Sobre o Amor

Amar, sem saber como amar, pode ferir a pessoa que amamos.

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Estava pensando sobre o amor. O tipo de filosofia mais clichê possível né..
Eis minhas ruminações.

Definição:
Acho que a palavra amor é usada em diversos sentidos. Em geral, significa um sentimento bom ao extremo. Só isso.
Qualquer sentimento “bom” quando vai aumentando a intensidade, a partir de um dado momento vira amor. Se eu gosto de chocolate, mas vou passando a gostar cada vez mais, gosto muito, gosto demais, amo. E a partir dai não temos outra palavra. Posso dizer amo muito, demais e etc, mas fica tudo no amor, é o mais longe que chegamos.

E há pacotes de emoções. Quando digo que amo alguém, é um extremo do gostar, mas esse gostar é composto de uma série de emoções, em gradações diferentes. As vezes todas ao extremo, em geral umas mais que outras. Há o carinho, o respeito, a cumplicidade, o tesão, o prazer das memórias que temos com essa pessoa e a sensação de que ela pertence à sua história de vida, à sua identidade de alguma forma, a admiração e tantos outros sentimentos, que somados nos permitem dizer “eu te amo”. Não é preciso ter todos, tenho tesão pela minha namorada e não pela minha prima, tenho mais diversão com uma ou mais carinho com outra. Na verdade, poderia perder muitos que, como cada um é vivido num extremo, já é o suficiente pra dizer que amo. Só o carinho que tenho pelo meu pai já é mais que suficiente pra dizer que o amo. Só o respeito sozinho também, só a admiração, ou as nossas memórias. Todos juntos então…

Amar algo ou alguém é amar como ela nos faz sentir – quando com ela, ou mesmo por pensar nela (não é a toa que o símbolo clássico do amor é um coração). Se digo que amo essa escola, digo que amo o que ela significa pra mim, as histórias a que ela me remete, o que vivi ali, pode ser que admire a beleza da construção também, ou não, que tenha medo que ela feche ou não, mas a raiz é a mesma: um, ou vários, sentimentos bons, ao extremo.

Existe o uso da palavra amor como sinônimo de sexo, ou como apelido ao parceiro romântico. Em muitos casos esses sentimentos em relação ao outro são sentidos mais fortemente, com sexo, intimidade e etc, mas ainda assim, no fundo, é um extremo do gostar. Ou usa-se pela força do hábito sem realmente “querer dizer” aquilo.

Quando digo extremo, imagino uma linha infinita onde a intensidade da sensação cresce da esquerda pra direita. A partir de um zero (indiferente) quanto mais pra direita, mais forte é a sensação. A partir de um certo ponto entramos na área do “amor”, mas a linha é infinita. Então você pode usar a palavra “amor” pra duas coisas diferentes, e sentir uma série de emoções muito mais fortemente pra uma que pra outra, ainda assim só temos ‘amor’ como vocabulário. Ai colocamos os advérbios de intensidade, como muito, demais, absurdamente, e etc.

Pode ser o extremo de uma sensação de calma, paz, tranquilidade. Uma sensação de conexão, de pertencer. Pode ser por admirar uma beleza natural, por se surpreender com a magnitude do universo. Ainda assim, são sensações “boas” em grande intensidade.

Passada a definição, entramos na parte mais prática.

“Há dificilmente outra atividade, outro empreendimento, que seja iniciado com tão tremendas esperanças e expectativas, e, no entanto, que falhe tão regularmente, quanto o amor.”

“Amar sem saber como amar fere a pessoa que amamos.”

Acho importantíssimo ver ‘amar’ como um verbo. Assim você pode ‘amar alguém’, ativamente, é algo que escolhe fazer e faz. O “amor” acontece também, sim; há momentos onde simplesmente vivemos o ‘estar apaixonado’, mas pensar que essa é a única forma nos torna reféns, vítimas e incapazes de ter mais, pela passividade. E nem é que ele simplesmente acontece, é que o que você está fazendo, não o faz sabendo que pode levar à paixão (ao amor), o faz por outros motivos e quando percebe que está curtindo um amor, parece que ele veio do nada. Seria como estar brincando com uma comida crua, fogo e temperos e de repente perceber que há uma refeição pronta. Mas seria incompleto pensar que a comida “aconteceu”. E sem cair no outro extremo de tentar controlar tudo, querer fazer o outro se apaixonar por você. Só controlamos as nossas ações. Podemos nos abrir emocionalmente, nos colocar disponíveis, ouvir, admirar, doar e tudo o mais, mas a reação do outro é dele ou dela.
Amar é uma arte, uma habilidade, e como todas as outras pode, e deve, ser desenvolvida em cada um.

Há um aspecto da expansão do círculo de identidade, onde passamos a nos preocupar com a pessoa (ou coisa) amada como se ela fizesse parte de nós mesmos. Essa dissolução ou expansão da nossa fronteira pessoal é sutil ainda, mas algo que acho fascinante, e com muito potencial. Penso que com o tempo é por ai que teremos mais experiências de amor, e de alguma forma é nisso que iremos crescer e nos desenvolver, é assim que o “amor” pode ser uma solução. Pois somos egoístas, somos auto-centrados e tudo o mais. Quando o Eu passa a incluir o outro, ai sim eu me preocupo de verdade com você. E a raiz de tantos problemas é a separação, a distância que percebo entre você e eu, entre suas crenças e as minhas, e o medo que advém dai, gerando raiva, rancor e etc. Quando minha preocupação realmente se expande e engloba o outro, isso é forte, e em geral acontece mais intensamente através do amor.

Acho que temos trailers disso, quando amamos muito alguém, vivemos essa expansão da identidade em alguma medida e permanecemos nesse estado, por instantes apenas, mas ele é tão forte que a sensação residual afeta nossas ações permanentemente. Toda mãe se preocupa com seu filho e sente que ele é ‘parte dela’, mas a intensidade do que estou falando, acho que só é realmente sentida por breves momentos. E é o que acho que conforme a humanidade evolui, mais e mais teremos isso. Com familiares, amigos, conhecidos…

Quando alimentamos e apoiamos a nossa própria felicidade, estamos nutrindo a nossa habilidade para amar. Só podemos dar o que temos. Não importa o quanto você esprema uma laranja, dela só sairá suco de laranja, pois é o que tem ali. E de você, o que sai?

Stephen Covey fala do caminho que começa na Dependência, vai para a Independência, e só depois pode chegar na Interdependência – a forma mais completa de relação. Se você não está bem sozinho, não é o outro que vai resolver suas questões, pelo menos não de uma forma sustentável. Pode até melhorar por um tempo, assim como tomar um copão de água parece matar a fome, pois momentaneamente enche o estômago, mas não é uma solução duradoura. Há momentos onde precisamos parar e olhar pra dentro, investir em nós mesmos, pois é isso que teremos a oferecer ao outro, é com isso que iremos vivenciar o amor, nos tornar dignos dele. Se não fica bem sozinho não ficará bem com o outro.

E “quando o aluno está pronto, o mestre aparece”. Isso vale pra tudo, você atrai aquilo com o que está em sintonia, não de uma forma mágica ou sem sentido. Se você é um cientista político, é natural que tenha conversas profundas sobre esse assunto, não que magicamente vão se aproximar de você apenas textos e pessoas com conteúdo, mas você filtra, se aproxima de uns e se afasta de outros naturalmente, pois é o que está em sintonia, onde se sente bem, onde há sinergia.

Li num livro a melhor dica em relação a conquistar o sexo oposto. Ele dizia, “se você quer que a mulher queira estar com você, ela deve te achar interessante”. Concordo, pensei, até ai estamos juntos. “E como fazer pra ela te achar interessante?”, eis a grande pergunta, essa eu quero saber. “Seja interessante”. Foi tão ridículo e simples, mas me marcou. É realmente isso, não tem atalho, não tem enganação. Se quer de verdade vai ter que fazer por onde. Isso fez tanto sentido que eu aplico (ou tento) pra tudo. E pode trocar interessante pelo que quiser, a essência é a mesma. Seja isso, torne-se isso. A autenticidade é fundamental.

Viver boas emoções é um objetivo de vida de todos, mesmo que inconscientemente. Buscamos o prazer e fugimos da dor, e, nesse caso, amor é o prazer máximo. Quanto mais pensamos sobre um assunto, mais percebemos a limitação da nossa linguagem, e assim ela cresce. A física usa muito o conceito “energia”, mas em algum momento ele não era mais suficiente. Assim criamos a energia potencial gravitacional, energia cinética, mecânica, energia em forma de calor, medida em Joules, de força, medida em Newtons, pressão, etc, etc. Creio que o mesmo vá acontecer com o amor. Conforme formos vivendo mais e mais gamas de experiências, iremos percebendo o quanto nosso vocabulário é limitado pra expressar como nos sentimos. Por um tempo os poetas e músicos contornam essas limitações, pois brincam com as palavras, usando metáforas e tudo o mais, mas mesmo assim, a língua acompanha o pensamento. Não é a toa que os esquimós têm 9 palavras pra neve.

O amor, como tudo, pede um ambiente interno no qual ele pode acontecer. Quando nos livramos de medos, bloqueios e travas que impedem nossa experiência em níveis mais profundos. Você não consegue andar a 200 km/h num carro com pneu furado. Se tentar apreciar uma bebida deliciosa num copo todo sujo, a experiência fica abaixo do seu potencial. Ter uma relação com alguém mantendo as inseguranças, ciúmes, raivas e outras pedras emocionais simplesmente impedem que você viva tudo o que poderia. Ainda assim pode-se alcançar muito, mas quanto mais nos livramos desses resíduos, mais limpo é o caminho para um fluxo energético, mais intensas e boas as experiências. Falo mais de trocas entre pessoas, relacionamentos, pois é onde vivenciamos o amor com maior frequência, mas o mesmo vale pra relações com a natureza, com sua espiritualidade, seu trabalho ou o que for.