Onde você gostaria de estar agora?

É verdade que nem sempre podemos estar onde queremos, mas quantas vezes não estamos onde queremos, ainda assim desejando estar em outro lugar?

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Onde você gostaria de estar agora?

Essa pergunta foi feita num workshop com centenas de pessoas, e cada uma escreveu sua resposta num pedaço de papel. Depois o palestrante leu algumas: “Na praia. Em casa com meus filhos. No Havaí. Numa cachoeira…”.
Uma pessoa respondeu: “Aqui. Eu me inscrevi pra esse workshop, paguei, escolhi vir pra cá, então é exatamente aqui que eu quero estar.”

Fazemos o que queremos. É tudo uma questão de causa e consequência. Digo que não posso faltar o trabalho, mas a verdade é que não quero, com medo de ser demitido. Na verdade, nem demitido, mas provavelmente seria mal visto, poderia ter alguns incômodos, explicações… Como eu não quero isso, eu quero ir trabalhar. Como eu não quero engordar, eu quero ir na academia. E quando eu estou na academia, e lá que eu quero estar.

O filme “Meu nome não é Johnny” tem uma cena na qual ele pode voltar pra casa por um dia, depois de ficar preso por um tempo. O caminho passa por partes do Rio pelas quais ando sempre. O filme me envolveu bastante, entrei na história, e lembro de sentir o alívio que o personagem deveria sentir ao ver a paisagem. Ele estava há meses na prisão, em lugares horríveis, com a perspectiva de ficar anos trancafiado, e de repente está andando de carro, passando pela orla, olhando as pessoas na rua, o céu, mesmo o trânsito e prédios nada especiais. Que prazer absurdo tudo isso. Me tocou mais fortemente por serem cenários do meu cotidiano. Não acho que precisamos aplaudir o por-do-sol todo dia, mas realmente me vi admirando coisas como há um tempo eu não fazia. O filme “Bicho de 7 cabeças” tem uma cena parecida.

Um dia dando carona pra uma amiga peguei um trânsito que normalmente acharia chato. Mas esse dia eu sabia que o tempo no carro seria o tempo que eu teria com ela, a conversa tava boa, o clima agradável, e eu me peguei agradecendo ao trânsito. Não tem nada intrinsicamente ruim no fato de carros estarem andando devagar. Nós é que interpretamos assim tanto que parece que só há uma reação – ficar irritado ou pelo menos incomodado.

A vida não é só feita de momentos de fotos do instagram, onde todos estão sorrindo, você está saltando da cachoeira ou dando a volta em Ilha Grande. Essas coisas são incríveis, mas boa parte da vida é você andando pra pegar um ônibus, comendo um queijo quente sozinho na padaria, vendo TV em casa, parado no sinal, esperando. Não costumamos glorificar esses momentos, nem costumamos postar fotos deles.

Vivemos muita vezes como reféns da cultura do resultado. Essa noção maquiavélica de valorizar apenas os fins. O que importa é a nota boa no boletim, o dinheiro no banco, a medalha de ouro. Esses marcos de sucessos passam a ser confundidos com o sucesso em si. É um ‘usar a parte pelo todo’. Dinheiro é útil pois com ele consigo outras coisas, mas ele em si não me traz felicidade. Confundimos o símbolo com o que ele deveria significar. O atleta treina por 4 anos por um breve momento ao Sol, seus 10 segundos no 100 metros rasos. Se ganhou, tudo valeu a pena, senão, que pena.

Gosto da reflexão que o Taoismo sugere. O Tao é o caminho. A vida ocorre no caminho, nas transições tanto quanto nos finais. É importante ter metas, e os símbolos do “sucesso” nos estimulam a seguir em frente e superar obstáculos. Pensar na plateia lotada e no reconhecimento que posso ter ao dirigir uma peça é um motivador a mais pra ir trabalhar todo dia. Mas que isso nunca me tire do agora, da diversão, do mergulho que é o processo de criação, a interação com as pessoas, o que inclui as partes ‘boas’ e ‘ruins’. As discussões, perdas e erros fazem parte da vida, fazem parte da nossa história e de quem nos tornamos.

Lamentamos a morte de um ente querido não apenas pelas qualidades mas também pelos seus defeitos, isso tudo era aquela pessoa. Existe uma diferença entre apreciar o momento e ser um bobo alegre. Posso aceitar uma tristeza por exemplo, não gostar dela, mas compreender que ela tem seu valor e viver esse momento sem tentar fugir, mas estando consciente das mudanças que preciso fazer pra evitar isso mais pra frente.

Tudo é interessante, pois tudo é novidade. Posso achar interessante a dor de uma pancada no dedo sem necessariamente gostar ou querer de novo. Simplesmente entendo a unicidade do acontecimento, estou vivo, coisas acontecem comigo.

Existem duas palavras em alemão que diferenciam o poder: “Kann” e “Darf”. Kann é poder no sentido de capacidade, e Darf é poder no sentido de ter permissão. Assim eu posso (kann) andar no metrô sem camisa, mas eu não posso (darf). Acho bem válida essa distinção, pois comumente confundimos os dois. É claro que eu posso faltar o trabalho amanhã, mas eu não quero. É uma relação de causa e consequência. Eu não quero deixar os clientes e pessoas que dependem de mim esperando, não quero correr o risco de ser demitido, não quero que pensem que sou irresponsável, e etc, por isso eu quero ir ao trabalho.

Ninguém é obrigado a nada. Mesmo se um cara põe uma arma na sua cabeça e diz pra fazer algo, ainda assim você fez porque quis. O motivador pode ter sido não levar um tiro. Mas raríssimos casos são tão extremos. A grande maioria das coisas que dizemos ser obrigados a fazer não são assim. É simplesmente uma questão das consequências, mas mais que isso, em geral das possíveis consequências.

É verdade que nem sempre podemos estar onde queremos, mas quantas vezes não estamos onde queremos, ainda assim desejando estar em outro lugar?

Muitas vezes eu ouço algo e logo penso numa exceção. Leio “Meditar todo dia é um hábito que reduz ansiedade” e já penso ‘é, mas tem outras coisas que reduzem ansiedade. E tem gente que medita e continua ansiosa. E pior, tem gente que acha que ta meditando, fica sentada um tempo e sai se sentindo o buddha encarnado, e no final não teve um minuto de concentração’. Ok, calma. A frase não vai de encontro a nada disso. Ela disse o que disse, e tenho achado mais útil buscar o valor de algo do que tentar encontrar as possíveis falhas (mas ainda assim ficar atento a elas).

Onde você gostaria de estar agora vale pra tudo. No que você está pensando, o que está lendo. Porque estou aqui? Porque estou nesse momento fazendo isso?

Mesmo que seja algo que eu esteja fazendo apenas pelo resultado, estou indo no dentista não por achar a experiência agradável, mas porque não quero ter cáries e etc. Ok, mas a vida acontece mais nesses meios do que qualquer outra coisa. É a mensagem do filme “Click”. Pode ser meio bobo, mas um cara tem um controle que o permite controlar a realidade. Ele começa a avançar, pular capítulos “chatos” de sua vida pra chegar aonde queria. A moral, na minha opinião, é que quando ele percebe, ele pulou a vida inteira. Todos os pequenos momentos, as vezes vistos como chatos, um jantar de família, um trânsito no caminho pro trabalho, uma briga com a esposa, bem, é disso que a vida é feita.

Acredito que é possível se aproveitar muito mais cada momento, viver de fato o presente. Ansiedade é viver demais no futuro, e depressão é viver demais no passado (demais é a palavra-chave aqui). Acho que a vida é como um monitor de batimentos cardíacos. O presente no meio, futuro em cima, passado em baixo. É saudável ir pro futuro e voltar pro passado, a questão é por quanto tempo. Quando eu pego um copo antes de abrir a torneira do filtro, o faço pois pensei à frente. Sem essa ida mental ao futuro, apenas molho o chão da cozinha. Se te vejo e reconheço é porque mantenho minhas memórias, minhas ligações com o passado. Essas são variações saudáveis. O problema é ficar demais num ou noutro, pois sempre que estamos lá, deixamos de estar cá.

 

E você, onde gostaria de estar agora?