Excessos

Um grão de areia, na praia, é maravilhoso, na minha cama, é sujeira.

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Quando meu pai se separou da minha mãe, criamos o hábito de almoçar juntos nos finais de semana. Por um tempo íamos num restaurante self-service que tinha churrasco, e nessa época eu comia carne. Em geral pegava um pouco de cada. Umas fatias de picanha, maminha, fraldinha, isso e aquilo outro. Um dia eu estava com a garganta inflamada e, como comer era um esforço enorme, peguei o mínimo necessário. Apesar do incômodo na garganta, percebi quão mais gostosa foi a refeição, pois eu só peguei as coisas de que mais gostava. Na semana seguinte eu estava bem, mas quando cheguei no churrasco, pedi apenas a picanha, que eu gostava mais.

Achei uma descoberta incrível, a de que eu podia só pegar as coisas boas. E não foi uma questão de saúde, como se eu estivesse trocando a salada por batata frita, era só não pegar Maminha, por exemplo, e pegar mais picanha no lugar. Nesse caso, o preço ainda era o mesmo. Foi uma realização, afinal, porque mesmo eu pegava as outras carnes se não gostava tanto? Hábito. Sempre foi assim, sempre me serviram assim e eu repetia isso. E o custo de oportunidade, entender que meu prazer com comida é limitado pelo volume que eu consigo ingerir, então é melhor comer as coisas que gosto mais. Mais pra frente o fator saúde também entrou nessa conta.

Acho que limpar as coisas, retirar o excesso, sempre me interessou. Detesto desperdício, de qualquer coisa, tempo, recursos, o que for. Não quer dizer que tudo seja excesso, ou que não tenha valor, é mais uma questão logística. A areia na praia é maravilhosa, na minha cama, é sujeira.

É como descobrir a meditação separada da carga religiosa com a qual ela sempre esteve acoplada. A prática de sentar e focar na respiração, nos pensamentos ou no que for, existem diversas técnicas seculares atualmente. Não acho que os conceitos religiosos sejam um problema, mas acho interessante ver que podem ser dissociados, até porque sei que pra muitas pessoas, sim, são uma questão, e talvez por ter opiniões assim tão duras que essas pessoas se beneficiem mais ainda de uma prática meditativa. E pra outras pessoas é super válido ter apenas os conceitos religiosos, separados de certos rituais.

No caso de doces por exemplo, eu adoro brigadeiro. E não gosto tanto de biscoito de maisena. Não acho ruim, mas não acho maravilhoso. Assim, a palha italiana me apetece menos, pois espaços em que poderia haver mais brigadeiro são preenchidos por pedaços de biscoito, menos agradáveis ao meu paladar. Existem casos em que a mistura de um ingrediente – que sozinho não é tão gostoso – com outro, gera algo no final melhor, mais saboroso do que a soma das partes. É o caso com alguns molhos. Um sashimi puro pra mim já é gostoso, shoyo nem tanto, mas juntos a combinação é melhor do que cada um separadamente. No caso da palha italiana, isso não acontece pra mim. A mistura não gera algo que supere o brigadeiro puro, é só menos gostosa.

Tomei a decisão de só comer doces que eu considero notas 8, 9 ou 10. Que são, pra mim, os muito bons. E extra-oficialmente, quero focar mais nos 9 e 10. Eu gosto bastante de doces, e sei que uma alta ingestão de açúcares e gorduras não é saudável. Dado que eu quero uma vida saudável, queria fazer algo a respeito. Eu me exercito com regularidade, e o prazer dos doces é algo do qual não quero me desfazer se puder evitar, então por isso a decisão, ela inclui duas vontades: a de ter uma alimentação saudável e a de ter o prazer gustativo dos doces. Dessa forma eu continuo comendo doces, mas não todos.

Como são coisas que têm seu custo na minha saúde, passo agora a comer apenas os com a melhor relação custo-benefício, na minha opinião. Assim, sei que na prática eu passo a comer menos doces no geral. Outro dia mesmo tinha em casa um pudim e um bolo que eu certamente comeria um pedaço, nem que fosse apenas pra provar, mas agora eu ignorei. Não sou tão fã de pudim ou daquele bolo, então fico tranquilo em não comer. Almoço num restaurante e não peço uma sobremesa só pelo hábito. Ou vou pedir algo que realmente goste, ou nada. E na maioria dos casos tem sido nada. Nessa regra, deixo algumas excessões, como quando vou visitar alguém e a pessoa preparou algo pra mim, ou se é um presente e algumas outras situações (tipo viagens), mas que acontecem com tão pouca frequência que nem preciso me preocupar.

Vi um artigo mostrando quantas horas de propaganda as crianças estavam deixando de ver ao assistir seus desenhos no Netflix. Achei super interessante. É isso, sou a favor de retirar os excessos, de compreender exatamente o que eu quero ou gosto em algo, e descobrir se existe uma forma melhor de conseguir aquilo. Adoro meu Kindle, acho uma forma tão eficiente de comprar e ler livros. Evita todo um trabalho de distribuição, o desperdício de papel, da energia gasta na logística, navios e caminhões que são substituídos por zeros e uns, por um sistema mais eficiente. E nesse caso, pelo menos pra mim, a experiência é até melhor. Diferente, perde-se em alguns aspectos, mas ganha-se em outros, e meu veredicto é de que estamos melhor com ele.

Uma vez viajei com meus pais num pacote de viagens. A viagem foi super legal, mas tiveram alguns passeios guiados que eu achei um saco, mas no geral valeu a pena pelos outros momentos bons que tivemos. Depois eu descobri que todos os passeios chatos estavam no pacote, que não apenas era possível viajar sem ter que participar deles, como era mais barato. Eu entendi o que eu valorizo numa viagem. As relações pessoais, as vivências, as novidades, a chance de encontros e tudo o mais. Não gosto de locais lotados, de visitas tipicamente turísticas e de lojas de souvenirs. Tem gente que gosta, não me acho melhor nem estou julgando quem gosta, só reconhecendo que não é a minha praia. Assim, posso montar a minha viagem de acordo com o que gosto. Só brigadeiro, sem biscoito de maisena.