Sobre Minimalismo e Redundância

Quem está melhor, o cara com um depósito de comida pra 3 anos no seu bunker em casa, ou o que vive com tudo que tem numa mochila?

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Acho interessante encontrar opiniões que divergem da minha, e me acho especialmente sortudo quando elas são bem explicadas e com bons argumentos.

Há algum tempo acho a ideia do minimalismo interessante, de possuir o mínimo necessário, e leio pelo menos um blog cujo autor é adepto desse estilo de vida. O blog não é sobre isso, mas invariavelmente toca no assunto com alguma frequência.

Li então um artigo com o conceito de Anti-Frágil (de um livro do Nassim Taleb). Uma das ideias do livro é que existem três tipos de sistemas: o Frágil, o Resiliente e o Anti-frágil.

Os frágeis, que são aqueles que ao passar por uma situação difícil podem se quebrar, e vão estar pior depois do golpe do que estavam antes. Há os resilientes, aqueles que resistem bem. O símbolo aqui é a fênix, que pode morrer se a situação for difícil, mas renasce das cinzas, tão forte quanto antes. Sempre pensei na fênix como um objetivo de muitas empresas e sistemas. Ser capaz de resistir, voltar tão bem quanto antes, se recuperar, isso seria força, estabilidade.
O terceiro conceito é o anti-frágil, que vai além, e fala de sistemas que ficam mais fortes com o stress, com ataques e dificuldades. Aqui o animal mítico seria a Hidra, que ao ter uma cabeça cortada, duas crescem no local, e ela se torna mais forte e mais ameaçadora após cada ataque.

A evolução nos dotou com diversos sistemas assim. Uma pequena pancada no osso e ele se reveste de cálcio, tornando a parte ferida mais resistente que antes (de forma bem simplificada). O músculo, cresce e se torna mais forte com o stress. Nosso sistema imunológico fica mais forte depois de enfrentar um determinado vírus, e é em cima disso que criamos as vacinas.

Num momento do artigo ele compara dois “estilos de vida” aparentemente opostos. Os minimalistas com o grupo que se prepara o tempo todo para uma catástrofe, os “survivalist” (não encontrei nenhuma tradução boa pra esse termo. Sobrevivicionistas?).

Esse grupo são os caras que chegam a ter bunkers em casa, tem estoques de comida, armas, possuem fogão e estocam lenha, tudo em dobro, pois querem estar preparados para momentos de crise, seja uma guerra ou um desastre natural. São um outro nicho que me atrai a curiosidade de alguma forma. Essa é a ideia da redundância, ter em dobro, caso um dê problema, ter um excesso pode te salvar.
Os minimalistas estão no outro extremo, pessoas que carregam tudo o que possuem numa pequena mochila. Uma calça, duas camisetas, um computador, em geral da apple, e mais uns poucos ítens de vestimenta e higiene pessoal.

Num primeiro momento tive alguma resistência ao perceber uma crítica a um estilo de vida de pessoas que admiro. Notando isso, resolvi me colocar do outro lado. Realmente, ele tem um bom argumento. Os minimalistas dependem do acesso a coisas que, no mundo “normal” atual, é bem factível, mas num estado de crise, isso realmente os deixa bem mais frágeis. E não precisa ser pessimista ou paranóico, todo ano acontecem milhares de pequenos desastres naturais, alguns grandes, e não é absurdo pensar na utilidade de se estar preparado pra um. Um furacão, uma enchente, um terremoto e sua cidade poderia ficar isolada por algumas semanas. Acontece todo ano em dezenas de lugares.

Quando vejo duas opiniões se confrontando, e ambas com bons argumentos, algo me diz que posso estar num terreno propício a uma terceira alternativa. Ela pede que analisemos melhor o contexto de cada uma antes de se mostrar, então, vamos lá.

O minimalismo surge como resposta a uma percepção de hábitos de consumo insalubres, de uma relação desequilibrada com as coisas. Esse desequilíbrio se mostra não apenas nas patologias, tipo acumuladores, pessoas que mal conseguem morar nas suas casas de tanta tralha acumulada, mas pessoas “normais” que têm 40 pares de sapato, que compram roupas todo mês, que tem cada vez mais coisas que não precisam, e continuam comprando.

Então a resposta foi ir na direção contrária. Mas como em qualquer coisa, a primeira resposta não é completa. Todo movimento começa de alguma forma e vai evoluindo aos poucos, na medida em que vão se percebendo falhas e inconsistências, ele cresce e se adapta.

Acho que aqui entra a primeira observação do conflito Survivalists X Minimalistas.
Ele confunde a mensagem com o mensageiro. Boas críticas são gostosas de fazer. Existe um prazer especial em apontar a hipocrisia ou inconsistência da galera que ta pregando um novo estilo de vida, esses excêntricos que de alguma forma estão me atacando, mesmo que indiretamente, ao atacar meu estilo de vida. Então é sinal de uma boa destreza mental um ataque como o do Taleb, autor do Antifrágil. Ele diz que o natural e mais inteligente é ser o oposto do minimalista, ter o dobro de muitas coisas, ser redundante, como o nosso corpo que tem dois testículos, dois rins, quando apenas um daria conta. Diz que isso te deixa mais resistente, anti-frágil. Já a proposta dos minimalistas é bonita por enquanto, mas um dia vai se mostrar pela fragilidade que acarreta.

Ele trocou o mensageiro pela mensagem, e é natural que tenha feito isso. Falamos do que estamos vendo, e criticar pessoas atrai muito mais atenção e interesse.

Outra crítica interessante ao minimalismo é que muitos dos seus garotos-propaganda apesar de possuírem menos objetos, passam o tempo todo falando deles, pensando, escrevendo sobre e etc. Realmente isso tem algum fundo de verdade. Quando se tem uma relação com quantidade e não qualidade, pouco se pensa sobre o que se consome. Se você compra uma camisa por semana, a coisa vai meio que no automático. Se vai ter apenas uma, provavelmente vai querer pesquisar o melhor material e etc. Talvez seja apenas uma forma diferente de pensar e dedicar sua atenção.

Por um lado, acho isso bom. Sou a favor de ações cada vez mais conscientes, o que inclui nossa relação com o que consumimos, com cada ítem de casa, vestimenta, comida, tudo. Diria que devemos ir ainda mais longe e compreender o impacto ambiental de cada coisa, entender mais sobre seu processo produtivo, o preço social disso, se as pessoas estão sendo honestamente recompensadas e por ai afora. Isso dá mais trabalho, e só se torna realmente possível se passarmos a consumir muito menos. Se eu consumo muito, não dá pra dedicar muita atenção a cada coisa. Quando a quantidade diminui, ai sim podemos nos dedicar mais a cada item. Alguns se perdem sim nesses detalhes, e passam de consumistas de quantidade para consumistas de qualidade sob o título de minimalistas.

O que o minimalismo tem de valor a nos oferecer não é necessariamente os pormenores do seu estilo de vida, mas uma essência. A ideia de que temos que mudar nossa relação com as coisas.

Pra mim o recado do minimalismo não é regredir a uma simplicidade exagerada, mas aprender que objetos tem sim seu valor estético e utilitário, que gostamos de ter coisas que funcionam e são agradáveis de olhar, de boa qualidade, e que é legal comprar e tudo o mais. Mas sem exageros.

É diferente de ter pouco. Se eu quero beber 3 litros de água por dia, preciso ter 3 litros disponíveis. Não é pouca água, é o suficiente. Se eu preciso de 2 computadores, terei 2 computadores. Não 1, nem 5. O ponto é saber de verdade se eu preciso de 2 computadores, de acordo com os meus objetivos, valores e estilo de vida. A partir do momento que tenho clareza disso, ok.

Como tudo, não é absoluto. Existem momentos de vida, certos cenários ou condições nas quais ele se encaixa perfeitamente. Especialmente pra quem é ou foi consumista demais, ficar um período com apenas o necessário tem seu valor. Com o tempo, acho que compreendemos o que esse estilo de vida tem a nos ensinar. Pode parecer piegas ou clichê, mas é a verdade – os objetos existem para nos servir, e não o contrário.

Existem diversas formas e caminhos para o autoconhecimento. Tudo que fazemos, todo tipo de ação e interação nossa fala um pouco sobre quem somos, tudo que vem de dentro mostra um pouco sobre nós, se soubermos olhar. Na sociedade de mercado em que vivemos, lançar luz sobre nossa relação com o dinheiro e os bens que circundam nossas vidas tem grande valor. Estou sempre buscando diminuir a distância entre quem sou e quem quero ser, entre onde estou e onde quero chegar. A reflexão sobre o que consumo e como isso me afeta tem sido bem interessante pra mim.

Existe o famoso “barato que sai caro”. Que é um dito sobre a nossa busca por atalhos, como ficamos míopes e não vemos longe na ganância, nos achamos malandros e acabamos pagando o pato. Minha mãe comprou um carro zero e quis economizar no rádio. O rádio de fábrica era algo como 300 reais a mais, e ela viu que poderia colocar numa oficina por 150. Eu disse que o de fábrica era de melhor qualidade, mas ela quis economizar os 150 reais. Em algumas semanas o rádio deu problema, ela voltou lá, se irritou, pois o lugar era longe e o atendimento ruim. Depois deles consertarem ainda deu outros problemas e no final ela gastou bem mais do que 300 reais e ainda ficou com um som de pior qualidade.

Acho que buscar o melhor, a qualidade, é o “caro que sai barato”. Sem migué, sem tentar me dar bem em cima do outro, mas sem aceitar um mal negócio ou pagar à toa. Busco o justo, e aceito o preço daquilo.

Como resultado, tenho percebido uma inclinação a trocar quantidade por qualidade. A pensar bem pra que quero cada coisa que tenho ou penso em comprar. Sinto que penso pouco em coisas, menos que as pessoas da minha bolha pelo menos, e em geral estou bem satisfeito com o que tenho, mas posso estar sendo parcial na minha análise.

Ainda acho que podemos conciliar minimalismo e redundância. A questão é definir o quanto é o “necessário”. Se pararmos pra pensar, a expressão “mínimo necessário” é em si redundante, pois o necessário é uma quantidade só, não tem mínimo ou máximo. Ainda assim, em termos de conforto, pode-se ter alguns ítens em excesso, ou num aparente excesso, pois quando penso no longo prazo, passo a ver a situação de forma diferente.

Eu uso computador todo dia, e muito do que faço depende dele. Ficar sem computador é um empecilho real a minha produtividade e entretenimento. E como é esperado que em algum momento o computador trave ou dê algum problema, ter 2 é uma solução inteligente. No meu caso, ainda tem outras vantagens, pois tenho um desktop e um laptop e isso permite a mobilidade de um, um outro com maior memória e backup, etc. A chance dos dois darem problema ao mesmo tempo é bem menor, e se um trava posso ter calma em resolver, sabendo que eu tenho outro à disposição. Num primeiro momento isso poderia parecer um exagero, mas no fundo é uma relação bem pensada com as coisas. O ponto é que são poucas as coisas que tenho em dobro. E o que tenho, é consciente. Sei porque tenho, sei o quanto é apego, o quanto é uma posição racional, e no final ainda percebo que tenho muito menos coisas que a média.

Acho que pouco importa, no final, o número de coisas que você tem. O que fica é quão bem, quão satisfeito você está com elas, com sua relação com elas, o quanto tempo gasta pensando, se preocupando, curtindo e tudo o mais. Se você está satisfeito como está, perfeito. Se acha que está pecando pelo excesso ou falta em algum ambiente, cabe buscar uma mudança de atitude. Acho que isso vale pra tudo.