Porque eu não pago flanelinhas

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Há uns 8 anos que eu não pago flanelinhas. Nunca. Pago guardadores quando tem o talão, estacionamento e etc. Meu incômodo foi em ver que a coisa perdeu o sentido. Antigamente o flanelinha pedia um dinheiro pra olhar o seu carro, garantir que não fosse roubado enquanto você estava fora. Hoje em dia o maior perigo de quem ele nos protege é dele mesmo. A maioria das pessoas paga com medo do guardador fazer algo com seu carro se você não pagar. Quase ninguém acredita que ele vá de fato impedir um ladrão ou algo assim. E até ai tudo bem, o cara ta pedindo o dinheiro, dá quem quer. Mas decidi que não queria participar disso.

É muito importante, pra mim, o como. Eu não tenho raiva deles, não me incomodo que peçam, jamais sou mal educado. Sou sempre bem firme e claro. Dou bom dia, boa tarde, ou boa noite, e quando ele me diz quanto é o serviço digo apenas “não, muito obrigado”. Falo isso sem agressividade, sem pressa de ir embora ou medo, exatamente como quando um amigo me oferece algo que eu não quero. Não minto dizendo que vou pagar na volta, ou que “vamos ver”, nunca disse que estou sem dinheiro. Em geral não dou nenhuma justificativa, apenas digo que não, agradeço e sigo meu caminho.

Uma vez só o guardador disse que esse era o trabalho dele, e eu disse que sem o talão e naquele horário (era tipo meia noite) a vaga é pública e qualquer um podia parar. A função de dar segurança é do governo e que o que ele estava fazendo era pedindo uma esmola enquanto olhava os carros, e que era ok fazer isso, mas que ninguém era obrigado a dar nada. Ele resmungou alguma coisa, mas não fez nada.

Paro o carro em tudo quanto é tipo de lugar. Ando mais pela zona sul, mas já fui centenas de vezes na lapa, glória, centro, barra. Nunca tive um problema. Nunca arranharam meu carro, nunca fizeram nada. E por alguns anos o carro estava com um problema que uma das portas não trancava. Até onde eu sei nunca tentaram abrir. Pelo menos nunca levaram nada de dentro. E sempre deixei o som, minha mochila e mais qualquer coisa que não quisesse carregar.

Não falo isso pra estimular ninguém, entendo que minha atitude pode ser mais arriscada. Falo, talvez, pra mostrar uma possibilidade, ou só uma curiosidade mesmo. A maioria das pessoas quando ouve que eu não paguei o cara tem certeza que meu carro vai ser arranhado, vão quebrar o vidro e etc. Só posso falar da minha experiência, mas ela contradiz isso. De vez em quando acho válido testar algumas “certezas” que temos. Honestamente acho que mais importante que pagar ou não é o como falar e se posicionar. Ser arrogante, estúpido, agressivo ou qualquer coisa assim é uma péssima forma de se relacionar com qualquer ser humano. Há quem pague, mas com desprezo, raiva ou até nojo – acho essa a pior das opções. A minha experiência é que quando você simplesmente deixa claro que não vai pagar e está tudo bem com isso, eles aceitam numa boa. Alguns estranham ou pedem de novo, mas no final aceitam.

Não faço isso pra economizar dinheiro, mas pelo princípio. Me incomoda a cultura de tentar assustar a pessoa, especialmente mulheres, e cobrar no lugar de pedir. Não gosto de como a coisa mudou de “Você quer que eu olhe seu carro?” pra “Aqui a gente ta cobrando 10 reais. Adiantado, falou?”.

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