O erro de Jesus

O sagrado ou divino fica distante, inacessível.
Ateus e fieis só tem a lucrar ao trazermos à mesa discussões sobre a vida boa, moral e relacionamentos. Talvez por caminhos um pouco diferentes, mas indo todos na mesma direção.

bienaventuranzas

 

Jesus foi um cara nota 10. Não importa a sua religião, por puro bom senso temos que admirar a mensagem de pregar o amor e a humildade, mesmo que ele não tenha sequer realizado milagres. Fazer ao outro o que gostaria que fizesse a você, amar os amigos e os inimigos, dar a outra face, perdoar setenta vezes sete vezes (490, aos curiosos). Uma questão, no entanto, é que Jesus permanece o modelo ideal de vida aos cristãos, continua inabalado no 1o lugar. Há mais de dois mil anos que não houveram avanços, permanecemos com o recorde inalterado.

No campo da ciência a coisa é um pouco diferente. É famosa a frase “Se pude enxergar mais longe, foi pois estava sobre o ombro de gigantes”. O grande lance da ciência é que ela é cumulativa. Cada nova geração de matemático, físicos e químicos continua o trabalho de onde a anterior parou. Cada experimento, com erros e acertos cresce o compêndio, a biblioteca de conhecimentos, e assim, aos poucos mas constantemente, nosso entendimento avança. É a diferença de uma P.A. para uma P.G. (progressão aritmética e geométrica, lembra?), de juros simples pra juros compostos.

No começo, ou em curtos espaços de tempo, a diferença é quase imperceptível, mas no longo prazo um cresce exponencialmente enquanto o outro fica pra trás por comparação.

Se trouxéssemos para os dias de hoje alguém do século II, IX ou XV, qualquer especialista ficaria maravilhado com os avanços. Os avanços que tivemos na indústria náutica, qualquer marinheiro, capitão ou construtor de navios ficaria abismado. Um médico do passado ficaria perdido com o volume de informação sobre o quanto sabemos sobre as doenças, vírus, bactérias, vetores, genética. Um matemático ou físico nem se fala. Praticamente qualquer profissão veria mudanças incríveis. Mesmo um mestre cervejeiro poderia achar curioso que o principal de uma metodologia se manteve, mas o avanço no maquinário, entender que levedura gera o que, como modificar o ambiente, pH e etc. O único que praticamente não veria diferença seria um padre. Tirando a surpresa nas roupas e hábitos de hoje, ele poderia tranquilamente dar um mesmo discurso, ou conversar de igual pra igual com teólogos. Estranharia a “mente aberta” de um ou outro em relação a alguns temas, mas no geral se sentiria em casa.

Isso acontece pois não houve nenhum avanço significativo desde Jesus. Não foram feitos adendos à Bíblia, não saiu a versão revisada e atualizada. O pior é que apenas decaímos. Desde Jesus tivemos alguns homens e mulheres dignos de nota, que viraram santos em alguns casos, como o Santo Agostinho, a Madre Teresa de Calcutá e outros. Uma série de pessoas realmente impressionantes, mas ainda assim nenhuma superou o mestre. Basicamente, o cristianismo apenas caiu de qualidade nos últimos dois milênios. Cresceu muito em quantidade, sem dúvidas, mas o custo foram alguns dos seus mais elevados valores. O vaticano ao longo da história se mostrou quase o perfeito oposto do amor e da humildade.

Os conhecimentos ou práticas da igreja não evoluíram. Pode ser que eles já estivessem perfeitos desde o primeiro momento, dado que tiveram inspiração divina, mas isso atesta ainda mais a falha da instituição. 2000 anos com o gabarito e não conseguimos ainda acertar na primeira questão. Amar o outro como a mim mesmo. É só dar uma volta na rua e ver que não estamos perto dessa ainda. E pode entrar em qualquer igreja.

A ciência, por outro lado, tem gênios e grandes nomes superando uns aos outros constantemente. E mesmo que uns sejam ditos maiores que outros, no fim das contas quem ganha somos nós, não há de fato uma competição e o que importa é o legado. Lógico que nos interessamos pelas pessoas, mas o valor de Galileu está no que ele deixou e o que foi construído em cima desses conhecimentos. Hoje qualquer aluno de graduação em física está à frente do que o Newton sabia em quase todos os aspectos. Qualquer aluno da 8a série do colégio sabe mais que o melhor médico do século XII sobre a transmissão de doenças. Isso mostra o quanto avançamos enquanto sociedade. Já um padre de séculos atrás poderia disputar de igual pra igual sua posição no clérigo atual depois de algumas atualizações de ordem prática.

Não pretendo com isso fazer um ataque à igreja. Acho que os valores por ela defendidos são extremamente importantes. O amor, a fraternidade, a humildade, ajudar o próximo. Mesmo o senso de comunidade que ela promove, um espaço para ouvir as dúvidas e medos de cada um. É um atestado ao nosso descompasso moral a distância entre a teoria e prática desses assuntos.

Deixamos por muito tempo a ciência tratar apenas de questões “técnicas”, mas a verdade é que precisamos trazer outras mais à mesa. A vida boa, como se relacionar, como ser uma pessoa melhor, como perdoar, criar e manter amizades, como amar a si mesmo e ser humilde, se preocupar com o outro e entender o seu lugar no mundo. Essas questões são difíceis e ainda não se encaixam perfeitamente no método científico, mas ignorá-las não nos fará nenhum bem. Elas foram deixadas pra trás como parte do que muitos desprezaram da igreja, e ao lado de histórias sobre o céu, inferno, Adão e Eva o arquétipo do homem secular voltou sua atenção aos “assuntos sérios”.

Não me importa se você segue uma religião ou no que crê, há uma ampla gama de assuntos que tem recebido muito menos atenção do que devia, e parte do porquê é que associamos a eles questões religiosas, e os que fogem de um acabam fugindo do outro também. Acho fundamental que não só haja uma clara separação, mas que todos percebam a importância de voltar a devida atenção a esses tópicos. Devemos voltar a discutir sobre o que é o certo em cada situação, a moral e ética, sobre como viver bem, como nos relacionar uns com os outros e com o trabalho, que tipo de pessoa queremos ser, como queremos viver, refletir sobre nossas emoções e nossos desejos, medos e anseios.

Coisas que vinham no pacote da religião, na reza, no ato de se confessar e tantos outros e que foram perdidos, jogaram fora o bebê na água do banho.
Acho que a melhor coisa que podemos fazer, mesmo à religião, é ter de alguma forma um senso de avanço, de progresso.

É a diferença de um máximo e um mínimo. Posso começar a te avaliar com nota 10, e a cada erro você vai perdendo pontos. Ou posso te começar com zero, e com os acertos você vai avançando. Por mais que Einstein seja reverenciado, nenhum pesquisador quer saber apenas tanto quanto ele. Eles o ultrapassaram em conhecimento e continuam avançando, o céu é o limite, pois existem milhares de descobertas a serem feitas. No cristianismo parece que o caminho já está trilhado, e cabe a você se manter o máximo possível nas pegadas do mestre, sabendo já de antemão que ninguém conseguiu, o que mais pode esperar é errar pouco. Você nasce com a nota 10, mas a partir daí vai só piorando com cada falha de caráter, vício, pecado ou má conduta, e tentando recuperar aos trancos e barrancos.

O erro de Jesus foi ter sido bom demais, distante demais do homem comum. Se vejo um atleta saltando bem alto posso me inspirar e falar “irado, vou fazer isso também”. Mas se o cara vai alto demais, se ele voa sem asas, ai só me resta aceitar que ele é diferente e nem me cabe tentar algo assim, melhor ir fazer outra coisa. Jesus definiu um caminho e foi um grande exemplo, talvez o erro nem tenha sido dele, mas do que fizeram dele. Da sacralização, a distância do altar, que sobe demais um e desce demais o outro. É importante ter um ídolo, um modelo que seja modelável. É importante sentir que posso chegar lá, que é um desafio que posso inclusive superar. Pode ser que eu não consiga, mas a motivação é maior. Dessacralizar não é desrespeitar, muito pelo contrário, é voltar o cara pra onde ele mesmo se colocou. No meio do povo, andando e falando (descalço inclusive), sem distância, sem endeusamento, sem ser tão divino assim. Acessível. Um cara que era bom, tinha boas ideias e buscou disseminá-las com suas palavras e ações. Vamos continuar de onde ele parou, vamos prosseguir com o trabalho, vamos avançar.

Progresso moral e intelectual podem e devem se ajudar mutuamente. Só assim teremos um avanço real em nossa sociedade, e em cada indivíduo nela.