizado. Ele não mexia o braço, apenas ficava parado imaginando cada exercício, visualizando mesmo. Fez isso por 4 meses, todos os dias, e quando tirou o gesso não só o braço estava 100% recuperado, mas os músculos não tinham atrofiado. E assim ele pode participar do campeonato, e chegou na final. Ele conta em mais detalhes esse caso e outros numa entrevista no podcast do Tim Ferriss.

Outra entrevista maravilhosa é a com o Scott Adams. Ele é o cartunista criador do personagem Dilbert. A famosa tirinha de jornal deve sua existência a uma meta subconsciente. Ele conta como fez um curso sobre hipnose e o poder das afirmações diárias, e apesar de estar completamente cético, ele resolveu testar, nem que fosse apenas pra poder voltar lá e falar que era tudo besteira. O formato era de escrever 15 vezes a mesma afirmação sobre o seu desejo, todo dia. (“Eu, Scott Adams, sou um astronauta”, por exemplo).

Ele começou testando com o desejo de sair com uma mulher específica do seu trabalho que ele achava ser muito fora da sua liga. Quando conseguiu, naturalmente achou que foi uma coincidência, que ele devia estar com uma imagem errada de si mesmo, e etc. Bom, ele seguiu testando, e todas as afirmações se tornaram verdade. Ele tirou exatamente a nota que imaginou no vestibular (SAT). Ele visualizava a carta com a nota, que ele conhecia por já ter recebido antes de outros anos, visualizava exatamente a nota 94, que é o que ele sabia ser suficiente pra passar pra faculdade que ele queria. Por mais que em todos os simulados e demais provas ele nunca tivesse tirado mais que 80, ele se manteve fazendo as afirmações, e estudando e tudo o mais. Quando a carta chegou com a nota, ele ficou pasmo. 94. Cravado. Ele ficou horas olhando e olhando de novo até acreditar.

Ele seguiu com outros experimentos e num deles resolveu fazer algo mais ousado, e escreveu afirmações sobre ser um cartunista de sucesso. Escrevia todo dia 15 vezes a frase “Eu, Scott Adams, vou me tornar um cartunista famoso”.  Notem que esse mercado é extremamente difícil, poucas tirinhas dão certo. É difícil ser aceito, é difícil até ter o seu material lido por alguém. Tão difícil que o Dilbert foi o maior sucesso num período de 20 anos. Ele fez afirmações sobre ter seu livro como bestseller número 1, e mesmo nunca tendo escrito nada antes, e funcionou, aconteceu.

Ele mesmo diz que não sabe como a coisa funciona, se é o viés do sobrevivente, ou seja, que quem tem a dedicação pra se manter escrevendo as afirmações até a coisa acontecer são as pessoas que estão dispostas a fazer o necessário, e logo as que conseguem. Ele diz que o papel no qual as afirmações são feitas, o número de vezes, que nada disso realmente importa. Ele conta que foi isso que ele fez e foi isso que aconteceu, tem alguns outros exemplos, mas no fim a ideia é a mesma.

Eu mesmo tenho alguns testes que fiz. A primeira vez que resolvi experimentar as afirmações eu estava querendo comprar um computador novo, e o Imac era bem caro, não lembro o preço, algo como 7 mil reais. E eu decidi que iria comprar um por 2 mil. Não sei de onde tirei esse número, acho que era o quanto eu poderia pagar. Me visualizei com o computador, fiz afirmações, e de fato um dia me veio a ideia de olhar no mercadolivre. Eu nunca tinha comprado nada nesse site, sabia que existia, mas nunca tinha entrado. Entrei, fiz uma busca, e de fato tinham algumas opções nesse preço. A maioria usado, com defeito e etc, mas um dizia ser novo, com nota fiscal, exatamente o que eu queria. Como era em SP, eu lembrei na hora que meu pai estava lá, a trabalho, e mandei uma mensagem pra ele, acho que mandei o link, não lembro ao certo, mas era apenas pra ele me dizer se achava que seria uma boa ideia ou não. Foi um sms, então eu pretendia ligar mais tarde pra explicar.

Antes disso ele me liga dizendo que comprou o computador. Quando eu mandei a mensagem ele estava almoçando e o endereço era do lado de onde ele estava. Ele foi lá, viu que era uma empresa que estava fechando, eles tinham encomendado os computadores mas faliram e estavam vendendo tudo, tipo um leilão, e esse tinha nota fiscal e tudo certinho, e meu pai resolveu comprar. Ele estar na mesma rua e outras coisas devem ter sido pura coincidência. Mas fato foi que eu consegui o computador que queria exatamente no preço que desejei.

Como funciona exatamente, eu não sei. Não sei se existe alguma coisa oculta por trás ou se é 100% o subconsciente agindo por meio de processos que eventualmente iremos compreender completamente. O fato é que funciona.

Nós já temos a maior parte das informações pra conseguir o que desejamos em nós, e o que falta é estar alinhado. Como o Scott, por mais que a média dele fosse 70 nas provas, como qualquer pessoa, ele tinha o potencial de uma nota melhor. Você tem as informações, a capacidade de focar mais, você sabe que consegue mais, mas em geral funcionamos a 50, 60% do nosso potencial, ou qualquer número bem baixo. Estamos desalinhados, fazendo mini-sabotagens pois acreditamos que é quem somos. Assim como as pessoas que se acreditam sortudas ou não, cada um de nós tem uma série de crenças sobre a nossa identidade. Quão inteligente somos, quão habilidosos, amigáveis, engraçados, talentosos e etc. Assim, nosso subconsciente nos ajuda a manter a homeostasia. Essa é a palavra técnica para equilíbrio.

Por exemplo, a sua temperatura tem que se manter constante, então se está frio o subconsciente faz você se mexer pra se esquentar, treme, faz o que for, e se estiver calor ele libera suor e etc. Ele garante que você faça o que for preciso pra ficar no patamar em que sempre esteve. O mesmo acontece com outras coisas.

No livro “O Segredo da Mente Milionária” o autor fala como nós temos um termostato do dinheiro, e que as pessoas se sabotam e se ajudam de forma a ficar sempre no mesmo nível. Um caso interessante foi durante a criação do estado de Israel. O governo ajudou dois grupos de refugiados a irem pra lá. Um grupo de judeus da Rússia (na época União Soviética) e outro da Etiópia. Ambos chegaram praticamente apenas com a roupa do corpo, sem contatos, sem recursos. Em 2 anos, a maior parte dos russos estava num nível financeiro similar ao que tinham na sua terra natal. Eles ficaram mal por um tempo, pegaram diversos trabalhos braçais e foram lentamente recriando suas vidas. Já os da Etiópia, que eram paupérrimos antes de irem pra Israel, mesmo com toda a ajuda do governo continuaram no mesmo patamar de antes. Grupos nas mesmas condições e com os mesmo recursos e dificuldades, mas com mindsets bem diferentes.

Por isso é difícil uma pessoa sair da pobreza, além das diversas barreiras sociais e de preconceitos, existe uma barreira interna. É por isso que a maior parte das pessoas que ganha na mega sena retorna pro mesmo patamar financeiro depois de alguns anos. Ela se sabota, gasta mal, empresta pra quem sabe que não vai pagar, etc.

Como comecei esse texto, acredito firmemente que só alcançamos de fato um objetivo quando essa meta está alinhada com o nosso subconsciente. E existem várias formas disso acontecer. A pessoa não precisa necessariamente visualizar ou fazer afirmações. Muita gente faz isso naturalmente. Mas se observar o processo das pessoas que mudaram drasticamente de vida, perceberá que existe um padrão. Uma mudança significativa no mindset, nos padrões de pensamento, no foco, na forma de falar e agir. Isso mostra uma mudança completa, consciente e subconsciente alinhados com o mesmo objetivo.

A visualização diária e as afirmações são rituais que nos ajudam a manter o foco do que desejamos. É importante fazer isso com emoção, realmente levar a sério esse momento. E mais que isso, ser coerente, correr atrás. Se você pede algo e aparece um caminho, você tem a obrigação de seguir. Se você deseja ficar rico investindo e esbarra com um livro sobre o assunto, você tem que ler. Se ouve um trecho de conversa sobre um podcast, tem que assistir, tem que buscar e dar seguimento, não pode quebrar o fluxo, pedir e quando a porta se abre ficar com preguiça de seguir. O ritual serve não pra colocar energias ocultas em movimento, mas pra colocar em movimento a energia da única pessoa que importa na direção certa, a sua, a de quem deseja.

A pergunta que sempre me fazem quando falo sobre isso é “e porque você não tem fama e fortuna então? Não é só desejar?”. Primeiro, eu realmente nunca desejei fama e fortuna. Honestamente. Antes disso, acho importante não confundir o mensageiro com a mensagem, por isso foquei nas histórias de outras pessoas e não nas minhas. Dito isso, eu testei várias vezes e em todas funcionou, 100%. Consegui 2 vezes empregos com o salário exato que eu desejei (em períodos de crise no mercado), consegui encontros com as mulheres que quis, ganhei uma viagem pra Europa e diversas outras coisas. Porquê eu não desejei mais? Acho que cada um tem seu tempo. Eu só começo o processo quando sei que realmente quero aquilo, que estou disposto a fazer o que for necessário. Mesmo as afirmações diárias, pode parecer pouco, mas eu levo bem a sério, é um foco todo dia, não faço de forma leviana. E vou seguindo o meu ritmo, buscando me ouvir e fazer as coisas conforme o interesse surge. Não é um atalho. Se eu quiser ficar forte sei que vou ter que ir na academia e malhar pra valer. A afirmação ajuda a manter o foco, e sim, tem umas coincidência bem bizarras que acontecem, mas no final, você tem que estar disposto a trilhar o caminho.  

Outra pergunta comum é sobre os detalhes. Como é que tem que fazer as afirmações? Você faz no mesmo horário, tem que fazer algum ritual, acender um incenso, tomar um banho? Eu não sei. Eu gosto de fazer de manhã quando acordo, mas sigo a linha do Scott. Acredito que o ritual tenha seu valor, mas seja menos importante. O papel que você escreve não importa, pode ser de caneta ou lápis, não precisa guardar o papel e acredito que possa ser digital. Eu sempre fiz à mão, com caneta e em papéis variados, o que tivesse na minha mesa. As visualizações eu sento, respiro fundo e visualizo, não leva mais que 2 minutos. O indicador que uso é o sentimento, se a emoção veio forte, então já posso parar.

Agora, cada um segue como achar mais confortável. Se pra você um ritual maior é importante, faça. Se prefere não fazer, não faça. O principal é a dedicação. Se você começa e abandona no meio, esquece, é um sinal de que não está fazendo direito. Mais uma vez, não que você esteja quebrando um ciclo sagrado, nada disso, mas se você esquece de um dia pro outro é um sinal de que não está fazendo a afirmação com emoção, com sentimento, com foco, ou que o desejo não te motiva tanto assim. Pois a gente não esquece o que é realmente importante, o que queremos mesmo.

Enfim, quis compartilhar aqui algumas experiências que tive e conclusões que cheguei ao fim de alguns anos de fascínio e pesquisa sobre o assunto. Não presumo saber como a coisa funciona, apresentei minha teoria de que é por meio do subconsciente, mas sei que ainda é bem incompleta. Usei a palavra subconsciente pra designar também o inconsciente, pra simplificar. Espero que seja útil, e que estimule a experimentação. No fim, cada um aprende quando coloca a coisa em prática, em movimento. É daí que vêm os resultados, da ação. Apenas um passo é um passo.

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Alguns livros que foram referências pra essa pesquisa: “O Poder da Mente Subconsciente”, de Joseph Murray, “Subliminal” do Leonard Mlodinow, “Mindset” da Carol Dweck, e “The Magic of Thinking Big” do David J. Schwartz.

O podcast com as entrevistas com o Josh e o Scott é o “The Tim Ferriss Show”, apenas disponível em inglês. 

 

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Jogo Sujo e Jogo Limpo – na capoeira, na política e na vida.

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Na capoeira, como em qualquer luta, existe a possibilidade de um jogo sujo. A luta tem regras, e o seu oponente pode burlar algumas delas pra tirar uma vantagem. Nesse caso você tem 2 opções: Sair por cima ou sair por baixo.

Sair por baixo é descer ao nível do outro, é resolver você também burlar as regras pra estar em pé de igualdade e tentar assim revidar. Nesse caso você já perdeu. Não a luta em si, mas você mesmo. Aceitou quebrar os seus valores e jogar sujo, se permitiu dominar no jogo mental e abandonou seus princípios pra ter alguma vantagem. Usou a raiva, um poderoso combustível que dá uma enorme energia no momento, mas corrói o motor e consome o veículo que ela mesmo impulsiona.

Sair por cima é vencer o outro dentro das regras. É ser ainda mais correto e elegante, encontrar jeitos de lutar mais, com mais foco e criatividade e vencer respeitando ainda mais os valores da luta. Essa postura é mais difícil, e nem sempre é possível no curto prazo. Se o oponente é mais forte e ainda tá disposto a jogar sujo, no momento eu vou segurar e me proteger como der, dentro das regras, posso até “perder” essa batalha, mas não a guerra. Pois a guerra aqui é um posicionamento moral. Quanto estou disposto a manter meus valores e quando vou descer frente a um obstáculo? Se na primeira dificuldade eu abandono o que acredito e pego um atalho, eu perdi.

Assim a solução é treinar mais, focar nos meus pontos fortes e fracos e me tornar o capoeirista que vence o outro mesmo se ele jogar sujo. Eu não desço ao nível dele, eu mostro pelo meu exemplo que dá pra ser melhor que isso, que ele mesmo pode subir e jogar comigo um jogo bonito e honesto, no jogo de dentro e no jogo de fora, nas habilidades dos movimentos e na mentalidade pra vida.

Atualmente a maioria dos jogos de capoeira são jogos e não lutas, não existe um vencedor e um perdedor, mas acontece em alguns momentos e como exemplo serve bem pra ilustrar o ponto.

Em quase tudo o que fazemos temos a possibilidade de tirar vantagens se toparmos descer de nível. É uma bonificação instantânea que cobra o seu preço depois, com juros. Como usar um cartão de crédito moral. Você mente agora e a sua esposa não vai saber que você transou com outra, assim você, nesse momento, aproveita o que na ótica míope seria o melhor dos mundos. Tem duas mulheres quando a sua só tem você (até onde você sabe), e na visão machista clássica você se deu bem, ta comendo todo mundo e sem a consequência.

Só que não né. Não existe imunidade à consequência. Anestesiado com a euforia do momento você pode não sentir, mas com o tempo ela chega, e chega forte. A culpa de trair vem aos poucos, mas mais que isso, é a impossibilidade de viver uma relação de verdade vem a ser a maior punição. A partir desse momento pra sempre existe uma parte sua fechada a essa pessoa, e isso se mostra querendo ou não, esse distanciamento vai acontecer de forma consciente e inconsciente em outros locais e você nunca vai viver um amor de verdade. Vai se tornando esses caras amargurados com a vida, que fazem piadas sobre a mulher do vizinho, sobre como mulher é ciumenta/consumista/neurótica e etc pra extravasar a insatisfação que (mal) esconde a profunda dor interna.

Descer de nível é fácil, é que nem comprar algo com um cartão sem limites. Você dá o cartão e o item é seu, na hora, fácil fácil. Mas a conta chega depois, e os credores são persistentes e indomáveis.

Hoje estamos em época de eleição, uma eleição marcada pela rejeição. Os dois lados lutam contra o outro, mais do que a favor do seu. Se o outro lado desce de nível, o que você faz? Se o outro lado usa fake news, mente, agride física ou verbalmente, o que você faz?
Se o outro lado te parece intolerante, o que você faz?

O mais fácil é descer de nível e jogar sujo também. É criar uma caricatura perversa e debochada do outro, criar apelidos e reforçar a imagem do outro como um imbecil, inculto, ignorante e incapaz de reconhecer a verdade que só você (e seu grupo) ó tão sábio consegue ver.

É usar a foto mais ridícula do outro candidato, os piores exemplos do que ele falou fora de contexto, o mesmo que você acha manipulação quando fazem com o seu candidato. É ter dois pesos e duas medidas. Pra você é óbvio que não é assim, mas ai que mora o problema, né. É combater intolerância com mais intolerância, sendo intolerante com quem o é com você.

Jogar limpo é subir de nível. É ouvir em primeiro lugar, com calma e respeito, empatia mesmo se possível. É contra argumentar o ponto central no discurso do outro, de forma educada e clara, sem falácias, sem exageros ou deboches e alfinetadas.

É partir da premissa que ninguém ta de sacanagem, que ninguém vota pra foder o país, que todo mundo quer educação, segurança, um país melhor. Que se o outro tem uma posição radicalmente oposta a sua ele deve ter os motivos dele, e que ninguém muda de ideia com o dedo na cara. Que acusar, debochar, demonizar é criar mais distância, que antagonizar é a pior postura possível.

“Ah, mas o outro lado é (X), e pra mim é impossível conversar com alguém que seja a favor de (Y)”. O outro lado se vê assim? Ele concorda com a sua opinião? Se não, é um roubo de identidade. É ser paternalista e arrogante e nem considerar a possibilidade de estar errado (ou enganado), de que alguém possa ter uma percepção da realidade diferente da sua.

Em questões polêmicas, políticas, que tocam nos nossos valores centrais, é natural nos sentirmos atacados no nosso âmago. E a reação instintiva é lutar contra, é sentir raiva e querer usar esse potente combustível. É querer pegar o caminho mais rápido, o atalho, que é descer de nível e bater de frente, fogo contra fogo. Pra mim esse é o maior erro. É jogar sujo, e gastar mais do que se pode no cartão de crédito.

Jogar limpo é mais difícil, mais trabalhoso, pois nos força a subir de nível. Isso é lento, é fora da zona de conforto. Eu tenho que ler mais, estudar mais, me controlar mais e gastar mais energia. Se uma postura é usar um crédito, essa é fazer um investimento. Eu fico sem o que eu queria agora, mas lá na frente os rendimentos chegam. Creio ser esse o melhor tipo de investimento possível, a melhor postura, na capoeira, na política e na vida.
Axé!

(ps. Na capoeira, “axé” representa força, ânimo e energia. É usado como saudação de chegada ou saída, e como uma forma de desejar energia ao próximo).

Quanto vale o seu político?

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Eu acho que todo candidato devia dizer o quanto estar disposto a trocar por cada ítem da sua agenda política. Por exemplo, ”estou disposto a pagar até 4 cargos de indicação e 3 votos em outras pautas pra aprovar essa lei (X)”.

Existe um mercado paralelo à economia clássica, um mercado exclusivo para políticos (dos quais participam empreiteiros, lobistas e outros) e é esse mercado que define o rumo de um país.

A definição de mercado é um local no qual agentes realizam a troca de bens por uma unidade monetária ou por outros bens. Quanto mais exclusivo um bem, quanto menor a sua oferta, maior a sua demanda. Políticos possuem bens extremamente valiosos a trocar: seus votos, cargos de indicação e comissionados, e influência.

Chamamos de politicagem o ato de realizar essas trocas. Quão mais alto o cargo político, mais poder – valor – ele tem. Um vereador tem a oferecer a esse mercado votos sobre as leis do município, sobre a fiscalização do executivo e cargos de indicação. No caso do presidente os cargos comissionados são mais valiosos, incluem ministérios, altas secretarias e até o supremo tribunal federal, assim como o poder de veto e sanção das leis.

Quem participa desse mercado?

Quem pode.

Políticos participam dos dois lados, da oferta e demanda. As vezes um quer realizar sua pauta de campanha e oferta seus bens (votos futuros e cargos) em troca de votos e influência nesse momento. As empresas participam por meio dos lobistas, as pessoas cujo emprego é influenciar políticos sobre as suas pautas. No Brasil esse cargo (diferente dos EUA por exemplo) é ilegal e só existe informalmente. A grande população participa por meio de manifestações e atos, que naturalmente ocorrem com menor frequência (e nas eleições ao escolher os políticos). A mídia tem seu papel também como influenciadora e vigia. Mas a mídia e a população são grandes e lentas, só conseguem se manifestar sobre um número bem reduzido de votações. O dia-a-dia da política é basicamente não-supervisionado (ou supervisionado por quem não pode fazer nada). Os grandes players desse mercado são os próprios políticos e as empresas – que aqui coloquei na figura representativa do lobista.

A maior parte dos políticos tem pautas de estimação, aquelas sobre as quais eles têm uma posição muito firme. Um político religioso, da bancada da bíblia, nunca vai votar a favor do aborto, assim como um político da bancada do agronegócio não vota a favor da reforma agrária. Tirando essas questões às quais eles são diametralmente opostos, todo o resto está à venda, é negociável.

Qual a posição do político religioso sobre a taxa de importação de maquinário hospitalar na região sudeste? Depende. As questões não são preto no branco, sim ou não. Uma ação ou projeto de lei para a saúde quase nunca é claramente melhor ou pior. Existem grandes decisões do tipo quanto dinheiro será destinado à saúde. Ok. Mas a maior parte fica nos detalhes, nos pormenores. E ai é complicado, complexo, os textos são longos, chatos, as discussões então, nem se fala.

A praxe é os políticos nem irem ao parlamento, eles nem aparecem pra discutir e ouvir sobre os projetos de lei. Muitos nem no seu gabinete estão. Porque? Porque não precisa. Não existe penalização por esse tipo de descaso. Um assessor vai ler e resumir o que for importante (caso apareça um repórter), ou o voto já ta decidido, já foi comprado/negociado, então pra que perder tempo? (existem votações importantes e populares, como o impeachment, por exemplo. Nesses dias todos comparecem. Mas é a excessão e não a regra)

Existem casos cômicos como quando o CQC enviou um projeto de lei sobre a merenda escolar, e no meio das várias páginas havia a proposta de inclusão da cachaça para as crianças. Ao serem questionados, quase todos os parlamentares comentaram terem lido e serem a favor do projeto. Eles obviamente só haviam lido o título, e ficaram sem graça ao descobrir a verdade. Mas só deu nisso, uma risada, uma piada, um breve momento de constrangimento.

Como em qualquer mercado, os valores flutuam. Os lobistas, os manifestantes, a mídia e outros agentes externos funcionam como ferramentas de mercado, aumentando ou diminuindo os interesses em cada área.

No caso mais simples, de menor valor, um cargo de indicação é apenas um emprego com excelente salário por pelo menos 4 anos a ser ofertado, e nos mais complexos vc tem um “pau mandado” numa posição de poder, definindo quais empresas ou pessoas recebem concessões, que processos furam a fila pra ser julgados, etc.

Tudo da esfera pública, toda distribuição de recursos (da carteira de motorista pelo detran a uma licença de operação de uma empresa em área de preservação ambiental pelo Ibama) passa pelos funcionários públicos. A maioria chegou na posição que está por meio de um concurso público. Mas existe um grande número que são indicados diretamente, em geral, os cargos mais altos e influentes. Quem controla essas pessoas controla, em alguma medida, esses recursos. Existem cargos de indicação que a pessoa tem que escolher alguém concursado, o político escolhe algum funcionário daquele órgão pra ser o chefe, por exemplo. E existem cargos sem essa necessidade, o funcionário não precisa nem ser da área a qual vai chefiar.

Segundo o Ministério do Planejamento, há 22 mil ocupantes de cargos DAS (Direção de Assessoramento Superior) no governo. A elite da categoria são os 1.050 funcionários DAS-5 (Secretários Nacionais dos Ministérios, como Secretário da Receita Federal ou Secretário do Tesouro Nacional), com salário de R$ 20.266,73 mensais, e os 217 DAS-6, que ganham R$ 22.801,67. Há ainda 53 cargos de natureza especial (Secretários Especiais da Presidência, comandantes das Forças Armadas, secretários gerais da Presidência, e cargos de direção das agências reguladoras), com salário mensal de R$ 22.801,67. Os níveis mais “baixos” DAS 1, 2 e 3 compõem a chefia das áreas operacionais ou assessorias técnicas dos órgãos e entidades da administração. Todos cargos de indicação.

Em geral os salários estão correlacionados ao poder do cargo. O poder de indicar pessoas à esses cargos, junto com o voto dos políticos, são o seu maior bem, a ser liquidado ao longo do mandato de 4 anos, podendo gerar dividendos para uma vida inteira.

Existe um mercado negro dentro desse mercado negro. Além do mercado de influência, existe a corrupção de fato. Aqui entra o bom e velho dinheiro, de malas entregues à meia noite e colocado em cuecas. A diferença é que essa corrupção é inegavelmente ilegal. Acontece, e muito, mas a questão é que o mercado de trocas de votos e cargos entra numa zona cinza, não apenas legal, mas moralmente. Muito político ou funcionário público não vê isso como algo definitivamente “errado”. Se não é indubitavelmente errado e vc quer muito fazer, vc vai fazer.

A politicagem e troca de favores funciona como uma droga de entrada à drogas mais pesadas. Um grande número dos usuários nunca faz esse salto, não vão pra corrupção hardcore, não aceitam dinheiro pelos seus serviços, mas isso não é menos danoso à sociedade do que aceitar ajudar um amigo, familiar ou alguém por outro motivo e tirar vantagem da sua posição. Diferente das drogas de entrada, os usuários da troca de favor podem ser tão danosos à sociedade quanto os abertamente corruptos. Os que seguem até o fim na linha da corrupção criam a casta mais baixa e perigosa, montam esquemas, redes criminosas que “operam de forma similar ao tráfico de drogas e às redes terroristas.”

Só em 2013, um relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostrou que dos 3.742 processos por improbidade administrativa que ingressaram na Justiça em 2012, apenas 1.074 foram julgados. Além disto, em dois anos — 2011 a 2012 —, 2,9 mil ações por corrupção e lavagem de dinheiro prescreveram.

Aqui o nome do jogo é impunidade.

A politicagem existe no mundo inteiro e é tão antiga quanto a própria política (ou mais) pois é da natureza humana. Enquanto um sistema depender da cooperação de pessoas com objetivos distintos e grandes poderes, o incentivo a troca de influências vai existir.

A externalidade, quem paga a conta, é a sociedade como um todo. Uma pessoa incompetente ou privilegiando a distribuição dos recursos sob a sua tutela de forma tendenciosa é péssimo para todos, exceto aos privilegiados, o que estão dentro do ‘esquema’.

Não vou propor uma solução pois acho que ela não existe. Pode-se dizer os clichês clássicos, mas são tão gerais e distantes que é o mesmo que nada. Tal qual os alcoólicos anônimos, creio que o primeiro passo seja admitir o problema. E admitir o problema é admitir que não sabemos a solução. Não é só que não conseguimos implementar, é que o pouco que temos é simplista, incompleto, irreal e impraticável. Se a solução não se adequa a realidade, ela não é uma solução. Uma parte considerável do problema são as pessoas que acham que sabem a solução.

Dizem que perguntaram ao Einstein: O que vc faria se tivesse 1 hora pra resolver um problema, e sua vida dependesse disso? – ‘Eu gastaria 55 minutos descobrindo a pergunta.’

Na minha humilde opinião, nós não entendemos o problema e estamos correndo atrás do rabo entre falsos diagnósticos e falsa soluções.

“Não é o que vc não sabe que te mata, é o que vc sabe com certeza, mas que não é assim”.

Sobre Inovações e Sucesso

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Sempre me interessei por estudar empresas, ler sobre suas histórias, o contexto, os fundadores e tudo o mais. Com o tempo fui percebendo algo de curioso. Toda empresa de sucesso foi inovadora, e quão maior o sucesso de uma empresa, mais ela é analisada e estudada, e mais e mais especialistas explicam as inovações de sucesso a partir do seu ponto de vista. O expert em marketing contextualiza e apresenta o modelo inovador de comunicação da empresa, o designer fala sobre sobre como o diferencial foi o processo de criação do produto, o engenheiro explica que essa solução técnica foi única e um marco na eficiência e superioridade daquilo. Todos dizem que a inovação foi na sua área. E todos estão certos.

Podem haver excessões, é claro, mas em geral cada um desses especialistas percebeu a inovação em uma parte, ou melhor, percebeu parte da inovação. Mas é incomum uma mesma pessoa conseguir observar o todo. Nem mesmo o fundador, o CEO, ou diretor da empresa. Pois uma empresa de sucesso tem o seu grande sucesso construído em cima de milhares de pequenos sucessos. E cada um chama atenção ou aparece pra quem compreende e estuda aquela área. E como o ser humano é uma máquina de buscar explicações e encontrar padrões, todos justificam o sucesso da empresa à guisa daquela parte da inovação que conseguiram analisar.

Por exemplo, a Airbnb é hoje uma gigante. Nasceu como uma pequena startup e revolucionou a indústria do turismo. Lucro, faturamento, valor da ação, qualquer que seja o indicador analisado, a empresa é um sucesso sem igual. E naturalmente atraiu olhares e estudos, especialistas que buscaram entender como esse desenvolvimento espetacular aconteceu.

Num livro, um autor explica que a criação de uma plataforma foi a base de tudo. Que permitir que os usuários avaliassem uns aos outros, o hóspede avaliando o dono da casa e vice versa gerou um padrão de confiança forte. Isso gera um ciclo de feedback positivo, cada novo usuário pode tanto receber pessoas na sua casa quanto ficar na de outros, e um lado da experiência alimenta o outro, fazendo a coisa crescer exponencialmente.

Já o fundador da empresa conta em uma palestra que o segredo foi o cuidado com os detalhes no começo, fazer ações que não escalam. Ele ia pessoalmente na casa dos primeiros usuários e se oferecia pra tirar fotos profissionais do apartamento. Assim ele tinham um portfólio melhor no site e a valiosa oportunidade de entrevistar os clientes e entender a experiência e dificuldades deles. Com isso, fez as mudanças necessárias e pode tomar as decisões que geravam mais valor ao usuário. Essa atenção e dedicação são, na visão dele, as bases do crescimento da empresa.

Um especialista escreveu um artigo sobre como o timing da empresa foi perfeito, que a sorte cumpriu o seu papel. O conceito da airbnb despontou em uma cidade lotada, prestes a receber um evento de grande porte e sem mais nenhuma vaga em hotéis. A demanda reprimida faz a novidade da opção “esquisita” ou “diferente” de alugar um espaço na casa de um estranho parecer mais convidativa, e as experiências positivas pelas pessoas certas iniciaram o boca-a-boca que garantiu meses de publicidade grátis. O evento contava com palestrantes, intelectuais e empresários, uma representativa fatia do alto escalão da sociedade no que se refere à pessoas com contatos na mídia, blogs e etc, dando assim o empurrão inicial que a empresa usou pra decolar.

Cada explicação dessas é muito maior e mais completa, com uma análise do contexto e argumentos bem fundamentados sobre cada ponto defendido. O meu ponto é que todos estão corretos, e todos estão, também, incompletos. Cada um observou apenas parte do quadro geral, a parte que lhes compete.

A empresa foi um sucesso por causa de cada inovação. E ninguém viu ou percebeu todas, pois elas não vieram de uma pessoa ou uma área só. Uma empresa como essa é inovadora em tantas frentes, de tantas formas que é quase impossível perceber todas.

Somos parciais, é natural achar que a nossa contribuição foi a mais importante, que o que fizemos ou o que estudamos é que foi o grande tchan. É natural que o autor que estuda o papel da sorte, da importância do timing no lançamento da empresa explique o sucesso por essa perspectiva. Assim como é natural que o fundador destaque a importância das primeiras visitas. Ele estava lá, teve diversas conversas e reuniões, agiu em cima dessas informações, e conforme a empresa ia crescendo ele compreendia que isso tinha sido a coisa certa. E tinha mesmo. Mas ele diminui a importância que o designer da página teve, de como colocar esse botão maior ou menor, aquele no fundo, a decisão sobre a logo e a ordem das perguntas. Ele ouviu essas sugestões e aprovou, mas nunca percebeu o quão inovadores e diferenciadas elas foram. Até que hordas de designers virem mostrar a importância dessas ações. Que escolher perguntar o que a casa oferecia (wifi, cama na sala ou no quarto, máquina de lavar, café da manhã, etc) fez toda a diferença na expectativa das pessoas, evitou milhares de pequenos conflitos. Que deixar os usuários definirem o preço é um grande passo, absolutamente diferente do resto da indústria e mesmo revolucionário do ponto de vista do usuário. Foram literalmente milhares de pequenas inovações, não só no produto mas na própria gestão da empresa, na quantidade de funcionários, o formato das reuniões, possibilidades de parceria e muito mais.

A mesma quantidade de exemplos, ou mais, poderia ser dada da Uber. Qualquer um que estudar a sua história percebe em quantas frentes e de quantas formas diferentes a empresa solucionou problemas.

A inovação é difícil de ver, costuma vir de fora da indústria. O carro que dirige sozinho não veio da Ford ou GM, veio do Google.

Uma indústria tem um status quo, o que é normal, o que é aceito. As grandes empresas do setor trocam de profissionais, o diretor de uma vira presidente da outra, o pessoal faz MBA juntos, vão às mesmas conferências, lêem os mesmos artigos e ficam confortáveis com o mesmo assunto. Não é que haja uma conspiração do petróleo impedindo o motor elétrico de ganhar espaço, ela pode até existir em algum nível e ser um fator a mais, mas fato é que os profissionais da indústria do automóvel entendem de motor de combustão. Eles estudaram isso, falam sobre isso, conhecem os jargões e é nesse assunto que se sentem à vontade.

De fora uma coisa que parece óbvia, ou uma pequena mudança, pode exigir muito pra acontecer e ser aceita. Quando a ideia de um seguro de vida surgiu, na Inglaterra, no século 17, a sugestão inicial era de que todos pagassem a mesma quantia. Jovens e velhos pagariam o mesmo valor inicial e receberiam um retorno enquanto vivessem. O astrônomo Edmond Halley, o mesmo que dá nome ao cometa, foi um dos primeiros cientistas a estudar a valoração correta do seguro de vida, que na época do rei William III era uma questão de importância militar crítica. O seguro era uma forma da coroa conseguir fundos para bancar seus gastos militares.

Cada cidadão poderia pagar uma determinada quantia ao governo e ir recebendo anualmente um dinheiro em retorno, até o dia da sua morte. Como um investimento no tesouro com renda fixa da época. A pessoa dava um grande montante ao governo agora (que usava pra financiar o exército) e ficava recebendo parcelas anualmente, enquanto vivesse. Levou um tempo até perceberem que não fazia sentido a quantia inicial a ser paga ser a mesma, e que os jovens deveriam pagar mais que os idosos, uma vez que eles iriam receber a anuidade por mais tempo.

Ao ouvir essa história, todo mundo argumenta que “é óbvio que eles deveriam cobrar mais dos mais novos!”. Não é óbvio. Na verdade, é óbvio se você já souber isso, como qualquer pessoa de hoje sabe. Mas não era na época, e o fato de que as pessoas responsáveis por calcular as anuidades não perceberam isso por anos e anos mostra que não era assim tão óbvio. A matemática está cheia de conceitos que nos parecem óbvios agora, mas que não foram por milhares de anos. O conceito de que números negativos podem ser somados ou subtraídos (e mesmo que eles existem!), que é possível representar pontos em um plano por um par de números, que probabilidades e incertezas podem ser descritas e manipuladas matematicamente. Se fossem óbvios, esses conceitos teriam aparecido muito antes na história da humanidade.

É difícil dar um passo atrás e ficar consciente das premissas que estamos considerando. Vivemos tão imersos em “como as coisas são e sempre foram” que pode ser difícil desconsiderar certos padrões, simplesmente pois não percebemos eles assim. Você acha normal bater palmas pra expressar sua apreciação por algo? Pense bem, existe algo evidente no ato de bater repetidas vezes uma mão na outra em termos de expressar aprovação frente a um grupo de pessoas?

Reza a lenda que na era da corrida espacial a competição entre os EUA e a União Soviética eram imensas, em cada setor haviam invenções a serem feitas para permitir a conquista do espaço. Uma equipe de americanos ficou semanas na NASA desenvolvendo uma caneta que funcionasse fora do planeta. O que é óbvio uma vez que paramos pra pensar no assunto, as canetas dependem da força da gravidade pra fazer a tinta descer e funcionar, e uma vez em órbita a força gravitacional não seria suficiente pra isso, então eles estudaram diferentes mecanismos que pudessem exercer a pressão necessária e desenvolver essa caneta espacial. Gastaram milhares de dollares e muitas horas em salários e recursos pra isso. Os russos optaram por outra solução. Eles levam um lápis.

A história hoje em dia virou piada, mas se você está vivendo esse contexto, é um cientista ou engenheiro que recebe o desafio de desenvolver uma caneta que funcione no espaço, não é evidente que vai dar esse passo atrás e analisar o problema de todos os ângulos possíveis. As pessoas focam em fazer o que sabem, em usar as ferramentas que conhecem. Por isso a verdadeira inovação disruptiva costuma vir de fora da indústria. De alguém que não tem os vícios de pensamento e não aceita, por não conhecer, o status quo daquele ambiente.

E por isso também conseguimos ver com clareza a inovação na nossa área quando ela acontece, mas menos em outras, ou damos menos valor a elas onde não entendemos bem. O programador entende como um sistema operacional integrado com o hardware é uma inovação genial, garantindo menos travas e uma melhor usabilidade do produto, mas acha que o minimalismo e a estética geral no design da interface é apenas algo bacana, interessante, mas que não merece um grande mérito no sucesso maior da empresa.

O que percebi é que uma empresa de sucesso, um empreendimento de sucesso, seja ele um filme, livro, uma plataforma online, um produto esportivo, uma marca de cerveja, um jogo ou o que for, os grandes sucessos acontecem nos ombros de centenas e milhares de pequenas inovações, centenas e milhares de pequenos sucessos. Muitos por acaso. Gostamos de acreditar que sabemos o que estamos fazendo, mas a verdade é que boa parte das ações não geram o resultado esperado. Pro bem e pro mal. As vezes algo não funciona como esperado e o produto fica pior por isso, e as vezes algo que era apenas uma brincadeira interna se mostra extremamente valioso ao consumidor final.

A página inicial do google saiu da forma que foi por falta de tempo e recursos pra incluir mais coisas. A ideia deles era colocar notícias, imagens, previsão do tempo e muito mais, como era a página do Yahoo e outros grandes competidores na época. Por algum tempo eles tiveram uma nota basicamente se desculpando pelo design pobre do site, e dizendo que iriam melhorar assim que possível. Com o tempo essa característica “clean” virou marca registrada e se mostrou extremamente agradável aos clientes, assim como as brincadeiras com a logo, o doodles, hoje em dia tão conhecidos.

A marca de tênis Air Jordan, na época, foi extremamente controversa. O Michael Jordan estava decidido a fechar um contrato com a Adidas, mas a Nike ofereceu produzir uma linha de tênis de basquete com o nome dele – Air Jordan -, e a Adidas achou a ideia ruim demais pra imitar. Assim o Michael assumiu o risco, que se tornou hoje a maior marca de tênis de basquete do mundo, a 2a maior receita da própria Nike. Um empreendimento extremamente lucrativo hoje, mas na época não parecia assim, ninguém tinha feito isso – criar uma submarca com o nome de um atleta – e não sabiam se o público ia demonstrar interesse nisso. O pessoal do marketing das marcas não entendia disso, pois isso não era algo a se entender ainda, não existia. Então nenhum diretor ou especialista em publicidade queria arriscar sua reputação nessa ideia, eles não entendiam disso, era mais seguro fazer o contrato padrão de patrocínio e seguir fazendo mais do que já funcionava. Alguém topou inovar, arriscar, e deu certo, muito certo.

A história da Nike está repleta de inovações, tiros certos, riscos lucrativos e inúmeros prejuízos também. Acredito que a de todas as empresas sejam assim. Um amigo músico estava me contando como uma música dele estourou. A história começa com como a letra foi criada, o sincronismo, a sorte de estar no lugar certo na hora certa. Parecia que essa era a grande questão então. Ai ele disse depois que a gravação foi numa mansão que tinha um estúdio no segundo andar, e na hora que eles gravaram a música pela primeira vez estava tendo uma festa com famosos no andar de baixo. E o cara fez de propósito, pro pessoal da festa saber que estava rolando a gravação de uma música nova, mas ninguém podia entrar, ninguém podia ouvir nada, segredo total. Isso gerou uma curiosidade, um bafafá. Mas teve outra sagacidade na hora de lançar o clipe, na escolha de quem ia fazer e como, umas brincadeiras com blogueiros; depois ouvi que o cara que trabalhou na edição fez isso e aquilo, e que o produtor também testou outra coisa nova..  não sei o que mais aconteceu, mas a música deu certo, vendeu show, virou hit. O curioso é que o produtor acha que o mérito maior foi da ideia dele. O mesmo pode ser dito do cara da edição e do parceiro escritor, do agente..

As vezes vejo pessoas apaixonadas pela própria genialidade, completamente enamoradas pela ideia que tiveram, com a certeza de que essa inovação está no momento certo e vai garantir rios de dinheiro ao ser colocada em prática. Pode ser, não tiro o mérito de nenhuma ideia. Só achei interessante perceber que o sucesso de verdade pede muito, muito mais.

Sobre Atenção Política

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Premissa: A atenção ou interesse pela política é um recurso escasso.

Ele não chega a ser ‘não renovável’, e pra um único indivíduo certamente a regra pode não se aplicar, mas acredito que para um grande número de pessoas, em particular o eleitorado brasileiro, esse recurso é limitado, e quanto mais se consome, menos sobra.

Como um músculo, que ao ser utilizado se esgota e fica incapaz de realizar a mesma atividade até se recuperar. E, assim como o músculo, é possível que o uso repetido o fortaleça, mas apenas se feito corretamente. O mal uso tanto da atenção à política quanto dos exercícios físicos pode gerar o resultado oposto ao esperado. Maior alienação e ser manipulado no caso da política, pouco desenvolvimento ou até lesões no caso do corpo.

O interesse na política pelo eleitorado brasileiro é um recurso valioso, a base da democracia, e o mal uso desse recurso resulta em péssimos políticos (incompetentes e/ou corruptos). Péssimos políticos acarretam numa má gestão e todas as mazelas sociais possíveis e imagináveis (falta de educação, saúde, segurança, saneamento, etc).

O bom uso desse recurso resulta em bons políticos, boas propostas de governo e uma gestão eficiente. Simplificando muito, é claro.

Assim sendo, toda e qualquer ação que melhora o uso desse recurso é positiva, e toda e qualquer ação que estimula ou potencializa o mau uso desse recurso é danosa.

Se aceitarmos outra premissa, de que para o grande público esse recurso é quase inexistente ao longo dos anos exceto em períodos de eleição, vemos uma causa raiz do problema. Outro problema, menor mas ainda assim consideravelmente grande, é o direcionamento desse foco ou interesse político. Sendo um recurso escasso (ou semi-escasso), o seu uso incorre num custo de oportunidade. Prestar atenção em algo exige necessariamente não prestar atenção em outro algo. Como um aluno na véspera da prova com mais matéria pra estudar do que tempo hábil. Cada assunto estudado significa que outro ficou de fora.

Como o aluno, temos que escolher o que priorizar, o que merece a nossa atenção e o que é menos importante. Diferente do aluno, esse processo não é individual, uma vez que vivemos em sociedade (o que no caso de decisões políticas é auto-evidente). Assim, o que decidimos focar, ler, falar e agir sobre influencia – e é influenciado – pela sociedade em larga escala. Assim como o voto, cada pequena ação é um mini-empurrão na importância daquele assunto.

A máxima “não existe publicidade ruim” existe por um motivo – ela é real. Falar mal é falar, é trazer atenção a esse assunto e muitas vezes com o resultado oposto ao esperado: a pessoa argumenta contra o ponto A, mas em muitos casos o ouvinte acaba ainda mais convencido a favor do ponto A.

Assim cada assunto ou tópico deveria receber a nossa atenção na medida da sua importância. Se um assunto passa a receber atenção demais devemos agir de forma a reduzir isso, e se recebe de menos, devemos agir de forma a aumentar – na medida da nossa capacidade e na premissa de que a ação mais eficaz para a sociedade é mais importante pra nós do que outras motivações para dar atenção ao assunto. Ou seja, mesmo se eu aceitar que falar sobre um assunto pode ser pior no panorama geral, eu posso preferir falar pelo prazer imediato que sinto. O pequeno custo no nível da sociedade me é menos importante que o prazer no nível pessoal, que tenho em sentir que respondi fulano, desmoralizei ciclano ou dei vazão a alguma emoção.

Outra premissa é a de que nossa percepção da realidade é uma função do que vemos. O tipo de notícias, opiniões e informações que nos chegam (em quantidade e qualidade) influenciam fortemente a nossa posição e o nosso interesse em todos os assuntos.

Vivemos todos numa bolha de informação, e isso não é teoria da conspiração. Os anúncios, artigos e publicações que aparecem pra vc são definidos de acordo com o que vc clica ou não (no universo virtual). A mídia funciona em um ciclo que se retro-alimenta. O que gera mais cliques gera mais receita, logo, independente da qualidade do conteúdo, é isso que será criado e divulgado pelos canais. Isso alimenta a desinformação e cria um ambiente propenso a fake news, manipulação e uma percepção distorcida e/ou incompleta da realidade. O grosso da nossa informação ocorre de forma reativa, a partir do que nos chega.

Quando vc está no seu carro ou ônibus vc não está preso no trânsito, vc é o trânsito. Vc faz parte dessa realidade. Digo o mesmo da distribuição do valioso recurso “atenção”. No caso da política, essa atenção define o tipo de político que teremos.

Elegemos os políticos com base nas informações que temos deles. Ninguém vota em um político que acha que vai ser ruim, então se elegemos maus políticos é por estarmos desinformados ou mal informados a respeito deles.

Podemos estar mal informados por não termos acesso à informação – pois esse recurso foi consumido em coisas menos importantes, ou por termos aceitado uma informação ruim – informação parcial, mentirosa ou manipulada.

Acredito firmemente que nosso dever cívico cada vez mais pesa sobre o tipo de informação que consumimos e regurgitamos, o que entra e o que sai. Cada meme, cada textinho e textão, cada conversa de bar e piada contam. O que escolhemos prestar atenção, o que escolhemos falar é tão importante quanto o que escolhemos não falar. O silêncio ativo é muitas vezes mais eficaz do que a contra-argumentação. A forma do diálogo, a mídia que usamos e o espaço no qual a troca de informações se dá também é de fundamental importância. Não se pode ter uma conversa profunda aos gritos, não se pode falar sério apenas com manchetes. Não se combate intolerância com intolerância.

Somos motivados mais facilmente pelas emoções negativas. Notícias que nos geram raiva, asco, revolta e indignação são mais eficientes em nos roubar uma resposta, um clique, um comentário do que algo mais comedido e ponderado. Como a realidade nem sempre é polarizante, a mídia adapta, manipula, força outro ângulo (e muito mais).

O ambiente virtual em que vivemos depende de cliques e envolvimento – é a forma que são pagos, é a métrica de sucesso. Assim, o sistema tem toda a motivação pra ser superficial e polêmico, falar mais do que já sabemos e ser curto o suficiente pra envolver apenas o mínimo necessário. São eles que de forma mais imediata capitalizam esse recurso, que transformam ‘atenção’ em dinheiro. Mas todo mau investimento cobra seu preço, e no caso da mídia esse custo é externalizado, e nós, enquanto sociedade, pagamos pela atenção mal investida da forma mais cara possível – péssimos políticos.

Dito isso, acho mais importante dedicarmos atenção aos deputados e senadores do que ao presidente, por exemplo. Então cada minuto falando de candidatos à presidência são minutos perdidos (que nunca serão recuperados) pra se falar de deputados e senadores. Cada artigo sobre a nova barbaridade dita por um candidato é um artigo não lido (e não escrito em última instância) sobre as propostas de leis para a educação, da saúde, sobre o uso de agrotóxicos, privatização ou estatização de recursos. Isso se aplica ao período de eleições tanto quanto ao resto dos dias e assuntos. Naturalmente, cada um deve julgar o quanto acha que é o “falar demais” em cada caso.

A política é um jogo longo, vence quem persiste e consegue manter o foco míope da população – assim erros passados são esquecidos e o processo de desinformação mantém o poder na mão dos que melhor enganam.

Uma última arma a favor da apatia é a Disfunção Narcotizante – o fato de confundirmos conhecer os problemas cotidianos com o fato de atuar sobre eles. O uso da “atenção” dá uma sensação de dever cumprido, e diminui a necessidade interna de outras ações. Mais um motivo pra reconhecermos o poder e a força desse recurso tão escasso, valioso e mal utilizado.

About Price and Value — the get rich slow scheme

Escrevi um texto em inglês, estava curioso pra ver como as palavras e ideias fluem ao me expressar em outra língua. Foi um experimento. Pretendo manter aqui textos em português, mas a quem possa interessar, segue o link com o texto no Medium:About Price and Value

 

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Como eu escrevo

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Meu pai sempre me falou das vantagens de se manter um diário. É bom para clarear a mente, te ajuda a entender melhor o momento, diminui ansiedades e preocupações, facilita outros pontos de vista, é uma forma de limpeza mental, e muito mais, é uma excelente prática, das mais saudáveis.

Eu concordei desde a primeira vez, mas lembro de tentar manter o hábito algumas vezes e sempre falhar, e desistir. Eu comprava um caderno legal, uma agenda bacana, começava bem, escrevia a beça nos primeiros dias, mas acabava que sempre eu esquecia algum dia. Ficava culpado, tentava retomar, ai deixava de escrever outro dia e invariavelmente abandonava a ideia como um todo.

Até que, muitos anos depois, eu tava com a cabeça cheia, e resolvi só colocar uns pensamentos no papel (virtual). Abri o google drive, criei um documento de texto, escrevi a data e botei pra fora tudo que estava pensando, minhas inseguranças, ansiedades, pequenos e grandes incômodos, falei um pouco do que queria fazer e coisas legais que aconteceram recentemente, sem nenhuma estrutura, só fui colocando o que vinha na cabeça. E foi isso. Achei bem útil, me ajudou a clarear diversos pensamentos. Alguns levaram a questões filosóficas mais profundas, outros foram bem superficiais. Coisas esquisitas, esquizofrênicas, coisas das quais eu tenho vergonha, memórias, paranóias, de tudo um pouco.

Uns dias depois fiz a mesma coisa. E outros dias depois mais uma vez. Um processo começou a se formar. Eu escrevia o que aconteceu de relevante entre a última vez que escrevi e essa (a grande vantagem é que o tempo entre as duas não importa). Depois ia por tópicos (não escrevo os tópicos, mas é a forma como vou lembrando), coisas que estou pensando, projetos que quero fazer, pequenas coisas que me chatearam, onde agi de forma que não gostei, coisas que outros fizeram que não entendi ou o que for. Não tem nenhum filtro, não tem nenhuma ordem.

O maior ganho inesperado que eu tive foi o quanto isso me ajudou a clarear pensamentos. Isso em si não seria inesperado, pois eu tenho o hábito de pensar demoradamente sobre algumas coisas, deitava na rede e ficava realmente refletindo sobre alguns assuntos, horas. Mesmo nesses casos, sobre assuntos que eu já tinha, no meu entendimento, esgotado os caminhos mentais, eu me surpreendi. Eu esperava que fosse apenas registrar eles por escrito, só escrever o que eu já tinha claro pra mim, mas não, mesmo nesses casos eu me vi percebendo coisas novas, aprofundando bem mais nos pensamentos, chegando mesmo a novas conclusões. Isso eu achei super interessante (que nem a revista).

Me surpreendi ao descobrir que escrever é consideravelmente diferente de pensar. O fato de termos que escrever numa ordem, de fixar o pensamento no papel, de escolher a palavra e finalizar cada frase, isso faz uma boa diferença.

O que funcionou bem pra mim, o que fez a diferença entre saber que a coisa é um hábito positivo e de fato conseguir manter, foi o fim da pressão de ter que escrever todo dia. Eu nem sabia que vivia essa pressão toda, eu não sentia isso, mas de alguma forma ela existia, e falhar nisso me deixava culpado ou desanimado e acabava abandonando tudo. Essa despretensão de escrever só por agora, sem o compromisso de continuar, fez toda a diferença. E por acaso esse formato de escrever o que aconteceu entre a última vez que escrevi e essa (e o que escolho escrever é absolutamente aleatório. Tem coisas grandes que ficam de fora e outras bem bobas que resolvo falar longamente), esse formato facilita uma certa continuidade.

Até hoje eu não escrevo todo dia. Houveram momentos nos quais eu escrevi com uma boa frequência, tipo 4 ou 5 dias na semana. Outras vezes eu escrevi 1 ou 2, diria que uma média seria de escrever ao menos 3 dias por semana, mas isso é o que acabou acontecendo, não teria o menor problema eu ficar 5 meses sem escrever, escrever um dia, passar semanas e voltar. É algo extremamente particular, que faço de mim e pra mim.

Compartilho isso pois pra mim fez uma grande diferença. Inclusive o hábito de escrever com mais frequência me deixou mais à vontade com a escrita em si, comecei a publicar alguns textos, e me percebi mais articulado durante conversas, com as opiniões mais claras, mais limpas. Tem sido um processo bem bacana. Além de ver o quanto eu não percebo ao longo do dia. Dezenas, senão centenas, de pequenas coisas passam despercebidas, e quando paro pra escrever percebo que foram grandes coisas, ou pequenas coisas que me marcaram ou impactaram mais do que eu tinha percebido. Um cachorro que vi na rua e por algum motivo essa imagem me marcou. O jeito que eu falei com alguém, o quanto um comentário de um amigo me fez lembrar do meu avô, o que for.

As vezes as pequenas coisas são as grandes coisas.. Percebi inclusive que isso me ajudou a ter mais sonhos lúcidos. Acho que limpar a mente antes de dormir, anotar todas as preocupações e dar espaço pra analisar o que meu subconsciente quer me dizer facilita o sonho lúcido (que é sempre incrível, estar consciente de que estou sonhando é o melhor vídeo-game que eu já tive. Mas ainda assim não tenho sempre).

Escrever é materializar um pensamento, colocar no plano físico onde ele pode ser visto, analisado, e permanece exatamente como é. Pode parecer óbvio, mas somos extremamente parciais quanto à nossa própria memória. Temos a sensação de certeza sobre pensamentos que já mudaram e nem percebemos. Ao escrever livramos a memória ram do cérebro, que pode focar em outra coisa sem o medo de perder aquela outra.

O exercício de organizar meus pensamentos, entender o que é falta de organização e o que é falta de informação faz uma boa diferença também. As vezes começo a escrever sobre um assunto e percebo que quero estudar mais, preciso ler e pesquisar partes que me parecem importantes e que eu sei menos do que achava. Em outros momentos apenas fico buscando a melhor forma de dizer o que já sei.

Penso na escrita não só pra mim. Tenho vontade e planos de publicar mais material, escrever livros e artigos. Escrever é uma excelente forma de comunicação. Não substitui nem desmerece nenhuma outra, é absolutamente complementar. Não apenas autores, mas todos os grandes empresários e pessoas de sucesso concordam com a utilidade de se manter um diário, seja ele no formato que for. O hábito da escrita é extremamente útil, se dar um tempo pra se ouvir, para estar com seus pensamentos, da forma que for.