Sobre Bases, regras e identidades

O que é mais importante pra você? Qual sua identidade no mundo? Qual ou quais suas bases, e o que você faria se algo acontecesse com ela?

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Uma das coisas mais importantes que percebi para lidar com situações difíceis, e dar segurança e resiliência, são as nossas bases. São nosso chão, nosso fundamento, e nos afetam fortemente, mesmo nos períodos de tranquilidade.

Nossas bases incluem nossas regras e identidades. As regras são como entendemos o mundo. Algumas são extremamente complexas, outras bem simples, e muitas vezes incompletas ou abertamente erradas.

“Cada um colhe o que planta”, é uma regra. “Amigo de verdade não te abandona”, “família é nossa fonte de felicidade”. Essas são regras mais gerais que muitos aceitam. Algumas são conscientes, outras nem sabemos que temos ou de onde vieram (cultura, pais..). Existem as regras mais claras, como do funcionamento de uma democracia, do capitalismo, as leis da cidade, regras de um jogo ou sistema, etc.

As regras são as relações de causa e consequência através das quais fazemos sentido do mundo. Meu amigo sofre um acidente, lembro que “Deus escreve certo por linhas tortas” e tiro um significado desse acontecimento, e essa visão, essa forma de perceber, influencia fortemente como vou me sentir, e como irei agir a respeito. Se vejo um homem brigando com uma mulher no trânsito e tenho a regra “bater em mulher é covardia”, vou passar pelo mesmo processo de compreender, me emocionar e agir. Já se tenho a regra “não se pode julgar o outro sem saber pelo que ele está passando”, provavelmente minhas emoções sobre o caso e como reajo será diferente.

Outro grande componente é a identidade. Como me vejo no mundo, a partir de que lente enxergo as coisas. Há quem tenha apenas uma identidade, um aspecto que é tão mais forte que todo o resto que reina soberano na minha relação com o mundo. Por exemplo o pai de família, que tem tão forte a identidade de provedor e dono do lar que, quando perde o emprego, perde também sua identidade. Se ele sente que não há volta, passa a ser nada, não consegue mais fazer sentido de sua existência, e acaba pondo um fim a ela. Essa identificação com o papel de “Homem da casa” era tão forte que no crash de 30, nos EUA, houve uma das maiores taxas de suicídios – homens iam a falência e sentiam que não tinham mais nenhum valor, que fracassam no ponto mais importante e a única saída era a morte.

Atualmente mais pessoas morrem de suicídio do que de assassinatos e acidentes de carros somados. Suicídio é o lembrete supremo de nossa intensa vulnerabilidade psicológica, e da profundidade das dificuldades que temos em comunicar essa vulnerabilidade aos outros.

Se perdemos as bases, perdemos o que nos sustenta, o que nos liga ao mundo. Se perco minha identidade e todos meus interesses, não consigo me imaginar seguindo no dia-a-dia, não vejo mais razão de viver. O suicídio é um infeliz extremo, é claro, mas é indicativo de até onde podemos chegar.

Quando nos identificamos fortemente com um aspecto, um ataque a ele passa a ser sentido como um ataque à nossa pessoa. Vemos isso recorrentemente em quão sensíveis algumas pessoas são a uma crítica à sua religião, ao seu time de futebol ou à sua família. Dizer “não vamos falar de futebol ou política” é uma consequência de sabermos que muitas pessoas não conseguem separar suas opiniões de sua identidade, e se sentirão realmente ofendidas se sua ideologia for atacada. Os agressivos reagem contra-atacando, os mais introvertidos ficam deprimidos, mas todos sofrem por causa disso.

Outra identificação muito forte é com nossa imagem, nosso corpo. Mesmo quem não se vê como um atleta acha devastador a perspectiva de um acidente que o deixe numa cadeira de rodas. Se eu sou meu corpo, uma “destruição” dele é uma destruição de mim, sinto que perdi boa parte do meu valor, que sou menos que antes, pois sou menos capaz.

A verdade é que não sou apenas meu corpo, minha religião, emprego ou o que for. Sou mais que isso, sou o potencial de ser isso tudo, sou aquilo que é isso tudo e pode ser mais ou menos.

Entender quem eu sou inclui entender tudo que faz parte da minha identidade. Se eu só tenho uma base, ela se confunde com minha identidade. Conforme vou adquirindo mais e mais e cada uma cresce em importância pra mim, percebo que sou mais que a soma das partes.

Sou em diferentes medidas um filho, um neto, um empresário, um ator, um capoeirista, brasileiro, homem, escritor, aluno, professor, amante, surfista, espírita, amigo, consultor..  Uns são muito importantes pra mim, outros menos.

Sou x% capoeirista. Ir nas aulas de capoeira, jogar, aprender os movimentos, assistir vídeos e fazer parte dessa comunidade é algo que existe em mim. O mesmo quanto a ser um professor, algo sobre o qual penso, que me motiva e me inspira. E sobre ser fã de Harry Potter. Ter lido os livros e me emocionado com eles faz parte da minha história. Tem coisas que estão no passado, que apenas fui, e outras que quero continuar sendo, outras ainda que quero passar a ser.

É importante, e saudável, notar que podemos conscientemente criar novas identidades, novas bases. São como sementes que podem crescer e se desenvolver. Ter mais bases é ter uma vida mais rica, expandir seus horizontes – e, consequentemente, enriquecer a vida daqueles em contato conosco.

Pra muitos o relacionamento passa a ser uma base. Ser marido ou a mulher de fulano é uma parte fundamental da vida. Houve um momento em que esse outro era um completo estanho, e houve toda uma jornada em que ele foi de desconhecido a “não consigo viver sem”. Com cada conversa, cada momento juntos, cada troca de carinhos, cada briga e reconciliação, essa relação foi crescendo, a confiança no outro se fortalecendo e a relação passou a ser uma base que sustenta cada um.

Mas ter uma única base, apenas, é dependência. Não importa quão forte ela seja, é como um banco de uma só perna. E os romances estão repleto de histórias de como mesmo os mais sólidos relacionamentos podem ser balançados. O exemplo do casamento serve pra mostrar como construímos uma base.

O mais saudável é investir em algumas. Invisto no meu relacionamento, ao mesmo tempo em que mantenho um contato com meus amigos, que leio e pratico minha espiritualidade, me dedico a um esporte ou grupo, estudo o comportamento humano e entendo as regras desse ou daquele sistema. Sofro se algo acontece em qualquer uma, mas não fico devastado, ainda tenho aonde me apoiar.

Uma nova atividade é com um filho pequeno, consome mais no começo. Com o tempo no entanto, fica cada mais fácil de manter. Pense em quanto tempo passou com um bom amigo, as conversas e viagens juntos. Depois de criada a amizade, se for bem forte, ela sobrevive uma vida. Muitos pecam por investir demais no começo e de menos depois. Deixam as trivialidades do cotidiano tomar conta, o urgente passando por cima do importante. Não precisa de muito. Um telefonema, um encontro por mês, quem não tem esse tempo? Acho triste ver grande amigos se tornando apenas conhecidos, cada um sofrendo silenciosamente a falta da cumplicidade e parceria, mas sem querer admitir e sempre com outras prioridades.

Nossa cultura não estimula certas reflexões. É difícil falar dos sentimentos. Nos escondemos atrás de máscaras, digo que quero marcar aquele churrasco, quando na verdade a carne é o de menos, conseguiria uma melhor indo no restaurante sozinho. O que quero mesmo é a companhia dos amigos, um espaço pra conversar e me abrir, me divertir e sentir que faço parte de um grupo. Mas poucos tem coragem de ligar e dizer “estou com saudades de você. Vamos sair, conversar?”

Amizades são uma benção, uma fonte riquíssima daquilo que mais precisamos no mundo.

Os governos de nações ricas tendem, majoritariamente, a dirigir seus esforços para lidar com pobreza, doença e envelhecimento da população. O suicídio nos alerta um problema mais estranho que temos: a escala do nosso tormento psicológico, a extensão da fragilidade das nossas mentes, que não pode, necessariamente, ser concertada por mais dinheiro ou bens de consumo. Das causa do suicídio percebemos quão intensamente precisamos de: amor, auto-aceitação, significado, esperança, status, orgulho, e perdão.

Minha humilde sugestão é que repensemos conscientemente nossas vidas, onde investimos nosso tempo e porque. Muito do que fazemos é no automático, sem pensar. Seguimos o caminho mais trilhado pois é (aparentemente) mais fácil, e há a pressão do grupo. Não somos muito bons em nos fazermos felizes. Nós super-valorizamos o poder de algumas coisas de melhorar nossas vidas e subestimamos outras. Fazemos escolhas erradas pois, guiados pela propaganda e o falso glamour, seguimos imaginando que aquele carro, ou aquelas férias ou computador novo fará uma diferença maior do que ele é capaz. Ao mesmo tempo desconsideramos a contribuição de outras coisas – como dar uma caminhada – que podem ter pouco prestígio, mas contribuem profundamente ao caráter da nossa existência.