Sobre Minimalismo e Redundância

Quem está melhor, o cara com um depósito de comida pra 3 anos no seu bunker em casa, ou o que vive com tudo que tem numa mochila?

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Acho interessante encontrar opiniões que divergem da minha, e me acho especialmente sortudo quando elas são bem explicadas e com bons argumentos.

Há algum tempo acho a ideia do minimalismo interessante, de possuir o mínimo necessário, e leio pelo menos um blog cujo autor é adepto desse estilo de vida. O blog não é sobre isso, mas invariavelmente toca no assunto com alguma frequência.

Li então um artigo com o conceito de Anti-Frágil (de um livro do Nassim Taleb). Uma das ideias do livro é que existem três tipos de sistemas: o Frágil, o Resiliente e o Anti-frágil.

Os frágeis, que são aqueles que ao passar por uma situação difícil podem se quebrar, e vão estar pior depois do golpe do que estavam antes. Há os resilientes, aqueles que resistem bem. O símbolo aqui é a fênix, que pode morrer se a situação for difícil, mas renasce das cinzas, tão forte quanto antes. Sempre pensei na fênix como um objetivo de muitas empresas e sistemas. Ser capaz de resistir, voltar tão bem quanto antes, se recuperar, isso seria força, estabilidade.
O terceiro conceito é o anti-frágil, que vai além, e fala de sistemas que ficam mais fortes com o stress, com ataques e dificuldades. Aqui o animal mítico seria a Hidra, que ao ter uma cabeça cortada, duas crescem no local, e ela se torna mais forte e mais ameaçadora após cada ataque.

A evolução nos dotou com diversos sistemas assim. Uma pequena pancada no osso e ele se reveste de cálcio, tornando a parte ferida mais resistente que antes (de forma bem simplificada). O músculo, cresce e se torna mais forte com o stress. Nosso sistema imunológico fica mais forte depois de enfrentar um determinado vírus, e é em cima disso que criamos as vacinas.

Num momento do artigo ele compara dois “estilos de vida” aparentemente opostos. Os minimalistas com o grupo que se prepara o tempo todo para uma catástrofe, os “survivalist” (não encontrei nenhuma tradução boa pra esse termo. Sobrevivicionistas?).

Esse grupo são os caras que chegam a ter bunkers em casa, tem estoques de comida, armas, possuem fogão e estocam lenha, tudo em dobro, pois querem estar preparados para momentos de crise, seja uma guerra ou um desastre natural. São um outro nicho que me atrai a curiosidade de alguma forma. Essa é a ideia da redundância, ter em dobro, caso um dê problema, ter um excesso pode te salvar.
Os minimalistas estão no outro extremo, pessoas que carregam tudo o que possuem numa pequena mochila. Uma calça, duas camisetas, um computador, em geral da apple, e mais uns poucos ítens de vestimenta e higiene pessoal.

Num primeiro momento tive alguma resistência ao perceber uma crítica a um estilo de vida de pessoas que admiro. Notando isso, resolvi me colocar do outro lado. Realmente, ele tem um bom argumento. Os minimalistas dependem do acesso a coisas que, no mundo “normal” atual, é bem factível, mas num estado de crise, isso realmente os deixa bem mais frágeis. E não precisa ser pessimista ou paranóico, todo ano acontecem milhares de pequenos desastres naturais, alguns grandes, e não é absurdo pensar na utilidade de se estar preparado pra um. Um furacão, uma enchente, um terremoto e sua cidade poderia ficar isolada por algumas semanas. Acontece todo ano em dezenas de lugares.

Quando vejo duas opiniões se confrontando, e ambas com bons argumentos, algo me diz que posso estar num terreno propício a uma terceira alternativa. Ela pede que analisemos melhor o contexto de cada uma antes de se mostrar, então, vamos lá.

O minimalismo surge como resposta a uma percepção de hábitos de consumo insalubres, de uma relação desequilibrada com as coisas. Esse desequilíbrio se mostra não apenas nas patologias, tipo acumuladores, pessoas que mal conseguem morar nas suas casas de tanta tralha acumulada, mas pessoas “normais” que têm 40 pares de sapato, que compram roupas todo mês, que tem cada vez mais coisas que não precisam, e continuam comprando.

Então a resposta foi ir na direção contrária. Mas como em qualquer coisa, a primeira resposta não é completa. Todo movimento começa de alguma forma e vai evoluindo aos poucos, na medida em que vão se percebendo falhas e inconsistências, ele cresce e se adapta.

Acho que aqui entra a primeira observação do conflito Survivalists X Minimalistas.
Ele confunde a mensagem com o mensageiro. Boas críticas são gostosas de fazer. Existe um prazer especial em apontar a hipocrisia ou inconsistência da galera que ta pregando um novo estilo de vida, esses excêntricos que de alguma forma estão me atacando, mesmo que indiretamente, ao atacar meu estilo de vida. Então é sinal de uma boa destreza mental um ataque como o do Taleb, autor do Antifrágil. Ele diz que o natural e mais inteligente é ser o oposto do minimalista, ter o dobro de muitas coisas, ser redundante, como o nosso corpo que tem dois testículos, dois rins, quando apenas um daria conta. Diz que isso te deixa mais resistente, anti-frágil. Já a proposta dos minimalistas é bonita por enquanto, mas um dia vai se mostrar pela fragilidade que acarreta.

Ele trocou o mensageiro pela mensagem, e é natural que tenha feito isso. Falamos do que estamos vendo, e criticar pessoas atrai muito mais atenção e interesse.

Outra crítica interessante ao minimalismo é que muitos dos seus garotos-propaganda apesar de possuírem menos objetos, passam o tempo todo falando deles, pensando, escrevendo sobre e etc. Realmente isso tem algum fundo de verdade. Quando se tem uma relação com quantidade e não qualidade, pouco se pensa sobre o que se consome. Se você compra uma camisa por semana, a coisa vai meio que no automático. Se vai ter apenas uma, provavelmente vai querer pesquisar o melhor material e etc. Talvez seja apenas uma forma diferente de pensar e dedicar sua atenção.

Por um lado, acho isso bom. Sou a favor de ações cada vez mais conscientes, o que inclui nossa relação com o que consumimos, com cada ítem de casa, vestimenta, comida, tudo. Diria que devemos ir ainda mais longe e compreender o impacto ambiental de cada coisa, entender mais sobre seu processo produtivo, o preço social disso, se as pessoas estão sendo honestamente recompensadas e por ai afora. Isso dá mais trabalho, e só se torna realmente possível se passarmos a consumir muito menos. Se eu consumo muito, não dá pra dedicar muita atenção a cada coisa. Quando a quantidade diminui, ai sim podemos nos dedicar mais a cada item. Alguns se perdem sim nesses detalhes, e passam de consumistas de quantidade para consumistas de qualidade sob o título de minimalistas.

O que o minimalismo tem de valor a nos oferecer não é necessariamente os pormenores do seu estilo de vida, mas uma essência. A ideia de que temos que mudar nossa relação com as coisas.

Pra mim o recado do minimalismo não é regredir a uma simplicidade exagerada, mas aprender que objetos tem sim seu valor estético e utilitário, que gostamos de ter coisas que funcionam e são agradáveis de olhar, de boa qualidade, e que é legal comprar e tudo o mais. Mas sem exageros.

É diferente de ter pouco. Se eu quero beber 3 litros de água por dia, preciso ter 3 litros disponíveis. Não é pouca água, é o suficiente. Se eu preciso de 2 computadores, terei 2 computadores. Não 1, nem 5. O ponto é saber de verdade se eu preciso de 2 computadores, de acordo com os meus objetivos, valores e estilo de vida. A partir do momento que tenho clareza disso, ok.

Como tudo, não é absoluto. Existem momentos de vida, certos cenários ou condições nas quais ele se encaixa perfeitamente. Especialmente pra quem é ou foi consumista demais, ficar um período com apenas o necessário tem seu valor. Com o tempo, acho que compreendemos o que esse estilo de vida tem a nos ensinar. Pode parecer piegas ou clichê, mas é a verdade – os objetos existem para nos servir, e não o contrário.

Existem diversas formas e caminhos para o autoconhecimento. Tudo que fazemos, todo tipo de ação e interação nossa fala um pouco sobre quem somos, tudo que vem de dentro mostra um pouco sobre nós, se soubermos olhar. Na sociedade de mercado em que vivemos, lançar luz sobre nossa relação com o dinheiro e os bens que circundam nossas vidas tem grande valor. Estou sempre buscando diminuir a distância entre quem sou e quem quero ser, entre onde estou e onde quero chegar. A reflexão sobre o que consumo e como isso me afeta tem sido bem interessante pra mim.

Existe o famoso “barato que sai caro”. Que é um dito sobre a nossa busca por atalhos, como ficamos míopes e não vemos longe na ganância, nos achamos malandros e acabamos pagando o pato. Minha mãe comprou um carro zero e quis economizar no rádio. O rádio de fábrica era algo como 300 reais a mais, e ela viu que poderia colocar numa oficina por 150. Eu disse que o de fábrica era de melhor qualidade, mas ela quis economizar os 150 reais. Em algumas semanas o rádio deu problema, ela voltou lá, se irritou, pois o lugar era longe e o atendimento ruim. Depois deles consertarem ainda deu outros problemas e no final ela gastou bem mais do que 300 reais e ainda ficou com um som de pior qualidade.

Acho que buscar o melhor, a qualidade, é o “caro que sai barato”. Sem migué, sem tentar me dar bem em cima do outro, mas sem aceitar um mal negócio ou pagar à toa. Busco o justo, e aceito o preço daquilo.

Como resultado, tenho percebido uma inclinação a trocar quantidade por qualidade. A pensar bem pra que quero cada coisa que tenho ou penso em comprar. Sinto que penso pouco em coisas, menos que as pessoas da minha bolha pelo menos, e em geral estou bem satisfeito com o que tenho, mas posso estar sendo parcial na minha análise.

Ainda acho que podemos conciliar minimalismo e redundância. A questão é definir o quanto é o “necessário”. Se pararmos pra pensar, a expressão “mínimo necessário” é em si redundante, pois o necessário é uma quantidade só, não tem mínimo ou máximo. Ainda assim, em termos de conforto, pode-se ter alguns ítens em excesso, ou num aparente excesso, pois quando penso no longo prazo, passo a ver a situação de forma diferente.

Eu uso computador todo dia, e muito do que faço depende dele. Ficar sem computador é um empecilho real a minha produtividade e entretenimento. E como é esperado que em algum momento o computador trave ou dê algum problema, ter 2 é uma solução inteligente. No meu caso, ainda tem outras vantagens, pois tenho um desktop e um laptop e isso permite a mobilidade de um, um outro com maior memória e backup, etc. A chance dos dois darem problema ao mesmo tempo é bem menor, e se um trava posso ter calma em resolver, sabendo que eu tenho outro à disposição. Num primeiro momento isso poderia parecer um exagero, mas no fundo é uma relação bem pensada com as coisas. O ponto é que são poucas as coisas que tenho em dobro. E o que tenho, é consciente. Sei porque tenho, sei o quanto é apego, o quanto é uma posição racional, e no final ainda percebo que tenho muito menos coisas que a média.

Acho que pouco importa, no final, o número de coisas que você tem. O que fica é quão bem, quão satisfeito você está com elas, com sua relação com elas, o quanto tempo gasta pensando, se preocupando, curtindo e tudo o mais. Se você está satisfeito como está, perfeito. Se acha que está pecando pelo excesso ou falta em algum ambiente, cabe buscar uma mudança de atitude. Acho que isso vale pra tudo.

O Karma e a culpa

Um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

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Não existe ação sem motivação. Agimos em busca do prazer e pra fugir da dor de uma forma ou de outra. Claro que isso é uma generalização. Muitas pessoas que dizem fazer caridade sem nenhum motivo na verdade querem dizer nenhum dos motivos mais superficiais, como reconhecimento, elogios ou qualquer retorno material. Mas existem milhares de outros motivos.

Alguns mais comuns nesse caso: a expectativa de benefícios futuros. Muitos acreditam que quem é bom vai pro céu, e agir caridosamente é uma das ações que te aproxima desse objetivo. Há uma clara motivação semi-material. É a busca do prazer, mas não nessa vida, sim numa próxima, e em alguns casos por toda a eternidade – um excelente negócio ao se pensar por esse prisma.

Há também a motivação da identidade. É extremamente agradável ter uma auto-imagem de alguém bondoso, virtuoso e correto. Assim, ao ajudar os outros de forma anônima, ganho o prazer de me valorizar, ficar feliz com a minha identidade, com a história que conto de mim para mim mesmo. Há também o prazer de contribuir, de saber que de fato ajudei pessoas. Isso tudo são sentimentos bons. Assim como uma pessoa busca uma boa música, uma comida gostosa e entretenimento de qualidade pois elas lhe geram prazer, sentimentos agradáveis. A diferença está na forma do prazer e nos valores que nossa sociedade, e nós mesmos, damos a cada um.

Uma forma de prazer pode ser muito mais nobre que o outra, mas o meu ponto é que nenhuma ação é de fato “pura”, no sentido de neutra, de ser desprovida de motivações. O melhor que podemos fazer é buscar ter motivações mais nobres, de acordo com nosso próprio sistema de crença, moral e ética. E nisso a gestão karmica pode ajudar.

Há um outro ponto, de apenas compreender e aceitar a realidade como ela é. Talvez eu ainda fizesse o bem e buscasse ajudar os outros mesmo que não fosse ganhar nada com isso, mas existe uma lei de causa e efeito, o universo é como esse grande espaço onde nossas intenções ecoam e retornam pra nós, por meio de uma intrincada rede que ainda não compreendemos completamente, mas da qual não podemos escapar. Não adianta lutar contra a lei da gravidade, ela existe e pronto. O que podemos fazer é aceitar e trabalhar com ela da melhor forma, e com alguma engenhosidade descobrimos como fazer máquinas que voam, curtir um salto de bungee-jump e gerar energia com quedas d’água.

Querer agir sem colher os frutos das ações é como querer que dois elétrons se atraiam. Não é assim que a banda toca. Na natureza nada se cria, tudo se transforma. Uma energia posta em movimento num sistema deve retornar de alguma forma, tudo o que você faz vai voltar pra você.

Compreender as leis de causa e consequência te permite ser ainda mais eficiente e ajudar mais pessoas, se esse for o seu objetivo maior. A saída aos que realmente se incomodam com isso é agir sem absolutamente nenhum apego. Ao agir completamente dissociado do resultado das ações (e o ‘completamente’ é a chave) você alcançou a iluminação, despertou, tornou-se um Buddha. Ainda podem haver sementes antigas que devem brotar, mas nesse nível as novas sementes mudam completamente, pois não há mais intenção ou desejo nas ações, e sua realidade passa a ser outra. Podemos falar sobre, mas não sendo um ser iluminado, suponho que seja como um virgem tentando falar sobre o sexo. Podemos ter alguma ideia de como é e tudo o mais, mas estamos distantes de poder falar com propriedade. Esse momento de iluminação é o que nos permitiria sair da Samsara, o ciclo de nascimento e morte que nos prende a esse mundo de ilusões, aos que creem em renascimento, ou simplesmente um momento de completa realização pessoal, de uma forma absolutamente secular. Nossos apegos geram sofrimentos. Disso tratam muitos textos budistas das mais variadas formas.

Acredito que com o tempo iremos evoluir e talvez possamos realmente agir sem apego, mas creio ser um estágio um tanto distante. Útil como norte, como direção a seguir. Na minha opinião o melhor caminho pra isso passa pelo domínio dos desejos. Quando entendemos como conseguir o que queremos, como “controlar” esse mundo de ilusão (se é que é isso), pois a única forma de fazer isso é pelos outros. Primeiro devemos aprender a criar o mundo que queremos, e só então podemos pensar mais seriamente em nos livrarmos completamente dos desejos e anseios.

Pra ter o que queremos, teremos que ajudar os outros a conseguir o mesmo, e na caminhada ao desapego total iremos crescendo, a cada desejo meu que realizo me torno um pouco mais livre dele (em alguns casos totalmente) e me conecto um pouco mais a todos que tem ou tiveram o mesmo anseio, que sofreram com essa mesma falta. Acredito que seguindo nessa jornada, o natural é que os desejos diminuam, não do dia pra noite, mas de forma constante, devagar e sempre.

Vou cada vez mais curtindo os prazeres da vida e entendendo o que é essa ilusão, o mundo da matéria, dos prazeres e desprazeres. Ao me conectar aos outros entendo cada vez mais como não somos exatamente separados, e minha percepção da realidade muda inteiramente, também não em um momento, mas aos poucos.

Alguns desejos passam a não mais fazer sentido, como um adulto que não mais deseja um boneco. Quando criança não poderia conceber ele não querer tal brinquedo, ou o doce, ou assistir ao desenho animado, tamanha era sua vontade deles, mas passado o tempo, numa infância saudável, se a criança pode brincar o quanto quis, naturalmente essa vontade vai embora. Não é que o boneco mudou ou deixou de ser divertido, a realidade da pessoa que mudou, e o desejo pelo boneco deixou de existir.

Penso que o mesmo acontece com os demais desejos – conquistas, coisas brilhantes que estimulam nossos sentidos e nos seduzem, os carros, casas, status, conceitos de identidade – com o tempo eles deixarão de nos iludir, deixarão de nos seduzir. Iremos olhar pra eles assim como vemos um bicho de pelúcia que outrora nos foi incrivelmente valioso, e que agora não mais nos atrai.

Mas, assim como a criança que teve seu tempo, aceite brincar um pouco também, aceite se dar um tempo pra amadurecer. Se tiramos o brinquedo cedo demais a criança pode demorar pra superar isso, e tentar como adulto compensar a falta que teve, o trauma. Existe a possibilidade de nos seduzirmos demais pelos “brinquedos” e tentar justificar os excessos com a ideia de que curtir por um tempo pode ser saudável. O equilíbrio é delicado e nem sempre fácil. Como sempre, você é o júri e juiz, e vai saber o quanto é demais, se realmente quiser.

Mas não se cobre mais do que pode dar, não dê um passo maior do que a perna. Compreenda os conceitos, entenda que sua felicidade não depende das coisas e se permita refletir e aceitar exatamente onde está. Eu fui vegetariano por 7 anos, e depois resolvi voltar a comer peixe. Continuo achando que ser vegetariano é uma opção melhor, mas por diversos motivos resolvi que pretendo ficar um tempo assim. Mais pra frente pretendo voltar ao vegetarianismo. Reconheci minhas dificuldades, meus desejos, meu tempo. Que muda constantemente, como tudo.

Nem adianta tentar se enganar, pois a vida tem sua forma de ensinar, de nos mostrar onde exageramos, seja pra mais ou pra menos: pela dor. O sofrimento é o professor último, e pode vir de infinitas formas. Pode ficar tranquila que se você se esquecer de prestar atenção, um sofrimento vai vir pra te mostrar onde está o erro. Mas se quiser evitá-lo (cada um é livre pra agir como achar melhor) o entendimento das leis do Karma pode indicar um caminho.

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Um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

2 conceitos que são fundamentais e que podem fazer falta aqui (bem resumidos):

1 – Sementes Mentais. Tudo que vc faz te marca, é como se vc plantasse uma semente em si mesmo. Essa semente brota mais pra frente como a realidade que vc percebe.

2 – Vacuidade. Tudo é neutro de significado, e a realidade é determinada pelas sementes que constantemente plantamos com nossas ações, pensamentos e palavras.

Como eu uso o Facebook

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Acho que como a maioria das pessoas, já me percebi perdendo tempo demais no facebook, vendo informações que não me acrescentavam em nada e as vezes até me faziam mal.

Ouço constantemente pessoas reclamando do facebook, em como perdem tempo nele ou que acabam se sentindo mal por usar demais. Por um tempo eu me senti procrastinando muito ali, assistindo brigas de egos, pensando em responder algo absolutamente sem importância e ainda assim me sentindo culpado por continuar entrando. Pensei em cortar completamente, mas pesando prós e contras, ia deixar de saber de muita coisa bacana também. Resolvi ir mudando, e acabei chegando num formato com o qual estou absolutamente satisfeito.

Sinto que ele me acrescenta em muito, me permite descobrir diversas coisas legais, e achei que valia falar sobre como cheguei a esse ponto.

Logicamente, essa personalização que fiz vale pra mim, pros meus valores e interesses, de acordo com a minha rotina e estilo de vida, não acho que é A forma certa ou que outros deveriam ser assim. Apenas digo o que fiz caso alguém ache de alguma forma útil.

Vou começar com um exemplo. Entrei agora na minha Timeline.

Na ordem, essas são as primeiras 20 coisa que apareceram:

1. Texto/atualização de uma amiga, a opinião dela sobre o prefeito de São Paulo. – Gostei de saber, é uma amiga querida, me interesso por saber o que ela está pensando (eventualmente, e ela não exagera na frequência em que diz algo), e é um assunto que me atrai, já li algumas coisas positivas sobre o Dória, e gostei de ver o breve ponto de vista dela.

2. Texto de um autor que sigo – Um pedido ao leitores pra responderem naquele post frases que te marcaram, para um trabalho desse autor. Eu respondi e achei válido ter participado.

3. Link de autor que sigo – Um excelente texto sobre o mercado de auto-ajuda e os experts, sendo o relato de alguém que trilhou esse caminho. Em inglês. Adorei ter lido, nunca teria encontrado de outra forma, e é um assunto sobre o qual muito me interesso (e que não é, em geral, sobre o que esse autor costuma falar).

4. Amigo compartilhando um vídeo fofo. – um pai e uma filha tocando violão.. Não assisti, mas acho bacana de vez em quando saber o que esse amigo está pensando e fazendo. Ele mora longe, e não posta com tanta frequência.

5. Texto de autor que sigo – uma reflexão do Alex Castro sobre nossa noção de estética, contando um caso da vida dele. Bem interessante, curto e bem escrito.

6. Opinião aleatória de uma amiga, levemente engraçada – uma amiga que está viajando, gostei de ouvir um pouquinho dela e saber que está se divertindo lá.

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7. Divulgação/convite sobre a peça de um amigo – gostei de saber. Na verdade, já sabia, mas me lembrei de quando é e onde, e to querendo ir. Gosto de divulgação de peças, preciso ser lembrado constantemente de quando e onde é cada uma, especialmente a dos meus amigos, pois mesmo se eu não puder ir, gosto de saber quem fez o que, e depois conversar sobre.

8. Link de autor que sigo – sobre ensinar inglês no exterior. Fiquei levemente curioso, mas não cliquei pra ler depois.

9. Vídeo compartilhado por uma amiga, bem interessante. “Bored Panda”, uma animação com objetos não se comportando como vc esperaria (ovos quicando ao invés de quebrar, etc). Bem feito, curioso e algo que eu nunca teria visto de outra forma, bem curto, bem bacana.

10. Vídeo compartilhado por um amigo sobre a situação da vela (esporte) no Brasil – não é uma área de interesse específica minha, mas achei bacana o gesto (porém, agora, não assisti).

11. Link de autor que sigo, sobre o ativismo na era do Trump – bem interessante, já li outros no mesmo assunto, no momento não quis ler esse.

12. 9GAG, fotos de uma modelo – Não cliquei, mas volta e meia acho bacana os posts do 9GAG, que eu sigo.

(propaganda)

13. Post de personalidade que sigo – Schwarzenegger (que eu sigo) falando sobre seu encontro com o papa. Achei minimamente interessante, mas não cliquei pra ler mais.

14. Vídeo do Cirque du Soleil (que eu sigo) mostrando partes de uma apresentação. Incrível. Adoro ver o que os caras tem feito. Já fiz aulas de circo, tenho um ex-professor atualmente trabalhando lá, li um bocado sobre o Cirque, então gosto de ver o que estão fazendo por uma curiosidade tanto estética quanto empresarial.

15. Flyer de uma amiga sobre nossa posição no ranking de bem estar animal – uma amiga querida, que trabalha com veterinária. Não fazia ideia nem que esse ranking existia, gostei de saber dessa iniciativa, e ver o continuado envolvimento dela na área.

16. Aviso que uma amiga tem interesse num evento (em Minas) – por ser em minas eu não vou, mas fico sabendo de muitos bons eventos assim.

17. 9Gag – 16 atores ao lado das figuras históricas que eles interpretam – Potencialmente interessante, mas não cliquei.

(Propaganda)

18. Vídeo compartilhado por figura que sigo: “years of living Dangerously” – Vi apenas um pedaço, mas achei legal. Em outro momento veria inteiro, me pareceu inspirador e bem feito.

19. Foto de um amigo e sua namorada – achei fofo.

20. Texto de autor que sigo – do Alex Castro sobre críticas e a forma que as pessoas lida com ela.

Eu não filtrei isso de nenhuma forma, nem dei uma olhada pra ver se estaria legal pra compartilhar. Nem ia falar da minha timeline, mas quando comecei a escrever mais abstratamente sobre o assunto, achei que o exemplo falaria mais alto.

Segui mais um pouco depois, e é esse padrão mesmo. Há momentos com mais post de amigos, outros com mais coisas de canais, mas em geral, é por ai.

Como não assisto TV ou leio jornais, boa parte do que sei sobre atualidade me chega pelos comentários ou links compartilhados por amigos. Toda semana, quase todo dia, leio algum artigo que acho incrivelmente interessante, tanto de assuntos que já estou pesquisando  quanto de coisas totalmente fora do que penso normalmente. De vez em quando resolvo mergulhar mais no assunto, e outras ficam só de curiosidade mesmo.

Fico sabendo de eventos, peças, festas, exposições, e acho que mais da metade dos últimos eventos que fui, eu fiquei sabendo por meio do facebook (nunca propaganda, sempre por amigos ou pessoas que sigo, compartilhando). Sigo atores que admiro, companhias de teatro que também divulgam tanto peças quanto workshops e oficinas que adoro fazer.

Gosto muito de saber dos meus amigos, especialmente os que estão longe, mas ai mora

um grande perigo. O potencial procrastinador disso é infinito. Então a solução é ter um bom equilíbrio entre posts apenas pessoais (um amigo falando da sua viagem por exemplo, ou só dando sua opinião a quem quiser ouvir), coisas úteis, como uma amiga compartilhando algo, e posts de terceiros, de canais, autores e personalidades.

Consegui um bom equilíbrio ao longo do tempo, tanto deixando de seguir (ou deletando) pessoas cujos posts me incomodavam ou eram em sua maioria superficiais ou inúteis (na minha opinião, é claro. E estou exagerando levemente aqui por motivos de simplicidade), quanto ao começar a seguir canais, autores e personalidades que postam quase que sempre coisas interessantes. Gosto de ver opiniões diferentes das minhas, então tenho amigos que defendem o Bolsonaro por exemplo, mas apenas quem o faz de uma forma interessante (o que é raro, admito).

Com o tempo, fui passando a ter quase que apenas pessoas com hábitos de compartilhar e postar coisas legais. E não demorou tanto. Via de regra, menos de 50% do meu feed é de amigos.

Sigo alguns autores e canais, e volta e meia escolho a opção “mostrar primeiro”. Os meus favoritos são o The School of Life, que posta 2 vezes por semana vídeos incríveis sobre relacionamentos, trabalho, filosofia e reflexões sobre a vida, além de trechos de livros e outros pensamentos. O TED e o TED-Ed, vejo toda semana alguns vídeos deles, gosto de receber essas atualizações, boa parte assisto na hora, outra deixo pra ver depois (e sempre vejo). O “I Fucking Love Science” tem vídeos e artigos interessantes, mesmo que eu não clique em todos, volta e meia tem algum que vale a pena. Sigo o Hypeness, mas esse abro os artigos com menor frequência. Sigo também umas poucas bandas e músicos que gosto, e fico sabendo dos shows.

De autores, sigo o Tim Ferriss, e quase sempre leio ou assisto o que ele posta, o mesmo vale pro Derek Sivers, Tynan, Alex Castro, Michael Sandel, Sir Ken Robinson, Tony Robbins e o Andrew Solomon. Mas eles costumam postar com uma frequência menor. O Sam Harris eu não leio tanto assim os artigos, mas ainda assim bastante do que ele fala me interessa.

(o que faz meu computador ter, praticamente a qualquer momento, pelo menos 3 abas abertas de textos que quero ler)

O resto fica num mix de coisas interessantes, meras curiosidades ou só um besteirol mesmo. Sigo o 9GAG por exemplo, mas clico com pouca frequência. Sigo outros canais, que não priorizo (mental floss, kurzgesagt, mundodasmarcas), então o grosso mesmo são esses que mencionei aqui.

A quantidade de coisas boas que descobri por meio do facebook, por recomendação de algum amigo ou canal, é enorme. Atualmente, acho que tenho uma boa relação com o facebook, entro todo dia, mas não fico tanto tempo, até porque to sempre clicando em algo que leva tempo pra ser consumido (textos longos, vídeos, etc). Eu mesmo posto poucas coisas, de vez em quando compartilho algo que acho que tem valor. As vezes acho que exagero um pouco e procrastino mais do que deveria, realmente perco tempo, mas também em outros momentos fico dias sem entrar e não sinto honestamente nenhuma falta. Então, posso e pretendo melhorar minha interação.

Vejo fotos bonitas, fico sabendo de quem viajou pra onde, quem ta fazendo o que, mas numa proporção boa com assuntos mais “intelectuais”. Talvez eu naturalmente não seja tão interessado assim nas novidades, mesmo dos meus amigos, então depois de pouco tempo já estou cansado e vou fazer outra coisa. Pode ser que isso me facilite a ter uma relação que considero mais saudável e útil com o facebook, mas ainda assim me policio constantemente, pois sei que posso facilmente me perder e ficar procrastinando e perdendo tempo. Sei que é muito fácil começar a se comparar com os outros e entrar numa espiral de sentimentos negativos.

Existe um trade-off ao parar de seguir alguém, pois muita gente é amiga o suficiente pra eu me interessar em saber o que a pessoa fez, mas, por outro lado, acaba postando muita coisa que não gosto, sejam reclamações, críticas feitas num estado que prefiro não ler, e compartilhando coisas que acho que são perda de tempo ou fazem mais mal do que bem. Preferi pecar pelo excesso e correr o risco de deixar de saber de algo legal pra ter menos disso. Então, deixar de seguir algumas pessoas foi um pouco mais difícil, mas no final, acho que valeu a pena.

Criei uma página para postar apenas textos meus (Escrevinhanças), mas eu basicamente escrevo fora, entro, posto e saio. Tem pouquíssimos seguidores, e, portanto, quase nenhuma interação, o que me faz gastar quase nada de tempo ali. Pretendo postar mais, mas imagino que isso vá aumentar o meu tempo escrevendo, e não no facebook de fato.

Pode ser que eu venha a mudar minha relação com o site, provavelmente passando a usar ainda menos, mas, no momento, é assim que uso o facebook, e estou bem satisfeito com o que ele me proporciona. Tem muita coisa legal sendo dita e compartilhada. É só criar espaço pra elas, é só tirar o resto.

 

Sobre Sair do Armário

Cada um tem seus armários, de qual você precisa sair?

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Sair do armário é um processo interessante. É quando a pessoa percebe que há um descompasso entre como ela se sente em relação a um assunto, um comportamento, e a expectativa da sociedade, da família, do grupo no geral. Sejam por regras sociais, tabus ou cultura, existe uma série de expectativas, até pressões sociais, para agirmos de determinadas maneiras.

O exemplo clássico é a homosexualidade. Por muito tempo a expectativa era (e ainda é?) que uma pessoa devia sentir atração apenas com alguém do sexo oposto. Diversos relatos contam como algumas pessoas vieram a perceber que não se encaixavam nesse modelo, e as variadas formas de sofrimentos que essa percepção gerou. Desde dúvidas, medo, vergonha, as vezes até raiva e negação. Somos animais sociais, e é difícil frustrar os outros, especialmente os que amamos, mas mesmo estranhos. Por mais que muitos se isolem e digam não se importar, a verdade é que estamos conectados de diversas formas aos outros. Querendo ou não, a presença deles nos afeta, suas expectativas e o que pensam de nós. Alguns reagem buscando agradar, outros buscam fazer o oposto, mostrar indignação, desprezo, enfim, todas as possibilidades de interação que já conhecemos.

Sair do armário pode se aplicar a qualquer coisa. Todo vez que você percebe essa diferença entre como quer agir (ou sentir) a respeito de algo e a expectativa dos outros, está no processo de sair do armário. É importante notar que muitas pessoas não terminam esse processo, ficam empacadas em alguma etapa, passam a vida com medo de se assumirem perante os familiares ou amigos. Alguns se assumem apenas em alguns momentos nos quais se sentem mais seguros, mas depois retornam e fingem (até pra si mesmas) que aquilo foi apenas um lapso.

Tem gente que sai do armário quanto a sua profissão, admite que quer viver da arte e rejeita o emprego seguro numa grande empresa, outros saem do armário quanto a gostar de um estilo musical. Há quem saia do armário quanto a não gostar de cachorros, ter certos fetiches, não gostar de sexo, gostar de colecionar formigas, ter medo de multidões, abandonar a faculdade, o que for. As vezes o que pro outro é um desafio enorme seria ridículo pra você, mas essa é a questão, se pra pessoa é um desafio, então pronto, é um armário a se sair. Acho que na metáfora as paredes do armário são as regras e expectativas dos outros, que prendem, pressionam e sufocam alguém que quer desesperadamente sair. É importante entender e respeitar que para algumas pessoas certas pressões são reais, mesmo que pra você elas sejam irrelevantes.

Todo mundo tem seu ou seus armários pra sair, pois todo mundo é diferente do resto em algum ponto. Acho que o aprendizado é compreender como pode ser desagradável esse sentimento de frustrar os outros, o medo de ser excluído e desprezado (mesmo que seja apenas imaginário) e ter mais empatia ao perceber outros nessa situação. Compreender a forma além do conteúdo. Penso que é um dos caminhos possíveis para relações mais humanas.

Lições diretas e indiretas

Sobre os veículos do aprendizado, e as pancadas que felizmente levamos.

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Uma vez fui numa meditação Zazen, e estavam me explicando algumas práticas e rituais. Tem um sino especial que eles tocam ao início e fim da sessão, e dentre outras práticas uma mais tradicional (e menos usada atualmente) que é o Kyosaku – basicamente uma vara de madeira achatada, como se fosse uma grande régua, e com ela se dá duas pancada no pescoço do praticante. Como tudo no budismo há uma explicação e todo um procedimento. O responsável pela prática, em geral o monge mais experiente do local, é quem cuida disso, e se ele percebe que alguém está desatendo, talvez com sono ou saindo da postura correta, ele se aproxima e toca a pessoa no ombro com a vara. A pessoa, sem abrir os olhos, entende o comando, inclina a cabeça pro lado e recebe duas palmadas no pescoço com a tal régua.

O que achei mais interessante foi o responsável pelo lugar me contando que uma vez ele recebeu uma pancada dessa, mas ele tinha certeza que estava fazendo tudo certo, estava atento na meditação, na postura certa e não entendeu porque tinha merecido a pancada. Após a meditação ele foi conversar com o monge, e ele respondeu “Realmente, eu percebi que vc estava atento, foi por isso mesmo que dei a pancada em vc. O seu amigo do lado estava muito desatento, e se eu desse a pancada nele, poderia ser uma mudança brusca demais, ele ia passar o resto da meditação atordoado. Ao dar a pancada em vc, que estava do lado, ele apenas ouviu o barulho, e isso foi o suficiente pra ele voltar ao momento presente de forma suave.”

As vezes aprendemos com o erro dos outros, uma lição nos chega de forma indireta. Em outras podemos ser o veículo de um aprendizado dos outros, muitas vezes mesmo sem saber.

Outro dia amigo estava discutindo com a namorada. Houve (na minha opinião) uma falha de comunicação, era tarde da noite, ele achou que ela estava vindo encontrar com ele e ela achou que ainda ia dar tempo de ficar mais onde estava. O que intensificou a coisa foi que passou um tempo e ela não estava ouvindo o celular. Ele ficou ligando o tempo todo, de propósito, ele me disse, ficou muito incomodado de esperar na rua e ela não atendendo, sabendo que ele estava cansado e etc. Quando ela finalmente atendeu a conversa logo descambou pra uma discussão, desde o clássico “vc sempre faz isso” até “eu to sem te ver a semana inteira, mas se vc prefere ficar com o pessoal ai tudo bem..”. Eles estão juntos há um tempo e naturalmente se conhecem, tem incômodos e questões.

Achei que seria forte demais falar “Cara, vc ta sendo infantil. Admite que tá frustrado que ela não veio, com ciúmes e que no fundo vc só quer um pouco mais de atenção, se sentir valorizado por ela e estar junto”. No estado que ele estava se eu falasse isso provavelmente ia deixar ele mais irritado e negando tudo. O que tentei fazer foi mudar de assunto, falar como ele tem sorte de poder estar com a pessoa que ama naquela noite, tantas pessoas não podem.. É um privilegio, deixa de lado essa besteira e vai curtir com ela. Queria ter falado mais, dado exemplos de momentos em que eu fui infantil e reagi dando vazão a frustração e ciúmes, e como isso só piorou a situação, e depois como eu no fundo só estava querendo um pouco mais de atenção. Acho que isso teria sido mais sutil, mais tragável, e talvez ajudasse. Infelizmente nesse caso depois que ele começou a discutir não parou mais, e acabamos indo cada um pra um lado sem ter tempo de conversar mais.

Acho que um dos ingredientes da felicidade é apreciar o que se tem. Muita gente só valoriza algo quando o perde, chega a ser um clichê de filme, o homem de negócios que só percebe a importância da família depois que quase perde ela. Recentemente percebi que existem dois tipos de saudade, pelo menos. Uma é essa saudade de quem sofre, da perda de algo que não queremos aceitar, existe negação, tristeza pelo quanto não foi vivido ou foi desperdiçado, essa saudade dói. Mas existe outra saudade, mais gostosa, de algo que foi vivido intensamente, que foi apreciado e valorizado de forma consciente, mas a vida aconteceu, houve uma separação, então chega essa saudade que é completamente diferente. É uma mistura de gratidão pelo que foi vivido, uma nostalgia de alguma forma, somado ao desejo de ter mais, não mais do mesmo, não repetir ou ficar parado naquele ponto, mas mais daquilo de outra forma.

A saudade que dói olha pra traz, não aceita, quer voltar ao passado, ela te paralisa e te faz pensar apenas no que se perdeu, no que foi, em como nunca mais vai ser assim e costuma gerar mais tristeza, ou raiva. A outra saudade olha pra frente. Ela entende o espaço do que aconteceu e busca seguir com isso, sabendo que fez o que tinha que ser feito, tranquila de ter vivido o momento e atenta em viver o novo agora, e o próximo, e assim sempre. Pode ser melancólica, mais reflexiva, mas é diferente o suficiente a ponto de merecer outra palavra.

Um outro ponto da prática Zazen é que depois de receber a pancada vc agradece a pessoa que te bateu. É simbólico, mas acho bem interessante. Uma das frases em que mais tenho pensado é que a vida não acontece COM você, ela acontece PARA você. Isso faz toda a diferença em como interpretamos as “pancadas” que recebemos. Quero cada vez mais ser capaz de imaginar o simpático monge me olhando com carinho, agradecer o toque e voltar minha atenção para o lugar certo.