O equilíbrio entre o novo e o velho

O ciclo sem fim…

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Há uma dinâmica que me atrai no ciclo de morte e vida, entre o novo e o velho, do que sai e cria espaço ao que entra. Isso ocorre em tantos locais, espaços, momentos, mas falar de um é falar de todos né. O macro está contido no micro.

Existe um dilema nas cidades por exemplo. Prédios antigos são marcos importantes, têm grande valor cultural, histórico, estético. É um atestado ao que a cidade viveu e como, muitas vezes preservá-los é um sinal de respeito ao que se passou. Por outro lado, a cidade é viva, e as estruturas que permitem e fomentam as atividades dela devem acompanhar e evoluir, assim como todo o resto. As demandas de eletricidade, vagas na garagem, cabeamentos e tantas outras simplesmente pedem alterações arquitetônicas incompatíveis com a preservação. Há casos onde o novo e o antigo conseguem conviver em harmonia, mas tantos outros onde isto não é possível.

Vejo a lapa aqui no Rio por exemplo, diversos prédios tombados pela prefeitura, o que significa que suas fachadas não podem ser alteradas. A lógica de se preservar uma estética do rio antigo faz total sentido. Por outro lado, na prática, o comércio que lá havia abandona o local, as regras de reforma de prédios tombados torna a revitalização tão cara (deve-se contratar marceneiros específicos, buscar materiais especiais e etc) que as pessoas optam por outros locais, deixando aqueles abandonados. Mas espaço vazio é um chamado ao preenchimento, que se dá na figura de desabrigados, usuários de drogas e toda sorte de pessoas que lá vão em busca de um abrigo. Sem entrar nas mazelas e desigualdades sociais que permitem que tais condições de vida existam em tão grande escala, acho curioso como tantas leis conseguem o reverso do que se propunham. Ao tombar os prédios a ideia era que fossem preservados, mas ao se criar uma lei sem se preocupar em prover as condições para que seja seguida, o resultado foi quase diametralmente oposto ao pretendido. A depreciação que veio gradualmente, fachadas feias, janelas quebradas, paredes pixadas e habitadas ilegalmente. De alguma forma ainda mantêm a estrutura arquitetônica, isso é verdade, mas ainda assim, poucos diriam que valeu a pena. A ideia era manter a rua preservada, mas não a custo de terminar ou inviabilizar o comércio e a vida que havia, e criar zonas inférteis e até perigosas. Há espaços bem preservados, como o teatro municipal, museus e tantos prédios, onde se encontrou uma funcionamento harmonioso com a cidade de hoje. Mas basta ir nas ruas menos frequentadas que a situação é outra.

Por isso é delicado criar uma regra geral, há de se analisar caso a caso. O equilíbrio entre o velho e o novo na cidade pode ser incrivelmente complexo e um assunto muito mais profundo do que os poucos pontos que eu citei. Pede-se pensar a função da cidade, incluindo o potencial econômico de uma região, pesando isso contra o apelo turístico, a responsabilidade histórica, o uso dos espaços públicos e as variadas questões locais, de mobilidade, segurança, saúde pública e etc.

Num nível, penso como é comigo, no micro-ambiente que é minha vida e minha casa. Sou mais propenso ao desapego. Em grande medida há um conflito quando falhamos em perceber uma grande verdade: a única constante é a mudança. O que varia é a velocidade dela. Numa cidade os ciclos são mais lentos se comparados à sua vida, mas o princípio é o mesmo e se aplica a ambos os casos. Viver em demasia no passado faz mal, assim como no futuro. Há de se aprender com o passado, ter uma noção clara dele, e ser capaz de olhar para o futuro, ser visionário o suficiente pra se inspirar e visualizar um ‘como poderia ser’. Mas o exagero em cada um é punido. Ficar revivendo um relacionamento que acabou o tempo todo não te satisfaz, é apenas uma sombra do que foi. Quem exagera nisso sofre não só por buscar algo que nunca terá, mas por se ausentar do momento presente, deixando de viver novas e mais completas emoções. O caso futuro é o mesmo, ser visionário é bom enquanto te faz agir de encontro a realização desse sonho, mas quem olha apenas pra longe deixa de ver o que está perto, vive eternamente insatisfeito(a), como o burro que persegue a cenoura amarrada a uma vara pendurada a sua frente. Não percebe que caminhará eternamente sem nunca conseguir o que busca.

Os extremos são úteis pra exemplificar uma ideia, mas cada um de nós está em algum ponto entre eles. Assim como nossos “erros” são menos extremos, proporcionais são as dores advindas. Gosto de pensar nos extremos pra acelerar o processo. O perigo de uma pequena dor é o “provisório permanente”, quando uma situação é desagradável, mas não ao ponto de nos fazer agir.

É o caso do conto chinês, onde o mestre encontra uma família muito pobre que só tem uma vaca, de quem eles tiram o sustento que conseguem – pouco, mas o suficiente para mantê-los. Resumindo, ele deixa a vaca fugir, e vai embora. Volta um ano depois e descobre todos melhores. Sem a vaca eles tiveram que encontrar outros meios de se sustentar, e agora cada membro da família tem um trabalho.

No caso do antigo e do novo, entender o que é o certo (pra mim) é entender quando e como a mudança deve acontecer, ou se já aconteceu e só faltava eu perceber isso. Acho foda a parte do Matrix Reloaded que o Neo conversa com a oráculo, e ela diz que não podemos ver além das decisões que não entendemos. Muitas vezes a decisão já foi feita, só nos falta compreendê-la (ou aceitá-la).

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Essa foto tirei em londres, achei bem legal o contraste das construções.