Porque eu não quero mais ser VIP

Sobre dar e receber, preço e valor, e um bom mate na praia.

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Sempre gostei de ser convidado pra peças de amigos e entrar de graça pela lista vip. Um lado egoico adora o tratamento diferenciado, e ainda curtia economizar o dinheiro do ingresso. Tendo feito teatro um tempo, acabei conhecendo muita gente do meio, e tive algumas oportunidades assim.

Certa vez eu estava em cartaz com uma peça e uma amigo disse que iria assistir. Perguntei se ia com mais alguém pra colocar os nomes na lista de convidados, mas ele disse que não, que fazia questão de pagar a entrada, fazia questão de contribuir. Aquilo me fez pensar bastante. Quando viajei com esse amigo reparei que ele sempre dava dinheiro pra artistas de rua, e fazia coisas como passar numa padaria, ver um doce interessante e comprar um monte pra levar pro grupo todo. Não chegava a ser um esbanjador, o vi pesquisando preços e negociando um bom valor em passeios que fizemos. O ponto é que não buscava se dar bem, nem deixava que se dessem bem à sua custa. Esse ponto entre esbanjar e ser pão duro é difícil de encontrar.

Parece que a máxima do consumidor é que quanto mais barato melhor. Hoje em dia eu discordo, acho essa ótica um tanto míope. Não quero um preço barato, tampouco caro. Quero um preço justo.

Adoro mate, chás gelados em geral, mas em particular o mate com limão da praia, pra mim, é inigualável. Não entendo até hoje como as lojas com todos os aparatos da cozinha não conseguem replicar o delicioso sabor do mate de galão.

Lembro de um dia notar na praia no leblon as pessoas barganhando o preço, constantemente. “Quanto é? 4 reais chefe, geladão! 4?.. Faz 3 por 10?”

Vi depois as mesmas pessoas almoçando no Gula Gula, pagando R$ 6,90 numa coca-cola sem reclamar. E ainda dando 10% ao garçom que trabalha no ar-condicionado, com carteira assinada e banheiro à disposição. Já o cara do mate pega um trem, um metrô e um ônibus, carrega dois galões pesados debaixo dum sol escaldante na areia fofa, andando pra lá e pra ca, só pra te servir um mate com limão gelado, com direito a um chorinho, e o pessoal ainda vem barganhar o preço.

Vejo moradores aceitarem um aumento de 200 reais no condomínio sem nenhum bom motivo, mas discutindo horas se vale a pena trocar a cadeira do porteiro por uma nova.

Sermos cidadãos mais conscientes na hora de votar é fundamental. Mas eleições ocorrem a cada 2 anos. Há um outro tipo de voto que fazemos toda hora de igual ou maior impacto. A cada dia votamos com as nossas carteiras no tipo de produto e serviço que iremos fomentar. Criamos demanda constantemente, participamos ativamente dessa roda econômica – querendo ou não. Ações falam mais alto que palavras, e o mercado é cego a todo o resto. Se tem gente comprando, tem gente vendendo – e gente produzindo.

Meu primo disse que parou de comer coração de galinha quando caiu a ficha de que cada coração representava uma galinha morta, necessariamente. Aquela fila de corações apertados uns contra os outros era um lembrete numérico forte demais, o aperto literal gerou nele um metafórico. Ele sabe que é hipocrisia continuar comendo o resto, admite isso numa boa, mas acho que nesse caso fica mais difícil se enganar ou não perceber – a relação entre oferta e demanda é inegável, é um pra um. O mesmo acontece com casacos de pele. Nos tornamos conscientes do processo produtivo e rejeitamos a ideia de participar dessa indústria cruel. É mais difícil quando a coisa fica mais distante, produtos mais complexos têm o sofrimento mais “diluído”.

Fico realmente incomodado ao ver como alocamos mal nossos recursos. Confundimos preço com valor. Preço é uma função da oferta e demanda apenas, sem quaisquer juízo de valor. Sem refletir, intuímos que algo caro deve nos trazer mais prazer que algo barato. Bem vindo à sociedade de consumo. Um olhar no programa “acumuladores”, crises de depressão entre milionários e veremos que a coisa não é bem assim.

É interessante ver a máquina do capitalismo trazendo eficiência e inovação aonde precisa. Vejo o mercado de esportes radicais por exemplo. Hoje em dia temos muito mais opções de equipamentos bons, com mais qualidade e menor preço. Havia demanda e assim a oferta veio atrás. Perfeito. Fico feliz de conhecer empresas como a Patagonia, que busca pagar bem todos os fornecedores, fomentar relações de trabalho saudáveis e produz material de qualidade, preocupada com seu impacto no meio ambiente.

Uma das críticas mais fortes ao consumo de drogas é compreender que quem compra um baseado (no Brasil) sabe que alimenta o tráfico e toda uma cadeia de violência e crime que dele advém.

Entendi que minha atitude com o teatro destoava completamente dos meus ideais. Valorizo esse meio e quero que contribuir com ele. Quero ser um consumidor consciente, e fico feliz cada vez que pago por algo em que acredito, e mais ainda se é um de nicho subvalorizado – quando compro um livro, vou a um show ou tomo um saboroso mate na praia.

Me entristece ver quantas pessoas buscam um emprego público pensando apenas no que podem tirar dali. A mentalidade do “se dar bem”. Não fazem um concurso pra ser útil naquela área, se isso acontecer, que bom, mas o foco é no eu. Qual o salário? Tem que trabalhar muito? Qual o máximo de migué que posso dar, como fazer o mínimo e ganhar o máximo?

Penso o contrário. Quero entregar mais valor do que recebi em troca, sempre. Isso me empurra na direção de me melhorar. Se quero uma boa condição financeira preciso merecê-la. Lembro de ouvir um bilionário falando: “quer saber como ficar bilionário? Ajude um bilhão de pessoas.” Acho que a mentalidade sugadora, a predisposição a se aproveitar, buscar o melhor pra si sempre, essa é uma das mais danosas, não aos outros apenas, mas a si mesmo. Ela impede o acesso à criatividade, à capacidade de criar, de gerar, que está inevitavelmente ligada à lógica da abundância. A da escassez fomenta um estado de espírito péssimo no longo prazo. Detona sua auto-estima, cria uma profunda culpa que negamos e buscamos anestesiar com bebidas, remédios, coisas brilhantes e estimulantes, festas, filmes e roupas novas, mas no fundo não dá pra fugir de si mesmo.

Isaac Asimov previa um futuro no qual a punição máxima era proibir alguém de trabalhar, de ser útil. Com robôs e nanotecnologia, o ser humano viva mil anos e ficar impedido de quaisquer forma de utilidade aos outros era um tortura inigualável. Uma vez suprida as necessidades básicas de comida e abrigo, subimos na pirâmide de Maslow. O ser humano anseia por ser útil, por estima e auto-realização. A mentalidade do “se dar bem” é como um atalho cheio de espinhos. Aparentemente mais curto, mas no final, mais lento e doloroso.

De forma confusa falamos do amor como se fosse uma coisa, quando de fato são duas. Ser amado e amar. É um sinal de maturidade quando estamos prontos a parar de querer ser amado e tomamos as rédeas da menos familiar atividade de ativamente amar alguém. Um neném apenas recebe amor. Pais e filhos, ambos vivem o amor, mas cada um num extremo diferente do eixo. Para a relação funcionar precisamos nos mover firmemente pra fora do modo infantil e adentrar o parental.

Nossa relação com os outros é o que faz a sociedade, e seu avanço depende completamente de um amadurecimento equivalente de seus cidadãos. Sair da posição infantil pra adulta, do querer receber, para o querer doar.