Sobre o site, sobre mim

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Esse post, e possivelmente alguns outros, faz parte de uma tentativa minha de me abrir mais. Pela gestão karmica sei que devo plantar o que irei colher, e como me conectar mais profundamente é algo que desejo. Pra de fato ver o outro preciso também me permitir ser visto.

Acho fácil me isolar e apenas observar. Essa habilidade eu dominei. O único lado bom de ter brigado tanto com a minha irmã quando era criança foi que aprendi a ficar sozinho, aprendi a me entreter, a estar à vontade na minha própria companhia. Depois veio outra fase, a de aprender a conviver com o outro, onde acho que fui de certa forma retardatário. Vejo pelos meus hábitos. Quando novo, eu gostava de desenhar, nadava todo dia, brincava sozinho e adorava ver desenhos e filmes. Tinha uma vida social, claro, convivia bem com os amigos da escola, mas isso tinha um espaço secundário, acho. Eventualmente fui percebendo, bem aos poucos, a importância do outro. Na faculdade a mudança se mostrou mais clara. Mudei da natação pro polo aquático, do desenho pro teatro, comecei a dançar e ter uma vida social muito mais ativa. Sempre estive confortável em grupos, mas nesse período comecei a me destacar, a curtir mais as pessoas mesmo, a prestar mais atenção nelas. Aprendi a fazer concessões pelos outros, que nem tudo seria do meu jeito. O humor sempre me abriu muitas portas, inclusive às novas amizades. Em algum momento comecei a valorizar mais os amigos, e junto com isso veio o medo de os perder.

Vejo como os adultos tem em média muito menos amigos que os jovens. Que muitas vezes as novas amizades não são tão fortes quanto as da infância, e isso me assustou. O tempo não volta e eu deixei de investir nisso quando deveria. Mas em pouco tempo a vida me provou o contrário, que é possível sim fazer novos amigos em qualquer idade. O erro da grande maioria é estagnar, evitar o desconforto de se abrir, não ter paciência pra novidade, em geral por estar satisfeito com o que têm. E quando percebem que o que “têm” ta acabando, ai já é tarde demais, não conseguem sair do próprio castelo que ergueram em torno de si. Criar novos amigos pede um estado de espírito como o de uma criança, aberto, humilde e curioso, com o qual muitos se desacostumam com o tempo.

Mais pra frente vi que sou absolutamente apaixonado pelo Desenvolvimento Pessoal. É assim que chamo essa “área”. Tanto a possibilidade de seguir uma carreira profissional quanto como cobaia. Lendo e estudando o assunto vejo o quanto tenho que trabalhar, e uma das “ferramentas”, ou filosofias, mais interessantes que encontrei foi a Gestão Karmica. Partindo de princípios absolutamente simples e coerentes mostra como conseguir o que se deseja (e evitar o que não se deseja). O segredo é fazer com os outros o que gostaria que fizesse com você. Há infinitos níveis de profundidade, é claro. Mas de forma prática, faça aos outros essencialmente aquilo que quer que lhe aconteça.

Ainda dentro do Desenvolvimento Pessoal fiz, certo dia, uma lista das coisas que mais me interessam, que mais me trazem felicidade. Fiquei surpreso com quanto em comum muitas delas tinham entre si e comecei a agrupar. Outro ponto foi ver como muitas vezes deixava essas atividades ou momentos de lado por besteiras, por puro hábito, um agir no automático.
Uma dessas é ter conversas profundas.

Das melhores memórias que tenho, várias vêm de, ou incluem, momentos de grande conexão com pessoas queridas (e as vezes nem tanto). Defino uma conversa profunda aquela aonde seja tratado um assunto emocional forte a pelo menos um dos participantes da conversa (onde a pessoa se abra, fale coisas difíceis de dizer ou simplesmente significativas, que te permita vê-la como nunca antes você viu), ou um tema que foi (na hora) revolucionário, daqueles que você fica semanas digerindo (filosófico, sobre a vida…), ou ainda que propicie uma conexão maior entre os envolvidos, mesmo que apenas poucas palavras sejam ditas. Há mais opções, sem dúvida, mas essa é a ideia.

Percebi também o quanto a situação influencia a criar o clima, o ambiente, o que se fez antes, se foi numa viagem, acampamento, num transito de 4 horas, após um término de namoro ou virando a noite na casa da avó. Esses são momentos incrivelmente valiosos pra mim, mas outros menos extremos também contam.

Em última instância o recurso mais valioso que temos é o tempo. O dinheiro entra nos Top10, e mesmo numa curta análise vi que não estava empregando bem meus recursos no sentido de maximizar minha felicidade, de otimizar os momentos mais importantes pra mim. Na gestão de empresas aprendemos diversas técnicas que nos ajudam a decidir racionalmente a melhor forma de usar os recursos de uma companhia pra atingir os objetivos (em geral lucro, mas existem outras.. mas essa é outra conversa).
Fiquei espantado com o quão pouco esse conhecimento estava sendo usado na minha vida pessoal. Depois de pensar um pouco mais nos meus objetivos, como buscar ativamente um progresso moral e intelectual, viver boas emoções e outros, ficou evidente que podia com algumas pequenas mudanças melhorar em muito minha qualidade de vida.

A sequência dos pensamentos que temos e as emoções consequentes que sentimos são basicamente o que definem a vida como a percebemos. A frequência, intensidade, qualidade e controle desses pensamentos são as principais variáveis. Existem estímulos internos e externos, pois posso ficar feliz ao lembrar de um beijo ou triste ao pisar na areia quente, mas em última instância mesmo um estimulo externo deve gerar um pensamento e/ou emoção pra me afetar.

Bom, é exatamente disso que trata a Gestão Karmica. Da forma como percebemos o mundo a nossa volta. Dos dois conceitos fundamentais, um é o da Vacuidade, de que tudo em si e por si é neutro de significado. E a forma como percebemos o mundo vem de nós, e não apenas do mundo. E se vem de nós, está de alguma forma sob o nosso controle, e ao nosso alcance para mudá-la a bel prazer. (O segundo conceito fundamental é o das sementes mentais, que basicamente cada ato, pensamento ou palavra dita planta uma semente em você, que crescerá e eclodirá te fazendo ver a realidade por meio dela).

Assim chegamos novamente à justificativa do post. (Existem outras, mas por hora fiquemos com essa apenas). Buscando plantar mais do que desejo colher, e querendo colher mais conversas profundas, que têm como essência a abertura e conexão entre as pessoas, venho me mostrar, me abrir, compartilhar mais de meus pensamentos por meio de alguns textos. Assim aplico um pouco da gestão à minha vida, experimento mais com a karmica, e pratico o ato de fazer e dar a cara a tapa ao invés de ficar criticando quem faz o que não gosto.

É um hábito que quero muito parar, o de criticar e julgar os outros, o que acontece em diversos ambientes, mas pra facilitar vou começar pelo facebook, onde constantemente leio textos e vejo fotos dos outros e penso que é uma idiotice ou algo assim.
Bom, primeiro que na página da pessoa ela posta o que quer, e só vê quem é amigo. Ou seja, é muito mais um indicador de que ou não conheço meus amigos ou estou tão em desarmonia com eles, o fato de sentir um desprezo por parte, mesmo que uma parcela pequena, do que leio.
Assim passei a deletar algumas pessoas, que sinceramente eram apenas conhecidos que por algum motivo adicionei, mas nem eu nem eles atualmente tinham mais motivos pra isso. Outras pessoas só parei se “seguir”, que é uma opção onde nada do que ela posta aparece pra você. Em pouquíssimo tempo minha timeline deu um salto quântico de qualidade, e hoje 99% do que me aparece eu realmente quero ver.

Mas ainda assim, é fácil julgar o outro, e eu via que quanto mais julgava, menos fazia. E essa postura é péssima. É venenosa, é passiva, medrosa. Você gasta tanto tempo falando mal sobre a ação de fulano que quando pensa em fazer algo trava, ficando horas vendo se alguém pode vir a pensar o mesmo de você. É a síndrome do bom aluno, que tem medo de errar, que quer agradar o professor, que não faz nada fora da hora, nada fora do esperado.

Essa barreira pra mim é mais difícil de superar, pois inclui o medo da rejeição, o medo de me expor, de sei la mais o que. Mas por outro lado, é só um post. Nossa, foda-se né.. Essa é a alternância esquizofrênica do pensamento. Ora uma imersão na cabeça de “amigos” imaginários com críticas ferozes e ora a percepção da insignificância disso tudo.

E ai eu lembro que os meus amigos de fato, aqueles cuja opinião realmente me importa, esses não precisam de explicação.

A amizade é mais forte que isso, mesmo que eu postasse a maior imbecilidade do mundo. E pode ter alguém, amigo próximo ou só conhecido, a quem ler isso faça alguma diferença. Nunca se sabe. Só posso controlar o que eu faço, mas não o impacto que isso tem nos outros. Busco, dentro do possível, ser honesto, autêntico e fazer o bem.

Assim, ca estamos. Minha ideia é postar aqui com alguma regularidade. Pensamentos e reflexões, possivelmente sem grande importância pra maioria das pessoas, mas aqui estarão.
;D

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A Crítica. À Crítica

Um texto escrito no período das manifestações e que, infelizmente, continua atual.

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Criticamos a mídia por ser parcial e manipuladora, os políticos por serem corruptos, a polícia por ser violenta, os empresários por serem inescrupulosos. Quem consome o que a mídia produz? Quem vota nos políticos? Quem vive numa sociedade de mercado?

Tudo que nos incomoda são frutos de um sistema, são sintomas de uma causa. O governo são pessoas. A polícia são pessoas. A mídia são pessoas. Qualquer grupo é formado de indivíduos, cada um único e muito mais do que seu grupo, sua generalização. Um policial pode ser o brutamonte que ataca sem pena, mas como ele veio a existir? Nasceu assim, um ser de pura ignorância e maldade? O político que rouba brotou do chão corrupto?

Cada pessoa é um ser completo, com qualidades e defeitos, medos, ansiedades, sonhos. Só porque um defeito está alí, no seu caminho, não quer dizer que a pessoa seja aquilo. Deixar de ver a complexidade do outro, simplificando-o, vendo-o apenas como pertencente a um grupo com ideias opostas, é roubar sua identidade, é roubar sua humanidade.

Eu quero lutar por um Rio melhor, um Brasil melhor, um mundo melhor, mas enquanto apontamos os dedos para governadores, presidentes, deputados, policiais, jornalistas (que precisam, sim, ser apontados) não posso esquecer das causas que os criaram, do ambiente que permitiu (e, às vezes, até estimulou) que eles existissem. E essas causas também existem em mim. Eu faço parte desse sistema, querendo ou não, e tudo que há lá, há cá. A escala muda, mas quem nunca deu uma propina, mentiu pra obter uma vantagem, foi agressivo além do necessário?

É aí que está a semente do sintoma, a causa, que plantada num solo fértil, dá frutos. “Ah, mas o que eu faço é tão pouco, tão pequeno, nem dá pra comparar”. A semente é pequena mesmo, e cresce devagar.

De todos os males que reparamos lá fora, de todos os erros que apontamos, façamos isso, mas lembremos que alguns estão mais perto do que parece, logo ali no espelho. Nada fala mais alto que o exemplo.

 

Vegetarianismo e outras escolhas

Fazendo uma coisa, em geral aprendemos outras. Estar consciente das decisões nos permite uma melhor relação com ela. Comendo o que se quer, não estou pregando o vegetarianismo, apenas refletindo sobre alguns pontos.

IMG_0304.JPG Foto tirada na Chapada Diamantina, onde tive minha primeira experiência sem comer carnes. Que lugar lindo..

Virar vegetariano foi uma decisão marcante na minha vida. É o tipo de decisão da qual você é lembrado ao menos 3 vezes por dia. E não é como se a carne deixasse de ser gostosa porque eu parei de comer. Na minha casa ela continuava presente em todas as refeições, e cabia a mim a disciplina de não pegar. Isso tem um lado muito bom. Fiquei uns 8 anos como vegetariano. Hoje voltei a comer peixes e frutos do mar, e assim pretendo ficar. Nem considero voltar à carne vermelha e de frango, mas talvez mais pra frente eu corte o peixe novamente.

Minhas razões foram primariamente de saúde. Sempre achei que seria mais saudável não comer carne, mas pra mim isso significava também quase que abdicar do prazer da comida. Achava que comida era ou saudável ou gostosa. Até que fiz uma viagem de uns 15 dias com um pessoal vegetariano e comi melhor do que esperava. Na verdade, a comida era mais saborosa que qualquer outra que eu me lembre. Percebi que minhas premissas eram fundamentadas em preguiça e preconceito.

Muita gente adere ao vegetarianismo por pena dos animais. Eu particularmente não tenho nenhuma questão com a morte. Se tivesse que caçar e matar animais pra comer, o faria sem problemas. O que me incomoda é o sofrimento desnecessário. A forma de vida que o animal tem até morrer. Um peixe que vive no mar até ser pescado teve sua vida normal. Mesmo um em cativeiro ainda é bem aceitável, na minha opinião. Mas as galinhas por exemplo, vivem em cubículos cheias de antibióticos em galpões num formato que pra mim mais se aproxima da tortura. Bois e vacas também, o que é acentuado pelo fato deles serem mais inteligentes que os peixes, então têm mais consciência do que acontece. Não que entendam tudo como um humano, longe disso, mas é normal eles perceberem quando vão morrer e irem pro abate chorando. Essa carne de uma vida e morte tão sofridas me incomoda. Se não tivesse jeito ok, mas têm.

Esse foi o meu motivo. Tem gente que diz que não gosta de vegetarianos pois eles ficam tentando te fazer sentir culpa por apreciar uma picanha. O motivo de você não gostar dessa pessoa não é porque ela é vegetariana. É porque ela é chata pra caralho. Mesmo se comesse carne continuaria chata. Só mudaria o tema da chatice. Minha política pessoal é de só falar disso com as pessoas quando me perguntam ou quando é necessário, como quando sou convidado pra um jantar e acho válido ressaltar. Nunca peço que mudem o cardápio por mim, pelo contrário, mas hoje em dia é cada vez mais simples e comum. Se me oferecem uma carne agradeço e recuso, só isso. Se alguém me pergunta porque digo que não como carne exceto peixe. E se a pessoa realmente quiser entrar no assunto, ai sim converso abertamente. Senão vira só uma curiosidade e menos um pra dividir a pizza de calabresa.

Primeiro eu cortei apenas a carne vermelha. Fiquei assim um ano, depois parei com qualquer animal, continuei comendo ovo, leite e derivados. Fiquei assim uns 7 anos, e depois voltei pro peixe e frutos do mar, como estou no momento. O curioso é que parar apenas com a carne vermelha foi muito mais difícil do que depois cortar todo o resto. Foi a primeira vez que tive tantas conversas sobre o assunto, que tive isso associado à minha identidade de alguma forma. Depois parece que foi só mais um passo. Eu sabia que conseguia, entendia o desafio que era e já tinha um modelo mental necessário. Porque nunca fez sentido parar de comer carne pra ficar sofrendo e com saudade. Um vontade ou outra no começo é natural, mas isso pra mim não devia ser um sacrifício. Adoro o prazer da comida, e adoro também me alimentar bem e de forma saudável. O que funcionou pra mim foi desconsiderar carne como comida. Simplesmente tomei uma decisão e nunca voltei atrás.

O ato de duvidar de si mesmo é que em geral traz o sofrimento, a angústia de que muitos reclamam. A pessoa fica olhando o sanduiche de filé do amigo, ou a fatia de bacon e tentando relembrar porque quis parar de comer carne, fica revendo se tomou a decisão certa ou não. E mesmo quando chega na conclusão de que está certa e prefere mesmo não comer aquilo, foram alguns minutos de sofrimento, de insatisfação e dúvida, ao meu ver, à toa. Isso vale pra qualquer decisão, é claro. Acho que faz muito mais sentido gastar um tempo maior uma vez, pensar com calma, ponderar cada argumento, prós e contras e, ai sim, decidir. É mais demorado, mas depois você tem certeza da sua decisão e pronto. Só volta a rever ela se alguém aparecer com um argumento muito bom ou uma informação nova. Assim você não precisa re-tomar a decisão toda vez, especialmente porque olhando pra uma coxinha vai ser muita mais difícil.

Depois de decidir, quando eu ia num lugar que só tinha carne era como se não tivesse comida. Já tinha aceitado as consequências da decisão. De que de vez em quando poderia “passar fome”. E isso é um exagero de um mimo incrível. Depois que fiz alguns jejuns vi o quanto dramatizamos ficar sem comer e tentamos justificar nossas vontades com racionalizações. De qualquer forma tem um estado mental de retirar a carne da categoria comida. Simplesmente não é mais uma opção. Isso facilita tudo. De tempos em tempos é saudável rever nossas decisões, mas sempre num ambiente com calma e tempo, não num bar em meio à pressão social.

Acho que o maior ganho na minha experiência, empatado com uma alimentação mais saudável (que não é sinônimo de não comer carne, mas pra mim a mudança foi uma só) é a confiança que vem ao fazer algo por um longo tempo. Eu sei que consigo. Vegetarianismo é uma boa pois você é testado pelo menos 3 vezes ao dia. Treinar num ambiente mais intenso faz o resto parecer mais fácil. Que nem jogar uma fase no nível mais difícil e depois voltar no normal.

Tenho buscado também não ter vergonha das minhas decisões. As vezes tenho uma opinião, mas quando confrontado prefiro mudar de assunto, fico inseguro. Sair desse armário faz toda a diferença. Cada um tem seu armário pra sair, ou vários armários. Hoje eu penso que ou estou confiante quanto ao que decidi ou é melhor voltar atrás. Se acho que usar terno é algo idiota mas só quando estou sozinho ou com amigos próximos das duas uma. Ou repenso minha opinião do assunto, ou saio desse armário e aceito falar abertamente do assunto caso a ocasião ocorra. Em geral tenho ficado com um pouco de cada. Pensando mais, vejo que nenhuma situação é tão extrema, e tem casos onde um terno é justificado, mesmo que seja apenas pra agradar o avô.

Em geral a forma de falar é muito mais importante que o conteúdo. Discorde, mas seja educado, calmo. Saiba ouvir o ponto do outro, e só dê a sua opinião se for requisitado. Educação e um pouco de bom humor me permitem ser firme sem ser desagradável.

 

Descomprar

Vivemos numa sociedade na qual, cada vez mais, somos o que temos. Focar nas coisas gera ansiedade, insegurança e um tipo de apego bastante danoso. Pense duas vezes antes de comprar, e pense mais ainda em como descomprar.

TravessiaPT20.jpg Foto tirada pelo Pedro Pagnoncelli na travessia Petrópolis-Teresópolis. Em caminhadas assim cada kilo a mais se transforma em 10 ao longo do percurso. O que optamos por carregar é tão importante quanto o que optamos por não levar.

Acho que tenho mais prazer me livrando de algo que não uso do que comprando. Comprar é bom, admito, mas se livrar, seja doando, vendendo ou jogando fora é melhor ainda. Uma coisa a menos com o que se preocupar, uma sensação de leveza, de desobstrução. Existe um movimento no mundo que é um estilo de vida: o minimalismo. Os adeptos buscam viver com o necessário apenas, o mínimo para terem conforto, sem excessos.

Acho que esse movimento é uma resposta a um padrão de consumo bem exagerado, no qual é normal numa casa com trës pessoas ter quatro aparelhos de TV e mais os computadores, no qual as pessoas têm roupas que estão há mais de um ano sem usar. No outro extremo estão os acumuladores. Hoje em dia, já é aceito como doença a necessidade de acumular tudo, mas a verdade é que a média, mesmo do brasileiro, ainda tende a pecar pelo excesso. E isso independe de ser rico ou pobre. Claro que um mendigo tem menos oportunidades para acumular, mas fora isso é uma questão de mentalidade e hábitos. Tem a ver com o apego às coisas. Em alguns casos, com a identificação com as coisas, com um senso de segurança em se sentir preparado e um medo do imprevisto. “Melhor guardar esse vidrinho de conta-gotas, né? Vai que algum dia eu preciso colocar algo aqui dentro.”.

Nossa mente é o bem mais precioso. A qualidade dos nossos pensamentos é a qualidade da nossa vida. Criar o hábito de dar coisas que não precisamos, facilita também quando queremos nos livrar de emoções que não mais nos servem, como um rancor, uma raiva, um ressentimento, uma inveja. De nada nos servem, e ainda fazem mal. Mas, costuma ser mais fácil começar com coisas físicas, a imagem é mais impactante, e é mais fácil medir também. Mantemos um registro mental de tudo o que temos, e assim cada item doado cria um espaço vazio.

Eu costumava guardar coisas que não uso muito para uma eventualidade. Na hora, eu visualizava um cenário que fazia total sentido. Por exemplo, não uso nem gosto de usar boné. Mas, tinha uns três guardados, pois vai que eu vá numa viagem para um lugar de muito sol e preciso do boné? Com o tempo, vi que usava tão pouco que dei dois deles, e fiquei só com um. “Agora sim, realmente três era um exagero”, pensei. A verdade é que simplesmente não uso, e ele ficou esquecido. Quando apareceu uma situação onde precisei de um boné pedi emprestado para alguém, pois nem lembrava que tinha. E esse é o padrão. Tantas coisas que guardei num fundo de armário e esqueci, que seria mais útil nas mãos de outro.

A regra clássica para roupas é: se não usou nos últimos seis meses pode doar sem cerimônia. Outros itens como provas do colégio, cadernos antigos, sempre guardei pensando que se um dia precisasse lá estariam. Nunca precisei. Nunca quis olhar nem ler. No dia de jogar fora foi legal relembrar momentos ao ler trechos, e na hora pensei em voltar atrás e guardar alguns, mas tenho certeza que voltariam ao total isolamento. Se for o caso, guarda um e pronto. O resto ocupa espaço, junta poeira e te dá essa sensação de ter coisas. Um monte de coisas.

Se for para ter algo, que seja uma decisão consciente. O caminho natural do minimalista é esse. Substituir quantidade por qualidade. O hábito de se desfazer de coisas se mostra na hora de adquirí-las. Já penso duas vezes se realmente quero aquilo, se vou usar, se vai valer a pena. Minha estante estava envergando sobre o peso dos livros. Guardava alguns por achar que podia querer consultar em algum momento, e outros apenas por vaidade. Fiz um cadastro numa estante virtual, onde mantenho o registro de tudo que li e ainda faço resenhas, e dei todos os livros. Hoje em dia leio num Kindle, que é infinitamente melhor. Mesmo nele costumo deletar o livro depois de lido. Se preciso consultar algum livro que já li, vou numa livraria. Se for do kindle, tenho ele disponível na nuvem e posso baixar a qualquer momento.

Descobrir o prazer de ‘descomprar’ e de viver sem exageros tem se mostrado quase um estilo de vida. Assim, como o mercado de coisas usadas, brechós e etc. Quanto menos tenho, mais presto atenção ao pouco que tenho, e mais aprecio também. Existe um movimento que diz que não precisamos possuir coisas, apenas o acesso a elas. Em alguns casos não há diferenças, mas a maior é mental mesmo. Não ter sua segurança atrelada a sua conta no banco ou num bando de entulho em casa, e ver o valor real das coisas, nem demais, nem de menos.

Para fechar, uma frase bonita: um dos problemas da atualidade é que amamos as coisas e usamos as pessoas.

Devaneios – e o que dizem

Já se pegou pensando em algo? Sabe o que isso quer dizer?

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Um dia eu me peguei pensando em meu próprio funeral. Desses devaneios que temos com alguma frequência, eu pelo menos tenho, e sempre achei que fossem completamente aleatórios, as vezes imaginando uma discussão hipotética com o presidente, as vezes decidindo se seria mais legal ter teletransporte ou poder voar (poder voar!). Nesse dia reparei que há um padrão, um correlação entre o conteúdo do devaneio e como estou me sentindo, especificamente quando não estou atento a como estou me sentindo. No caso do funeral percebi que estava carente, me sentindo um pouco solitário, e acho que a função do filme mental era reafirmar que meus amigos se importam comigo. Então nele imaginava várias pessoas, tristes com a minha partida, como se sentiriam e o que diriam, etc. Não é uma sequência de imagens tão estável quanto um filme ou uma memória de um evento, é mais sutil, por isso muitas vezes eu nem percebia que estava pensando nisso, mas esse dia percebi e achei muito curioso.

Em pouco tempo fiquei atento a esse padrão e vi que ele acontecia com algumas emoções. Quando estava com raiva, por exemplo, me visualizava em situações de briga. Podia ser que eu estivesse andando e visse um carro parado errado na calçada, ai me imaginava passando de bicicleta perto demais, o cara saia e vinha pra cima de mim, e curiosamente eu sempre lutava melhor que o Anderson Silva, mas sem exageros. Ou lembrava de qualquer situação, ou criava uma totalmente do nada, idealmente onde eu não tivesse culpa, mas fosse “forçado” a reagir, tipo um assalto e eu ia e lutava com o cara. E bem inconsciente. Diferente de se eu for escrever uma cena de uma peça ou um filme, onde eu vou parar e imaginar cenários e falas ativamente. Nesse caso é como se eu estivesse de espectador da minha própria mente.

Enfim, o interessante foi que desde que notei exatamente como isso acontece, assim que o devaneio começa eu paro e observo como estou me sentindo. Em geral já conheço o tipo de sentimento pelo pensamento, então isso é bem imediato, ai passo a investigar porque estou me sentindo dessa forma exatamente agora. Se for raiva, o que houve? Na maioria das vezes não é um sentimento muito intenso, se fosse eu teria notado sem o devaneio, então levo um tempinho as vezes pra descobrir a causa. Em muitos casos eu realmente me surpreendo. Ai decido se quero fazer algo a respeito ou não. Nos casos que falei, quando me percebi sentindo com raiva um dia vi que não era exatamente raiva, mas só um excesso de energia acumulada, então fui correr na praia. Uma vez eu apenas tinha presenciado uma discussão forte na rua e aquilo tinha me marcado de alguma forma e eu fiquei com essa impressão, essa “energia”, até perceber. No caso de me sentir sozinho, marquei de sair com uns amigos. Outras vezes não fiz nada, só ter percebido já foi suficiente. Em outras fui ver um filme, ler um livro, escrever, trabalhar..

É engraçado como isso ainda acontece, mas com menos frequência e quase sempre eu percebo, e uso como um indicador pra parar e me dar alguma atenção, entender que tem algo rolando em mim e escolher a melhor forma de lidar com isso. As vezes estou triste e quero curtir a tristeza mesmo, só isso. Mas nunca ignorar o sentimento. Quero cada vez mais melhorar minha comunicação com o meu subconsciente.

E você? Já aconteceu algo assim? Como seu subconsciente fala com você?

 

Toda Modéstia é Falsa

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Há uma diferença entre humildade e mentira.

Na nossa cultura é visto como falta de educação se gabar de algo, então optamos pelo outro extremo, de falar que somos ruins mesmo naquilo que nos achamos bons. As vezes estamos em busca de fatos e dados, mas na maioria dos casos quando conversamos com alguém queremos saber a opinião daquela pessoa. Se você acha que toca violão bem, dizer que não toca nada é uma mentira. Isso muitas vezes mata conversas, pois impõe uma barreira naquele assunto. Além de perder a oportunidade de se mostrar como é ao outro, e ter uma troca real. Se o outro acha que você toca mal, a pessoa pode conversar abertamente sobre isso, fazer críticas construtivas ou simplesmente achar curiosa a diferença de percepção. Mas você teve um feedback que não teria se ficasse escondido atrás do muro da mentira. Se a pessoa for interessada em música também, a conversa segue outro rumo.

Em geral fazemos bem algo em que temos interesse. Eu gosto de improviso e teatro, e se digo que estou apenas começando, passo uma ideia pro outro, comunico algo bem específico. E nunca sabemos de onde vai vir a próxima oportunidade. As vezes a pessoa com quem conversava sabia de um grupo que precisava de um integrante novo, mas como eu disse que era iniciante, apesar de me achar avançado, ele nem comentou isso comigo. Ou vai indicar cursos e livros que não mais servem pra mim, como dar um livro de inglês 3 pra quem está no nível 7. Perda de tempo dos dois lados.

Existe sempre o risco do choque de realidade, de eu dizer que sou o máximo e o outro depois me achar horrível, pior ainda pela minha falta de autocrítica, e o medo desse julgamento nos impele à mentira, à modéstia. A verdade é que ser honesto é sempre um caminho pra uma conversa mais profunda e específica. Não me acho simplesmente bom ou ruim em nada, se é algo que gosto e penso sobre, terei uma opinião mais detalhada.

Toda modéstia é falsa, ou pelo menos incompleta. É uma resposta superficial pra um assunto sobre o qual você têm opiniões profundas. A resposta modesta “Se eu sei fazer sites? Nada, que isso” fecha uma porta a uma conversa, uma troca sobre aquilo. O outro pode insistir no assunto e descobrir que de fato vocês tem muito a discutir, mas ser modesto como default é uma trava, é uma forma de se fechar, e logo para os assuntos que mais te interessam.

Outro ponto é que quando valorizamos muito a opinião dos outros, queremos baixar as expectativas, pois quanto pior a pessoa acha que sou, maior o elogio que recebo. Um músico profissional tocar corretamente não é mais que o esperado, já se eu estou aprendendo, impressiono a todos. O problema é dizer que estou aprendendo quando estudo intensamente há 5 anos. Sim, estamos todos aprendendo constantemente, mas em geral quando dizemos isso sabemos que a mensagem é de que não faço isso bem. Se pensa assim dê a resposta completa “Olha, eu acho que toco bem sim, ainda tenho muito a aprender, mas já estou num nível [X]. No entanto sinto que preciso melhorar em A, B e C”. A questão é ser específico, dizer exatamente como se vê a respeito dessa habilidade.

Vivemos escondendo coisas dos outros, e pagamos o preço por isso. Experimente ser mais aberto e honesto sobre os assuntos que mais te interessam e você pode acabar se surpreendendo das oportunidades que aparecem. Tudo nos chega por meio de quem conhecemos. Quanto mais as pessoas sabem do que você gosta e o que quer, mais chances têm de conseguir aquilo.

 

Vocé é o que você come

Sobre o que entra e sai de você

IMG_0906.JPGFoto na chapada Diamantina – Bahia, de um grande amigo e incrível fotógrafo, Lucas Dolei

Você é o que você come.

Lembro de perguntar quando era pequeno porque algumas pessoas comiam muito e engordavam, enquanto outras comiam muito e ficavam fortes. Demorei algum tempo pra realmente entender como funciona o corpo humano. O segredo está no que seu corpo faz com o que recebe.

O mesmo vale pro intelecto. Nos tornamos o que consumimos. Nos alimentamos do que lemos, ouvimos, vemos, e depois pensamos sobre, digerimos. Esse são os inputs. Assim como na comida, a qualidade faz toda a diferença. Você pode não ser quem pensa que é, mas é o que pensa. Em última instância, a qualidade dos seus pensamentos de fato define a sua qualidade da sua vida.

Assim como a comida deve ser consumida pra gerar a energia que nos move, e o excesso estoca-se de uma forma não saudável (há uma quantidade de gordura saudável, e a partir de um ponto o excesso passa a ser um problema), o mesmo pode-se pensar do intelecto. O que geramos com o que consumimos? Devemos criar, trabalhar, usar o que aprendemos. Como na alimentação, há de se buscar um equilíbrio ótimo entre consumo e uso, input e output. Pode-se consumir demais, assim como de menos, pode-se consumir ítens de má qualidade e sofrer as consequências, tal qual viver apenas de fast food.

Muito se conversa sobre uma alimentação balanceada, mas pouco pensamos a respeito de nossa vida mental. Há a necessidade de aplicar o que absorvemos, não apenas pra praticar o que de outra forma seria apenas teoria, mas para criar um vazio a ser preenchido mais pra frente. Assim criamos um estado de fluxo. Além de que so aprendemos realmente algo quando colocamos esse conhecimento em prática.

A musa é tão boa quanto a obra que ela inspira. Se quer ser um criador, um bom criador, consuma materiais de qualidade, se inspire, viva com seus heróis e heroínas, esteja atento ao fluxo do que entra e o que sai. Tenha fases de download e upload, devolva ao mundo aquilo que só você pode fazer.