Sobre se expressar, autoconfiança, e arte

As conexões entre a capacidade de se expressar, a autoconfiança e a arte.

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Poucas coisas são mais importantes que uma pessoa se expressar. Ser capaz de se comunicar, ter sua voz, experimentar os diversos meios pra tal. Tudo pode ser uma forma de expressão, essa é uma das belezas da maestria. Quando se evolui tanto na técnica que a sua dança, seu jogo de xadrez, sua forma de dirigir, de fazer cerveja, de tocar o violão, como resolver uma equação, tudo passa a ser único pois está completamente impregnado pela sua individualidade.

Autoconfiança é fundamental, mas principalmente pois ela significa acreditar e valorizar o que se tem a dizer. Ser autoconfiante é se levar a sério, é se perceber, se ouvir. Como todo equilíbrio é delicado, e se você vai demais nisso passa a se fechar em si mesmo e perde o contato com o mundo exterior, vira um ditador, um narcisista, um alienado. De menos e você não é ninguém, sem personalidade, sem presença. E falando não apenas da parte prática, de se posicionar no mercado de trabalho, lutar pelo que quer e interagir socialmente, mas de se relacionar.

Confiança é a base de qualquer relação, e a relação mais importante que você vai ter é com você mesmo. Do primeiro abrir dos olhos à última respiração você está consigo, e essa relação se desenvolve como todas as outras. Há altos e baixos, momentos de grandes felicidades, brigas, dúvidas, tudo, como num namoro, casamento ou uma grande amizade. Você vai admirar sua beleza, se achar o ser mais feio do mundo, agradecer por ser quem é, pensar em se matar, desejar ser outra pessoa, desejar saber quem você é. Tudo isso numa vida normal, o que muda é a intensidade e duração de cada um. Desenvolver a autoconfiança é investir em si.

O grande dilema do ovo e da galinha, do que é a causa e do que é a consequência. O ato de se expressar acontece com quem é confiante, ou a pessoa se torna mais confiante pois tem o hábito de se expressar? Pra mim os dois ocorrem, milhares de vezes, se alternam e se alimentam e se enfraquecem nessa estranhíssima dança que é o amadurecer.

Creio que a arte nasce dessa nossa necessidade de expressão, de nos explorar e comunicar os achados. Por isso o grande valor dela, um deles ao menos.

Já fui bem cético em relação a arte. Depois apenas me silenciei, numa fase de dúvidas e observações. Hoje acho que pode ser uma das coisas mais importantes que existem. No colégio a aula de artes era a menos respeitada, pois todo mundo sabia que ia passar de ano, não precisava estudar, a aula era divertida mas infelizmente acabava sendo levada menos a serio. Usava a aula de artes pra fazer o dever de casa da matéria seguinte, depois desenhava ou pintava algo.

Recentemente vi comentários sobre o papel da arte na sociedade, com as questões políticas em torno do ministério da cultura. A raiz do debate é o que me interessa (apesar de haverem diversos outros pontos a serem profundamente debatidos). Há quem diga que arte é tudo e há quem diga que não serve pra nada, ou só pra entreter, mas deve ter seu lugar abaixo das coisas sérias, como saúde por exemplo. Fiquei algum tempo pensando sobre o valor da arte.

Mais uma vez uma pergunta aparentemente simples – qual o valor da arte? – pede respostas das mais profundas que existem – qual o sentido da vida? Sim, pois pra dizer que algo é mais importante, de fato, precisamos saber essa resposta.

Acredito que somo seres espirituais encarnados, e por isso cada vida é uma etapa de aprendizado, uma oportunidade para evoluirmos moral e intelectualmente (juntamente com expiações de carmas e etc). Vejo que a arte, essa palavra grande que comporta tantas áreas distintas, é absolutamente capaz de prover ambos, e por isso, pra mim, tão valiosa quanto qualquer outro empreendimento. Se existem artistas preguiçosos, gananciosos e de má fé, creio que o mesmo pode se dizer de qualquer profissão. A arte tem sua função na vida de cada um. A apreciação do belo, a admiração da criatividade, da diversidade humana. Apreciar verdadeiramente algo é expandir seus horizontes. A oportunidade da investigação de si mesmo, a exploração de quem somos e a forma poética de se propor uma troca, de ouvir e ser ouvido…

Ela foge a uma análise puramente racional, e sinceramente acho que ainda há muito a se compreender, ou vivenciar.

Quando falam do papel do artista na sociedade penso que a arte tem seu papel na vida de cada um, basta apenas decidir em que medida. Temos pessoas dedicas exclusivamente à matemática, à física, ao estudo das línguas. A dedicação de uma pessoa a uma área de interesse deve ser função apenas de sua vontade, sua curiosidade. Uma pitada de praticidade e pé no chão, na medida em que temos recursos limitados, como tempo e atenção, e devemos dividi-los entre nossas atividades de forma, idealmente, a colher o que precisamos – segurança, variedade, significância, conexões, crescimento, contribuição. Isso vêm na forma de dinheiro, amigos, viagens, conversas, hobbies, amores, etc, etc. Cada um deve buscar seus interesses, seguir sua bússola interna.

Arte é como nos comunicamos, como tocamos e somos tocados. Gosto do conceito de arte antigo, como “a arte de fazer chá”, a arte disso ou daquilo outro. No fundo, tudo é uma arte, se dedicarmos atenção o suficiente, nada é pequeno ou insignificante.  Falei o tempo todo de arte no sentido que suponho ser que a maioria imagina, como sinônimo de artes audio-visuais (música, pintura, cinema, teatro…). Mas no fundo, vejo que arte está muito mais no como. No processo de criar seja lá o que for. Desde uma escultura à uma planilha de excel.

Ainda assim não acho a arte da medicina intrinsicamente mais valiosa que a arte da pintura. Apenas preciso de doses diferentes e momentos distintos da minha vida de cada uma delas. Ambas são importantes, ambas devem ser estudas, ambas permitem um progresso moral e intelectual.

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Essa imagem é de um dos meus artistas favoritos, Jean-Léon Gérôme.

O equilíbrio entre o novo e o velho

O ciclo sem fim…

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Há uma dinâmica que me atrai no ciclo de morte e vida, entre o novo e o velho, do que sai e cria espaço ao que entra. Isso ocorre em tantos locais, espaços, momentos, mas falar de um é falar de todos né. O macro está contido no micro.

Existe um dilema nas cidades por exemplo. Prédios antigos são marcos importantes, têm grande valor cultural, histórico, estético. É um atestado ao que a cidade viveu e como, muitas vezes preservá-los é um sinal de respeito ao que se passou. Por outro lado, a cidade é viva, e as estruturas que permitem e fomentam as atividades dela devem acompanhar e evoluir, assim como todo o resto. As demandas de eletricidade, vagas na garagem, cabeamentos e tantas outras simplesmente pedem alterações arquitetônicas incompatíveis com a preservação. Há casos onde o novo e o antigo conseguem conviver em harmonia, mas tantos outros onde isto não é possível.

Vejo a lapa aqui no Rio por exemplo, diversos prédios tombados pela prefeitura, o que significa que suas fachadas não podem ser alteradas. A lógica de se preservar uma estética do rio antigo faz total sentido. Por outro lado, na prática, o comércio que lá havia abandona o local, as regras de reforma de prédios tombados torna a revitalização tão cara (deve-se contratar marceneiros específicos, buscar materiais especiais e etc) que as pessoas optam por outros locais, deixando aqueles abandonados. Mas espaço vazio é um chamado ao preenchimento, que se dá na figura de desabrigados, usuários de drogas e toda sorte de pessoas que lá vão em busca de um abrigo. Sem entrar nas mazelas e desigualdades sociais que permitem que tais condições de vida existam em tão grande escala, acho curioso como tantas leis conseguem o reverso do que se propunham. Ao tombar os prédios a ideia era que fossem preservados, mas ao se criar uma lei sem se preocupar em prover as condições para que seja seguida, o resultado foi quase diametralmente oposto ao pretendido. A depreciação que veio gradualmente, fachadas feias, janelas quebradas, paredes pixadas e habitadas ilegalmente. De alguma forma ainda mantêm a estrutura arquitetônica, isso é verdade, mas ainda assim, poucos diriam que valeu a pena. A ideia era manter a rua preservada, mas não a custo de terminar ou inviabilizar o comércio e a vida que havia, e criar zonas inférteis e até perigosas. Há espaços bem preservados, como o teatro municipal, museus e tantos prédios, onde se encontrou uma funcionamento harmonioso com a cidade de hoje. Mas basta ir nas ruas menos frequentadas que a situação é outra.

Por isso é delicado criar uma regra geral, há de se analisar caso a caso. O equilíbrio entre o velho e o novo na cidade pode ser incrivelmente complexo e um assunto muito mais profundo do que os poucos pontos que eu citei. Pede-se pensar a função da cidade, incluindo o potencial econômico de uma região, pesando isso contra o apelo turístico, a responsabilidade histórica, o uso dos espaços públicos e as variadas questões locais, de mobilidade, segurança, saúde pública e etc.

Num nível, penso como é comigo, no micro-ambiente que é minha vida e minha casa. Sou mais propenso ao desapego. Em grande medida há um conflito quando falhamos em perceber uma grande verdade: a única constante é a mudança. O que varia é a velocidade dela. Numa cidade os ciclos são mais lentos se comparados à sua vida, mas o princípio é o mesmo e se aplica a ambos os casos. Viver em demasia no passado faz mal, assim como no futuro. Há de se aprender com o passado, ter uma noção clara dele, e ser capaz de olhar para o futuro, ser visionário o suficiente pra se inspirar e visualizar um ‘como poderia ser’. Mas o exagero em cada um é punido. Ficar revivendo um relacionamento que acabou o tempo todo não te satisfaz, é apenas uma sombra do que foi. Quem exagera nisso sofre não só por buscar algo que nunca terá, mas por se ausentar do momento presente, deixando de viver novas e mais completas emoções. O caso futuro é o mesmo, ser visionário é bom enquanto te faz agir de encontro a realização desse sonho, mas quem olha apenas pra longe deixa de ver o que está perto, vive eternamente insatisfeito(a), como o burro que persegue a cenoura amarrada a uma vara pendurada a sua frente. Não percebe que caminhará eternamente sem nunca conseguir o que busca.

Os extremos são úteis pra exemplificar uma ideia, mas cada um de nós está em algum ponto entre eles. Assim como nossos “erros” são menos extremos, proporcionais são as dores advindas. Gosto de pensar nos extremos pra acelerar o processo. O perigo de uma pequena dor é o “provisório permanente”, quando uma situação é desagradável, mas não ao ponto de nos fazer agir.

É o caso do conto chinês, onde o mestre encontra uma família muito pobre que só tem uma vaca, de quem eles tiram o sustento que conseguem – pouco, mas o suficiente para mantê-los. Resumindo, ele deixa a vaca fugir, e vai embora. Volta um ano depois e descobre todos melhores. Sem a vaca eles tiveram que encontrar outros meios de se sustentar, e agora cada membro da família tem um trabalho.

No caso do antigo e do novo, entender o que é o certo (pra mim) é entender quando e como a mudança deve acontecer, ou se já aconteceu e só faltava eu perceber isso. Acho foda a parte do Matrix Reloaded que o Neo conversa com a oráculo, e ela diz que não podemos ver além das decisões que não entendemos. Muitas vezes a decisão já foi feita, só nos falta compreendê-la (ou aceitá-la).

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Essa foto tirei em londres, achei bem legal o contraste das construções.

 

Ansiedade é falta de um Plano de Ação

O que suas emoções têm te sinalizado? E o que você têm feito a respeito?

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Ouvi uma entrevista com o Sebastian Junger no podcast do Tim Ferriss, na qual ele fala sobre stress na guerra (dentre outras coisas). Num estudo sobre o bem estar psicológico dos soldados, o stress foi medido pelos níveis de cortisol a cada hora. Havia um posto remoto com cerca de 20 homens, e quando eles souberam que seriam atacados o tenente encarregado, um jovem com pouco treinamento e grandes responsabilidade sobre a vida de todos, tinha níveis altíssimos até o momento em que o ataque deveria ocorrer. E depois desse momento, seu cortisol decaiu continuamente. E como não houve o ataque, continuou caindo até voltar ao normal. O caso com soldados de elite foi o oposto. Assim que eles souberam que estavam prestes a vivenciar um ataque sério, seus níveis de cortisol caíram. Eles ficaram super calmos. Era estressante esperar pelo desconhecido, mas assim que eles ouviram quando estariam sob ataque, eles tinham um plano de ação. Começaram a empilhar sacos de areia, a limpar os rifles, separar munições, toda essa ocupação deu a eles um senso de maestria e controle que realmente os fez se sentirem menos ansiosos que apenas ficar esperando.

A grande diferença é que esses soldados de elite sabiam o que fazer, tinham a confiança que nasce da competência.

Achei bem interessante essa parte da entrevista, pois muitas pessoas vivem com muito mais ansiedade do que acho que seria necessário. Medo nem se fala. A função das emoções são de enviar uma mensagem. Eu vejo uma cobra e meu organismo precisa de uma aviso bem impactante que faça com que eu pare de pensar na menina bonita e foque em evitar ser picado. Assim evoluímos, mas nosso mundo mudou. Depois que a cobra foi embora, não há mais necessidade do aviso, nem de me preparar pra correr ou lutar. E nossas emoções não são exatamente racionais, são mais como uma criança quando quer atenção. Se a mãe não olha ela simplesmente começa a falar cada vez mais alto, gritar até ser ouvida. Quando não prestamos atenção ou falhamos em agir, os avisos precisam ser repetidos, cada vez mais intensamente, e assim nascem crises de ansiedade, stress crônico e n outras condições. Não são os únicos motivos, creio, mas são certamente bem comuns.

De forma prática, acho que quando se sentir ansioso(a), vale pensar nisso como um indicador de que está faltando conhecimento nessa área. É, em grande parte, por não saber o que fazer. Um plano de ação é a melhor coisa, mesmo que a ação seja “descobrir o que fazer”. As perguntas que você se faz conduzem o seu pensamento. O cérebro é como um computador que executa os comandos. Se perguntar “como pude ser tão idiota?” é isso que ele vai tentar responder, e provavelmente conseguir. Já um uso melhor do seu CPU seria perguntar “e como posso resolver isso?” ou ainda “Será que consigo achar uma solução e me divertir no processo?”. Acho isso bem mais produtivo, e um desafio digno.

Uma pergunta interessante é “quem já passou por esse problema e o resolveu de uma forma que me agrada?”. Dai nasce a pesquisa de modelos. Se você quer chegar a um lugar, fale com quem já trilhou o caminho. Essa é apenas uma de infinitas possibilidades, e certamente mais agradável do que ruminar os diferentes, e improváveis, cenários nos quais sua vida poderia piorar. Ou se especializa em imaginar esses cenários e vira roteirista de filmes de suspense.. há sempre outras alternativas.

O painel do carro é o máximo. Tem um ponteiro que diz quanto tem de gasolina, e assim você sabe a hora de por mais. Outro diz a sua velocidade, e você pode acelerar ou frear conforme for, ainda uma luz que ascende se está faltando óleo. Saber ler cada indicador e o que fazer a respeito é fundamental, e o que permite que andemos de carro pra lá e pra cá. Agimos e corrigimos nossas ações constantemente graças a eles. Gaste um tempo se familiarizando com o seu próprio painel de controle. Você sabe quando fica com raiva? Triste, excitado, com receio? Quando você sabe? Se soubesse antes, o que gostaria de fazer?

Conhecemos mais os indicadores que usamos constantemente, por exemplo a fome, ou o sono, ou a vontade de ir ao banheiro. Usamos tanto que sabemos ler, entender quão intenso é a situação pela mensagem e decidir o melhor curso de ação. Outros ficam esquecidos, que nem aquela luz azul estranha no carro, o que quer dizer mesmo?

Conheça-te a ti mesmo, dizia o oráculo de Delphos. Há milhares de formas de se fazer isso, pois somos complexos e multifacetados. Mas certamente uma é aprendendo a ler nossos sinais. O corpo fala, não só ao demonstrar suas intenções com os outros, ele fala com você e sobre você. Sensações que em muitos casos pensamos ser aleatórias, até que começamos a prestar atenção e notamos os padrões. A raiva começa em mim com uma sensação bem específica no estômago, um tensionar dos ombros e do rosto, uma série de pequenas mudanças corporais que hoje consigo perceber. Há pensamentos também, devaneios e atos falhos. Porque comecei a me imaginar sendo entrevistado no programa do Jô? Sobre o que eu estava falando, e porque fui mais longe e visualizei algumas pessoas específicas me assistindo? Será que estou me sentindo pouco admirado, que tenho mais a oferecer do que os outros estão notando? O que mais?

Mesmo as músicas que me vêm a mente muitas vezes tem um porquê. Também não é necessário sobre-analisar cada segundo do seu dia, mas aposto que se começar a prestar mais atenção aos seus sinais, irá se surpreender.

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Ao escrever esse texto percebi que trato do mesmo assunto que em outros, e por isso pensei em não publicar. Mas depois lembrei de quantos autores que eu sigo que não fazem o mesmo, e eu adoro ler cada um. Por um lado, em alguns casos a repetição é mãe do aprendizado, então tem seu valor falar de um mesmo assunto por outro caminho. E ainda há de se considerar quem não lê tudo o que escrevi, que esse pode ser o único texto, então faz sentido repetir o tema. Além de que pra mim é uma forma de me aprofundar no assunto. Todos meus textos são ainda bem experimentais, portanto decidi que vale a pena seguir por enquanto.

E recomendo fortemente essa entrevista no podcast do Tim Ferriss, especialmente pra quem se interessa por jornalismo, antropologia, guerra e seu impacto nas pessoas. Achei excelente a conversa.

Banheiros sem gênero

Quão menor tem que ser o meu desconforto do seu, a ponto de eu topar mudar alguma coisa?

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Porque é que separamos o banheiro em masculino e feminino pra começo de conversa?

Tava vendo uma matéria sobre os transgêneros e me peguei pensando nisso. Qual a justificativa?

A primeira que me vem a mente é que no dos homens há o urinol, onde existem ângulos em que o pênis do cara poderia ser visto por uma mulher. O que é bem ridículo na real, especialmente se você já andou pelo RJ no carnaval. Existem diversas soluções, como aumentar um pouquinho a divisória, e outras tantas. E lembrar que o pior caso é esse, uma mulher que viu por um momento o pinto de um cara. Essa é meio que a única justificativa mesmo. Todas as outras são uma forma ou outra de forçação de barra.

Dentro da cabine não há diferença, fecha a porta e pronto. Quem falar que homem suja mais a privada nunca entrou num banheiro feminino. Em casa todo mundo divide banheiro, a questão é quando há banheiro onde irão diversas pessoas ao mesmo tempo.

Se falarem que mulher gosta de se maquiar, se ajeitar e conversar coisas que não falariam com homens perto, isso é uma questão cultural apenas, e, sim, se os banheiros fossem um só, haveriam mudanças, quanto a isso não há dúvidas. O ponto é se no final valeram a pena. Pra mim o que se perde é infinitamente menos importante que o que se ganha.

Mesmo pra quem não se importa muito com a questão dos transgêneros, gays, lésbicas e bisexuais, puramente por entender que estamos superando um tabu datado já seria motivo o suficiente. Como na Holanda onde se trata da sexualidade com muito mais naturalidade, pode-se ficar nu em público, até transar em alguns parques, não se vê o corpo com essa culpa e luxuria surreal. Só por isso já faz sentido ter apenas banheiros, sem distinção entre masculino e feminino. Entra todo mundo junto, quem quer ir na cabine vai, quem quer usar o urinol usa, e pronto. Cada um faz o seu. Somos todos seres humanos, vivemos em grupo, precisar de banheiros separados é dar vazão à pensamentos com os quais não mais concordamos. A verdade é que essa categoria “homem” e “mulher” é insuficiente e precisa ser atualizada. Mesmo que pra você isso não faça diferença, pra muitos faz, e, querendo ou não, vivemos em sociedade. Os desejos e problemas de cada um devem ser considerados, cada um a sua medida. Há casos nos quais o “sofrimento” de poucos é justificado, em outros não. Nesse caso pra mim é bem claro o que está em jogo, em cada lado da balança, e a solução me parece simples.

Tem um lado de exercer nossa civilidade. Toda vez que alguém sentir um desconforto por estar compartilhando o banheiro com alguém do sexo oposto, essa pessoa pode se lembrar que esse incômodo é muito menor que o preconceito que tantos sofrem pela orientação sexual.

Quão menor tem que ser o meu desconforto em relação ao seu, a ponto de eu topar mudar alguma coisa?

Vestiários pra mim ainda devem esperar. Como nele realmente as pessoas ficam peladas, ainda há uma possibilidade de uma tensão sexual que gere um grande desconforto pra muita gente. Acho que o ideal é caminhar pra uma sociedade na qual não haja o menor problema ou risco em uma mulher e um homem desconhecidos se trocarem na frente um do outro, sem desrespeito. Mas admito que no Brasil ainda não estamos lá, na minha opinião. Mas banheiros públicos, de shoppings e restaurantes? São usados pra xixi e cocô, e a pia, pra lavar as mãos e alguém se maquiar. É isso, nada que não possa ser compartilhado entre os diferentes sexos. Financeiramente é mais eficiente e barato construir um banheiro com capacidade pra 12 pessoas do que dois com capacidade pra 6 cada, por exemplo.

Muitos propõem um terceiro banheiro, talvez seja um passo necessário, mas gostaria de caminhar de encontro a uma sociedade na qual essa distinção não importa. Assim como posso sentar a mesa do lado de uma mulher, um gay, um travesti ou o que for, não me incomodo de ir ao banheiro ao lado dele ou dela. E se me incomodo, quero parar de me incomodar.

No Japão por exemplo as pessoas usam máscaras na rua não apenas pra não se contaminarem, mas pra não contaminarem os outros com um vírus que tenham. Há um respeito imenso pelo outro. Como em tudo cultural há exageros, mas no geral é importante tomarmos decisões que nos direcione no sentido certo, de se preocupar com o outro e viver bem em comunidade. Temos investido de forma desequilibrada no individualismo a séculos, e há um preço pra essa hubris, pra tudo que passa da medida. Compreender aonde estamos falhando e buscar compensar isso é o objetivo de atualizarmos algumas regras. Essa pra mim, já passou da hora.

Curioso como uma coisa tão pequena, tão comum quanto a divisão de banheiros pode dizer tanto sobre nossa sociedade e o momento em que vivemos. Como fazemos uma coisa é como fazemos tudo.

Sobre o Amor

Amar, sem saber como amar, pode ferir a pessoa que amamos.

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Estava pensando sobre o amor. O tipo de filosofia mais clichê possível né..
Eis minhas ruminações.

Definição:
Acho que a palavra amor é usada em diversos sentidos. Em geral, significa um sentimento bom ao extremo. Só isso.
Qualquer sentimento “bom” quando vai aumentando a intensidade, a partir de um dado momento vira amor. Se eu gosto de chocolate, mas vou passando a gostar cada vez mais, gosto muito, gosto demais, amo. E a partir dai não temos outra palavra. Posso dizer amo muito, demais e etc, mas fica tudo no amor, é o mais longe que chegamos.

E há pacotes de emoções. Quando digo que amo alguém, é um extremo do gostar, mas esse gostar é composto de uma série de emoções, em gradações diferentes. As vezes todas ao extremo, em geral umas mais que outras. Há o carinho, o respeito, a cumplicidade, o tesão, o prazer das memórias que temos com essa pessoa e a sensação de que ela pertence à sua história de vida, à sua identidade de alguma forma, a admiração e tantos outros sentimentos, que somados nos permitem dizer “eu te amo”. Não é preciso ter todos, tenho tesão pela minha namorada e não pela minha prima, tenho mais diversão com uma ou mais carinho com outra. Na verdade, poderia perder muitos que, como cada um é vivido num extremo, já é o suficiente pra dizer que amo. Só o carinho que tenho pelo meu pai já é mais que suficiente pra dizer que o amo. Só o respeito sozinho também, só a admiração, ou as nossas memórias. Todos juntos então…

Amar algo ou alguém é amar como ela nos faz sentir – quando com ela, ou mesmo por pensar nela (não é a toa que o símbolo clássico do amor é um coração). Se digo que amo essa escola, digo que amo o que ela significa pra mim, as histórias a que ela me remete, o que vivi ali, pode ser que admire a beleza da construção também, ou não, que tenha medo que ela feche ou não, mas a raiz é a mesma: um, ou vários, sentimentos bons, ao extremo.

Existe o uso da palavra amor como sinônimo de sexo, ou como apelido ao parceiro romântico. Em muitos casos esses sentimentos em relação ao outro são sentidos mais fortemente, com sexo, intimidade e etc, mas ainda assim, no fundo, é um extremo do gostar. Ou usa-se pela força do hábito sem realmente “querer dizer” aquilo.

Quando digo extremo, imagino uma linha infinita onde a intensidade da sensação cresce da esquerda pra direita. A partir de um zero (indiferente) quanto mais pra direita, mais forte é a sensação. A partir de um certo ponto entramos na área do “amor”, mas a linha é infinita. Então você pode usar a palavra “amor” pra duas coisas diferentes, e sentir uma série de emoções muito mais fortemente pra uma que pra outra, ainda assim só temos ‘amor’ como vocabulário. Ai colocamos os advérbios de intensidade, como muito, demais, absurdamente, e etc.

Pode ser o extremo de uma sensação de calma, paz, tranquilidade. Uma sensação de conexão, de pertencer. Pode ser por admirar uma beleza natural, por se surpreender com a magnitude do universo. Ainda assim, são sensações “boas” em grande intensidade.

Passada a definição, entramos na parte mais prática.

“Há dificilmente outra atividade, outro empreendimento, que seja iniciado com tão tremendas esperanças e expectativas, e, no entanto, que falhe tão regularmente, quanto o amor.”

“Amar sem saber como amar fere a pessoa que amamos.”

Acho importantíssimo ver ‘amar’ como um verbo. Assim você pode ‘amar alguém’, ativamente, é algo que escolhe fazer e faz. O “amor” acontece também, sim; há momentos onde simplesmente vivemos o ‘estar apaixonado’, mas pensar que essa é a única forma nos torna reféns, vítimas e incapazes de ter mais, pela passividade. E nem é que ele simplesmente acontece, é que o que você está fazendo, não o faz sabendo que pode levar à paixão (ao amor), o faz por outros motivos e quando percebe que está curtindo um amor, parece que ele veio do nada. Seria como estar brincando com uma comida crua, fogo e temperos e de repente perceber que há uma refeição pronta. Mas seria incompleto pensar que a comida “aconteceu”. E sem cair no outro extremo de tentar controlar tudo, querer fazer o outro se apaixonar por você. Só controlamos as nossas ações. Podemos nos abrir emocionalmente, nos colocar disponíveis, ouvir, admirar, doar e tudo o mais, mas a reação do outro é dele ou dela.
Amar é uma arte, uma habilidade, e como todas as outras pode, e deve, ser desenvolvida em cada um.

Há um aspecto da expansão do círculo de identidade, onde passamos a nos preocupar com a pessoa (ou coisa) amada como se ela fizesse parte de nós mesmos. Essa dissolução ou expansão da nossa fronteira pessoal é sutil ainda, mas algo que acho fascinante, e com muito potencial. Penso que com o tempo é por ai que teremos mais experiências de amor, e de alguma forma é nisso que iremos crescer e nos desenvolver, é assim que o “amor” pode ser uma solução. Pois somos egoístas, somos auto-centrados e tudo o mais. Quando o Eu passa a incluir o outro, ai sim eu me preocupo de verdade com você. E a raiz de tantos problemas é a separação, a distância que percebo entre você e eu, entre suas crenças e as minhas, e o medo que advém dai, gerando raiva, rancor e etc. Quando minha preocupação realmente se expande e engloba o outro, isso é forte, e em geral acontece mais intensamente através do amor.

Acho que temos trailers disso, quando amamos muito alguém, vivemos essa expansão da identidade em alguma medida e permanecemos nesse estado, por instantes apenas, mas ele é tão forte que a sensação residual afeta nossas ações permanentemente. Toda mãe se preocupa com seu filho e sente que ele é ‘parte dela’, mas a intensidade do que estou falando, acho que só é realmente sentida por breves momentos. E é o que acho que conforme a humanidade evolui, mais e mais teremos isso. Com familiares, amigos, conhecidos…

Quando alimentamos e apoiamos a nossa própria felicidade, estamos nutrindo a nossa habilidade para amar. Só podemos dar o que temos. Não importa o quanto você esprema uma laranja, dela só sairá suco de laranja, pois é o que tem ali. E de você, o que sai?

Stephen Covey fala do caminho que começa na Dependência, vai para a Independência, e só depois pode chegar na Interdependência – a forma mais completa de relação. Se você não está bem sozinho, não é o outro que vai resolver suas questões, pelo menos não de uma forma sustentável. Pode até melhorar por um tempo, assim como tomar um copão de água parece matar a fome, pois momentaneamente enche o estômago, mas não é uma solução duradoura. Há momentos onde precisamos parar e olhar pra dentro, investir em nós mesmos, pois é isso que teremos a oferecer ao outro, é com isso que iremos vivenciar o amor, nos tornar dignos dele. Se não fica bem sozinho não ficará bem com o outro.

E “quando o aluno está pronto, o mestre aparece”. Isso vale pra tudo, você atrai aquilo com o que está em sintonia, não de uma forma mágica ou sem sentido. Se você é um cientista político, é natural que tenha conversas profundas sobre esse assunto, não que magicamente vão se aproximar de você apenas textos e pessoas com conteúdo, mas você filtra, se aproxima de uns e se afasta de outros naturalmente, pois é o que está em sintonia, onde se sente bem, onde há sinergia.

Li num livro a melhor dica em relação a conquistar o sexo oposto. Ele dizia, “se você quer que a mulher queira estar com você, ela deve te achar interessante”. Concordo, pensei, até ai estamos juntos. “E como fazer pra ela te achar interessante?”, eis a grande pergunta, essa eu quero saber. “Seja interessante”. Foi tão ridículo e simples, mas me marcou. É realmente isso, não tem atalho, não tem enganação. Se quer de verdade vai ter que fazer por onde. Isso fez tanto sentido que eu aplico (ou tento) pra tudo. E pode trocar interessante pelo que quiser, a essência é a mesma. Seja isso, torne-se isso. A autenticidade é fundamental.

Viver boas emoções é um objetivo de vida de todos, mesmo que inconscientemente. Buscamos o prazer e fugimos da dor, e, nesse caso, amor é o prazer máximo. Quanto mais pensamos sobre um assunto, mais percebemos a limitação da nossa linguagem, e assim ela cresce. A física usa muito o conceito “energia”, mas em algum momento ele não era mais suficiente. Assim criamos a energia potencial gravitacional, energia cinética, mecânica, energia em forma de calor, medida em Joules, de força, medida em Newtons, pressão, etc, etc. Creio que o mesmo vá acontecer com o amor. Conforme formos vivendo mais e mais gamas de experiências, iremos percebendo o quanto nosso vocabulário é limitado pra expressar como nos sentimos. Por um tempo os poetas e músicos contornam essas limitações, pois brincam com as palavras, usando metáforas e tudo o mais, mas mesmo assim, a língua acompanha o pensamento. Não é a toa que os esquimós têm 9 palavras pra neve.

O amor, como tudo, pede um ambiente interno no qual ele pode acontecer. Quando nos livramos de medos, bloqueios e travas que impedem nossa experiência em níveis mais profundos. Você não consegue andar a 200 km/h num carro com pneu furado. Se tentar apreciar uma bebida deliciosa num copo todo sujo, a experiência fica abaixo do seu potencial. Ter uma relação com alguém mantendo as inseguranças, ciúmes, raivas e outras pedras emocionais simplesmente impedem que você viva tudo o que poderia. Ainda assim pode-se alcançar muito, mas quanto mais nos livramos desses resíduos, mais limpo é o caminho para um fluxo energético, mais intensas e boas as experiências. Falo mais de trocas entre pessoas, relacionamentos, pois é onde vivenciamos o amor com maior frequência, mas o mesmo vale pra relações com a natureza, com sua espiritualidade, seu trabalho ou o que for.

Gosto tanto que fui fazer outra coisa

Sobre quando optamos pelo caminho mais longo

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Sempre achei interessante o conselho de se fazer o que ama. Mas como tudo, ele pode ser simplista e mal interpretado.
Sou desde cedo apaixonado pelo ramo da educação, pela ideia de dar aulas, de ter uma escola, de treinar professores e tudo o mais. Tanto que decidi fazer outras coisas. Pois percebi que nesse meio não me contentaria em ser apenas um bom professor. E se quero colher mais, preciso plantar mais.

Entendi ter uma escola não é necessariamente o investimento mais rentável, então não quero entrar nessa pelo dinheiro – como todo empreendimento saudável, ele deve ser sustentável, pagar as contas e gerar algum lucro, mas isso apenas – a partir dai o foco é outro. Entendi que precisaria estar “mais forte” pra fazer o que quero, e vi que não tinha pressa também. Dei aulas num cursinho comunitário e agora sou professor de inglês de uma ong, mas entendo isso como um treinamento, um espaço de prática. Entrei no teatro pra me aperfeiçoar e aprender a me expressar melhor, pensando na sala de aula. Acabei me apaixonando por essa arte e pretendo seguir mais caminhos por ai, mas isso em nada me distancia da educação, pelo contrário, é só um caminho paralelo. Na consultoria em gestão tenho aprendido muito, o que me permite pensar um negócio cada vez mais sólido quando considero de fato ter uma escola ou algo assim. Nesse ritmo, tenho tempo de ler, estudar e conversar sobre diversas abordagens pedagógicas, sigo educadores e vou acumulando ferramentas e práticas que sei que serão fundamentais mais pra frente.

O Japão tem tradição de buscar a perfeição em cada atividade. Um cozinheiro aprendiz pode ficar anos apenas lavando e preparando o peixe. Mas quando vêm a cortar, entende que esses anos não foram a toa, e serviram pra criar um fundamento e estado de espírito, um respeito pela arte que realmente pedem outro tempo e dedicação. Diferente de nós, que entramos na academia querendo resultados pra ontem, começamos a praticar violão hoje querendo tocar com amigos no fim de semana. Há valor nas duas abordagens, dependendo do seu objetivo, uma, ou outra, podem fazer mais sentido.

Entendo que nossa vida é grande o suficiente pra nos dedicarmos a mais de uma coisa, e mesmo assim, tudo está interligado. O que aprendo na capoeira vem a me ajudar no teatro, o que desenvolvi com o hábito de escrever me torna um amante melhor.

Outras áreas de interesse eu parei meio que sem querer e pretendo retomar mais pra frente. Como desenhar, algo que sempre gostei e quero voltar em breve. Pretendo um dia me dedicar a algum instrumento musical, e quero voltar a mergulhar fundo no mundo do improviso, mas tudo a seu tempo. Se imaginar que vou viver até uns 80 anos com lucidez (o que acho plausível) sei que posso me dedicar muito a muitas coisas, o segredo é consistência e disciplina. Gosto dessas atividades, mas ainda não sou completamente apaixonado. Sei que há uma chama que se for alimentada vai crescer, então tenho a calma de esperar o momento certo, pois também não quero me dedicar a mil coisas num mesmo momento e acabar não fazendo nada direito. Quero poder dar a cada interesse desses a chance de virar um grande amor.

Fazer o que ama é difícil pois podemos amar muitas coisas. Antes disso, algumas levam um tempo pra se entender, pra gostar, e com o tempo, amar. Como um casamento arranjado de antigamente (os bem sucedidos), há casos onde se aprende a gostar. Existem também casos de amor a primeira vista, mas assim como nos relacionamentos com pessoas, nossas paixões por trabalhos e empregos são incrivelmente diversas e complexas.

Dois dos melhores livros que li sobre o assunto foram “O Elemento-Chave” do Ken Robinson, e “Maestria” do Robert Greene. Falam do desafio que é encontrar ou desenvolver sua paixão num determinado campo, os obstáculos, internos, sociais, as pressões e histórias de diversas pessoas. Recomendo.

Círculos de Influência e de Preocupação

Sobre se preocupar com o que não se pode influenciar.

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“Em tempos de crise…”

Se o que vem depois dessa frase é uma justificativa pra qualquer coisa pessoal, eu nunca levo completamente a serio. Existem observações válidas sobre os fatos, sobre os acontecimentos do país, e existem conversas sérias sobre economia, política e etc. Mas em geral esse papo vem como justificativa pra outra coisa. Porque está difícil arranjar um emprego, ou porque está complicado que o cliente…

Pra mim, a questão é que você é um só. Observações sobre o macro nunca se aplicam a um, você sempre pode ser a excessão, se quiser.

Lembro de um professor no pré-vestibular respondendo ao aluno que reclamou que o número de vagas pro seu curso tinha diminuído. Ele disse “E de quantas vagas você precisa? Só uma. Têm uma? Então pronto, vai estudar!” Achei sensacional.

O cara tava sofrendo por antecipação, inventando problema aonde não tinha. Não importa quantas vagas tem se eu não passar, podem multiplicar por 10 o número que, se eu ficar de fora, não me serviu. A não ser que eu esteja discutindo o papel da faculdade e desse curso na sociedade. Quando estamos inseguros quanto a algo, buscamos fora a compensação pro que deveria vir de dentro. O aluno estava inseguro quanto a sua escolha de curso, quanto ao seu preparo pra prova, e qualquer informação externa que tornasse (aparentemente) sua aprovação mais provável, ou não, tinha um grande impacto nele.

O Stephen Covey fala sobre o círculo de preocupação (dentro do qual há tudo com o que você se preocupa) e o círculo de influência (dentro do qual há tudo que você pode influenciar). Não é muito produtivo se preocupar com coisas com as quais não têm influência. No caso da prova, tudo que eu posso fazer é estudar, me preparar mais e pronto. Ficar reclamando sobre a diminuição das vagas ou qualquer coisa é um desperdício de energia (que seria melhor empregada agindo, ou mesmo pensando sobre a melhor forma de resolver o problema). “O que não tem solução, solucionado está.” Ou como diz a prece “dai-me força para mudar o que pode ser mudado, resignação para aceitar o que não pode ser mudado, e sabedoria para distinguir a diferença.”

Em geral quando ouço alguém falando dos tempos de crise, essa pessoa esta se preocupando com algo sobre o qual não tem influência. E em geral essa mesma pessoa não foca em nenhum momento no que de fato pode fazer, ou muito menos do que o necessário. Mas há excessões. E ainda vale lembrar que se tem gente chorando, tem gente vendendo lenço. Toda crise é uma oportunidade. De que lado você prefere estar? Do que reclama ou do que aproveita e age?

Post Scriptum: Por um bom tempo era só isso que pensava dos círculos de influência e preocupação. Há alguns dias li sobre o caso oposto, situações que estão dentro do meu círculo de influência e fora do de preocupação. Ou seja, quando minhas ações tem repercução nos outros, mas eu não to pensando nisso, não to atento a elas.

Como comentar algo sem pensar muito e depois descobrir que alguém ficou super mal com isso. Algo que eu fiz sem me preocupar, quando devia, pois aquilo seria afetado por mim de alguma forma, estava sob minha influência. Devemos ter cuidado com tudo que está sob nossa influência. Já ouvi de amigas minhas que deixaram de ir numa viagem com amigos por causa de um comentário sem a menor importância pra quem o fez. Ou de empresas que gastam tempo e dinheiro com um pedido que depois é cancelado – a pessoa teve influência sem ter a preocupação correspondente. Há sempre casos onde isso acontece por bons motivos, aqui estou me relembrando a ficar atento aos que são impactados por mim E onde não estou me preocupando o suficiente.

E falando em preocupação, ela só tem valor como lembrete pra decisão e ação. A partir do momento em que você entendeu o problema e decidiu agir, ela não tem mais utilidade. Pelo contrário, continuar se preocupando a partir dai é a receita pra stress, ansiedade, irritação e etc.