Sobre decisões e zonas de conforto

Os vários “eus”, suas disputas e nossa preferência pela dor conhecida ao prazer estranho.

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De vez em quando somos forçados a decisões difíceis. Uma decisão pode ser considerada difícil por uma série de motivos.

Tive uma outro dia que achei difícil pois me forçou a ser coerente, me forçou a ver um lado de decisões anteriores que eu preferiria evitar, ou sobre o qual não tinha pensado o suficiente.

Quero ser alguém que ajuda os outros, decidi a muito tempo que considero toda crítica como positiva (lógico que há formas e formas) e que quero agir com os outros assim como gostaria que agissem comigo. Não gostamos de desagradar os outros, e esse é, basicamente, o motivo subjacente de porque uma decisão se torna difícil. Compreendemos que iremos desagradar alguém. E mais importante que o fato de desagradar, em si, é a forma. Ao longo da minha vida, diversas forma de desagradar os outros entraram pra dentro da minha zona de conforto. Não quer dizer que gosto, mas é algo que faço sem maiores problemas. Se quero reclamar de algo, terminar um relacionamento, me demitir, recusar um convite emocionalmente carregado, são todos exemplos de formas de decisões difíceis que já fiz, que já estiveram fora da minha zona de conforto e foram extremamente cansativas pra mim – em termos de ansiedade, vergonha, medo e outras sensações que a expectativa da conversa gerou – mas atualmente estão dentro.

Existe uma diferença entre a coisa ser fácil, difícil e estar dentro ou fora da zona de conforto. Fazer uma caminhada de 8 horas de subida com uma mochila pesada é, sem dúvidas, difícil, cansativo, até exaustivo, mas apesar disso é algo que está dentro da minha zona de conforto. Saltar de um lugar alto dá medo, me apresentar pra centenas de pessoas, são coisas que dão um nervosismo, mas estão atualmente dentro da minha zona de conforto. Chamar uma menina pra sair, por mais simples e fácil que seja, está fora da minha zona de conforto. Pedir pro meu pai investir na minha empresa está fora da minha zona de conforto. São coisas fáceis que eu inclusive sei como fazer, no entanto, estão fora.

Apesar do nome, o que está na zona de conforto não é necessariamente confortável, é apenas conhecido. Somos apegados ao que nos é familiar, e muitas vezes preferimos o sofrimento conhecido ao prazer estranho.

Existem desafios na internet sobre o assunto, seguindo a ideia de “fazer todo dia algo de que vc tem medo”. Um exemplo clássico é deitar no chão no meio da calçada por 30 segundos, e a ideia é ajudar as pessoas a superar o medo de serem vistas como estranhas, o medo de serem julgadas.

A ideia é se colocar fora da zona de conforto, e um tipo em especial escolhido é o medo da rejeição/julgamento dos outros. E o exemplo é deitar no chão, algo meio aleatório, esquisito mas seguro o suficiente pra ser um desafio que chegou a se tornar “viral”. Acho excelente toda forma de enfrentar medos, mas no meu caso, não teria um problema em deitar na rua, então tenho que adaptar.

Só que somos racionalizantes, e assim que começo a pensar em algo realmente fora da minha zona de conforto, imediatamente uma parte de mim (ego?) já vem com bons motivos pra não fazer aquilo em especial. E como sou razoavelmente inteligente (e metido por dizer e/ou pensar isso?), essa parte de mim vem com bons motivos, que resistem aos primeiros contra-argumentos bem. Só uma análise mais persistente me permite ultrapassar esse tipo de barreira. E não é uma batalha estática. Se eu não percebo o padrão que eu mesmo estou seguindo, fico num duelo esquizofrênico de argumentos e contra-argumentos, com motivações conflitantes, parte de mim querendo que eu faça algo fora da minha zona de conforto (pedir o dinheiro, ligar para  a menina, me mostrar vulnerável) e outra tentando me preservar (evitar a possível humilhação, o sofrimento de um coração partido, o desgosto da rejeição). Enquanto eu não percebo a dinâmica, os dois lados se usam do meu conhecimento como armas e da motivação como combustível.

Se minha auto-preservação fala mais alto eu travo e fico na zona de conforto, onde parte de mim se sente protegida – e a outra parte responde me deixando culpado, em dúvida e me sentindo mal de algumas formas. Senão, tudo que a parte cautelosa consegue consegue fazer é me deixar com a mão suando e um frio na barriga, mas eu vou e faço assim mesmo. Se der certo, ponto para a equipe da inovação, essa parte de mim fica mais forte e passa a ser cada vez mais fácil repetir a coisa até ela entrar na zona de conforto, que é quando a parte neurótica desiste de lutar contra isso, e aceita. Se dá errado, essa parte vem com tudo, fortalecendo padrões que a fortifiquem, de que eu não devia ter tentado e etc, e pode ficar mais difícil da próxima vez.

Essa batalha interna conta com diversos aliados que aparecem e somem, vem e vão. Uma conversa com um amigo, um livro, um artigo, um bom humor e ânimo mais elevado podem ser suficientes para superar ou deixar o medo momentaneamente em cheque. O oposto também é verdade, um período mais melancólico, de baixa energia, um sonho ruim, uma má notícia ou uma crítica podem te drenar as energias de forma que o lado da preservação fica excessivamente poderoso.

Acho importante entender que as duas funções, se formos continuar com a metáfora desse dois “eus” que existem em você, ambas são importantes. Como no filme da Pixar, Inside Out (Divertidamente), cada emoção, cada lado seu, tem sua razão de ser. A parte inovadora e corajosa, se reinasse solta te tornaria uma pessoa louca, sem freios, despreparada para viver em sociedade e potencialmente perigosa. Como tendemos a pecar pela falta dela, mais que pelo excesso, tende a ser mais difícil perceber, e muitos idealizam esse lado. É como ir no supermercado com fome. Vc acha que quer comprar de tudo, mas passada a fome, viu que exagerou.

Voltando à minha decisão difícil, ela foi difícil pois estava fora da minha zona de conforto, e particularmente notável pois eu não esperaria que estivesse. Eu percebi que um grande amigo estava fechando o olho, se enganado e fugindo de uma responsabilidade. Meu primo tem um cachorro que está velho e é trabalhoso cuidar. Ele morava com a nossa avó, que cuidava do cachorro e fazia companhia quando ele saía, tornando a coisa toda bem fácil. Há um tempo ele saiu da casa dela e o cachorro ficou. No começo justificava o trabalho que o cachorro dava como compensado pela companhia que ele faz a nossa avó, sendo positivo ela ter algo com o que se preocupar, cuidar e etc, é uma atividade pelo menos, além de uma companhia. Mas agora percebi que as coisas mudaram. A minha avó está com cada vez mais dificuldades de locomoção, e o cachorro está cada vez se tornando mais trabalhoso – com 16 anos, não consegue mais andar até o jornal, faz xixi e cocô onde dorme, e pisa e anda pela casa sujando tudo, etc.

Percebi isso e minha inclinação natural seria falar, mas senti uma pequena trava. Achei delicado falar desse assunto, mostrar que é responsabilidade dele e que as desculpas de antes não mais se aplicam. Especialmente porque sei que todas as alternativas são desagradáveis. Ou ele voltar a morar com a minha avó para cuidar do cachorro, saindo da casa que divide com amigos, ou sacrificar o animal. Levar o cão pra morar com ele não é uma opção (resumindo muito).

Pensando mais percebi que minha dificuldade de tratar desse assunto vem de mais dois pontos. Uma culpa minha de ter dado ou permitido que minha mãe desse um cachorro que tive quando era mais novo. A situação era um pouco diferente, mas no fundo sinto que fugi da responsabilidade, ou pelo menos que fui incapaz de cumprir com o que me propuz, de cuidar do cachorro, e deixei que outros resolvessem o meu problema – minha mãe ficou como a vilã que decidiu dar o cão, encontrou alguém que o quisesse e etc, enquanto eu fiquei confortavelmente no papel da vítima. Acho que não tinha pensando sobre isso até o momento com profundidade.

O outro ponto é menos pessoal. Me confrontar com a realidade da nossa relação com animais. Que apesar de fofos, eles existem, eles vivem, por um capricho nosso. Pelo menos os de estimação. Que temos pena por eles serem peludos e fofinhos, mas que a verdade é que valorizamos suas vidas enquanto nos é conveniente, e admitir que é melhor sacrificar um animal para não ter que ficar cuidando e limpando cocô o tempo todo é difícil. Alguns vão dizer que isso é um absurdo e que é responsabilidade da pessoa cuidar até o fim, e que fariam ou já fizeram isso e tudo o mais, são em geral os que são movidos pela pena, que se sensibilizam com um gatinho ferido à beira da estrada, mas pagariam sem trepidar para uma dedetizadora matar todos os ratos do prédio.

O extremo de quanto uma pessoas dizem se preocupar com os animais, até onde estão dispostas a ir para salvarem gatos e cachorros em sofrimento me parece também uma forma de ilusão. O critério de valorização da vida animal me parece ser emocional e não racional. O critério mais importante é a aparência, quão fofo o bicho é. Mamíferos ganham, aves seguem, répteis são praticamente ignorados, insetos quase nunca chegam a ser considerados.

Qualquer vida serve? Toda vida vale o mesmo? Devemos matar milhões de formigas para construir uma praça? Podemos matar centenas de pássaros para fazer um prédio? Iremos matar milhares de animais de toda a sorte para construir um shopping? E um hospital ou uma escola? Devemos infligir dor e sofrimento a camundongos para estudar remédios e outras formas de experimentos que avançam nosso conhecimento do mundo? Quem se sente indignado que alguém sacrifique um cachorro pois ele se tornou inconveniente acha certo comer uma fatia de bacon? E os veganos de plantão, esses podem falar? Se retiramos a variável hipocrisia, ainda permanece a incoerência. Que vida vale mais, e quem é você pra decidir? Do lado oposto, porque eu não deveria usar os animais da forma que gere maior prazer? Sua vida impacta milhares de outras. Você quer sair da sua casa pra permitir uma área de floresta que permita a vida de animais?

Acho que o espinho no pé é a distância entre a realidade que vivemos e a nossa consciência do que ela acarreta. Nosso estilo de vida vem com várias decisões “de fábrica”, que absorvemos pela cultura sem necessariamente pensar em todas as consequências, e vamos descobrindo ao longo do caminho. Descobrimos que há desigualdade social, que alguém está com fome enquanto você joga comida fora. Que alguém não tem roupa ou estudo enquanto você vai pra Disney pela segunda vez. Milhões de pessoas deixariam de morrer se reduzíssemos o limite de velocidade pra 50 Km/h as estradas. Melhor, se os carros já viessem de fábrica incapazes de passar dessa velocidade. Alguém quer isso? Quem está de fato disposto? Nem falo do argumento de ambulâncias e médicos que precisam chegar rápido a um local, ou a potencial perda econômica dessa regra, as pessoas não estão dispostas a abrir mão do prazer de acelerarem os seus carros, pura e simplesmente.

Partimos da premissa de que o estado atual das coisas é o “default”, e mais importante, não é minha culpa. Quando eu nasci já era assim. E se você descobre que sua família enriqueceu por meio da escravidão? Ah, isso está no passado. E se fontes confiáveis provarem que os descendentes desses escravos ainda vivem na linha da pobreza, com uma linha clara de causa e consequência da forma como foram tratados, você daria todo o seu dinheiro pra essas famílias? Parte dele? Qual parte? O suficiente pra aliviar a culpa, ou só um pouco, ou quase tudo? É um caso hipotético, mas não têm dúvidas, sua família só está onde está pois explorou escravos, e todas as gerações só se mantiveram pois tiveram uma fortuna a partir da qual investir e se manter com dinheiro.

Ou se você herda um apartamento de um tio e descobre que foi comprado com dinheiro de corrupção, que foi desviado da construção de uma escola. Pra facilitar, o apartamento vale exatamente o valor de uma escola, e ninguém nunca vai descobrir. Você venderia ele e construiria a escola, ou doaria de outra forma? Doaria parte apenas? Supondo que você não esteja morrendo de fome, mas não esteja sobrando dinheiro também. E se você descobre isso depois de dois meses morando no apartamento, já apegado a ele, já com planos de como gastar o dinheiro. Isso muda alguma coisa?

Essas perguntas as vezes são difíceis pois demandam que confrontemos partes nossas que em geral não estão alinhadas, mas que raramente entram em conflito. Acho excelente a forma que o filme da Pixar mostra isso, com 5 personagens diferentes que vivem no cérebro das pessoas, e cada uma das emoções tem sua função. É exatamente isso, é como se tivéssemos diversos “eus” dentro de nós, e cada um cumprindo a sua função. O “eu” responsável pelo medo de coisas fora da zona de conforto está preocupado com a minha segurança, não apenas física, mas emocional, psicológica.

As vezes temos vergonha de descobrir certos desejos em nós mesmos. Foi esquisito pra mim pensar que eu poderia ter alguma barreira em falar com meu primo sobre o cachorro dele. Difícil admitir que eu tenho vergonha de pedir um investimento pro meu pai. Certamente tem a ver com o medo do fracasso, com a vontade de me mostrar completamente independente e bem sucedido. Sei que se desejo chegar onde nunca estive, preciso fazer o que nunca fiz, que se quero crescer e me desenvolver, preciso enfrentar os meus medos, sair da zona de conforto. No final, a conversa com meu primo foi super agradável. Como em tantas vezes, o medo existia quase que apenas na minha imaginação.

Excessos

Um grão de areia, na praia, é maravilhoso, na minha cama, é sujeira.

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Quando meu pai se separou da minha mãe, criamos o hábito de almoçar juntos nos finais de semana. Por um tempo íamos num restaurante self-service que tinha churrasco, e nessa época eu comia carne. Em geral pegava um pouco de cada. Umas fatias de picanha, maminha, fraldinha, isso e aquilo outro. Um dia eu estava com a garganta inflamada e, como comer era um esforço enorme, peguei o mínimo necessário. Apesar do incômodo na garganta, percebi quão mais gostosa foi a refeição, pois eu só peguei as coisas de que mais gostava. Na semana seguinte eu estava bem, mas quando cheguei no churrasco, pedi apenas a picanha, que eu gostava mais.

Achei uma descoberta incrível, a de que eu podia só pegar as coisas boas. E não foi uma questão de saúde, como se eu estivesse trocando a salada por batata frita, era só não pegar Maminha, por exemplo, e pegar mais picanha no lugar. Nesse caso, o preço ainda era o mesmo. Foi uma realização, afinal, porque mesmo eu pegava as outras carnes se não gostava tanto? Hábito. Sempre foi assim, sempre me serviram assim e eu repetia isso. E o custo de oportunidade, entender que meu prazer com comida é limitado pelo volume que eu consigo ingerir, então é melhor comer as coisas que gosto mais. Mais pra frente o fator saúde também entrou nessa conta.

Acho que limpar as coisas, retirar o excesso, sempre me interessou. Detesto desperdício, de qualquer coisa, tempo, recursos, o que for. Não quer dizer que tudo seja excesso, ou que não tenha valor, é mais uma questão logística. A areia na praia é maravilhosa, na minha cama, é sujeira.

É como descobrir a meditação separada da carga religiosa com a qual ela sempre esteve acoplada. A prática de sentar e focar na respiração, nos pensamentos ou no que for, existem diversas técnicas seculares atualmente. Não acho que os conceitos religiosos sejam um problema, mas acho interessante ver que podem ser dissociados, até porque sei que pra muitas pessoas, sim, são uma questão, e talvez por ter opiniões assim tão duras que essas pessoas se beneficiem mais ainda de uma prática meditativa. E pra outras pessoas é super válido ter apenas os conceitos religiosos, separados de certos rituais.

No caso de doces por exemplo, eu adoro brigadeiro. E não gosto tanto de biscoito de maisena. Não acho ruim, mas não acho maravilhoso. Assim, a palha italiana me apetece menos, pois espaços em que poderia haver mais brigadeiro são preenchidos por pedaços de biscoito, menos agradáveis ao meu paladar. Existem casos em que a mistura de um ingrediente – que sozinho não é tão gostoso – com outro, gera algo no final melhor, mais saboroso do que a soma das partes. É o caso com alguns molhos. Um sashimi puro pra mim já é gostoso, shoyo nem tanto, mas juntos a combinação é melhor do que cada um separadamente. No caso da palha italiana, isso não acontece pra mim. A mistura não gera algo que supere o brigadeiro puro, é só menos gostosa.

Tomei a decisão de só comer doces que eu considero notas 8, 9 ou 10. Que são, pra mim, os muito bons. E extra-oficialmente, quero focar mais nos 9 e 10. Eu gosto bastante de doces, e sei que uma alta ingestão de açúcares e gorduras não é saudável. Dado que eu quero uma vida saudável, queria fazer algo a respeito. Eu me exercito com regularidade, e o prazer dos doces é algo do qual não quero me desfazer se puder evitar, então por isso a decisão, ela inclui duas vontades: a de ter uma alimentação saudável e a de ter o prazer gustativo dos doces. Dessa forma eu continuo comendo doces, mas não todos.

Como são coisas que têm seu custo na minha saúde, passo agora a comer apenas os com a melhor relação custo-benefício, na minha opinião. Assim, sei que na prática eu passo a comer menos doces no geral. Outro dia mesmo tinha em casa um pudim e um bolo que eu certamente comeria um pedaço, nem que fosse apenas pra provar, mas agora eu ignorei. Não sou tão fã de pudim ou daquele bolo, então fico tranquilo em não comer. Almoço num restaurante e não peço uma sobremesa só pelo hábito. Ou vou pedir algo que realmente goste, ou nada. E na maioria dos casos tem sido nada. Nessa regra, deixo algumas excessões, como quando vou visitar alguém e a pessoa preparou algo pra mim, ou se é um presente e algumas outras situações (tipo viagens), mas que acontecem com tão pouca frequência que nem preciso me preocupar.

Vi um artigo mostrando quantas horas de propaganda as crianças estavam deixando de ver ao assistir seus desenhos no Netflix. Achei super interessante. É isso, sou a favor de retirar os excessos, de compreender exatamente o que eu quero ou gosto em algo, e descobrir se existe uma forma melhor de conseguir aquilo. Adoro meu Kindle, acho uma forma tão eficiente de comprar e ler livros. Evita todo um trabalho de distribuição, o desperdício de papel, da energia gasta na logística, navios e caminhões que são substituídos por zeros e uns, por um sistema mais eficiente. E nesse caso, pelo menos pra mim, a experiência é até melhor. Diferente, perde-se em alguns aspectos, mas ganha-se em outros, e meu veredicto é de que estamos melhor com ele.

Uma vez viajei com meus pais num pacote de viagens. A viagem foi super legal, mas tiveram alguns passeios guiados que eu achei um saco, mas no geral valeu a pena pelos outros momentos bons que tivemos. Depois eu descobri que todos os passeios chatos estavam no pacote, que não apenas era possível viajar sem ter que participar deles, como era mais barato. Eu entendi o que eu valorizo numa viagem. As relações pessoais, as vivências, as novidades, a chance de encontros e tudo o mais. Não gosto de locais lotados, de visitas tipicamente turísticas e de lojas de souvenirs. Tem gente que gosta, não me acho melhor nem estou julgando quem gosta, só reconhecendo que não é a minha praia. Assim, posso montar a minha viagem de acordo com o que gosto. Só brigadeiro, sem biscoito de maisena.

O que você quer querer?

Sobre Abundância, Escassez e o Querer querer.

 

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Tenho percebido que diversos sentimentos de que não gosto, como ciúmes, raiva e desprezo, vêm de uma mentalidade da escassez. Não que eu viva nela, mas nos momentos em que ela reina, essas sensações costumam ser o resultado.

Quando a minha percepção é de abundância, tem o suficiente pra todo mundo e ainda sobra, ai é fácil desejar o melhor e ser magnânimo. Se estamos num buffet, lógico, pode pegar minha comida, prova isso aqui, fica com essa que eu vou lá e pego outra. Tem pra todo mundo, adoro ver os outros felizes, apresentar coisas legais, novos sabores por exemplo. Diferente da escassez. Se estou com pouco dinheiro e muita fome, ou na fila do restaurante com desejo de um prato e a pessoa na minha frente pega o último, ai sinto que é mais difícil ficar feliz com a felicidade do outro. De alguma forma eu entendo que se ele não tivesse pego o último, eu poderia estar comendo aquilo que queria agora. Como em quase todo tipo de infelicidade, boa parte da culpa é da minha expectativa. Eu que criei a ideia de que iria comer aquilo, e me frustrei depois, mas a mente percebe o cara na frente como o culpado, aquilo que está entre o meu objetivo e eu, e, dependendo do humor no momento, eu vou de um pequeno incômodo até imaginar uma morte lenta e dolorosa pro cidadão. Ou o ciúmes. Meu desejo é que todas as pessoas sejam felizes, que o máximo de prazer possível aconteça. A maioria das tentativas de relações abertas falha quando se entra a mentalidade da escassez. Cada um entende e decide uma relação de confiança, onde podem ficar e transar com outros se isso lhes dá prazer, assim mantém a adrenalina da novidade, da sedução e conquista ao mesmo tempo que a profundidade de um relacionamento mais longo, a cumplicidade e a estabilidade emocional de saber que se pode contar com aquela pessoa.

Enquanto se mantiver uma mentalidade da abundância, existe o suficiente pra todo mundo, tudo vai bem. Mas dificilmente nos mantemos nesse estado constantemente. Uma relação é uma troca de diversos tipos. Trocamos atenção, trocamos interesses, trocamos preocupações, experiências, dinheiro e muito mais, por meio de palavras, olhares, ações, gestos, presentes, carinhos, tempo.. Enquanto o quanto eu preciso (ou desejo) da sua admiração está vindo, tudo bem. Mas em algum momento posso achar que você está mais admirada com outro, fascinada até, e meu ego reclama. Não quero admitir que gosto de ser admirado, então reclamo que você está ficando pouco tempo comigo ou qualquer outra coisa, pequenos atritos surgem. No longo prazo, são tantas coisas que desejamos do outro, e tantas que nem queremos admitir que queremos, que é quase certo que em algum momento alguma vai faltar, por qualquer motivo, e ao perceber (correta ou incorretamente) que um outro está recebendo aquilo que ansiamos, pronto, entramos num estado de escassez, quanto àquilo pelo menos. Eu inconscientemente culpo o outro pelo que não tenho. Ou faço isso abertamente. Abre-se espaço à disputa, ao rancor, à raiva, ao ciúmes e etc. É o nosso corpo se preparando pra batalha, pra enfrentar o inimigo, que é quem tem o que eu quero.

Por muito tempo a gente tinha apenas uma TV em casa. Mais novo, era uma briga eterna. Eu queria ver um desenho e minha irmã queria ver a novela. Ela ver o programa dela significava que eu não veria o meu, e isso me gerava raiva, achava injusto ela ver e eu não. Mesmo quando apareciam acordos melhores, eu assistir meia hora e ela outra meia hora por exemplo, ainda assim eu saia chateado pois tive que parar de ver o que queria. Entendia que tinha que ser assim, e aceitava, mas não gostava. A escassez do recurso TV me fazia ver minha irmã como uma concorrente, um inimigo.

O problema maior é quando assumimos uma postura de escassez onde não devíamos. Se estou solteiro, vejo um casal feliz e sinto ciúmes, ou desejo secretamente que eles se deem mal de alguma forma. Isso, lá no fundo, está ligado à ideia de que se ele tem, eu não vou ter, que ele é culpado, um inimigo, um concorrente. E a verdade é que não é. Conforme amadurecemos e expandimos nossa visão de mundo, percebemos que existem infinitas possibilidades. Dá pra crescer a torta, e todo mundo ganha um pedaço maior. Pode parecer bobo, mas faz toda a diferença o eu desejar algo ‘como aquilo’ a desejar ‘aquilo’. Se vejo alguém com uma mochila legal, eu não desejo ter aquela mochila, como já fiz no passado. Eu desejo ter uma mochila como aquela, ou até melhor, ou diferente, mas mesmo se for igual, é outra. Com produtos é mais fácil, eles são replicáveis, existe de fato outra mochila igual que eu posso vir a ter, sem ele deixar de ter a dele. Mas e uma relação, um emprego, uma experiência? Algumas coisas são únicas mesmo.

Nesses casos, consigo querer querer. Eu quero querer, posso ainda não conseguir desejar o bem dessa pessoa por qualquer motivo, mas quero desejar, quero querer. Sei que posso ficar irritado com alguém no trânsito, um cara tenta se dar bem passando pelo acostamento ou algo assim. Na hora eu posso me perceber incapaz de desejar o bem a essa pessoa, mas o que consigo é querer desejar o bem. É um passo atrás, mas ok, não adianta no momento em que estou tentar outra coisa. Gostaria de me tornar uma pessoa que vê o camarada tentando se dar bem às custas dos outros e ainda assim deseja o melhor a ele, não julgar e etc, mas enquanto não consigo, reconheço minha limitação e me apoio no meu racional. Eu lembro que essa não é a pessoa que quero ser, que ficar irritado não leva a nada de útil ou positivo, que é uma escolha bem burra, e me esforço pra desejar o bem ao outro, tanto quanto eu conseguir. Sinto que já melhorei muito nesse aspecto, o tempo de resposta melhorou, o quanto eu fico afetado, tem diminuído e em diversos casos foi a quase zero.

As vezes não consigo imaginar como posso ter algo sem que outro perca por isso, não consigo visualizar um cenário de abundância. Tento me apegar ao intelecto, à ideia de que o fato de eu não conseguir imaginar diz mais da minha criatividade (ou da falta dela) do que da infinidade de possibilidades que existem. Detesto a noção de oceano vermelho, de ter que competir com o outro, de ver ele como um inimigo. Todos podem ser úteis, trabalhar em conjunto, existe espaço para uma concorrência, para a competição saudável, certamente, mas que eu nunca caia na mentalidade da escassez, e se cair, que não me permita as emoções de raiva, rancor, ciúmes, inveja e etc. Quero me relacionar com os outros a partir de outro paradigma, e se eu ainda não conseguir, ai eu quero querer querer.

UM GUIA PARA CONTRATAÇÃO

Um pequeno guia com dicas e pontos a se pensar antes de contratar alguém.

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Se você está pensando em contratar alguém para a sua empresa ou negócio, eis alguns pontos a se pensar de antemão.

Primeiro, tenha claro qual a função da pessoa. Existe uma diferença entre cargo e função. Eu posso ter alguém no cargo de gerente, mas realizando uma função de supervisor. O cargo tem a ver com o título, a hierarquia dentro da organização e muitas vezes com o salário. Há uma questão de status também, em muitas empresas pessoas são promovidas não por serem a melhor opção para a função ou por mérito, mas porque com o tempo de serviço a isso é uma forma de dar prestígio e reconhecimento. Já a função tem a ver com o trabalho a ser realizado, o que precisa ser feito e como, responsabilidades e recursos. Se um gerente faz uma venda, ele, naquele momento, realizou a função de vendedor.

Um erro comum que muitas empresas cometem é promover um funcionário por mérito sem levar em conta as funções requeridas para o cargo acima, apenas como forma de premiar o bom trabalho.

Um bom vendedor por exemplo tem um set de habilidades e características que o fazem ser um bom vendedor. Se imaginarmos uma imobiliária por exemplo, o vendedor está o tempo todo lidando com clientes, visitando casas, mostrando lugares e etc. Agora suponha que o chefe resolve promover o melhor vendedor que ele tem, e torná-lo gerente. O gerente deve ficar no escritório o dia inteiro, não tem nenhum contato com clientes e precisa de um pensamento analítico, definir e analisar indicadores e trabalhar o dia inteiro com planilhas e tabelas de excel. Há casos nos quais a pessoa se adapta bem, mas muitos nos quais as características que eram seu ponto forte na venda, a empatia, a energia e flexibilidade em mostrar os locais, a capacidade de ler e conversar com clientes, o pensar no momento a melhor ação a tomar, a disposição de andar pra lá e pra cá, tudo isso fica de lado e é esperado um comportamento completamente diferente, quase oposto. A pessoa fica feliz com a promoção, mas em pouco tempo se percebe ansiosa e inquieta, alguém que estava acostumado a se movimentar constantemente e ter contato com dezenas de pessoas é forçada a ficar quase o tempo todo isolada e numa mesma sala. A empresa não apenas perde um excelente vendedor como ganha um péssimo gerente.

Isso acontece pois muitas empresas não tem outra forma de ser meritocráticas senão por promoção, e conforme sobem na hierarquia, os cargos se tornam cada vez mais analíticos, como regra geral, é claro, sempre existem exceções.

Só deve-se mudar aqueles que desejam, que sentem que seriam melhor nessa ou naquela função. Há também a questão cultural, todos esperamos ser promovidos, todos sabem que quanto mais alto o cargo, maior o prestígio e, em geral, o salário. Uma solução é criar caminhos diferentes, outras formas de se dar reconhecimento, prestígio, status e salários dentro da empresa sem, necessariamente, mudar o funcionário de posição, ou pelo menos sem mudar drasticamente.  

Então ao pensar uma contratação, sua função é pensar num jogo de encaixe. Como encontrar a melhor pessoa para o cargo. A contratação pode ser interna ou externa. Quando eu promovo meu supervisor a gerente, isso é uma contratação. A diferença é que eu já conheço o supervisor, sei de suas características, pontos fortes e fracos, e ele já conhece a empresa e o cargo, mas não deixa de ser uma contratação. Uma pessoa está ocupando um cargo que antes não ocupava, há um acordo sobre o que é esperado, há um contrato. O que imaginamos como contratação, as etapas de divulgar a vaga, analisar currículos, entrevistas e etc, isso ocorre apenas para contratações externas, mas poderia e deveria acontecer, em partes, para contratações internas também.

Seja de fora ou de dentro, precisamos primeiro entender qual a função do cargo ou posição. O que ele precisa entregar, com quem precisa interagir, qual a forma de trabalho, o que é esperado e o que é desejado?

Uma contratação bem feita depende basicamente de 2 partes:

1 – compreender com clareza o que a empresa precisa e espera daquela função e,

2 – ser capaz de encontrar uma pessoa com as características certas.

Em geral não vemos promoções dentro da empresa como contratações, pois não existem todas as etapas de entrevista, dinâmicas de grupo, análise de currículos e etc. Isso pode ser um erro. Uma contratação interna pode ser mais arriscada que trazer alguém de fora, como no caso do vendedor que vira gerente. Numa contratação externa, se ela for mal feita, você acaba com um mal gerente. Numa contratação interna você acaba com um mal gerente, um bom vendedor a menos e um significativo impacto na moral da equipe. Demitir essa pessoa que você acabou de promover é mais delicado que se for alguém vindo de fora. Alguém de dentro já tem laços e relações, e essa pessoa mal adaptada à sua função gera uma série de problemas que podem ser evitados com um pouco de planejamento.

É como um jogo de encaixe. Se pegar um jogo infantil, aquele que a criança deve colocar as formas no espaço correspondente, a lógica por trás é bem simples. A criança deve olhar para o local de encaixe e observar a forma de um losango, por exemplo. Ai ela olha as peças, e deve ser capaz de reconhecer das opções qual que se encaixaria naquele formato. Há um círculo, uma estrela, um quadrado, etc. O exercício cognitivo é novo para a criança, ela deve ser capaz de lembrar o formato e trabalhar a inteligência espacial ao imaginar qual das opções corresponde aquele. Ou ir por tentativa e erro.
Outra forma de abordar o problema é ir primeiro para as formas, escolher uma por qualquer motivo (a estrela por exemplo), e ver em qual espaço ela se encaixa.


Algumas empresas seguem esse segundo caminho. Há uma pessoa que ela quer que trabalhe na empresa (por ser parente, amigo, ou qualquer outro motivo) e agora ela tenta encontrar em que posição essa pessoa melhor se encaixaria. Só que tem um problema. No jogo infantil, todas as peças são pré-selecionadas, todas encaixam em algum lugar, necessariamente. E essa é uma grande diferença. Isso permite que as duas abordagens sejam igualmente bem sucedidas no jogo. Numa empresa a coisa costuma ser um pouco diferente. A menos que a empresa seja extremamente flexível e tenha inúmeras vagas distintas, ela tem cargos por um motivo. Uma mecânica de carros não tem espaço para um surfista. Pode até se que a pessoa consiga encontrar outras formas de trabalhar lá, mas a habilidade de se equilibrar numa prancha em movimento não tem valor na operação dessa empresa. Ela teria que fazer outra coisa lá. Enquanto surfista, ela não se encaixa em nenhum espaço da empresa (a menos que a mecânica queira patrocinar um surfista como estratégia de marketing).

Se a sua empresa já existe, diria que o melhor caminho é pensar primeiro no cargo, depois encontrar quem melhor se adapta a ele.
Se você tem um grupo de amigos que decidiu que quer trabalhar junto, que querem montar uma empresa, e manter o grupo unido é mais importante, ai é melhor seguir a abordagem contrária, pensar em quais habilidades, características e vontades de cada um, e como ter uma empresa que as use de forma produtiva e eficiente.

Para o primeiro caso, queremos listar exatamente, nos maiores detalhes possíveis, quais as funções do cargo em questão. A linguagem que normalmente se usa para descrever as funções são muito abstratas e inespecíficas, dando muita margem a erros ou mesmo falhas de comunicação. “Lidar bem com pessoas”, “Ser organizado”, “Gostar de trabalhar com o público”, “Visão crítica”, “Criatividade”. O que isso quer dizer, exatamente?

Todos esses dão margens a diferentes interpretações. O que é ser organizado pra você? Pra uma pessoa pode significar alguém que mantém tudo visualmente alinhado. O caderno na mesa em cima dos papéis, as canetas alinhadas por cor e etc. Pra outra pessoa pode significar alguém sabe onde está cada coisa, outro ainda pode querer dizer alguém que anota tudo o tempo todo. São atitudes bem diferentes. O problema começa quando o empregador quer dizer uma coisa, o empregado outra e não há um processo de filtragem. O filtro serve também para separar os que estão mentindo abertamente ou os que simplesmente não possuem a característica na intensidade requisitada. (as pessoa pode ser organizada, mas não organizada o suficiente pra este cargo). Esse filtro é, em geral, o processo seletivo (dinâmicas, entrevista, etc).

Criativo, o que você quer dizer com isso? Alguém que seja super engraçado o tempo todo? Que se vista de forma exótica e troque a cor do cabelo a cada semana? Alguém que vai ter a ideia certa na hora certa e liderar sessões de brainstorm, ou que monta as apresentações mais bonitas em powerpoint que você já viu?

Uma vez que tivermos cada característica necessária, iremos montar uma forma de testar para ela. Mas antes disso, um bom exercício para se descobrir quais são de fato necessárias, é imaginar um dia normal de trabalho para esse cargo. O que a pessoa vai ter que fazer rotineiramente? Quais problemas são esperados que aconteça e que ela saiba resolver? Que tarefas ela deve executar e como? O que deve compor 80% do trabalho dela, e o que seriam situações extremas?

É fundamental separar o que é não negociável, do que é desejável, do que é bom. Essas 3 categorias devem conter todas as características, habilidades e pré-requisitos bem definidos.

É importante pensar de forma prática, e ser honesto. As vezes dizemos coisas sobre como gostaríamos que fosse, e não sobre como é.

Pode-se dizer, por exemplo, que honestidade é “Não-negociável”, mas é um termo vago, teremos que ser mais específicos. E antes disso, é realmente? 100%. Isso quer dizer que vc está disposto a testar e pesquisar a vida da pessoa pra garantir que ela seja honesta, ou apenas que se ela fizer algo abertamente desonesto ou antiético será demitida? Esse pode ser um com dificuldades em particular, é bem difícil saber se uma pessoa é honesta e testar isso em pouco tempo. Nesse caso, pode se mostrar a seriedade por meio de políticas e a cultura da empresa, com nenhuma tolerância para com comportamentos desonestos.

Todas as características devem ser descritas em função de comportamentos ou atitudes. Por exemplo, ser simpático ou lidar bem com pessoas são termos muito gerais. Se a função é de balconista de loja, por exemplo, ser simpática significa sorrir, olhar nos olhos, estar interessada em ouvir e satisfazer as necessidades do cliente, ser educada e demonstrar boa vontade no atendimento. Pode-se ser ainda mais detalhista.

Um bom exercício é pensar em quem é, ou já foi, muito bom nessa função, na sua empresa ou em outra, e listar as características que fazem essa pessoa se destacar. E depois listar em ordem de prioridade. Por exemplo, em geral “simpatia” é tido como muito importante para um vendedor, mas conheço vendedores que sempre superam as metas e não são particularmente simpáticos. Eles compensam com outras características. Pode ter um enorme conhecimento técnico do produto por exemplo, se colocar à disposição do cliente e tirar dúvidas como ninguém, sem sorrir tanto ou ser especialmente simpático, mas o cara faz um atendimento de qualidade, com muita atenção e no final o cliente sai satisfeito. Entendo que um caso desses pode ser a excessão e não a regra. Numa posição de contato direto com o público eu consideraria simpatia como alta em termo de prioridades, possivelmente não-negociável.

Pense em quem faz ou fez esse trabalho para o qual está contratando com primazia, e anote as características dessa pessoa, listando a ordem de prioridades. Faça isso com pelo menos 3 exemplos, para não correr o risco de ser parcial demais, e ser capaz de perceber padrões.

Depois, separe tudo entre “Não-negociável”, “desejável” e “é bom”.

Naturalmente, a categoria “Não-negociável” deve ter poucos ítens, o mínimo possível. Alguns pontos podem estar em mais de uma, por exemplo: Ter conhecimento básico do Photoshop – Não negociável; Conhecimentos avançados de Photoshop – desejável.

Quer dizer, saber um mínimo é absolutamente necessário, mas saber um pouco mais, é melhor, é desejável. No entanto, talvez existam outras habilidades necessárias, como saber programar em Java por exemplo. Se essa é não negociável, você pode ter que escolher alguém que sabe apenas o básico de photoshop, mas domina a programação em Java.

Falando assim parece óbvio, mas muitas contratações acontecem nas quais um “é bom” ou “desejável” acaba pesando mais do que algo “não negociável”, e no final o contratante percebe a duras custas que se deixou seduzir por algo que era apenas tangencialmente valioso, enquanto deixou passar candidatos mais bem preparados para o principal da função. Isso acontece pois a pessoa não tinha tão claramente o que era fundamental e o que seria apenas um a mais.

A falta de clareza quanto ao que é necessário para a função e o que se está procurando no candidato é a causa número 1 de insatisfações tanto por parte do empregador quanto por parte do funcionário. Quanto mais bem explicitadas estão as expectativas, mais fácil é estar com elas alinhadas e evitar surpresas desagradáveis ou frustrações mais pra frente. Além de ser bem mais econômico, dado que um funcionário insatisfeito ou subaproveitado é um desperdício de dinheiro, tende a ser as maiores fontes de problemas, faltas, demissões e tudo que se perde com o treinamento dessa pessoa, sem contar o desgaste pessoal de alguém criar expectativas para o novo emprego, se frustrar, se esforçar e acabar descobrindo que realmente esse não é o lugar dela. Ou pior, ficar infeliz num emprego. É uma situação em que todos saem perdendo, e pode ser evitada dando-se mais atenção a todo o processo de contratação.

Resumindo o passo-a-passo:

1.

Pegue uma folha de papel ou arquivo de texto e escreva tudo o que puder sobre o cargo para o qual está contratando. Escreva o que a pessoa deve fazer, com quem deve interagir, de que forma, com qual frequência, que equipamentos deve usar, como deve se vestir, falar, se comunicar, onde poderia ser proativa, onde, quando e como é esperada que trabalhe em grupo com outros, se seria num papel de liderança ou seguindo orientações, quanta liberdade essa pessoa deve ter, em que momentos deveria ou poderia ser criativa, etc.

2.

Ao final, num outro papel ou arquivo, liste as características e habilidades que a pessoa deve ter. Inclua questões técnicas como “inglês fluentes” e atributos da personalidade como “trabalhar bem em ambientes barulhentos”, “lidar bem com público” ou “ser excepcionalmente interessado no mercado financeiro”. Explique em mais detalhes o que cada atributo significa.

3.

Separe essas características em 3 categorias: Não Negociável, Desejável e É Bom.

4.

Dentro das categorias “desejável” e “é bom”, ordene os ítens por prioridade (a “não negociável” não precisa, pois todos os ítens ali são fundamentais).

5.

Escreva ao lado de cada ítem que considerar importante (ou todos, idealmente) as ações ou comportamentos que o demonstram. Do exemplo que dei “trabalhar bem em ambientes barulhentos”, poderia escrever: Trabalhar de forma concentrada e produtiva num escritório com conversa constante ou movimento de X (máquinas, carregamentos, pessoas) sem se distrair. Se for possível ter um trabalho metrificado, mesmo que com uma margem, melhor, como: ser capaz de atualizar as planilhas X, Y e Z em até 4 horas de trabalho num dia normal, e organizar o cronograma da equipe em 2 horas entregando o horário do pessoal e checklists no padrão definido.

“ser excepcionalmente interessado no mercado financeiro” – Demonstrar interesse real no assunto, ler jornais, artigos e revistas sobre o tema pelo menos 2 vezes por semana, estar inteirado das novidades maiores, conhecer os 10 maiores nomes de autores, sites ou blogs do assunto, ser capaz de comentar e justificar suas opiniões com referências, ter lido ao menos 1 livro nos últimos 8 meses sobre o assunto, etc.

São apenas exemplos, talvez não seja necessário que a pessoa tenha feito todos, mas ter listado exatamente o que você quer dizer com cada característica, as opções que a compõe, faz toda a diferença. Algumas características aqui eu já escrevi de uma forma que me facilite testar ou descobrir numa entrevista. Outras serão mais difíceis ou demoradas.

Atualmente no Brasil as leis trabalhistas permitem um período de experiência de 3 meses, e isso existe exatamente pois compreende-se que diversos traços são difíceis de testar, e só trabalhando de fato na posição pode-se analisar se a pessoa de fato se encaixa no perfil desejado. Quanto melhor o seu processo de contratação, quanto mais preparado e com maior clareza a respeito do que se deseja, menor a probabilidade da pessoa não se adequar ao cargo. Ainda assim, o processo não acaba com a pessoa contratada, e sim com a pessoa certa no lugar certo. Por isso o treinamento e o acompanhamento do funcionário na nova função no início faz parte do processo de contratação.

6.

Escreva as características de pelo menos 3 pessoas que executam ou executaram a função excepcionalmente bem.

Veja quantas delas você já havia descrito nos ítens 2, e se a forma de execução, as ações e comportamentos descritos no item 5 estão de acordo com essas pessoas.

Se surgirem novos ítens nesse exercício (e é bem normal isso acontecer, ou uma forma melhor de descrever algo), volte ao item 2 e adicione-os às listas, seguindo todos os demais passos.

7.

Escreva o roteiro de um dia normal de trabalho para essa função, um horário completo, com tudo o que deve ser feito, e defina a prioridade de cada tarefa (pode ser uma nota de 0-10, ou uma categoria como “alta”, “média” e “baixa”).

Para cada tarefa, observe se as características e habilidades mais importantes que você escolheu (as Não Negociáveis e as priorizadas) estão de acordo com as tarefas mais importantes. Observe mais uma vez quando e como a pessoa deverá demonstrar, com ações, as características descritas.

8.

Liste numa nova folha ao lado de cada ítem como você irá testar ou descobrir se a pessoa o tem. Inclua perguntas, o que falar e observar durante a entrevista, assim como follow-ups para os primeiros dias de trabalho, como se assegurar ao longo do primeiro mês (ou o período que faça sentido para essa função) que a pessoa de fato se encaixa naquela função.

Vale ressaltar que é mais fácil treinar certas habilidades do que desenvolver ou mudar uma personalidade. Ou seja, é mais fácil ensinar uma pessoa altamente proativa a usar o excel do que mudar o comportamento de alguém que já é expert em excel mas é preguiçoso ou está acostumado a ser sempre reativo. Existem habilidades que demoram a ser aprendidas, então se você precisa de alguém que fale Japonês fluentemente e seja realmente simpática, talvez contratar alguém simpática e ensinar japonês não seja a melhor estratégia, simplesmente pois o tempo de aprendizado de uma língua pode ser longo demais. Já aprender certas ferramentas, como seguir determinados procedimentos e usar softwares específicos, isso em geral pode ser aprendido em relativamente pouco tempo. Depende de quão eficaz é o seu treinamento (seja ele interno ou terceirizado).


Toda tarefa-chave, ou muito importante, na sua empresa deve estar alinhada com um programa de treinamento contínuo. Se sua empresa edita fotos em sua essência, é extremamente positivo ter alguém capaz de treinar e renovar o pessoal no uso das ferramentas para tal. Existem cursos de reciclagem, além de reservar horários para estimular a criatividade das pessoas. A Google por exemplo permite que cada funcionário dedique 20% do seu tempo a projetos de livre escolha, e existem momentos pré-definidos nos quais as pessoas apresentam o que tem pesquisado ou como tem andado o projeto.

Considere uma forma de estimular o desenvolvimento contínuo, o progresso técnico ou pessoal de cada funcionário da sua empresa e certamente no longo prazo sua empresa colherá os frutos dessa decisão.

Finalizando, encontrar a pessoa certa para a posição é um processo complexo, pois as pessoas são complexas. Muitas vezes a pessoa mesmo não sabe exatamente o que quer ou se nessa posição estaria no seu elemento. As pessoas possuem camadas, motivações diferentes e o desafio de mantê-las produtivas e idealmente satisfeitas é grande. Não existem atalhos. O longo caminho de buscar compreender as pessoas, compreender o que deve ser feito e se esforçar para encontrar quem não apenas seria capaz de realizar isso com primazia, mas teria um prazer ao fazê-lo, como investir nas pessoas, criar e manter as condições de trabalho ideias, motivar e estimular o progresso contínuo, tudo isso gera resultados surpreendentes. As estratégias (ou a falta delas) de curto prazo tendem a ser míopes, e colhem dolorosos e custosos efeitos colaterais. Uma empresa que não investe nos funcionários (que inclui o processo de contratação e toda a gestão das pessoas no dia-a-dia) tem um maior turnover, menos inovação, menos lealdade e satisfação, e dificilmente vai se destacar ou mesmo sobreviver no longo prazo. Muitas o fazem às custas da saúde psicológica, mental e emocional dos funcionários, ao criar (intencionalmente ou não) ambientes de trabalho e culturas tóxicas. Quando expandimos nossa visão para um horizonte um pouco mais longo, percebemos que não existem atalhos, e que na verdade o que parecia ser o caminho maior e mais trabalhoso é na verdade a única opção.

Esclarecer nos maiores detalhes possíveis exatamente o que é esperado de cada função é extremamente útil não apenas para o processo de contratação, mas para a empresa como um todo. Permite uma boa comunicação, é fundamental para melhorar a eficiência de cada função, ser capaz de medir e compreender como cada etapa conversa com a seguinte, quem depende de quem ou do que, porque e como. Muitas vezes percebemos ao realizar essa análise que certas funções estão obsoletas ou poderiam/deveriam ser modificadas. Melhoria contínua, essa ideia tem que entrar no sangue.

Seguindo os passos que sugerimos, você certamente estará muito mais preparado para encontrar a pessoa que procura.“Se você não sabe pra onde vai, qualquer caminho serve”. Diferente da Alice no País das Maravilhas, você sabe pra onde quer ir, sabe quem quer encontrar. As respostas estão na função a ser executada. Observer com calma, reflita e anote o que precisa ser feito, siga os passos aqui descritos e sua empresa estará cada vez melhor.