Sobre Sair do Armário

Cada um tem seus armários, de qual você precisa sair?

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Sair do armário é um processo interessante. É quando a pessoa percebe que há um descompasso entre como ela se sente em relação a um assunto, um comportamento, e a expectativa da sociedade, da família, do grupo no geral. Sejam por regras sociais, tabus ou cultura, existe uma série de expectativas, até pressões sociais, para agirmos de determinadas maneiras.

O exemplo clássico é a homosexualidade. Por muito tempo a expectativa era (e ainda é?) que uma pessoa devia sentir atração apenas com alguém do sexo oposto. Diversos relatos contam como algumas pessoas vieram a perceber que não se encaixavam nesse modelo, e as variadas formas de sofrimentos que essa percepção gerou. Desde dúvidas, medo, vergonha, as vezes até raiva e negação. Somos animais sociais, e é difícil frustrar os outros, especialmente os que amamos, mas mesmo estranhos. Por mais que muitos se isolem e digam não se importar, a verdade é que estamos conectados de diversas formas aos outros. Querendo ou não, a presença deles nos afeta, suas expectativas e o que pensam de nós. Alguns reagem buscando agradar, outros buscam fazer o oposto, mostrar indignação, desprezo, enfim, todas as possibilidades de interação que já conhecemos.

Sair do armário pode se aplicar a qualquer coisa. Todo vez que você percebe essa diferença entre como quer agir (ou sentir) a respeito de algo e a expectativa dos outros, está no processo de sair do armário. É importante notar que muitas pessoas não terminam esse processo, ficam empacadas em alguma etapa, passam a vida com medo de se assumirem perante os familiares ou amigos. Alguns se assumem apenas em alguns momentos nos quais se sentem mais seguros, mas depois retornam e fingem (até pra si mesmas) que aquilo foi apenas um lapso.

Tem gente que sai do armário quanto a sua profissão, admite que quer viver da arte e rejeita o emprego seguro numa grande empresa, outros saem do armário quanto a gostar de um estilo musical. Há quem saia do armário quanto a não gostar de cachorros, ter certos fetiches, não gostar de sexo, gostar de colecionar formigas, ter medo de multidões, abandonar a faculdade, o que for. As vezes o que pro outro é um desafio enorme seria ridículo pra você, mas essa é a questão, se pra pessoa é um desafio, então pronto, é um armário a se sair. Acho que na metáfora as paredes do armário são as regras e expectativas dos outros, que prendem, pressionam e sufocam alguém que quer desesperadamente sair. É importante entender e respeitar que para algumas pessoas certas pressões são reais, mesmo que pra você elas sejam irrelevantes.

Todo mundo tem seu ou seus armários pra sair, pois todo mundo é diferente do resto em algum ponto. Acho que o aprendizado é compreender como pode ser desagradável esse sentimento de frustrar os outros, o medo de ser excluído e desprezado (mesmo que seja apenas imaginário) e ter mais empatia ao perceber outros nessa situação. Compreender a forma além do conteúdo. Penso que é um dos caminhos possíveis para relações mais humanas.

Lutar, pra fugir

Quando enfrentamos um dilema, estamos presos num sistema de crenças, estamos perto demais e não conseguimos nem considerar outras opções. Existe sempre uma 3a alternativa.

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Num dos filmes da sequência Piratas do Caribe um grupo se encontra prestes a ser cercado por inimigos. Alguns sugerem lutar, enfrentar o que se aproxima e batalhar mesmo que arriscando a própria vida. Outra parte prefere fugir, com medo dos inimigos em maior número, e no meio da discussão entre os dois grupos Jack Sparrow fala uma de suas ideias aparentemente malucas. Ele diz: “Vamos lutar, para fugir”. Num primeiro momento isso não faz sentido, pois quem quer fugir o quer exatamente para evitar lutar, esse é todo o propósito da fuga, e quem quer lutar quer basicamente o oposto de fugir. Cada grupo está operando dentro de um sistema de crenças no qual sua escolha faz sentido e o oposto seria incoerente, loucura. Muitas vezes nos encontramos em situações similares. Não numa mesa com piratas sanguinários prestes a ser cercado por inimigos numa busca por ítens místicos, isso acontece com menor frequência, mas numa situação na qual a nossa resposta parece óbvia e o oposto pura loucura. Se estou agindo dando vazão ao meu medo, realmente, lutar é uma opção insensata, talvez fugir seria melhor. E aos que valorizam o orgulho, são mais impulsivos e corajosos, fugir seria simplesmente inimaginável.

Stephen Covey escreveu um livro chamado “A 3a Alternativa”, expandindo numa ideia bastante interessante. Em muitas disputas entre dois lados aparentemente opostos, há sempre uma terceira alternativa, uma terceira opção de como resolver o conflito. Ela leva mais em conta, abrange uma visão mais holística do problema, na qual cada parte deve compreender mais a si mesmo e ao outro lado, e só assim passar a pensar na relação e nas possíveis soluções. O interessante do lutar pra fugir é que o resultado pode até ser similar na superfície, no final, eles acabam fugindo, mas ele engloba o melhor dos dois grupos pra isso.

Ao sugerir lutar pra fugir Sparrow pede que cada grupo absorva um pouco do outro. O grupo que quer fugir precisa entender o lugar da coragem, da atitude e disposição de entrar numa batalha naquele momento, e ter essa carta à disposição. O grupo disposto a lutar precisa entender as chances reais de sucesso e ser capaz de pensar e planejar a longo prazo e não apenas reagir impulsivamente. No fundo, é importante compreender nossas limitações, e quais são as nossas reais motivações para uma ação. Se eu quero fugir por medo, essa é minha única opção. Enquanto for medroso, terei que fugir sempre.

Existe sempre um gap entre quem somos e quem queremos ser, e em muitos casos racionalizamos uma decisão pra tentar continuar na ilusão de que nossa motivação é pura. Eu digo que estou disposto a aceitar o desrespeito do meu chefe e digo que isso não me afeta, que não importa, quando a verdade é que eu tenho medo de ser demitido, tenho medo de confrontar ele, e mais do que isso, acho que posso nunca mais encontrar um bom emprego. Não penso tudo isso conscientemente, mas é minha real motivação racionalizada. Quantas pessoas não aceitam continuar em relações infelizes, dizendo que é por causa dos filhos, por questões financeiras ou o que for, quando no fundo há um grande medo da solidão, do desconhecido, de sofrer de novas e diferentes formas? O sofrimento ao qual estou acostumado é sempre preferível, ele fica dentro da minha zona de conforto.

Conversando com amigos sobre não mentir sempre surge uma pergunta “o que vc faz quando recebe um presente que não gostou, o que diz pra pessoa?”. Aqui a premissa é que existem duas e somente duas opções: ou eu falo a verdade e vou magoar os sentimentos de uma pessoa querida, ou minto e a deixo feliz. Pra mim existe uma terceira opção. Aprofundar a relação. Eu acredito que todo mundo tem maturidade o suficiente pra lidar com a verdade, e mais do que isso, estou disposto a aceitar e enfrentar as dificuldades conforme elas se apresentam. Se eu recebo um presente que não me agrada e a pessoa pergunta o que achei, eu posso ser honesto e explicar que adorei o gesto, a intenção de dar o presente e me sinto lisonjeado pela atitude, mas que nesse caso em especial não gostei do presente, e explico o motivo. As vezes temos vergonha de admitir o motivo. Antes disso, dizer que não gostei nunca é a minha primeira resposta. Agradecer o gesto, a gentileza, é em 99% dos casos mais do que suficiente. Se a pessoa insistir e realmente perguntar se eu gostei, ai eu entendo que ela está pronta, e aberta, a ouvir minha resposta.

Uma vez fui assistir a peça de um amigo e achei muito ruim. Eu tinha passado os últimos meses ouvindo esse amigo contar da montagem da peça, ele tinha tido a ideia e estava super animado, e eu assisti na estreia. Do lado de fora estava sem graça, sem saber como agir. Ele veio falar comigo e eu dei parabéns pela iniciativa, mas logo outras pessoas chegara e a conversa seguiu outro rumo. No dia seguinte ele me ligou e perguntou o que eu tinha achado da peça, ai entendi que ele realmente queria ouvir, e falei que tinha achado muita fraca, e expliquei cada motivo. Falei que parecia um jantar com entrada e sobremesa mas sem o prato principal, tinham bons momentos, bons detalhes, mas faltava a essência, e outros comentários mais específicos. Ele ficou um tempo em silêncio e depois me agradeceu bastante. Disse que tinha pensado a mesma coisa mas como ninguém comentou, estava achando que era besteira dele. Independente do caso, a terceira opção nesses exemplos pede mais tempo, mais envolvimento. Realmente, dizer uma mentira é uma forma rápida de me livrar da questão, mas a verdade é que não quero me livrar da questão. Não acho necessariamente que todo problema é ruim, e sei que sou incapaz de prever como as coisas vão se desenrolar. Acho que negar o outro da verdade é uma forma de decidir por ele, é um desrespeito. Acho que meu amigo é capaz de decidir por si só se a peça está como ele gostaria ou não, e o que me cabe como amigo é dar o meu feedback, a minha impressão honesta, da melhor forma que puder. Eu opto por valorizar mais a relação do que o meu desconforto momentâneo.

Lutar pra fugir é interessante por quem você acaba se tornando. Mesmo quem queria inicialmente fugir, ao aceitar a ideia de lutar pra fugir, a pessoa passa por uma transformação. Ela aceita o desafio de lutar, enfrenta o medo, e pode chegar no mesmo resultado final, fugir, mas por outro caminho. Não existe mais a necessidade da racionalização, não há mais um motivo secreto; assim abre-se espaço para se ser realmente racional. Mesmo que acabe fugindo, agora que enfrentou seu medo, essa fuga tem outro sabor.

Como disse T.S. Elliot “Não devemos cessar de explorar, e o fim de nossa jornada iremos chegar ao ponto de partida e conhecer esse lugar pela primeira vez”.

É o caso da simplicidade. A verdadeira simplicidade pede muita sofisticação. Apenas os muito sábios ou muito estúpidos são capazes de ser simples. Os primeiros por escolha, os últimos por necessidade.

Lições diretas e indiretas

Sobre os veículos do aprendizado, e as pancadas que felizmente levamos.

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Uma vez fui numa meditação Zazen, e estavam me explicando algumas práticas e rituais. Tem um sino especial que eles tocam ao início e fim da sessão, e dentre outras práticas uma mais tradicional (e menos usada atualmente) que é o Kyosaku – basicamente uma vara de madeira achatada, como se fosse uma grande régua, e com ela se dá duas pancada no pescoço do praticante. Como tudo no budismo há uma explicação e todo um procedimento. O responsável pela prática, em geral o monge mais experiente do local, é quem cuida disso, e se ele percebe que alguém está desatendo, talvez com sono ou saindo da postura correta, ele se aproxima e toca a pessoa no ombro com a vara. A pessoa, sem abrir os olhos, entende o comando, inclina a cabeça pro lado e recebe duas palmadas no pescoço com a tal régua.

O que achei mais interessante foi o responsável pelo lugar me contando que uma vez ele recebeu uma pancada dessa, mas ele tinha certeza que estava fazendo tudo certo, estava atento na meditação, na postura certa e não entendeu porque tinha merecido a pancada. Após a meditação ele foi conversar com o monge, e ele respondeu “Realmente, eu percebi que vc estava atento, foi por isso mesmo que dei a pancada em vc. O seu amigo do lado estava muito desatento, e se eu desse a pancada nele, poderia ser uma mudança brusca demais, ele ia passar o resto da meditação atordoado. Ao dar a pancada em vc, que estava do lado, ele apenas ouviu o barulho, e isso foi o suficiente pra ele voltar ao momento presente de forma suave.”

As vezes aprendemos com o erro dos outros, uma lição nos chega de forma indireta. Em outras podemos ser o veículo de um aprendizado dos outros, muitas vezes mesmo sem saber.

Outro dia amigo estava discutindo com a namorada. Houve (na minha opinião) uma falha de comunicação, era tarde da noite, ele achou que ela estava vindo encontrar com ele e ela achou que ainda ia dar tempo de ficar mais onde estava. O que intensificou a coisa foi que passou um tempo e ela não estava ouvindo o celular. Ele ficou ligando o tempo todo, de propósito, ele me disse, ficou muito incomodado de esperar na rua e ela não atendendo, sabendo que ele estava cansado e etc. Quando ela finalmente atendeu a conversa logo descambou pra uma discussão, desde o clássico “vc sempre faz isso” até “eu to sem te ver a semana inteira, mas se vc prefere ficar com o pessoal ai tudo bem..”. Eles estão juntos há um tempo e naturalmente se conhecem, tem incômodos e questões.

Achei que seria forte demais falar “Cara, vc ta sendo infantil. Admite que tá frustrado que ela não veio, com ciúmes e que no fundo vc só quer um pouco mais de atenção, se sentir valorizado por ela e estar junto”. No estado que ele estava se eu falasse isso provavelmente ia deixar ele mais irritado e negando tudo. O que tentei fazer foi mudar de assunto, falar como ele tem sorte de poder estar com a pessoa que ama naquela noite, tantas pessoas não podem.. É um privilegio, deixa de lado essa besteira e vai curtir com ela. Queria ter falado mais, dado exemplos de momentos em que eu fui infantil e reagi dando vazão a frustração e ciúmes, e como isso só piorou a situação, e depois como eu no fundo só estava querendo um pouco mais de atenção. Acho que isso teria sido mais sutil, mais tragável, e talvez ajudasse. Infelizmente nesse caso depois que ele começou a discutir não parou mais, e acabamos indo cada um pra um lado sem ter tempo de conversar mais.

Acho que um dos ingredientes da felicidade é apreciar o que se tem. Muita gente só valoriza algo quando o perde, chega a ser um clichê de filme, o homem de negócios que só percebe a importância da família depois que quase perde ela. Recentemente percebi que existem dois tipos de saudade, pelo menos. Uma é essa saudade de quem sofre, da perda de algo que não queremos aceitar, existe negação, tristeza pelo quanto não foi vivido ou foi desperdiçado, essa saudade dói. Mas existe outra saudade, mais gostosa, de algo que foi vivido intensamente, que foi apreciado e valorizado de forma consciente, mas a vida aconteceu, houve uma separação, então chega essa saudade que é completamente diferente. É uma mistura de gratidão pelo que foi vivido, uma nostalgia de alguma forma, somado ao desejo de ter mais, não mais do mesmo, não repetir ou ficar parado naquele ponto, mas mais daquilo de outra forma.

A saudade que dói olha pra traz, não aceita, quer voltar ao passado, ela te paralisa e te faz pensar apenas no que se perdeu, no que foi, em como nunca mais vai ser assim e costuma gerar mais tristeza, ou raiva. A outra saudade olha pra frente. Ela entende o espaço do que aconteceu e busca seguir com isso, sabendo que fez o que tinha que ser feito, tranquila de ter vivido o momento e atenta em viver o novo agora, e o próximo, e assim sempre. Pode ser melancólica, mais reflexiva, mas é diferente o suficiente a ponto de merecer outra palavra.

Um outro ponto da prática Zazen é que depois de receber a pancada vc agradece a pessoa que te bateu. É simbólico, mas acho bem interessante. Uma das frases em que mais tenho pensado é que a vida não acontece COM você, ela acontece PARA você. Isso faz toda a diferença em como interpretamos as “pancadas” que recebemos. Quero cada vez mais ser capaz de imaginar o simpático monge me olhando com carinho, agradecer o toque e voltar minha atenção para o lugar certo.