Lutar, pra fugir

Quando enfrentamos um dilema, estamos presos num sistema de crenças, estamos perto demais e não conseguimos nem considerar outras opções. Existe sempre uma 3a alternativa.

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Num dos filmes da sequência Piratas do Caribe um grupo se encontra prestes a ser cercado por inimigos. Alguns sugerem lutar, enfrentar o que se aproxima e batalhar mesmo que arriscando a própria vida. Outra parte prefere fugir, com medo dos inimigos em maior número, e no meio da discussão entre os dois grupos Jack Sparrow fala uma de suas ideias aparentemente malucas. Ele diz: “Vamos lutar, para fugir”. Num primeiro momento isso não faz sentido, pois quem quer fugir o quer exatamente para evitar lutar, esse é todo o propósito da fuga, e quem quer lutar quer basicamente o oposto de fugir. Cada grupo está operando dentro de um sistema de crenças no qual sua escolha faz sentido e o oposto seria incoerente, loucura. Muitas vezes nos encontramos em situações similares. Não numa mesa com piratas sanguinários prestes a ser cercado por inimigos numa busca por ítens místicos, isso acontece com menor frequência, mas numa situação na qual a nossa resposta parece óbvia e o oposto pura loucura. Se estou agindo dando vazão ao meu medo, realmente, lutar é uma opção insensata, talvez fugir seria melhor. E aos que valorizam o orgulho, são mais impulsivos e corajosos, fugir seria simplesmente inimaginável.

Stephen Covey escreveu um livro chamado “A 3a Alternativa”, expandindo numa ideia bastante interessante. Em muitas disputas entre dois lados aparentemente opostos, há sempre uma terceira alternativa, uma terceira opção de como resolver o conflito. Ela leva mais em conta, abrange uma visão mais holística do problema, na qual cada parte deve compreender mais a si mesmo e ao outro lado, e só assim passar a pensar na relação e nas possíveis soluções. O interessante do lutar pra fugir é que o resultado pode até ser similar na superfície, no final, eles acabam fugindo, mas ele engloba o melhor dos dois grupos pra isso.

Ao sugerir lutar pra fugir Sparrow pede que cada grupo absorva um pouco do outro. O grupo que quer fugir precisa entender o lugar da coragem, da atitude e disposição de entrar numa batalha naquele momento, e ter essa carta à disposição. O grupo disposto a lutar precisa entender as chances reais de sucesso e ser capaz de pensar e planejar a longo prazo e não apenas reagir impulsivamente. No fundo, é importante compreender nossas limitações, e quais são as nossas reais motivações para uma ação. Se eu quero fugir por medo, essa é minha única opção. Enquanto for medroso, terei que fugir sempre.

Existe sempre um gap entre quem somos e quem queremos ser, e em muitos casos racionalizamos uma decisão pra tentar continuar na ilusão de que nossa motivação é pura. Eu digo que estou disposto a aceitar o desrespeito do meu chefe e digo que isso não me afeta, que não importa, quando a verdade é que eu tenho medo de ser demitido, tenho medo de confrontar ele, e mais do que isso, acho que posso nunca mais encontrar um bom emprego. Não penso tudo isso conscientemente, mas é minha real motivação racionalizada. Quantas pessoas não aceitam continuar em relações infelizes, dizendo que é por causa dos filhos, por questões financeiras ou o que for, quando no fundo há um grande medo da solidão, do desconhecido, de sofrer de novas e diferentes formas? O sofrimento ao qual estou acostumado é sempre preferível, ele fica dentro da minha zona de conforto.

Conversando com amigos sobre não mentir sempre surge uma pergunta “o que vc faz quando recebe um presente que não gostou, o que diz pra pessoa?”. Aqui a premissa é que existem duas e somente duas opções: ou eu falo a verdade e vou magoar os sentimentos de uma pessoa querida, ou minto e a deixo feliz. Pra mim existe uma terceira opção. Aprofundar a relação. Eu acredito que todo mundo tem maturidade o suficiente pra lidar com a verdade, e mais do que isso, estou disposto a aceitar e enfrentar as dificuldades conforme elas se apresentam. Se eu recebo um presente que não me agrada e a pessoa pergunta o que achei, eu posso ser honesto e explicar que adorei o gesto, a intenção de dar o presente e me sinto lisonjeado pela atitude, mas que nesse caso em especial não gostei do presente, e explico o motivo. As vezes temos vergonha de admitir o motivo. Antes disso, dizer que não gostei nunca é a minha primeira resposta. Agradecer o gesto, a gentileza, é em 99% dos casos mais do que suficiente. Se a pessoa insistir e realmente perguntar se eu gostei, ai eu entendo que ela está pronta, e aberta, a ouvir minha resposta.

Uma vez fui assistir a peça de um amigo e achei muito ruim. Eu tinha passado os últimos meses ouvindo esse amigo contar da montagem da peça, ele tinha tido a ideia e estava super animado, e eu assisti na estreia. Do lado de fora estava sem graça, sem saber como agir. Ele veio falar comigo e eu dei parabéns pela iniciativa, mas logo outras pessoas chegara e a conversa seguiu outro rumo. No dia seguinte ele me ligou e perguntou o que eu tinha achado da peça, ai entendi que ele realmente queria ouvir, e falei que tinha achado muita fraca, e expliquei cada motivo. Falei que parecia um jantar com entrada e sobremesa mas sem o prato principal, tinham bons momentos, bons detalhes, mas faltava a essência, e outros comentários mais específicos. Ele ficou um tempo em silêncio e depois me agradeceu bastante. Disse que tinha pensado a mesma coisa mas como ninguém comentou, estava achando que era besteira dele. Independente do caso, a terceira opção nesses exemplos pede mais tempo, mais envolvimento. Realmente, dizer uma mentira é uma forma rápida de me livrar da questão, mas a verdade é que não quero me livrar da questão. Não acho necessariamente que todo problema é ruim, e sei que sou incapaz de prever como as coisas vão se desenrolar. Acho que negar o outro da verdade é uma forma de decidir por ele, é um desrespeito. Acho que meu amigo é capaz de decidir por si só se a peça está como ele gostaria ou não, e o que me cabe como amigo é dar o meu feedback, a minha impressão honesta, da melhor forma que puder. Eu opto por valorizar mais a relação do que o meu desconforto momentâneo.

Lutar pra fugir é interessante por quem você acaba se tornando. Mesmo quem queria inicialmente fugir, ao aceitar a ideia de lutar pra fugir, a pessoa passa por uma transformação. Ela aceita o desafio de lutar, enfrenta o medo, e pode chegar no mesmo resultado final, fugir, mas por outro caminho. Não existe mais a necessidade da racionalização, não há mais um motivo secreto; assim abre-se espaço para se ser realmente racional. Mesmo que acabe fugindo, agora que enfrentou seu medo, essa fuga tem outro sabor.

Como disse T.S. Elliot “Não devemos cessar de explorar, e o fim de nossa jornada iremos chegar ao ponto de partida e conhecer esse lugar pela primeira vez”.

É o caso da simplicidade. A verdadeira simplicidade pede muita sofisticação. Apenas os muito sábios ou muito estúpidos são capazes de ser simples. Os primeiros por escolha, os últimos por necessidade.