O que você quer querer?

Sobre Abundância, Escassez e o Querer querer.

 

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Tenho percebido que diversos sentimentos de que não gosto, como ciúmes, raiva e desprezo, vêm de uma mentalidade da escassez. Não que eu viva nela, mas nos momentos em que ela reina, essas sensações costumam ser o resultado.

Quando a minha percepção é de abundância, tem o suficiente pra todo mundo e ainda sobra, ai é fácil desejar o melhor e ser magnânimo. Se estamos num buffet, lógico, pode pegar minha comida, prova isso aqui, fica com essa que eu vou lá e pego outra. Tem pra todo mundo, adoro ver os outros felizes, apresentar coisas legais, novos sabores por exemplo. Diferente da escassez. Se estou com pouco dinheiro e muita fome, ou na fila do restaurante com desejo de um prato e a pessoa na minha frente pega o último, ai sinto que é mais difícil ficar feliz com a felicidade do outro. De alguma forma eu entendo que se ele não tivesse pego o último, eu poderia estar comendo aquilo que queria agora. Como em quase todo tipo de infelicidade, boa parte da culpa é da minha expectativa. Eu que criei a ideia de que iria comer aquilo, e me frustrei depois, mas a mente percebe o cara na frente como o culpado, aquilo que está entre o meu objetivo e eu, e, dependendo do humor no momento, eu vou de um pequeno incômodo até imaginar uma morte lenta e dolorosa pro cidadão. Ou o ciúmes. Meu desejo é que todas as pessoas sejam felizes, que o máximo de prazer possível aconteça. A maioria das tentativas de relações abertas falha quando se entra a mentalidade da escassez. Cada um entende e decide uma relação de confiança, onde podem ficar e transar com outros se isso lhes dá prazer, assim mantém a adrenalina da novidade, da sedução e conquista ao mesmo tempo que a profundidade de um relacionamento mais longo, a cumplicidade e a estabilidade emocional de saber que se pode contar com aquela pessoa.

Enquanto se mantiver uma mentalidade da abundância, existe o suficiente pra todo mundo, tudo vai bem. Mas dificilmente nos mantemos nesse estado constantemente. Uma relação é uma troca de diversos tipos. Trocamos atenção, trocamos interesses, trocamos preocupações, experiências, dinheiro e muito mais, por meio de palavras, olhares, ações, gestos, presentes, carinhos, tempo.. Enquanto o quanto eu preciso (ou desejo) da sua admiração está vindo, tudo bem. Mas em algum momento posso achar que você está mais admirada com outro, fascinada até, e meu ego reclama. Não quero admitir que gosto de ser admirado, então reclamo que você está ficando pouco tempo comigo ou qualquer outra coisa, pequenos atritos surgem. No longo prazo, são tantas coisas que desejamos do outro, e tantas que nem queremos admitir que queremos, que é quase certo que em algum momento alguma vai faltar, por qualquer motivo, e ao perceber (correta ou incorretamente) que um outro está recebendo aquilo que ansiamos, pronto, entramos num estado de escassez, quanto àquilo pelo menos. Eu inconscientemente culpo o outro pelo que não tenho. Ou faço isso abertamente. Abre-se espaço à disputa, ao rancor, à raiva, ao ciúmes e etc. É o nosso corpo se preparando pra batalha, pra enfrentar o inimigo, que é quem tem o que eu quero.

Por muito tempo a gente tinha apenas uma TV em casa. Mais novo, era uma briga eterna. Eu queria ver um desenho e minha irmã queria ver a novela. Ela ver o programa dela significava que eu não veria o meu, e isso me gerava raiva, achava injusto ela ver e eu não. Mesmo quando apareciam acordos melhores, eu assistir meia hora e ela outra meia hora por exemplo, ainda assim eu saia chateado pois tive que parar de ver o que queria. Entendia que tinha que ser assim, e aceitava, mas não gostava. A escassez do recurso TV me fazia ver minha irmã como uma concorrente, um inimigo.

O problema maior é quando assumimos uma postura de escassez onde não devíamos. Se estou solteiro, vejo um casal feliz e sinto ciúmes, ou desejo secretamente que eles se deem mal de alguma forma. Isso, lá no fundo, está ligado à ideia de que se ele tem, eu não vou ter, que ele é culpado, um inimigo, um concorrente. E a verdade é que não é. Conforme amadurecemos e expandimos nossa visão de mundo, percebemos que existem infinitas possibilidades. Dá pra crescer a torta, e todo mundo ganha um pedaço maior. Pode parecer bobo, mas faz toda a diferença o eu desejar algo ‘como aquilo’ a desejar ‘aquilo’. Se vejo alguém com uma mochila legal, eu não desejo ter aquela mochila, como já fiz no passado. Eu desejo ter uma mochila como aquela, ou até melhor, ou diferente, mas mesmo se for igual, é outra. Com produtos é mais fácil, eles são replicáveis, existe de fato outra mochila igual que eu posso vir a ter, sem ele deixar de ter a dele. Mas e uma relação, um emprego, uma experiência? Algumas coisas são únicas mesmo.

Nesses casos, consigo querer querer. Eu quero querer, posso ainda não conseguir desejar o bem dessa pessoa por qualquer motivo, mas quero desejar, quero querer. Sei que posso ficar irritado com alguém no trânsito, um cara tenta se dar bem passando pelo acostamento ou algo assim. Na hora eu posso me perceber incapaz de desejar o bem a essa pessoa, mas o que consigo é querer desejar o bem. É um passo atrás, mas ok, não adianta no momento em que estou tentar outra coisa. Gostaria de me tornar uma pessoa que vê o camarada tentando se dar bem às custas dos outros e ainda assim deseja o melhor a ele, não julgar e etc, mas enquanto não consigo, reconheço minha limitação e me apoio no meu racional. Eu lembro que essa não é a pessoa que quero ser, que ficar irritado não leva a nada de útil ou positivo, que é uma escolha bem burra, e me esforço pra desejar o bem ao outro, tanto quanto eu conseguir. Sinto que já melhorei muito nesse aspecto, o tempo de resposta melhorou, o quanto eu fico afetado, tem diminuído e em diversos casos foi a quase zero.

As vezes não consigo imaginar como posso ter algo sem que outro perca por isso, não consigo visualizar um cenário de abundância. Tento me apegar ao intelecto, à ideia de que o fato de eu não conseguir imaginar diz mais da minha criatividade (ou da falta dela) do que da infinidade de possibilidades que existem. Detesto a noção de oceano vermelho, de ter que competir com o outro, de ver ele como um inimigo. Todos podem ser úteis, trabalhar em conjunto, existe espaço para uma concorrência, para a competição saudável, certamente, mas que eu nunca caia na mentalidade da escassez, e se cair, que não me permita as emoções de raiva, rancor, ciúmes, inveja e etc. Quero me relacionar com os outros a partir de outro paradigma, e se eu ainda não conseguir, ai eu quero querer querer.