Porque eu não quero mais ser VIP

Sobre dar e receber, preço e valor, e um bom mate na praia.

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Sempre gostei de ser convidado pra peças de amigos e entrar de graça pela lista vip. Um lado egoico adora o tratamento diferenciado, e ainda curtia economizar o dinheiro do ingresso. Tendo feito teatro um tempo, acabei conhecendo muita gente do meio, e tive algumas oportunidades assim.

Certa vez eu estava em cartaz com uma peça e uma amigo disse que iria assistir. Perguntei se ia com mais alguém pra colocar os nomes na lista de convidados, mas ele disse que não, que fazia questão de pagar a entrada, fazia questão de contribuir. Aquilo me fez pensar bastante. Quando viajei com esse amigo reparei que ele sempre dava dinheiro pra artistas de rua, e fazia coisas como passar numa padaria, ver um doce interessante e comprar um monte pra levar pro grupo todo. Não chegava a ser um esbanjador, o vi pesquisando preços e negociando um bom valor em passeios que fizemos. O ponto é que não buscava se dar bem, nem deixava que se dessem bem à sua custa. Esse ponto entre esbanjar e ser pão duro é difícil de encontrar.

Parece que a máxima do consumidor é que quanto mais barato melhor. Hoje em dia eu discordo, acho essa ótica um tanto míope. Não quero um preço barato, tampouco caro. Quero um preço justo.

Adoro mate, chás gelados em geral, mas em particular o mate com limão da praia, pra mim, é inigualável. Não entendo até hoje como as lojas com todos os aparatos da cozinha não conseguem replicar o delicioso sabor do mate de galão.

Lembro de um dia notar na praia no leblon as pessoas barganhando o preço, constantemente. “Quanto é? 4 reais chefe, geladão! 4?.. Faz 3 por 10?”

Vi depois as mesmas pessoas almoçando no Gula Gula, pagando R$ 6,90 numa coca-cola sem reclamar. E ainda dando 10% ao garçom que trabalha no ar-condicionado, com carteira assinada e banheiro à disposição. Já o cara do mate pega um trem, um metrô e um ônibus, carrega dois galões pesados debaixo dum sol escaldante na areia fofa, andando pra lá e pra ca, só pra te servir um mate com limão gelado, com direito a um chorinho, e o pessoal ainda vem barganhar o preço.

Vejo moradores aceitarem um aumento de 200 reais no condomínio sem nenhum bom motivo, mas discutindo horas se vale a pena trocar a cadeira do porteiro por uma nova.

Sermos cidadãos mais conscientes na hora de votar é fundamental. Mas eleições ocorrem a cada 2 anos. Há um outro tipo de voto que fazemos toda hora de igual ou maior impacto. A cada dia votamos com as nossas carteiras no tipo de produto e serviço que iremos fomentar. Criamos demanda constantemente, participamos ativamente dessa roda econômica – querendo ou não. Ações falam mais alto que palavras, e o mercado é cego a todo o resto. Se tem gente comprando, tem gente vendendo – e gente produzindo.

Meu primo disse que parou de comer coração de galinha quando caiu a ficha de que cada coração representava uma galinha morta, necessariamente. Aquela fila de corações apertados uns contra os outros era um lembrete numérico forte demais, o aperto literal gerou nele um metafórico. Ele sabe que é hipocrisia continuar comendo o resto, admite isso numa boa, mas acho que nesse caso fica mais difícil se enganar ou não perceber – a relação entre oferta e demanda é inegável, é um pra um. O mesmo acontece com casacos de pele. Nos tornamos conscientes do processo produtivo e rejeitamos a ideia de participar dessa indústria cruel. É mais difícil quando a coisa fica mais distante, produtos mais complexos têm o sofrimento mais “diluído”.

Fico realmente incomodado ao ver como alocamos mal nossos recursos. Confundimos preço com valor. Preço é uma função da oferta e demanda apenas, sem quaisquer juízo de valor. Sem refletir, intuímos que algo caro deve nos trazer mais prazer que algo barato. Bem vindo à sociedade de consumo. Um olhar no programa “acumuladores”, crises de depressão entre milionários e veremos que a coisa não é bem assim.

É interessante ver a máquina do capitalismo trazendo eficiência e inovação aonde precisa. Vejo o mercado de esportes radicais por exemplo. Hoje em dia temos muito mais opções de equipamentos bons, com mais qualidade e menor preço. Havia demanda e assim a oferta veio atrás. Perfeito. Fico feliz de conhecer empresas como a Patagonia, que busca pagar bem todos os fornecedores, fomentar relações de trabalho saudáveis e produz material de qualidade, preocupada com seu impacto no meio ambiente.

Uma das críticas mais fortes ao consumo de drogas é compreender que quem compra um baseado (no Brasil) sabe que alimenta o tráfico e toda uma cadeia de violência e crime que dele advém.

Entendi que minha atitude com o teatro destoava completamente dos meus ideais. Valorizo esse meio e quero que contribuir com ele. Quero ser um consumidor consciente, e fico feliz cada vez que pago por algo em que acredito, e mais ainda se é um de nicho subvalorizado – quando compro um livro, vou a um show ou tomo um saboroso mate na praia.

Me entristece ver quantas pessoas buscam um emprego público pensando apenas no que podem tirar dali. A mentalidade do “se dar bem”. Não fazem um concurso pra ser útil naquela área, se isso acontecer, que bom, mas o foco é no eu. Qual o salário? Tem que trabalhar muito? Qual o máximo de migué que posso dar, como fazer o mínimo e ganhar o máximo?

Penso o contrário. Quero entregar mais valor do que recebi em troca, sempre. Isso me empurra na direção de me melhorar. Se quero uma boa condição financeira preciso merecê-la. Lembro de ouvir um bilionário falando: “quer saber como ficar bilionário? Ajude um bilhão de pessoas.” Acho que a mentalidade sugadora, a predisposição a se aproveitar, buscar o melhor pra si sempre, essa é uma das mais danosas, não aos outros apenas, mas a si mesmo. Ela impede o acesso à criatividade, à capacidade de criar, de gerar, que está inevitavelmente ligada à lógica da abundância. A da escassez fomenta um estado de espírito péssimo no longo prazo. Detona sua auto-estima, cria uma profunda culpa que negamos e buscamos anestesiar com bebidas, remédios, coisas brilhantes e estimulantes, festas, filmes e roupas novas, mas no fundo não dá pra fugir de si mesmo.

Isaac Asimov previa um futuro no qual a punição máxima era proibir alguém de trabalhar, de ser útil. Com robôs e nanotecnologia, o ser humano viva mil anos e ficar impedido de quaisquer forma de utilidade aos outros era um tortura inigualável. Uma vez suprida as necessidades básicas de comida e abrigo, subimos na pirâmide de Maslow. O ser humano anseia por ser útil, por estima e auto-realização. A mentalidade do “se dar bem” é como um atalho cheio de espinhos. Aparentemente mais curto, mas no final, mais lento e doloroso.

De forma confusa falamos do amor como se fosse uma coisa, quando de fato são duas. Ser amado e amar. É um sinal de maturidade quando estamos prontos a parar de querer ser amado e tomamos as rédeas da menos familiar atividade de ativamente amar alguém. Um neném apenas recebe amor. Pais e filhos, ambos vivem o amor, mas cada um num extremo diferente do eixo. Para a relação funcionar precisamos nos mover firmemente pra fora do modo infantil e adentrar o parental.

Nossa relação com os outros é o que faz a sociedade, e seu avanço depende completamente de um amadurecimento equivalente de seus cidadãos. Sair da posição infantil pra adulta, do querer receber, para o querer doar.

Sobre Bases, regras e identidades

O que é mais importante pra você? Qual sua identidade no mundo? Qual ou quais suas bases, e o que você faria se algo acontecesse com ela?

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Uma das coisas mais importantes que percebi para lidar com situações difíceis, e dar segurança e resiliência, são as nossas bases. São nosso chão, nosso fundamento, e nos afetam fortemente, mesmo nos períodos de tranquilidade.

Nossas bases incluem nossas regras e identidades. As regras são como entendemos o mundo. Algumas são extremamente complexas, outras bem simples, e muitas vezes incompletas ou abertamente erradas.

“Cada um colhe o que planta”, é uma regra. “Amigo de verdade não te abandona”, “família é nossa fonte de felicidade”. Essas são regras mais gerais que muitos aceitam. Algumas são conscientes, outras nem sabemos que temos ou de onde vieram (cultura, pais..). Existem as regras mais claras, como do funcionamento de uma democracia, do capitalismo, as leis da cidade, regras de um jogo ou sistema, etc.

As regras são as relações de causa e consequência através das quais fazemos sentido do mundo. Meu amigo sofre um acidente, lembro que “Deus escreve certo por linhas tortas” e tiro um significado desse acontecimento, e essa visão, essa forma de perceber, influencia fortemente como vou me sentir, e como irei agir a respeito. Se vejo um homem brigando com uma mulher no trânsito e tenho a regra “bater em mulher é covardia”, vou passar pelo mesmo processo de compreender, me emocionar e agir. Já se tenho a regra “não se pode julgar o outro sem saber pelo que ele está passando”, provavelmente minhas emoções sobre o caso e como reajo será diferente.

Outro grande componente é a identidade. Como me vejo no mundo, a partir de que lente enxergo as coisas. Há quem tenha apenas uma identidade, um aspecto que é tão mais forte que todo o resto que reina soberano na minha relação com o mundo. Por exemplo o pai de família, que tem tão forte a identidade de provedor e dono do lar que, quando perde o emprego, perde também sua identidade. Se ele sente que não há volta, passa a ser nada, não consegue mais fazer sentido de sua existência, e acaba pondo um fim a ela. Essa identificação com o papel de “Homem da casa” era tão forte que no crash de 30, nos EUA, houve uma das maiores taxas de suicídios – homens iam a falência e sentiam que não tinham mais nenhum valor, que fracassam no ponto mais importante e a única saída era a morte.

Atualmente mais pessoas morrem de suicídio do que de assassinatos e acidentes de carros somados. Suicídio é o lembrete supremo de nossa intensa vulnerabilidade psicológica, e da profundidade das dificuldades que temos em comunicar essa vulnerabilidade aos outros.

Se perdemos as bases, perdemos o que nos sustenta, o que nos liga ao mundo. Se perco minha identidade e todos meus interesses, não consigo me imaginar seguindo no dia-a-dia, não vejo mais razão de viver. O suicídio é um infeliz extremo, é claro, mas é indicativo de até onde podemos chegar.

Quando nos identificamos fortemente com um aspecto, um ataque a ele passa a ser sentido como um ataque à nossa pessoa. Vemos isso recorrentemente em quão sensíveis algumas pessoas são a uma crítica à sua religião, ao seu time de futebol ou à sua família. Dizer “não vamos falar de futebol ou política” é uma consequência de sabermos que muitas pessoas não conseguem separar suas opiniões de sua identidade, e se sentirão realmente ofendidas se sua ideologia for atacada. Os agressivos reagem contra-atacando, os mais introvertidos ficam deprimidos, mas todos sofrem por causa disso.

Outra identificação muito forte é com nossa imagem, nosso corpo. Mesmo quem não se vê como um atleta acha devastador a perspectiva de um acidente que o deixe numa cadeira de rodas. Se eu sou meu corpo, uma “destruição” dele é uma destruição de mim, sinto que perdi boa parte do meu valor, que sou menos que antes, pois sou menos capaz.

A verdade é que não sou apenas meu corpo, minha religião, emprego ou o que for. Sou mais que isso, sou o potencial de ser isso tudo, sou aquilo que é isso tudo e pode ser mais ou menos.

Entender quem eu sou inclui entender tudo que faz parte da minha identidade. Se eu só tenho uma base, ela se confunde com minha identidade. Conforme vou adquirindo mais e mais e cada uma cresce em importância pra mim, percebo que sou mais que a soma das partes.

Sou em diferentes medidas um filho, um neto, um empresário, um ator, um capoeirista, brasileiro, homem, escritor, aluno, professor, amante, surfista, espírita, amigo, consultor..  Uns são muito importantes pra mim, outros menos.

Sou x% capoeirista. Ir nas aulas de capoeira, jogar, aprender os movimentos, assistir vídeos e fazer parte dessa comunidade é algo que existe em mim. O mesmo quanto a ser um professor, algo sobre o qual penso, que me motiva e me inspira. E sobre ser fã de Harry Potter. Ter lido os livros e me emocionado com eles faz parte da minha história. Tem coisas que estão no passado, que apenas fui, e outras que quero continuar sendo, outras ainda que quero passar a ser.

É importante, e saudável, notar que podemos conscientemente criar novas identidades, novas bases. São como sementes que podem crescer e se desenvolver. Ter mais bases é ter uma vida mais rica, expandir seus horizontes – e, consequentemente, enriquecer a vida daqueles em contato conosco.

Pra muitos o relacionamento passa a ser uma base. Ser marido ou a mulher de fulano é uma parte fundamental da vida. Houve um momento em que esse outro era um completo estanho, e houve toda uma jornada em que ele foi de desconhecido a “não consigo viver sem”. Com cada conversa, cada momento juntos, cada troca de carinhos, cada briga e reconciliação, essa relação foi crescendo, a confiança no outro se fortalecendo e a relação passou a ser uma base que sustenta cada um.

Mas ter uma única base, apenas, é dependência. Não importa quão forte ela seja, é como um banco de uma só perna. E os romances estão repleto de histórias de como mesmo os mais sólidos relacionamentos podem ser balançados. O exemplo do casamento serve pra mostrar como construímos uma base.

O mais saudável é investir em algumas. Invisto no meu relacionamento, ao mesmo tempo em que mantenho um contato com meus amigos, que leio e pratico minha espiritualidade, me dedico a um esporte ou grupo, estudo o comportamento humano e entendo as regras desse ou daquele sistema. Sofro se algo acontece em qualquer uma, mas não fico devastado, ainda tenho aonde me apoiar.

Uma nova atividade é com um filho pequeno, consome mais no começo. Com o tempo no entanto, fica cada mais fácil de manter. Pense em quanto tempo passou com um bom amigo, as conversas e viagens juntos. Depois de criada a amizade, se for bem forte, ela sobrevive uma vida. Muitos pecam por investir demais no começo e de menos depois. Deixam as trivialidades do cotidiano tomar conta, o urgente passando por cima do importante. Não precisa de muito. Um telefonema, um encontro por mês, quem não tem esse tempo? Acho triste ver grande amigos se tornando apenas conhecidos, cada um sofrendo silenciosamente a falta da cumplicidade e parceria, mas sem querer admitir e sempre com outras prioridades.

Nossa cultura não estimula certas reflexões. É difícil falar dos sentimentos. Nos escondemos atrás de máscaras, digo que quero marcar aquele churrasco, quando na verdade a carne é o de menos, conseguiria uma melhor indo no restaurante sozinho. O que quero mesmo é a companhia dos amigos, um espaço pra conversar e me abrir, me divertir e sentir que faço parte de um grupo. Mas poucos tem coragem de ligar e dizer “estou com saudades de você. Vamos sair, conversar?”

Amizades são uma benção, uma fonte riquíssima daquilo que mais precisamos no mundo.

Os governos de nações ricas tendem, majoritariamente, a dirigir seus esforços para lidar com pobreza, doença e envelhecimento da população. O suicídio nos alerta um problema mais estranho que temos: a escala do nosso tormento psicológico, a extensão da fragilidade das nossas mentes, que não pode, necessariamente, ser concertada por mais dinheiro ou bens de consumo. Das causa do suicídio percebemos quão intensamente precisamos de: amor, auto-aceitação, significado, esperança, status, orgulho, e perdão.

Minha humilde sugestão é que repensemos conscientemente nossas vidas, onde investimos nosso tempo e porque. Muito do que fazemos é no automático, sem pensar. Seguimos o caminho mais trilhado pois é (aparentemente) mais fácil, e há a pressão do grupo. Não somos muito bons em nos fazermos felizes. Nós super-valorizamos o poder de algumas coisas de melhorar nossas vidas e subestimamos outras. Fazemos escolhas erradas pois, guiados pela propaganda e o falso glamour, seguimos imaginando que aquele carro, ou aquelas férias ou computador novo fará uma diferença maior do que ele é capaz. Ao mesmo tempo desconsideramos a contribuição de outras coisas – como dar uma caminhada – que podem ter pouco prestígio, mas contribuem profundamente ao caráter da nossa existência.

Alain de Botton

Tenho curtido muito assistir videos do “The School of Life”, uma organização criada pelo Alain, com um canal no youtube com videos curtos, reflexões interessantíssimas sobre variados assuntos – amor, trabalho, história das coisas..
Alain de Botton é, pra mim, um dos maiores filósofos vivos, e a forma com a qual ele fala desses assuntos é maravilhosa. Alguns já o chamaram de ‘Filósofo do dia-a-dia’, mas acho que no fundo esse é o tipo de filosofia mais importante, a que reflete sobre como viver, como nos relacionar, compreender de onde vêm nossas crenças e hábitos. Ele fala sobre ansiedade, suicídio, traição, confiança, amor, sexo oral, Marcel Proust, Platão, o medo de ser ruim de cama, como superar uma rejeição, os prazeres de discordar, Heidegger, como ser um bom ouvinte, amizade e vulnerabilidade, a história do fracasso, pra que serve a arte, e assim por diante. Sim, são todos exemplos reais de videos. Todos com animações bem bacanas e a maioria narrados por ele mesmo. O School of Life reúne autores diferentes e publica livros, promove palestras e eventos e me parece ser uma organização bem interessante.
O Alain fez 2 palestras no TED, ambas válidas de se assistir. Ele me inspira a refletir sobre variados assuntos. Gosto de como ele argumenta e dos pontos que faz, mesmo que de vez em quando discorde ou prefira seguir outro caminho. Acho que ele tem uma forma de falar as vezes poética e ainda assim bem precisa, e faz críticas e sugere soluções com elegância. Pretendo ler alguns dos seus livros e acompanhar mais do seu trabalho.

Aqui um video que achei bacana, e bem curto:

Porque eu não pago flanelinhas

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Há uns 8 anos que eu não pago flanelinhas. Nunca. Pago guardadores quando tem o talão, estacionamento e etc. Meu incômodo foi em ver que a coisa perdeu o sentido. Antigamente o flanelinha pedia um dinheiro pra olhar o seu carro, garantir que não fosse roubado enquanto você estava fora. Hoje em dia o maior perigo de quem ele nos protege é dele mesmo. A maioria das pessoas paga com medo do guardador fazer algo com seu carro se você não pagar. Quase ninguém acredita que ele vá de fato impedir um ladrão ou algo assim. E até ai tudo bem, o cara ta pedindo o dinheiro, dá quem quer. Mas decidi que não queria participar disso.

É muito importante, pra mim, o como. Eu não tenho raiva deles, não me incomodo que peçam, jamais sou mal educado. Sou sempre bem firme e claro. Dou bom dia, boa tarde, ou boa noite, e quando ele me diz quanto é o serviço digo apenas “não, muito obrigado”. Falo isso sem agressividade, sem pressa de ir embora ou medo, exatamente como quando um amigo me oferece algo que eu não quero. Não minto dizendo que vou pagar na volta, ou que “vamos ver”, nunca disse que estou sem dinheiro. Em geral não dou nenhuma justificativa, apenas digo que não, agradeço e sigo meu caminho.

Uma vez só o guardador disse que esse era o trabalho dele, e eu disse que sem o talão e naquele horário (era tipo meia noite) a vaga é pública e qualquer um podia parar. A função de dar segurança é do governo e que o que ele estava fazendo era pedindo uma esmola enquanto olhava os carros, e que era ok fazer isso, mas que ninguém era obrigado a dar nada. Ele resmungou alguma coisa, mas não fez nada.

Paro o carro em tudo quanto é tipo de lugar. Ando mais pela zona sul, mas já fui centenas de vezes na lapa, glória, centro, barra. Nunca tive um problema. Nunca arranharam meu carro, nunca fizeram nada. E por alguns anos o carro estava com um problema que uma das portas não trancava. Até onde eu sei nunca tentaram abrir. Pelo menos nunca levaram nada de dentro. E sempre deixei o som, minha mochila e mais qualquer coisa que não quisesse carregar.

Não falo isso pra estimular ninguém, entendo que minha atitude pode ser mais arriscada. Falo, talvez, pra mostrar uma possibilidade, ou só uma curiosidade mesmo. A maioria das pessoas quando ouve que eu não paguei o cara tem certeza que meu carro vai ser arranhado, vão quebrar o vidro e etc. Só posso falar da minha experiência, mas ela contradiz isso. De vez em quando acho válido testar algumas “certezas” que temos. Honestamente acho que mais importante que pagar ou não é o como falar e se posicionar. Ser arrogante, estúpido, agressivo ou qualquer coisa assim é uma péssima forma de se relacionar com qualquer ser humano. Há quem pague, mas com desprezo, raiva ou até nojo – acho essa a pior das opções. A minha experiência é que quando você simplesmente deixa claro que não vai pagar e está tudo bem com isso, eles aceitam numa boa. Alguns estranham ou pedem de novo, mas no final aceitam.

Não faço isso pra economizar dinheiro, mas pelo princípio. Me incomoda a cultura de tentar assustar a pessoa, especialmente mulheres, e cobrar no lugar de pedir. Não gosto de como a coisa mudou de “Você quer que eu olhe seu carro?” pra “Aqui a gente ta cobrando 10 reais. Adiantado, falou?”.

Sobre vitrines e equações

A percepção da obsolescência de algo e o prazer de ver o mundo por meio de equações.

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Estava no shopping outro dia e vi uma loja sem o vidro da vitrine. O resto era como de se esperar, o espaço do display claramente delimitado, os manequins com as roupas, e a entrada ao lado.. a única diferença é que não havia o vidro que normalmente tem. Achei curioso. Realmente, a função do vidro é permitir a passagem da luz e impedir a da matéria – você pode ver o que está do outro lado, mas não pode pegar. O que no ambiente do shopping não faz sentido. Têm câmeras e seguranças, ninguém vai agarrar uma camisa e sair correndo só porque não tem nada no caminho. O vidro perde sua função.

Há uma economia em não comprar um vidro de vitrine, é uma coisa a menos pra limpar, e no final achei a loja mais convidativa. Acho legal quando percebo algo que fazemos sem necessidade, e mudamos isso.

Vejo uma beleza no minimalismo zen, em retirar o excesso. Li um autor que dizia que um texto não está pronto quando não se tem mais nada a adicionar, mas quando não se tem mais nada a retirar. “Perdoe-me pela longa carta, mas não tive tempo de escrever uma mais curta.”

Nunca fui um aluno acima da média em matemática, no colégio ou na faculdade, mas acho que isso é mais pelo meu incômodo em como a matéria é ensinada e cobrada. Há um tempo que vejo muitas coisas como equações. Que percebo o mundo sobre o prisma de variáveis e funções. Por isso acho que o equilíbrio ou a busca por ele é um tema tão comum nos meus textos. Toda equação é uma igualdade. Se adicionar algo de um lado, deve adicionar exatamente o mesmo do outro pra se manter a igualdade – o equilíbrio. As coisas afetam umas às outras seguindo certas regras, certos padrões, mesmo que as variáveis sejam conceitos abstratos e não apenas números.

Acho linda a frase do Einstein “devemos tornar algo tão simples quanto possível, mas não mais”. É exatamente isso, a quintessência da comunicação, da eficiência. Lembro um dia minha irmã falando com amigos sobre montar uma banda. Alguém disse “mas não temos dinheiro, ou instrumentos”. “A gente arranja ué”. “Mas não tem aonde ensaiar”. “A gente acha um lugar”. “A gente nem sabe tocar nada”. “É só aprender”. E assim a conversa foi, por um breve período, e depois mudaram de assunto, a banda nunca surgiu e ficou como mais uma das possibilidades não-realizadas que nascem de inspirações momentâneas em tantas mesas de bar. O que me marcou, no entanto, foi que nesse momento compreendi que todo empreendimento depende basicamente de uma variável: vontade. Se tiver vontade o suficiente, superamos, contornamos ou transformamos todo e qualquer obstáculo que possa vir. Ainda não sei a equação inteira, mas sei que essa variável é a mais importante.

Esse é só um exemplo de como entendo as coisas. Essa visão de um empreendimento como uma função, como um sistema com entradas e saídas. Talvez eu tenha gostado de perceber a loja sem vitrine porque foi como descobrir um elemento desnecessário numa equação, um algo a mais que foi retirado e agora ela está mais bela, um pouquinho mais que seja.

Curioso né. Cada um com a sua loucura.

6 formas pelas quais o romantismo atrapalha o seu relacionamento

Sobre a herança cultural que vivemos no dia-a-dia, as expectativas que existem nos relacionamentos, muitas das quais não estamos conscientes e que acabam arruinando relações e gerando sofrimentos desnecessários.

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Em meados de 1750 ocorreu o movimento intelectual que chamamos de romantismo (ou romanticismo). Filósofos, escritores, poetas e artistas de toda sorte desenvolveram um set de ideias e conceitos a respeito do indivíduo e da sociedade, em especial sobre o amor e os relacionamentos, que formou o que veio a ser conhecido como o período romântico. Muitos dos rituais e ideias criadas nessa época continuam vivos e a nos influenciar fortemente nos dias de hoje.

Acho interessante entender o contexto no qual as coisas existem, especialmente as que nos impactam. Cada criação é inventada pra resolver um problema. Muitas vezes o contexto muda, mas como somos criaturas de hábitos, continuamos a fazer as mesmas ações, só porque todo mundo faz, ou porque “sempre foi assim”.

Levar flores ao funeral por exemplo, essa tradição surgiu quando as pessoas ficavam com o defunto em casa por um período grande antes do enterro, pra dar tempo dos parentes receberem a mensagem e, em muitos casos, viajarem para o funeral. Naturalmente o corpo começava a se decompor e isso gera um cheiro desagradável, então colocava-se flores para amenizar o odor do local. Mais pra frente isso deixou de ser necessário, mas mantivemos a cultura. Com o tempo as flores receberam outro significado – confortar os vivos, ser um sinal de beleza e alegria num momento triste e etc.

Muitas regras e crenças sobre o amor e como nos relacionamos são heranças de outras épocas, e dado que a qualidade da sua vida é incrivelmente afetada pelos relacionamentos, acho válido compreender melhor nossas raízes nesses assuntos. 

 

  1. Casamento

Os românticos criaram a ideia de que um casamento deve ser um eterno estado de amor e paixão ininterruptos. Deve durar uma vida inteira e se você não consegue ou falha nisso de alguma forma ou por um segundo sequer, é porque você não ama o outro de verdade.

Antigamente o casamento ocorria por outros motivos – mesma religião, a sua família queria selar laços com aquela outra, as terras dele eram próxima das dela e etc.

Naturalmente acho que amor e paixão devem estar presentes num relacionamento, mas o peso que é posto pela visão romântica é irreal e potencialmente danoso. A expectativa de um eterno estado de admiração e excitação com o outro é incompatível com o ser humano. Somos criaturas em constante mudança, vivemos diferentes momentos ao longo da vida, ao longo do dia, e isso afeta como nos sentimos, inclusive com relação ao parceiro. A culpa de se ver isso como uma falha profunda ou a dúvida “será que eu então não amo tanto ele/ela?” apenas adiciona um problema a mais na situação.

Os românticos criaram uma versão idealizada do ser humano, e sempre que nossa imaginação de ‘como deveria ser’ difere do ‘como é’, temos a receita para o sofrimento.

Se acredito que minha filha beijar alguém é ruim, que se um menino transar com ela ele estará “se dando bem” às custas dela, sempre, isso é uma forma de garantir sua infelicidade no futuro, e provavelmente a da minha filha também. Sim, podemos controlar nossas crenças. Mesmo que a maioria seja criada ou absorvida de forma inconsciente, podemos nos tornar cientes delas e modificar. Isso faz parte de amadurecer e ser uma pessoa racional.

Um casamento pode sim significar muita felicidade e a celebração do amor que duas pessoas sentem uma pela outra, mas sem os exageros e idealizações em excesso. Um problema, um momento em que se esteja menos apaixonado não quer dizer que seu amor era falso, apenas que somos seres humanos e temos questões a resolver. Dentro e fora de qualquer relação.

 

  1. Aceitação

Uma das ideias mais danosas dos românticos, na minha opinião, é de que devemos aceitar as pessoas como elas são. Existe uma diferença entre ser um tirano controlador de cada detalhe da vida do outro e compreender que somos seres em construção e buscar influenciar positivamente quem amamos. Se minha namorada percebe que eu sou péssimo em algo, acho super válido que ela me fale. É tênue a linha entre comandar e sugerir, e tudo depende da forma e intensão da comunicação.

Se você usa óculos é porque não se “aceita como é”. Você entende que tem um problema na vista e que é mais confortável mudar isso artificialmente. Não é um ataque a sua personalidade dizer que sua vista está ruim e você precisa de óculos. Não estamos constantemente atentos a nós mesmo, e o feedback dos outros é sempre valioso, mesmo que as vezes seja difícil aceitar algumas verdades. Exatamente essa dificuldade que alimenta a fuga pelo “você tem que me aceitar como sou, ou não me ama.”

Aqui esta implícita a noção de que o que é natural é bom, e o que é consciente ou planejado é artificial. Veneno de cobra é natural, picada de abelha é natural, cianureto é naturalmente encontrado também. Meu estado preguiçoso e procrastinador pode ser natural, mas tentar ser mais ativo e produtivo é forçado e negativo? Aprender uma língua não é natural, há um esforço constante desde que balbuciamos o primeiro ‘mamãe’ até compreender as regras gramaticais da sua língua (quem entende todas né..). Nada mais natural que a curiosidade humana, o desejo de se melhorar e desenvolver. Não é um sinal de falta de amor o outro querer que você se desenvolva, é um sinal de que ele ou ela se preocupa com você, mas existe muito a se trabalhar no campo do como conversar sobre tais assuntos, e sobre respeitar as decisões e espaços do outro. Um relacionamento é uma eterna troca, e esse equilíbrio em particular pode ser dos mais delicados. 

 

  1. Instinto

Uma ideia forte é a de que o amor é algo que acontece, que somos passageiros no trem das emoções que nos assola, e devemos apenas seguir nossos instintos que o conto de fadas vai seguir seu curso pre-destinado, terminando na estação final “e viveram felizes para sempre”.

A verdade é que não nos elevamos ao nível das nossas aspirações, mas caímos ao nível da nossa prática. Posso te amar e estar incrivelmente motivado, mas se sou inexperiente na cama é provável que eu não vá ser tão bom quanto poderia. Se eu gosto de fazer massagem nas pessoas, não quer dizer que isso por si só seja suficiente pra me tornar um bom massagista, o instinto não me leva até o final. Devo fazer cursos, ter aulas, praticar, ler livros e estudar muito pra realizar meu potencial. Com tudo é assim. O estudo consciente dirige a prática e a eleva. Mesmo o maior talento é mais uma predisposição do que qualquer coisa. Podemos aprender e nos aperfeiçoar a falar em público, a negociar, a cozinhar, a conversar, dirigir, transar, ser um bom anfitrião… A lista é infinita. Pensar que o sucesso de um relacionamento é única e exclusivamente devido à quanto cada membro ama o outro é não apenas errado e superficial, mas a causa de muito sofrimento, traições e inseguranças.

Essa é, na minha opinião, uma noção perigosa que herdamos dos românticos. Há uma série de sentimentos maravilhosos que de fato acontecem. Ter um crush, estar apaixonado e ainda por cima ser correspondido é incrível, e muitos desses sentimentos nos pegam “de surpresa”, e parte da onda é simplesmente viver isso, sim, curtir esse momento mesmo. A questão é que no longo prazo a expectativa de que tudo tem que ser natural, no sentido de não planejado, o tempo todo, é horrível. Temos que fazer esforços conscientes para compreender o outro, para ler os momentos dele ou dela, entender as melhores formas de dar carinho, respeitar o espaço, dar e receber prazer. Lembro a primeira vez que perguntei a minha namorada do que ela mais gostava na cama, e se tinha preferências e do que não gostava. Nunca me vi como careta ou aceitando tabus, mas ainda assim senti alguma dificuldade em quebrar essa barreira e falar abertamente sobre isso. No final foi tão simples e positivo, como a maioria dos medos que enfrentamos. Mas certamente não foi “natural”. 

Imagine uma médica que não estudou medicina, apenas sente uma paixão imensa por ajudar os outros e faz o que seus instintos mandam, você faria uma cirurgia com ela? Ou um piloto que não fez o treinamento mas pretende pousar o avião “naturalmente”, sem forçar nenhuma regra de cursos ou manuais. Nas devidas proporções, o mesmo princípio se aplica aos relacionamentos. É uma atividade humana que vai se beneficiar do tempo e atenção que dedicarmos a ela, conscientemente tentando melhorá-la. Conversando, experimentando, pensando e trocando sobre o assunto.

 

  1. Amor e sexo

Os românticos transformaram o sexo na expressão máxima do amor. Isso é tão forte que pra muitas pessoas a palavra amor significa sexo. Como “fazer amor = transar”. Pessoalmente acho muito melhor o sexo com alguém que amo, mas essa não é a única implicação dessa forma de pensar. Tivemos algumas gerações de “revolucionários” pra quebrar um pouco esse tabu. Não preciso ser um depravado sexual pra poder ter uma noite com alguém e estar ok com isso, os dois se divertiram e tá tudo bem. Também não é o fim do mundo se você e seu parceiro/a não são como dois coelhos transando o tempo todo. Uma vida sexual saudável é um objetivo, sexo pode fazer parte do amor, mas não acho que deva, necessariamente, ser visto como a expressão máxima dele. Há diversas formas de amor sem sexo (amigos, família), assim como há diversas formas de sexo sem amor.

Pense por um momento num casal que não tem tanto interesse por sexo assim. Há uma constante pressão invisível, um bicho papão social que paira como uma nuvem negra estacionária, intermitentemente os lembrando que eles provavelmente não se amam “de verdade”. Um terreno delicado a ser manobrado com sorrisos constrangidos em conversas quanto o tópico surge. Uma angústia que é alimentada sem percebermos e faz o casal duvidar de si mesmo, quando não há nada de errado. Assim como não há nada de errado em alguns casais gostarem de jogar vôlei juntos e outros não. Mas um ocorre num quase crime social, o outro não.

Nossa função deve ser repensar o relacionamento com o que sabemos e o que queremos. Há períodos na vida em que experimentamos mais, em outros podemos buscar conforto e estabilidade. Sexo deve ter o espaço que lhe cabe, assim como quaisquer atividades. É prazeroso, uma troca íntima incrível e com muito potencial, uma atividade de conexão e possível êxtase, mas não a expressão máxima de amor. Talvez uma, mas não “a”.

 

  1. Fim da Solidão

É comum ouvir em discursos de casamentos como o outro é tudo. Meu amor, meu confidente, meu melhor amigo, meu amante, meu guia espiritual, quem cuida de mim, parceiro nos esportes, etc, etc. Essa expectativa da alma gêmea, alguém que te complemente e seja compatível em 100% das suas atividades e interesses. O derradeiro fim da solidão. Nunca duas pessoas serão perfeitamente complementares. Haverá sempre desencaixes. O segredo é que haja complementaridade no que é mais importante, e que saiba se conviver com o que não é. Tolerância pode te levar longe. Entendo que ela gosta de assistir esse seriado, e eu não. Mas não me importo de ficar do lado dela lendo, ou usar esse momento pra cozinhar. Ela sabe que pra mim é importante ser pontual, e faz um esforço extra. Concordamos nas coisas mais importantes, em como educar os filhos, pra onde viajar, sobre espiritualidade, fidelidade e como ter conversas profundas. E toleramos pequenas coisas em prol do bem do relacionamento.

 

  1. Aspectos Práticos

Aqui também está mais um ponto, as praticalidades. O romantismo excluiu-as completamente. Falar de questões práticas é frio e errado – o anticlímax do amor. Deveríamos apenas falar dos sentimentos. Se duas pessoas vão conviver juntas, é altamente subvalorizada a importância de se alinhar diversos pontos “menos importantes” do dia-a-dia. Um realmente se importa que as roupas estejam sempre arrumadas no armário, outro acha péssimo televisão ligada antes de dormir. Falar sobre tais pontos abertamente, sobre questões financeiras, não é anti-romântico, muito pelo contrário, é provavelmente uma das atitudes que melhor permite que o relacionamento (e o amor nele) perdure.

 

Não acho que todo o romantismo deva ser abdicado ou seja prejudicial. Apenas reconhecer o impacto que certas crenças têm, e que em certos momentos podem por um peso extra, desnecessário a quem já está sofrendo e com dúvidas. Fazer sexo com quem se ama, buscar o amor no casamento e a complementaridade no parceiro de forma consciente é absolutamente positivo. Mas como um objetivo a ser perseguido, não um indicador binário da presença ou ausência do amor. Assim como estudar pra prova buscando o 10 é válido, mas a taxa de suicídio na Korea, por exemplo, de jovens que tiram 7, é indicativa do peso e do risco de se confundir o estímulo no processo com a rigidez de um resultado pré-definido e único.

Podemos agir de uma forma madura, compreendendo que as adversidades existem e podem ser contornadas, e não se sentir mal por acreditar que um segundo de não-amor é um pecado e que você não é digno de uma relação feliz e bem sucedida. A pessoa com quem escolhemos viver, aos que escolhem esse caminho, terá um impacto gigantesco na nossa qualidade de vida. Cada membro de um relacionamento deve estar atento a si, ao outro, e à relação, esse 3º elemento, essa entidade que surge ante a união de duas pessoas (ou mais).

É importante entender de onde vem a pressão social e como expectativas culturais nos afetam de forma quase imperceptível diariamente. A partir do momento em que entendo a idealização do parceiro, não faz sentido esperar que ele me complete em cada mínimo detalhe, consigo caminhar de encontro a um relacionamento mais feliz, pois me livro de amarras antigas e formas de pensar que não mais me convêm.  

 

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Esse texto foi completamente inspirado por palestras vídeos e livros do Alain de Botton, na minha opinião, um dos maiores filósofos e pensadores da atualidade. Recomendo fortemente seu canal no youtube “The School of Life”. Dois videos em especial falam exatamente sobre tudo que falei aqui: “Alain de Botton On Love” e “How romanticism ruined Love”

 

 

Peter Sunde

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Peter Sunde é a mais nova pessoa que me inspira. Criou o Pirate Bay com mais 2 amigos. Assisti algumas palestras dele no youtube, li alguns artigos e tenho achado ele uma figura interessantíssima. Ele me inspirou a não só acreditar mais e tocar cada projeto meu, a chance é que alguns deem certo e outros “falhem”, mas a valorizar o humor, o fazer algo porque acho engraçado, dar esse toque nas coisas. Incrivelmente disruptivo, criativo e revolucionário. Ele começou um monte de coisas, algumas deram certo, outras nem tanto. Ele fez um projeto pra um aplicativo que iria substituir o whatsapp por exemplo, conseguiu 150 mil por crowdfunding, mas depois viu que não conseguiria competir quando o whatsapp foi adquirido por bilhões. Eles vão disponibilizar os códigos que criaram como open source.

Acho bonita a capacidade dele de seguir um fluxo. Quanto estava sendo processado pelo piratebay, uma advogada de Hollywood usou o termo “culto” pra se referir ao site e seus usuários. Ele achou interessante e ao invés de ficar irritado, foi pesquisar o assunto e descobriu um monte de questões curiosas sobre religião e as leis. Criou a religião Kopismo, onde os fieis vêem como sagrado o direito de compartilhar arquivos. Sim, ele criou uma religião só de sacanagem. E mais que isso, descobriu que o ato de se confessar é protegido em todo o mundo de qualquer tipo de espionagem (herança da força da igreja). Então definiu que na sua igreja todos os membros são padres, assim toda comunicação entre membros é secreta e protegida por lei. Existem atualmente milhares de fiéis pelo mundo e eles já realizaram até casamentos.

Como ele estava sendo perseguido pela Interpol e outras agências, se candidatou a um cargo político, apenas para ganhar imunidade parlamentar. Teve uma campanha baseada em nada, só imagens dele “seduzindo” a câmera, sem falar uma palavra sobre seu posicionamento político a campanha inteira. Uma forma de mostrar quão desinteressadas as pessoas são com política. Ficou a 700 votos de ser eleito. Mas como perdeu, foi preso e ficou 6 meses numa solitária. Nesse período, escreveu 2 sitcoms e um programa de TV, que ele já vendeu e acho que está produzindo.

Enquanto estava no Piratebay (ele saiu) mantinha uma página com os email que recebiam com ameaças exigindo que o site fosse desativado, e postavam igualmente suas respostas (como avisavam abertamente que fariam), em geral fotos de animais e um texto que terminava com um “go fuck yourselves”.

Acho curioso como muitas coisas que ele faz tem um toque de humor, mesmo que só pra ele, e me relacionei com isso de alguma forma. Me inspira também a seguir o fluxo, o que acho que tenho tentado fazer. Um cara extremamente preocupado com a sociedade, um pensador e visionário, e muito sagaz e criativo na forma que escolhe abordar os problemas que o incomodam.