Sobre vitrines e equações

A percepção da obsolescência de algo e o prazer de ver o mundo por meio de equações.

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Estava no shopping outro dia e vi uma loja sem o vidro da vitrine. O resto era como de se esperar, o espaço do display claramente delimitado, os manequins com as roupas, e a entrada ao lado.. a única diferença é que não havia o vidro que normalmente tem. Achei curioso. Realmente, a função do vidro é permitir a passagem da luz e impedir a da matéria – você pode ver o que está do outro lado, mas não pode pegar. O que no ambiente do shopping não faz sentido. Têm câmeras e seguranças, ninguém vai agarrar uma camisa e sair correndo só porque não tem nada no caminho. O vidro perde sua função.

Há uma economia em não comprar um vidro de vitrine, é uma coisa a menos pra limpar, e no final achei a loja mais convidativa. Acho legal quando percebo algo que fazemos sem necessidade, e mudamos isso.

Vejo uma beleza no minimalismo zen, em retirar o excesso. Li um autor que dizia que um texto não está pronto quando não se tem mais nada a adicionar, mas quando não se tem mais nada a retirar. “Perdoe-me pela longa carta, mas não tive tempo de escrever uma mais curta.”

Nunca fui um aluno acima da média em matemática, no colégio ou na faculdade, mas acho que isso é mais pelo meu incômodo em como a matéria é ensinada e cobrada. Há um tempo que vejo muitas coisas como equações. Que percebo o mundo sobre o prisma de variáveis e funções. Por isso acho que o equilíbrio ou a busca por ele é um tema tão comum nos meus textos. Toda equação é uma igualdade. Se adicionar algo de um lado, deve adicionar exatamente o mesmo do outro pra se manter a igualdade – o equilíbrio. As coisas afetam umas às outras seguindo certas regras, certos padrões, mesmo que as variáveis sejam conceitos abstratos e não apenas números.

Acho linda a frase do Einstein “devemos tornar algo tão simples quanto possível, mas não mais”. É exatamente isso, a quintessência da comunicação, da eficiência. Lembro um dia minha irmã falando com amigos sobre montar uma banda. Alguém disse “mas não temos dinheiro, ou instrumentos”. “A gente arranja ué”. “Mas não tem aonde ensaiar”. “A gente acha um lugar”. “A gente nem sabe tocar nada”. “É só aprender”. E assim a conversa foi, por um breve período, e depois mudaram de assunto, a banda nunca surgiu e ficou como mais uma das possibilidades não-realizadas que nascem de inspirações momentâneas em tantas mesas de bar. O que me marcou, no entanto, foi que nesse momento compreendi que todo empreendimento depende basicamente de uma variável: vontade. Se tiver vontade o suficiente, superamos, contornamos ou transformamos todo e qualquer obstáculo que possa vir. Ainda não sei a equação inteira, mas sei que essa variável é a mais importante.

Esse é só um exemplo de como entendo as coisas. Essa visão de um empreendimento como uma função, como um sistema com entradas e saídas. Talvez eu tenha gostado de perceber a loja sem vitrine porque foi como descobrir um elemento desnecessário numa equação, um algo a mais que foi retirado e agora ela está mais bela, um pouquinho mais que seja.

Curioso né. Cada um com a sua loucura.