O erro de Jesus

O sagrado ou divino fica distante, inacessível.
Ateus e fieis só tem a lucrar ao trazermos à mesa discussões sobre a vida boa, moral e relacionamentos. Talvez por caminhos um pouco diferentes, mas indo todos na mesma direção.

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Jesus foi um cara nota 10. Não importa a sua religião, por puro bom senso temos que admirar a mensagem de pregar o amor e a humildade, mesmo que ele não tenha sequer realizado milagres. Fazer ao outro o que gostaria que fizesse a você, amar os amigos e os inimigos, dar a outra face, perdoar setenta vezes sete vezes (490, aos curiosos). Uma questão, no entanto, é que Jesus permanece o modelo ideal de vida aos cristãos, continua inabalado no 1o lugar. Há mais de dois mil anos que não houveram avanços, permanecemos com o recorde inalterado.

No campo da ciência a coisa é um pouco diferente. É famosa a frase “Se pude enxergar mais longe, foi pois estava sobre o ombro de gigantes”. O grande lance da ciência é que ela é cumulativa. Cada nova geração de matemático, físicos e químicos continua o trabalho de onde a anterior parou. Cada experimento, com erros e acertos cresce o compêndio, a biblioteca de conhecimentos, e assim, aos poucos mas constantemente, nosso entendimento avança. É a diferença de uma P.A. para uma P.G. (progressão aritmética e geométrica, lembra?), de juros simples pra juros compostos.

No começo, ou em curtos espaços de tempo, a diferença é quase imperceptível, mas no longo prazo um cresce exponencialmente enquanto o outro fica pra trás por comparação.

Se trouxéssemos para os dias de hoje alguém do século II, IX ou XV, qualquer especialista ficaria maravilhado com os avanços. Os avanços que tivemos na indústria náutica, qualquer marinheiro, capitão ou construtor de navios ficaria abismado. Um médico do passado ficaria perdido com o volume de informação sobre o quanto sabemos sobre as doenças, vírus, bactérias, vetores, genética. Um matemático ou físico nem se fala. Praticamente qualquer profissão veria mudanças incríveis. Mesmo um mestre cervejeiro poderia achar curioso que o principal de uma metodologia se manteve, mas o avanço no maquinário, entender que levedura gera o que, como modificar o ambiente, pH e etc. O único que praticamente não veria diferença seria um padre. Tirando a surpresa nas roupas e hábitos de hoje, ele poderia tranquilamente dar um mesmo discurso, ou conversar de igual pra igual com teólogos. Estranharia a “mente aberta” de um ou outro em relação a alguns temas, mas no geral se sentiria em casa.

Isso acontece pois não houve nenhum avanço significativo desde Jesus. Não foram feitos adendos à Bíblia, não saiu a versão revisada e atualizada. O pior é que apenas decaímos. Desde Jesus tivemos alguns homens e mulheres dignos de nota, que viraram santos em alguns casos, como o Santo Agostinho, a Madre Teresa de Calcutá e outros. Uma série de pessoas realmente impressionantes, mas ainda assim nenhuma superou o mestre. Basicamente, o cristianismo apenas caiu de qualidade nos últimos dois milênios. Cresceu muito em quantidade, sem dúvidas, mas o custo foram alguns dos seus mais elevados valores. O vaticano ao longo da história se mostrou quase o perfeito oposto do amor e da humildade.

Os conhecimentos ou práticas da igreja não evoluíram. Pode ser que eles já estivessem perfeitos desde o primeiro momento, dado que tiveram inspiração divina, mas isso atesta ainda mais a falha da instituição. 2000 anos com o gabarito e não conseguimos ainda acertar na primeira questão. Amar o outro como a mim mesmo. É só dar uma volta na rua e ver que não estamos perto dessa ainda. E pode entrar em qualquer igreja.

A ciência, por outro lado, tem gênios e grandes nomes superando uns aos outros constantemente. E mesmo que uns sejam ditos maiores que outros, no fim das contas quem ganha somos nós, não há de fato uma competição e o que importa é o legado. Lógico que nos interessamos pelas pessoas, mas o valor de Galileu está no que ele deixou e o que foi construído em cima desses conhecimentos. Hoje qualquer aluno de graduação em física está à frente do que o Newton sabia em quase todos os aspectos. Qualquer aluno da 8a série do colégio sabe mais que o melhor médico do século XII sobre a transmissão de doenças. Isso mostra o quanto avançamos enquanto sociedade. Já um padre de séculos atrás poderia disputar de igual pra igual sua posição no clérigo atual depois de algumas atualizações de ordem prática.

Não pretendo com isso fazer um ataque à igreja. Acho que os valores por ela defendidos são extremamente importantes. O amor, a fraternidade, a humildade, ajudar o próximo. Mesmo o senso de comunidade que ela promove, um espaço para ouvir as dúvidas e medos de cada um. É um atestado ao nosso descompasso moral a distância entre a teoria e prática desses assuntos.

Deixamos por muito tempo a ciência tratar apenas de questões “técnicas”, mas a verdade é que precisamos trazer outras mais à mesa. A vida boa, como se relacionar, como ser uma pessoa melhor, como perdoar, criar e manter amizades, como amar a si mesmo e ser humilde, se preocupar com o outro e entender o seu lugar no mundo. Essas questões são difíceis e ainda não se encaixam perfeitamente no método científico, mas ignorá-las não nos fará nenhum bem. Elas foram deixadas pra trás como parte do que muitos desprezaram da igreja, e ao lado de histórias sobre o céu, inferno, Adão e Eva o arquétipo do homem secular voltou sua atenção aos “assuntos sérios”.

Não me importa se você segue uma religião ou no que crê, há uma ampla gama de assuntos que tem recebido muito menos atenção do que devia, e parte do porquê é que associamos a eles questões religiosas, e os que fogem de um acabam fugindo do outro também. Acho fundamental que não só haja uma clara separação, mas que todos percebam a importância de voltar a devida atenção a esses tópicos. Devemos voltar a discutir sobre o que é o certo em cada situação, a moral e ética, sobre como viver bem, como nos relacionar uns com os outros e com o trabalho, que tipo de pessoa queremos ser, como queremos viver, refletir sobre nossas emoções e nossos desejos, medos e anseios.

Coisas que vinham no pacote da religião, na reza, no ato de se confessar e tantos outros e que foram perdidos, jogaram fora o bebê na água do banho.
Acho que a melhor coisa que podemos fazer, mesmo à religião, é ter de alguma forma um senso de avanço, de progresso.

É a diferença de um máximo e um mínimo. Posso começar a te avaliar com nota 10, e a cada erro você vai perdendo pontos. Ou posso te começar com zero, e com os acertos você vai avançando. Por mais que Einstein seja reverenciado, nenhum pesquisador quer saber apenas tanto quanto ele. Eles o ultrapassaram em conhecimento e continuam avançando, o céu é o limite, pois existem milhares de descobertas a serem feitas. No cristianismo parece que o caminho já está trilhado, e cabe a você se manter o máximo possível nas pegadas do mestre, sabendo já de antemão que ninguém conseguiu, o que mais pode esperar é errar pouco. Você nasce com a nota 10, mas a partir daí vai só piorando com cada falha de caráter, vício, pecado ou má conduta, e tentando recuperar aos trancos e barrancos.

O erro de Jesus foi ter sido bom demais, distante demais do homem comum. Se vejo um atleta saltando bem alto posso me inspirar e falar “irado, vou fazer isso também”. Mas se o cara vai alto demais, se ele voa sem asas, ai só me resta aceitar que ele é diferente e nem me cabe tentar algo assim, melhor ir fazer outra coisa. Jesus definiu um caminho e foi um grande exemplo, talvez o erro nem tenha sido dele, mas do que fizeram dele. Da sacralização, a distância do altar, que sobe demais um e desce demais o outro. É importante ter um ídolo, um modelo que seja modelável. É importante sentir que posso chegar lá, que é um desafio que posso inclusive superar. Pode ser que eu não consiga, mas a motivação é maior. Dessacralizar não é desrespeitar, muito pelo contrário, é voltar o cara pra onde ele mesmo se colocou. No meio do povo, andando e falando (descalço inclusive), sem distância, sem endeusamento, sem ser tão divino assim. Acessível. Um cara que era bom, tinha boas ideias e buscou disseminá-las com suas palavras e ações. Vamos continuar de onde ele parou, vamos prosseguir com o trabalho, vamos avançar.

Progresso moral e intelectual podem e devem se ajudar mutuamente. Só assim teremos um avanço real em nossa sociedade, e em cada indivíduo nela.

Onde você gostaria de estar agora?

É verdade que nem sempre podemos estar onde queremos, mas quantas vezes não estamos onde queremos, ainda assim desejando estar em outro lugar?

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Onde você gostaria de estar agora?

Essa pergunta foi feita num workshop com centenas de pessoas, e cada uma escreveu sua resposta num pedaço de papel. Depois o palestrante leu algumas: “Na praia. Em casa com meus filhos. No Havaí. Numa cachoeira…”.
Uma pessoa respondeu: “Aqui. Eu me inscrevi pra esse workshop, paguei, escolhi vir pra cá, então é exatamente aqui que eu quero estar.”

Fazemos o que queremos. É tudo uma questão de causa e consequência. Digo que não posso faltar o trabalho, mas a verdade é que não quero, com medo de ser demitido. Na verdade, nem demitido, mas provavelmente seria mal visto, poderia ter alguns incômodos, explicações… Como eu não quero isso, eu quero ir trabalhar. Como eu não quero engordar, eu quero ir na academia. E quando eu estou na academia, e lá que eu quero estar.

O filme “Meu nome não é Johnny” tem uma cena na qual ele pode voltar pra casa por um dia, depois de ficar preso por um tempo. O caminho passa por partes do Rio pelas quais ando sempre. O filme me envolveu bastante, entrei na história, e lembro de sentir o alívio que o personagem deveria sentir ao ver a paisagem. Ele estava há meses na prisão, em lugares horríveis, com a perspectiva de ficar anos trancafiado, e de repente está andando de carro, passando pela orla, olhando as pessoas na rua, o céu, mesmo o trânsito e prédios nada especiais. Que prazer absurdo tudo isso. Me tocou mais fortemente por serem cenários do meu cotidiano. Não acho que precisamos aplaudir o por-do-sol todo dia, mas realmente me vi admirando coisas como há um tempo eu não fazia. O filme “Bicho de 7 cabeças” tem uma cena parecida.

Um dia dando carona pra uma amiga peguei um trânsito que normalmente acharia chato. Mas esse dia eu sabia que o tempo no carro seria o tempo que eu teria com ela, a conversa tava boa, o clima agradável, e eu me peguei agradecendo ao trânsito. Não tem nada intrinsicamente ruim no fato de carros estarem andando devagar. Nós é que interpretamos assim tanto que parece que só há uma reação – ficar irritado ou pelo menos incomodado.

A vida não é só feita de momentos de fotos do instagram, onde todos estão sorrindo, você está saltando da cachoeira ou dando a volta em Ilha Grande. Essas coisas são incríveis, mas boa parte da vida é você andando pra pegar um ônibus, comendo um queijo quente sozinho na padaria, vendo TV em casa, parado no sinal, esperando. Não costumamos glorificar esses momentos, nem costumamos postar fotos deles.

Vivemos muita vezes como reféns da cultura do resultado. Essa noção maquiavélica de valorizar apenas os fins. O que importa é a nota boa no boletim, o dinheiro no banco, a medalha de ouro. Esses marcos de sucessos passam a ser confundidos com o sucesso em si. É um ‘usar a parte pelo todo’. Dinheiro é útil pois com ele consigo outras coisas, mas ele em si não me traz felicidade. Confundimos o símbolo com o que ele deveria significar. O atleta treina por 4 anos por um breve momento ao Sol, seus 10 segundos no 100 metros rasos. Se ganhou, tudo valeu a pena, senão, que pena.

Gosto da reflexão que o Taoismo sugere. O Tao é o caminho. A vida ocorre no caminho, nas transições tanto quanto nos finais. É importante ter metas, e os símbolos do “sucesso” nos estimulam a seguir em frente e superar obstáculos. Pensar na plateia lotada e no reconhecimento que posso ter ao dirigir uma peça é um motivador a mais pra ir trabalhar todo dia. Mas que isso nunca me tire do agora, da diversão, do mergulho que é o processo de criação, a interação com as pessoas, o que inclui as partes ‘boas’ e ‘ruins’. As discussões, perdas e erros fazem parte da vida, fazem parte da nossa história e de quem nos tornamos.

Lamentamos a morte de um ente querido não apenas pelas qualidades mas também pelos seus defeitos, isso tudo era aquela pessoa. Existe uma diferença entre apreciar o momento e ser um bobo alegre. Posso aceitar uma tristeza por exemplo, não gostar dela, mas compreender que ela tem seu valor e viver esse momento sem tentar fugir, mas estando consciente das mudanças que preciso fazer pra evitar isso mais pra frente.

Tudo é interessante, pois tudo é novidade. Posso achar interessante a dor de uma pancada no dedo sem necessariamente gostar ou querer de novo. Simplesmente entendo a unicidade do acontecimento, estou vivo, coisas acontecem comigo.

Existem duas palavras em alemão que diferenciam o poder: “Kann” e “Darf”. Kann é poder no sentido de capacidade, e Darf é poder no sentido de ter permissão. Assim eu posso (kann) andar no metrô sem camisa, mas eu não posso (darf). Acho bem válida essa distinção, pois comumente confundimos os dois. É claro que eu posso faltar o trabalho amanhã, mas eu não quero. É uma relação de causa e consequência. Eu não quero deixar os clientes e pessoas que dependem de mim esperando, não quero correr o risco de ser demitido, não quero que pensem que sou irresponsável, e etc, por isso eu quero ir ao trabalho.

Ninguém é obrigado a nada. Mesmo se um cara põe uma arma na sua cabeça e diz pra fazer algo, ainda assim você fez porque quis. O motivador pode ter sido não levar um tiro. Mas raríssimos casos são tão extremos. A grande maioria das coisas que dizemos ser obrigados a fazer não são assim. É simplesmente uma questão das consequências, mas mais que isso, em geral das possíveis consequências.

É verdade que nem sempre podemos estar onde queremos, mas quantas vezes não estamos onde queremos, ainda assim desejando estar em outro lugar?

Muitas vezes eu ouço algo e logo penso numa exceção. Leio “Meditar todo dia é um hábito que reduz ansiedade” e já penso ‘é, mas tem outras coisas que reduzem ansiedade. E tem gente que medita e continua ansiosa. E pior, tem gente que acha que ta meditando, fica sentada um tempo e sai se sentindo o buddha encarnado, e no final não teve um minuto de concentração’. Ok, calma. A frase não vai de encontro a nada disso. Ela disse o que disse, e tenho achado mais útil buscar o valor de algo do que tentar encontrar as possíveis falhas (mas ainda assim ficar atento a elas).

Onde você gostaria de estar agora vale pra tudo. No que você está pensando, o que está lendo. Porque estou aqui? Porque estou nesse momento fazendo isso?

Mesmo que seja algo que eu esteja fazendo apenas pelo resultado, estou indo no dentista não por achar a experiência agradável, mas porque não quero ter cáries e etc. Ok, mas a vida acontece mais nesses meios do que qualquer outra coisa. É a mensagem do filme “Click”. Pode ser meio bobo, mas um cara tem um controle que o permite controlar a realidade. Ele começa a avançar, pular capítulos “chatos” de sua vida pra chegar aonde queria. A moral, na minha opinião, é que quando ele percebe, ele pulou a vida inteira. Todos os pequenos momentos, as vezes vistos como chatos, um jantar de família, um trânsito no caminho pro trabalho, uma briga com a esposa, bem, é disso que a vida é feita.

Acredito que é possível se aproveitar muito mais cada momento, viver de fato o presente. Ansiedade é viver demais no futuro, e depressão é viver demais no passado (demais é a palavra-chave aqui). Acho que a vida é como um monitor de batimentos cardíacos. O presente no meio, futuro em cima, passado em baixo. É saudável ir pro futuro e voltar pro passado, a questão é por quanto tempo. Quando eu pego um copo antes de abrir a torneira do filtro, o faço pois pensei à frente. Sem essa ida mental ao futuro, apenas molho o chão da cozinha. Se te vejo e reconheço é porque mantenho minhas memórias, minhas ligações com o passado. Essas são variações saudáveis. O problema é ficar demais num ou noutro, pois sempre que estamos lá, deixamos de estar cá.

 

E você, onde gostaria de estar agora?

Porque tanta gente não consegue vender

A resistência a se divulgar, cobrar um preço justo por seu serviço está ligada a sua auto-confiança, ao quanto você se valoriza. Aqui estão as 4 maiores razões dessa dificuldade, na minha opinião.

 

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Existe uma ampla gama de bons materiais sobre marketing e vendas, técnicas e etc. Aqui não vou falar sobre isso. Creio que o motivo pelo qual muitas pessoas não conseguem vender seja mais profundo. Não é o como, mas o porquê.

Muita gente tem medo de vender. Diferente do medo de aranhas ou de voar de avião, esse costuma ser um medo secreto, em geral até da pessoa. Percebemos ele pelos sintomas clássicos de como a pessoa evita o assunto, vender ou divulgar é super delicado.. Trabalho com consultoria em empresas e percebo o custo disso diariamente, desse auto-sabotador que secretamente trabalha nos bastidores, dando motivos e racionalizações irreais e atravancando o sucesso de muita gente. Então queria falar um pouco sobre isso.

Tudo é venda, vendemos serviços e produtos, também ideias. Toda comunicação humana é uma troca, de informação, de energia, e eventualmente essas trocas são também financeiras. Se digo que vi um filme legal, estou te ofertando essa informação, minha opinião, e você pode aceitar ou não. Mas falo aqui mais do contexto profissional. Lido com pessoas e empresas que são incríveis no que fazem, completamente dedicadas naquilo – e portanto realmente excelentes – mas que pecam na divulgação, na hora de negociar seu preço, de se impor e acreditar no próprio valor. Se o que você faz ainda não vale 100 reais, não cobre 100 reais. A questão é a defasagem entre o quanto a coisa vale e o quanto a pessoa cobra. É preciso uma auto-crítica honesta pra não se criar uma ilusão de que você é um Deus na Terra e merece tudo por qualquer porcaria. Acho que sempre devemos ofertar mais do que cobramos, e estou focando aqui naqueles pra quem essa diferença está apenas grande demais. Se o seu produto ou serviço ainda não vale, de verdade, nem o preço que você cobra, esse texto não é pra você.

Freud mode ON: A resistência a vender, a falar do que faz, de cobrar um preço justo pelo seu produto ou serviço costuma ter algumas raízes:

1. Medo da rejeição

Esse medo vêm de fábrica. Foi uma vantagem evolutiva que garantiu que vivêssemos em grupos e não virássemos jantar de tigres dente-de-sabre, mas atualmente esse medo costuma ser exagerado. Você não vai morrer se a menina não te responder, nem se o pessoal da faculdade ou do trabalho não te chamar pra festa. O mundo é grande e vivemos em aldeias globais. No entanto, o medo persiste. Um dos maiores medos das pessoas é de falar em público, e ele está diretamente ligado ao medo da rejeição. Não serei aceito, serei ridicularizado, todos irão reparar nas minhas falhas e nos meus defeitos, farei papel de bobo, etc – estarei em evidência e receio o que vão notar, minhas falhas, meus defeitos; vão me ridicularizar, ninguém vai mais gostar de mim.

Como qualquer reação emocional desequilibrada, devemos combatê-la com uma boa dose de razão. O medo serve como um sinal. Se ele está sinalizando que o produto ou serviço que você quer oferecer ainda não está pronto, por hora esse medo tem valor e merece atenção. A partir do momento que você realmente acha que fez o melhor, ou está disposto a testar, e corrigir eventuais erros ao longo do caminho, ai o medo não mais te serve.

2. Falta de confiança e auto-estima

Em muitos casos ele está relacionado à falta de confiança e baixa auto-estima: “eu não sou nada”, “eu não mereço sucesso, eu não valho tanto”. Poderia falar bastante sobre isso, mas vamos com a versão resumida – Você vale sim. Muito. Tanto quanto você mesmo(a) desejar e acreditar. Você tem um valor intrínseco e mais do que isso, é capaz de aprender e se desenvolver e gerar mais valor pros outros.

Se você escolheu fazer algo e realmente acredita no que fez, então você investiu nisso e deve cuidar da sua criação, especialmente no momento em que ela está mais frágil e dependente de proteção – quando nasce. Pode ser que a raiz da baixa auto-confiança seja a falta de um amor incondicional dos pais na primeira infância. A criança tinha que provar seu valor constantemente e cresceu insegura, tendo que se validar, não sei. Parte do amadurecer é superar, não esquecer, mas superar esses traumas.

Não adianta esperar a confiança ou reafirmação vir de fora se ela não existe dentro, o caminho é o oposto. Eu acredito tanto em algo que essa verdade extrapola pra fora de mim. É um ciclo estranho. Você precisa de mais confiança quando menos tem. Depois que a criação está no mundo, seu livro é um best-seller ou seu  serviço tem mil críticas positivas, ai é fácil ser confiante, mas também já não é mais necessário. Você precisa ser capaz de prover a confiança para contaminar todos do seu ponto de vista, os autênticos motivos de porque criou isso, pra quem isso é uma solução – o famoso “campo de distorção da realidade” do Steve Jobs. Ele era tão confiante do que poderia fazer, que não aceitava um não, ia até o fim e convencia todo mundo de que era possível.

3. Não querer ser chato

Todos já tiveram a experiência de alguém tentando vender algo que não queria comprar. É desagradável e muitos decidem que nunca querem ser essa pessoa. Bom, a verdade é que essa pessoa não estava sendo chata porque estava vendendo algo, essa pessoa era chata e estava vendendo algo. Ela continuaria sendo chata se não estivesse vendendo. Algumas estavam apenas passando adiante a chatice de outros (por meio de um script de vendas ou sendo forçadas por um manual ou treinamento a agir assim). Isso não é vender, é uma estratégia mais próxima da força bruta – que em alguns casos gera resultados. O chato é a clara dissonância entre os interesses de quem vende pra os de quem é vendido. É o problema de ver alguém como um meio apenas, e não como um ser completo. E a tentativa de manipular o outro, se dar bem em cima dele ou dela.

A verdade é que estamos caminhando cada vez mais para motivos mais autênticos e honestos. A venda ideal não é aquela onde te convenço da necessidade do meu produto, mas onde encontro as pessoas pra quem o meu produto é uma solução real. O foco muda, não é o meu lado ou o seu apenas, há uma terceira opção, mais complexa. O antigo paradigma via de um lado o vendedor que só se importa consigo. Pra ele o máximo da habilidade é vender neve para esquimós, o cara que olha apenas ao que ele leva da interação. Do outro lado o mesmo paradigma existe, é o gênio da negociação, que consegue descontos até na barraquinha de cachorro-quente da esquina – paga 1 real ao invés de 2,50. Se deu bem.

É uma visão de mundo antagonista, cada um por si e os mais fortes sobrevivem. A terceira opção ocorre quando você de fato vê o outro lado. Eu quero honestamente criar um produto que seja útil, e pra colocar ele à disposição consistentemente, com boa qualidade e etc, uso ferramentas de mercado, e por isso preciso que o negócio seja justo, o que significa ser bom para todos os envolvidos. Eu preciso lucrar e você precisa receber mais valor pelo que pagou. Isso é possível pois somos capazes de criar valor.

Assim a venda é ressignificada. A publicidade passa a servir para te informar de algo, e não te convencer. O convencimento acontece muito antes, na elaboração do produto. Alguém ficou realmente imerso nas suas necessidades e criou algo de fato útil, de forma sustentável, ou seja, na qual o preço cobrado paga a criação, produção, logística e todos os demais processos, nada fica de fora. Imagine quem montou um espetáculo lindo e instigante, o Cirque du Soleil, contratou e treinou artistas, criou uma estratégia de negócios, pediu empréstimos e trouxe a tenda para a sua cidade, fez toda a logística, administração e parte legal, contábil, assumiu riscos, e você fica feliz em pagar o preço do ingresso pra viver aquela experiência. Se a coisa foi bem feita, todo mundo sai feliz. Os empreendedores lucraram, os artistas receberam bons salários e condições de trabalho, puderam explorar seus potenciais como em nenhum outro lugar, você teve uma noite mágica e inesquecível e sua filha saiu encantada com a coisa toda.

Talvez o seu produto não seja uma performance do Cirque, mas a pergunta que importa é: Você oferece mais valor do que recebe?

E não precisa ser pra todo mundo. Eu particularmente não vejo valor num relógio de 10 mil reais, mas há quem veja e fique feliz em pagar, e esse é o ponto. As pessoas têm preferências e valores diferentes. Eu valorizo muito uma boa peça de teatro e pago sorrindo o preço do ingresso. Sei que estou ajudando os artistas e o teatro em geral.

4. Respeitar o outro

Bem ligado a não ser chato, muita gente quer respeitar o espaço do outro e não se impor, nunca. Essa é uma postura egoísta.

Se você de fato criou algo de valor – e isso é fundamental – é sua função, sua obrigação moral contar ao mundo. Imagine alguém que criou a cura da AIDS, uma pílula que qualquer pessoa toma e mata instantaneamente o vírus, e ainda por cima é barata de se produzir. Mas a pessoa é tímida, e deixa essa descoberta em casa, sem falar pra ninguém. No seu leito de morte alguém descobre isso e pergunta porque ela nunca contou pra ninguém, e ela responde que não queria incomodar. Que se alguém tivesse perguntado ela teria respondido. Bem, um tanto exagerado pra defender o ponto, mas é isso. Entenda que você está sendo egoísta em não dar o seu máximo. Tanto em criar quanto em divulgar, alcançar quem precisa. Pois todo produto ou serviço, tudo o que fazemos, é uma forma de servir o outro, é em alguma instância a solução de um problema. Mesmo que o problema seja a falta de algo saboroso numa tarde no shopping.

Se você não acredita no seu produto, ai talvez seja melhor voltar pro quadro de rascunho e repensar o que está fazendo. Mas pense se ele é útil pra alguém – esse hábito de se colocar no lugar do outro é fundamental. Não são apenas os serviços nobres que merecem atenção, como um remédio que pode salvar vidas ou um livro que pode educar milhões. Um papel higiênico precisa existir, as pessoas querem se vestir com elegância, se divertir e etc. Tudo tem seu valor se tiver seu motivo de ser.

Trabalhe com afinco, se dedique ao máximo e busque sempre aprimorar seu produto ou serviço, mas entenda a importância da divulgação, de ter presença e um impacto positivo no mundo. Mesmo que apenas num nicho restrito.

A verdade é que são dois estados completamente distintos, o do criador e do divulgador. Um tem um foco estreito, fechado, o artesão isolado no seu estúdio criando algo em silêncio. O outro é extrovertido, fala com todo mundo, avisa, divulga, comenta. É raro uma pessoa dominar os dois estilos, e por isso nos associamos a outros, trabalhamos em conjunto. O seu ponto forte supre o meu ponto fraco. No entanto, mesmo o criador mais introvertido precisa saber vender, precisa superar essas resistências, mesmo que nunca pretenda ser um grande vendedor.

O mesmo vale pra negociações. É um momento de troca, de conversa, de chegar a um acordo em comum. Há muito mais a ser dito sobre o assunto, mas no fundo uma grande questão vêm da pessoa não se valorizar, ter medo da reação do outro, de desagradar, de frustrar – mesmo alguém que nunca viu antes.

Há quem pense em negociações com a mesma mentalidade antagonista da venda. Meu foco é em chegar ao valor justo, mas mais do que isso, no processo, como conduzir a coisa da melhor forma possível, como criar valor, fortalecer a relação e entender o caminho mais agradável às partes em conjunto.

Primeiro tenho que aprender a me olhar, me valorizar e me compreender. Depois devo aprender a olhar o outro, vê-lo de fato, valorizar e compreender. Só depois podemos visualizar uma relação, uma interação que leva em conta todos os objetivos e pontos de vista de cada parte.

Nesse texto falei mais da primeira parte, do olhar pra mim. Simplesmente pois sem ela as demais são impossíveis, ou sempre incompletas, e percebo diariamente a dificuldade que muitas pessoas têm em se valorizar e ter confiança na sua posição.

Gamified Self – aprendendo com os jogos a me motivar para o dia-a-dia

4 passos para usar elementos dos jogos para realizar qualquer objetivo da sua vida.

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Quais os vilões, power-ups e aliados na sua vida?

Video-games são incrivelmente úteis em nos motivar a jogar; investimos horas, com atenção focada cumprindo objetivos dificílimos, errando, tentando de novo e de novo, até enfim conquistar o objetivo, zerar, matar o chefão. Temos muito a aprender com os jogos em termos de motivação.

Um ramo surgiu, chamado “Gamification”, o ato de usar técnicas de jogos em ambientes de “não-jogos”. Pontos, trofeus e quadros de liderança são os exemplos clássicos. Se você já recebeu um cartão num restaurante onde depois de 10 adesivos (um por cada refeição) você ganha uma grátis, parabéns, você foi vitima da gamificação. Não que isso seja um problema ou errado de qualquer forma, é simplesmente uma forma de te estimular a ser um cliente mais fiel. Te dá um objetivo claro (conseguir a refeição grátis – o prêmio), a forma de alcançá-lo (10 adesivos) e os trofeus, além de um feedback instantâneo (cada adesivo ou carimbo é visualmente compensador).

Uma forma de se estimular a superar obstáculos e melhorar em algo é agir como se fosse um jogo. Um método pra trazer alguns dos benefícios e elementos dos jogos pra outros ambientes da sua vida, e com isso agir com seu objetivo pessoal ou profissional com a mesma vontade que tem para um candy crush.

Eis aqui 4 etapas que você pode usar no seu dia-a-dia, que vão te ajudar a alcançar qualquer objetivo.

 

  1. Qual o Objetivo?

Pra começar, defina o seu objetivo de forma clara. Pode ser que você tenha muitos objetivos, ou poucos, ou pode ser que queira escolher um menor apenas pra testar os passos aqui descritos. De qualquer forma é importante ter esse objetivo final bem claro, idealmente em uma frase.
Por mais simples que pareça, há casos em que esse primeiro passo é mais trabalhoso. Siga confiante. Escreva sobre o objetivo, quantos parágrafos for necessário, porque quer alcançá-lo, como vai saber quando isso aconteceu, o que te estimula, e desenvolva bem cada parte. No final você deve estar com uma meta clara e precisa.

Existem objetivos que podem ser quebrados em alguns menores. Por exemplo, ter um livro como best-seller talvez possa começar com apenas “escrever um livro”. Comece da forma que achar confortável. Uma boa meta é difícil o suficiente pra te estimular e por pressão, mas não tanto a ponto de te fazer pensar em desistir. As vezes achar esse ponto ótimo é uma arte em si, mas, como tudo, a prática leva a perfeição.

 

  1. Power-Ups

Power-ups são os elementos nos jogos que dão ao seu personagem uma energia a mais, a estrelinha do Mário, um boost na energia, força, agilidade, o que for.

Faça uma lista de tudo que te inspira, que te joga pra cima, que te estimula a produzir mais.

No começo, pode ser uma lista mais geral, como ouvir música, sair com amigos, jogar 10 minutos de um jogo, assistir vídeos engraçados no youtube, ler o capítulo de um bom livro, ir na academia, correr 4 Km, tomar um bom banho, cozinhar, comer chocolate, reler uma carta de amor antiga, brincar com o cachorro, etc. A lista é grande, e a primeira é pra ser brainstorm mesmo. É hora de deixar a mente correr solta e escrever mesmo as ideias mais esquisitas.

Depois iremos focar mais. É interessante que cada item esteja numa unidade fechada, que não seja algo infinito. Por exemplo, “ver vídeos no youtube” pode durar horas, já “ver 5 minutos de vídeos no Youtube” é mais específico. E isso é uma unidade. De forma prática, ter as coisas listadas como unidades tonra tudo incrivelmente simples e funcional. Em certos momentos posso querer consumir 3 unidades seguidas. “Comer chocolate” ou “tomar sorvete” podem virar “comer um quarto de chocolate”, “tomar uma bola de sorvete na minha xícara favorita”. Quanto mais específico melhor.

O nível seguinte de profundidade é pensar nos power-ups específicos pra atividade em foco. Se quiser pode fazer uma lista mais geral, mas se tiver um objetivo especial em mente, essa segunda etapa é um aperfeiçoamento interessante. Ouvir 10 minutos de Rock pesado pode ser um ótimo power-up pra malhar na academia, mas péssimo pra estudar cálculo III.

Alguns podem ser gerais. As vezes “meditar por 5 minutos” vale pra qualquer coisa, nesse caso ele é um power-up coringa.

É possível que você tenha dúvidas de alguns, e outros surjam ao longo do tempo. É assim mesmo. Esteja atento, especialmente no começo, pra quão eficaz é cada power-up pra essa atividade. Alguns podem funcionar mais antes, outros depois. Por exemplo, ver 3 minutos de vídeos de capoeira me inspira antes de uma aula, mas depois acaba me deixando ansioso pra próxima e não é tão bom.

Você pode descobrir que algumas coisas não funcionam como esperado. Talvez tentar meditar antes de estudar só te atrapalhe mais. A experiência manda. Corrija e ajuste. Dedique uma atenção especial na primeira semana calibrando seus power-ups, descobrindo o que funciona melhor, quando e como. E separe um tempo pra experimentar coisas novas. Converse com amigos e veja o que funciona pra eles. É como se fosse o tutorial de um jogo, uma fase na qual você experimenta as armas, testa o personagem, o que pode fazer e etc. As vezes quando temos um objetivo ficamos ansiosos pra começar logo, mas cada minuto a mais gasto no planejamento pode significar muitas horas ganhas (ou não desperdiçadas) mais pra frente.

No final você terá uma lista de diversas pequenas ações (unidades) que te estimulam e ajudam a superar cada obstáculo – seus Power-ups pessoais.

 

  1. Vilões

Todo heroi tem o seu vilão, todo bom jogo conta com uma série de obstáculos, dificuldades e armadilhas que não só tornam o jogo interessante, como te estimulam a melhorar. Um jogo sem desafios não tem graça. A nossa capacidade de curtir a dificuldade de um jogo, tentar, falhar, tentar de novo, falhar de outra forma, e assim até conseguir, e gostar do processo, não devia ser compartimentalizada. Não desligue essa parte de você junto com o vídeo-game, traga de alguma forma essa mentalidade pros desafios da vida digital para a analógica (pra mim, tudo que não é digital deve ser analógico)

Faça agora uma lista de tudo que te atrapalha, de todo obstáculo entre você e seu objetivo. Podem ser coisas concretas como “o preço do aluguel do estúdio” no objetivo de gravar meu CD ou “minha preguiça ao acordar”, “procrastinação” e outros mais abstratos. Uma mesma coisa pode ser um vilão e um power-up em momentos diferentes. Por exemplo, morar com amigo e ter sempre gente em casa pode ser um power-up quando preciso de alguém pra compartilhar algo, mas pode ser um vilão quando preciso de um tempo sem ser incomodado.

Idealmente a lista de vilões será acompanhada por uma solução ou mitigação, mas em alguns casos não, e apenas ter eles listados já é um grande adianto.

Ex: No objetivo de escrever um livro um vilão é “a música alta do vizinho de baixo”. Uma solução é algo que resolve o problema, que pode ser “escrever em outro horário”, “Escrever em outro local”.

Mitigar é diminuir o impacto negativo, nesse caso “um fone que anula o barulho externo”, ou “fechar a porta e ligar o ar”, etc. Mitigar não resolve, apenas minimiza.

Posso evitar um problema, contorná-lo, resolvê-lo, mudá-lo de lugar, ou de horário, mitigá-lo, ressignificá-lo, e tantas outras opções.

Gaste um tempo escrevendo a sua lista de vilões, e depois pense um a um opções de solução, mitigação, de qual ou quais as formas inteligentes e criativas posso lidar com cada um. Alguns podem não ter nenhuma, outros terão varias.

Como tudo, essa lista vai acabar evoluindo, sendo adaptada e atualizada conforme você vai avançando. Começamos com uma versão 1.0, e seguimos fazendo atualizações conforme a necessidade. Nada é absolutamente definitivo.

 

  1. Aliados

Os aliados são parecidos com os power-ups e têm até uma mesma função as vezes. O Batman conta não apenas com o Robin, mas com o Alfred, o comissário Gordon, uma série de pessoas para momentos e funções específicas.

Um aliado pode ser mais forte que um power-up na medida que ele lida mais diretamente com o objetivo. Por exemplo, se quero perder 15 Kg, um power-up pode ser a água de côco que tomo depois de correr. Ou o tênis novo que comprei e fico feliz de usar. Já um aliado pode ser um amigo que corre comigo todo dia, alguém que me estimula, ou um personal trainer.

Não precisa ser uma pessoa, talvez um livro sobre o assunto ao qual recorro possa ser meu aliado. Mas em geral é uma fonte de apoio, algo ou alguém que me ajuda, me corrige e com quem posso contar. É um empurrão, um conhecimento, uma fonte de informação e/ou de cobrança também.

Faça sua lista de aliados. Considere também o que fazer pra conquistar novos aliados. É uma excelente oportunidade de aprofundar uma amizade, ser convidado pra acompanhar o progresso de um amigo. Pense em quem está na mesma situação, ou já passou por ela, ou pode te ajudar de alguma forma. A verdade é que todos gostam de ajudar, e costumamos ser muito mais reservados e pecar pela falta, com vergonha de pedir ajuda e de se expor. É disso que as relações são feitas, experimente, você pode se surpreender com o quanto consegue. Um canal no youtube, blog do assunto ou um fórum online podem ser excelentes aliados.

Um dos aliados mais fortes é uma punição. Simplesmente porque nos esforçamos mais pra evitar a dor do que pra buscar o prazer.

Apostar com um amigo, ou grupo de amigos, fazer um comunicado público do seu objetivo (um bom uso pro facebook) e o que acontece se não alcançá-lo. Existem sites que fornecem esse serviço, você se compromete a doar uma quantia (100 reais por exemplo) a uma instituição que deteste (um político que odeie funciona bem) caso não cumpra sua meta. Versões menos extremas incluem pedir que um amigo divulgue uma foto vergonhosa sua caso não cumpra a meta, ou talvez apenas a “humilhação” que vem do deboche dos colegas já seja suficiente. Simplesmente temos uma aversão a perda, então o esquema de criar uma punição funciona – usemos a nosso favor. Pense em qual seria a mais útil pro seu caso e use-a como um poderoso aliado.  

 

Com sua lista de Power-ups, Vilões e Aliados você esta muito mais preparado pra conquistar seu objetivo.
A ideia é fazer algo divertido mas também sério e realmente útil. Usar as melhores práticas e sucessos de outras áreas, migrar conhecimentos e métodos pra onde estamos necessitando. Se você está adiando algo esses pequenos passos podem ser feitos em 20 minutos numa primeira vez. Só listar os power-ups, vilões e aliados já traz à consciência, nos faz pensar e perceber o quanto estávamos esquecendo, deixando de lado ou sub-valorizando.

A procrastinação é um vilão clássico de todo mundo, e é impressionante o quanto um exercício simples como esse pode te motivar.

Um pequeno mergulho, essas 4 etapas acabam sendo uma reflexão guiada, na qual você simplesmente organiza conhecimentos que sempre teve, mas numa ordem talvez nova. Sempre gostei de ler, mas não tinha atinado ao fato que depois de 5 minutos eu entro num estado muito propício pra certas atividades. Que depois do banho eu sou mais produtivo ou que uma pausa de alguns minutos pra cozinhar me faz bem quando me sinto pouco criativo. Já eram atividades que faria de qualquer forma, mas agora posso gerir meu dia conscientemente, colocar isso antes ou depois daquilo pois sei que assim rendo mais, fico mais produtivo. Encontro amigos sem culpa ou ouço um podcast sabendo como cada atividade me afeta. Tudo que consumo – comidas, bebidas, drogas, informações (livros, vídeos, músicas) – me afeta, e é mais inteligente entender como, e controlar um pouco isso. É impressionante como um alongamento, a música certa, me forçar a cantar junto mesmo quando não estou tão no clima, quão pouco é preciso pra mudar drasticamente meu estado de espírito. E no estado correto tudo flui melhor.

Nos cercamos de proteções e estimulantes que nos ajudam em momentos de fraqueza. Sei que vai ser difícil acordar de manhã, então tenho um dispositivo que torna o ambiente inóspito ao sono – o despertador é um aliado ao objetivo “acordar cedo”. Um banho gelado é um power-up. E o são pra tantas pessoas pois funcionam há décadas. Esses são mais gerais, mas criar os seus além de ser uma momento bem interessante de reflexão e auto-conhecimento, vai te ajudar e muito a criar um ambiente propício, evitar seus pontos de falha e recompensar cada pequeno (e grande) sucesso. Ser mais proativo, tomar as rédeas da situação e seguir em frente com vontade é um a mais muito bem vindo.

Uma quinta e última etapa possível é a lista de bônus. Prêmios que você vai se dar ao conquistar certos marcos no caminho para o seu objetivo. Deixo como opcional, pois é menos importante que as outras, e com mais espaços pra erros. Deve-se definir os marcos cedo e de forma não dúbia, fácil de medir. Algo que seja factível mas claramente uma comemoração daquela conquista intermediária. Assim você tem uma lista de recompensas que vai se dar a cada etapa de sucesso.
Ela é mais delicada pois pede que você quebre seu objetivo em algumas metas intermediárias, e o pulo do gato é saber como medir cada sucesso. Se você quer emagrecer é fácil, o indicador já é numérico, mas alguns casos pedem um pouco mais de criatividade. Se você tem disciplina pode fazer essa etapa sozinho, senão talvez seja melhor criar um aliado específico, responsável por ser o juiz e só te permitir a recompensa quando conquistar o marco definido (e quem sabe o fiscal também, que garante que não hajam “cheats”). Deixo essa lista como um bônus, um extra pra quem quiser testar.

 

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Fui muito inspirado pela Jane Mcgonigal, suas palestras, entrevistas e artigos, apesar de não ter lido ainda seu livro “Superbetter”, pra escrever esse artigo. Espero sinceramente que esse exercício te ajude a superar a procrastinação, um dos meus maiores inimigos, e a conquistar seu objetivo, mas mais do que isso, a mudar um pouco a forma com a qual encaramos as dificuldades e desafios do dia-a-dia. Um pouco de bom humor e pré-disposição ao desconhecido sempre cai bem.