Sobre a Saudade

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A saudade é esse sentimento curioso, dúbio, bom e ruim ao mesmo tempo. Creio que só um falante do português poderia falar da saudade, pois é uma palavra sem tradução pra qualquer outro idioma. Também não é por menos, talvez seja uma emoção bem complexa mesmo. Sentir saudade vai de uma nostalgia gostosa ao lembrar as férias na casa de campo até a dor da solidão de quem lembra da grande amiga que se foi. Não sei de nenhum outro sentimento com essa capacidade de ser bom e ruim ao mesmo tempo. Há quem goste da dor por exemplo, e talvez a saudade seja um pouco isso, um canto nosso que é um pouquinho masoquista, pra onde vamos quando estamos sozinhos pra nos sentir ainda mais sozinhos. Mas a saudade é tão gostosa também. Não sei como que a saudade vai de boa pra ruim, talvez seja um pacote fechado e indissociável. Pra curtir o gostoso da saudade tem que se aceitar o amargor residual de uma breve solidão que te assola no final.

No fundo, como tudo, a saudade pode ser boa ou ruim, bem ou mal utilizada, e o que buscamos é o equilíbrio. Se eu fico demais na saudade, fico demais no passado, deixo de viver o presente. Fico a ver navios, pensando eternamente no amor que se foi e não vejo o novo que vem chegando, e ele passa sem eu perceber, estava ocupado demais olhando pra trás e não vi quem vinha vindo. Podemos ter saudade do futuro também, um paradoxo que só a gente, que tem uma palavra pra saudade, sabe que é possível. Não sei se um gringo seria capaz de ter saudade do futuro. O conceito de saudade já é difícil de explicar, dizer isso do futuro seria dar um nó que só quem tem um tico que seja de sangue lusitano consegue desatar. As vezes é um buraco genético na nossa lógica que cria o espaço pra essa emoção brotar.

Acho que a nossa mente deve viver numa harmonia entre passado, presente e futuro. Precisamos do passado, ele nos ensina, nos mostra muito do que somos, pode ser nosso porto seguro, mas de um porto se parte, se segue adiante. A partir dele podemos ir muito longe. O futuro é o que se vê lá de cima do mastro. Precisamos nos planejar, visualizar o que queremos e ter motivação pra içar as velas e perseguí-la, ter um norte a nos guiar, uma estrela d’alva pessoal e única. O presente é o tecido do qual todo o resto se faz. É nele que respiramos. Respire fundo agora e sinta a calma que te invade. É um presente mesmo. Nele vivemos a vida, nele lembramos do passado e nele vislumbramos o futuro.

Acho que a saudade nos mostra o quão bom foi aquele presente. Existem momentos, pessoas, emoções que são tão fortes, tão intensas, que o agora não dá conta, e temos que sentir elas depois mais um pouquinho. São as prestações de um depósito que recebemos, tão grande que não conseguimos guardar tudo na primeira viagem, e quando me vejo, to voltando pra buscar mais um tanto.

Mas o futuro é bacana também, se o passado foi tão bom, se conhecemos pessoas tão incríveis, vivemos momentos tão maravilhosos, podemos viver ainda mais. O céu é o limite, a cada nova viagem outras tantas se tornam possíveis. Novas experiências com novas pessoas, com velhos amigos, aprofundar amizades, rever pessoas e locais queridos, provar comidas, comer de novo aquela rabanada da avó, aquela bolinha de queijo da estrada pra Mauá. Precisamos do passado pra seguir em frente, e a saudade é uma lente através da qual vemos o passado que foi bom. O maior respeito que podemos prestar a ele, creio, é pensar no futuro, viver o presente, criar mais memórias gostosas, dar à saudade que tanto gostamos boas companhias, pra que ela não fique sozinha num quarto escuro. Não, quero que minhas saudades conversem umas com as outras, façam festas de arromba, descansem bem relaxadas e me visitem só de vez em quando. E assim a gente não fica sozinho aqui, acho que é com um bom passado e um instigante futuro que se faz um bom presente.

Eu gosto das minhas saudades, tenho um carinho por elas. Tanto que quis vir aqui escrever, só pra curtir um pouco mais essa curiosa emoção.

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Sinto que alguns textos meus são diferentes dos demais, como esse por exemplo. Talvez essa diferença só seja aparente pra mim.
A foto é de uma viagem, fonte de saudades.

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O Karma e a culpa

Um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

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Não existe ação sem motivação. Agimos em busca do prazer e pra fugir da dor de uma forma ou de outra. Claro que isso é uma generalização. Muitas pessoas que dizem fazer caridade sem nenhum motivo na verdade querem dizer nenhum dos motivos mais superficiais, como reconhecimento, elogios ou qualquer retorno material. Mas existem milhares de outros motivos.

Alguns mais comuns nesse caso: a expectativa de benefícios futuros. Muitos acreditam que quem é bom vai pro céu, e agir caridosamente é uma das ações que te aproxima desse objetivo. Há uma clara motivação semi-material. É a busca do prazer, mas não nessa vida, sim numa próxima, e em alguns casos por toda a eternidade – um excelente negócio ao se pensar por esse prisma.

Há também a motivação da identidade. É extremamente agradável ter uma auto-imagem de alguém bondoso, virtuoso e correto. Assim, ao ajudar os outros de forma anônima, ganho o prazer de me valorizar, ficar feliz com a minha identidade, com a história que conto de mim para mim mesmo. Há também o prazer de contribuir, de saber que de fato ajudei pessoas. Isso tudo são sentimentos bons. Assim como uma pessoa busca uma boa música, uma comida gostosa e entretenimento de qualidade pois elas lhe geram prazer, sentimentos agradáveis. A diferença está na forma do prazer e nos valores que nossa sociedade, e nós mesmos, damos a cada um.

Uma forma de prazer pode ser muito mais nobre que o outra, mas o meu ponto é que nenhuma ação é de fato “pura”, no sentido de neutra, de ser desprovida de motivações. O melhor que podemos fazer é buscar ter motivações mais nobres, de acordo com nosso próprio sistema de crença, moral e ética. E nisso a gestão karmica pode ajudar.

Há um outro ponto, de apenas compreender e aceitar a realidade como ela é. Talvez eu ainda fizesse o bem e buscasse ajudar os outros mesmo que não fosse ganhar nada com isso, mas existe uma lei de causa e efeito, o universo é como esse grande espaço onde nossas intenções ecoam e retornam pra nós, por meio de uma intrincada rede que ainda não compreendemos completamente, mas da qual não podemos escapar. Não adianta lutar contra a lei da gravidade, ela existe e pronto. O que podemos fazer é aceitar e trabalhar com ela da melhor forma, e com alguma engenhosidade descobrimos como fazer máquinas que voam, curtir um salto de bungee-jump e gerar energia com quedas d’água.

Querer agir sem colher os frutos das ações é como querer que dois elétrons se atraiam. Não é assim que a banda toca. Na natureza nada se cria, tudo se transforma. Uma energia posta em movimento num sistema deve retornar de alguma forma, tudo o que você faz vai voltar pra você.

Compreender as leis de causa e consequência te permite ser ainda mais eficiente e ajudar mais pessoas, se esse for o seu objetivo maior. A saída aos que realmente se incomodam com isso é agir sem absolutamente nenhum apego. Ao agir completamente dissociado do resultado das ações (e o ‘completamente’ é a chave) você alcançou a iluminação, despertou, tornou-se um Buddha. Ainda podem haver sementes antigas que devem brotar, mas nesse nível as novas sementes mudam completamente, pois não há mais intenção ou desejo nas ações, e sua realidade passa a ser outra. Podemos falar sobre, mas não sendo um ser iluminado, suponho que seja como um virgem tentando falar sobre o sexo. Podemos ter alguma ideia de como é e tudo o mais, mas estamos distantes de poder falar com propriedade. Esse momento de iluminação é o que nos permitiria sair da Samsara, o ciclo de nascimento e morte que nos prende a esse mundo de ilusões, aos que creem em renascimento, ou simplesmente um momento de completa realização pessoal, de uma forma absolutamente secular. Nossos apegos geram sofrimentos. Disso tratam muitos textos budistas das mais variadas formas.

Acredito que com o tempo iremos evoluir e talvez possamos realmente agir sem apego, mas creio ser um estágio um tanto distante. Útil como norte, como direção a seguir. Na minha opinião o melhor caminho pra isso passa pelo domínio dos desejos. Quando entendemos como conseguir o que queremos, como “controlar” esse mundo de ilusão (se é que é isso), pois a única forma de fazer isso é pelos outros. Primeiro devemos aprender a criar o mundo que queremos, e só então podemos pensar mais seriamente em nos livrarmos completamente dos desejos e anseios.

Pra ter o que queremos, teremos que ajudar os outros a conseguir o mesmo, e na caminhada ao desapego total iremos crescendo, a cada desejo meu que realizo me torno um pouco mais livre dele (em alguns casos totalmente) e me conecto um pouco mais a todos que tem ou tiveram o mesmo anseio, que sofreram com essa mesma falta. Acredito que seguindo nessa jornada, o natural é que os desejos diminuam, não do dia pra noite, mas de forma constante, devagar e sempre.

Vou cada vez mais curtindo os prazeres da vida e entendendo o que é essa ilusão, o mundo da matéria, dos prazeres e desprazeres. Ao me conectar aos outros entendo cada vez mais como não somos exatamente separados, e minha percepção da realidade muda inteiramente, também não em um momento, mas aos poucos.

Alguns desejos passam a não mais fazer sentido, como um adulto que não mais deseja um boneco. Quando criança não poderia conceber ele não querer tal brinquedo, ou o doce, ou assistir ao desenho animado, tamanha era sua vontade deles, mas passado o tempo, numa infância saudável, se a criança pode brincar o quanto quis, naturalmente essa vontade vai embora. Não é que o boneco mudou ou deixou de ser divertido, a realidade da pessoa que mudou, e o desejo pelo boneco deixou de existir.

Penso que o mesmo acontece com os demais desejos – conquistas, coisas brilhantes que estimulam nossos sentidos e nos seduzem, os carros, casas, status, conceitos de identidade – com o tempo eles deixarão de nos iludir, deixarão de nos seduzir. Iremos olhar pra eles assim como vemos um bicho de pelúcia que outrora nos foi incrivelmente valioso, e que agora não mais nos atrai.

Mas, assim como a criança que teve seu tempo, aceite brincar um pouco também, aceite se dar um tempo pra amadurecer. Se tiramos o brinquedo cedo demais a criança pode demorar pra superar isso, e tentar como adulto compensar a falta que teve, o trauma. Existe a possibilidade de nos seduzirmos demais pelos “brinquedos” e tentar justificar os excessos com a ideia de que curtir por um tempo pode ser saudável. O equilíbrio é delicado e nem sempre fácil. Como sempre, você é o júri e juiz, e vai saber o quanto é demais, se realmente quiser.

Mas não se cobre mais do que pode dar, não dê um passo maior do que a perna. Compreenda os conceitos, entenda que sua felicidade não depende das coisas e se permita refletir e aceitar exatamente onde está. Eu fui vegetariano por 7 anos, e depois resolvi voltar a comer peixe. Continuo achando que ser vegetariano é uma opção melhor, mas por diversos motivos resolvi que pretendo ficar um tempo assim. Mais pra frente pretendo voltar ao vegetarianismo. Reconheci minhas dificuldades, meus desejos, meu tempo. Que muda constantemente, como tudo.

Nem adianta tentar se enganar, pois a vida tem sua forma de ensinar, de nos mostrar onde exageramos, seja pra mais ou pra menos: pela dor. O sofrimento é o professor último, e pode vir de infinitas formas. Pode ficar tranquila que se você se esquecer de prestar atenção, um sofrimento vai vir pra te mostrar onde está o erro. Mas se quiser evitá-lo (cada um é livre pra agir como achar melhor) o entendimento das leis do Karma pode indicar um caminho.

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Um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

2 conceitos que são fundamentais e que podem fazer falta aqui (bem resumidos):

1 – Sementes Mentais. Tudo que vc faz te marca, é como se vc plantasse uma semente em si mesmo. Essa semente brota mais pra frente como a realidade que vc percebe.

2 – Vacuidade. Tudo é neutro de significado, e a realidade é determinada pelas sementes que constantemente plantamos com nossas ações, pensamentos e palavras.

“Esse cara come demais, você vai ver!”

Sobre expectativas e frustrações

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Acho curioso quão pouco precisamos pra querer agradar os outros, quão fortemente as expectativas podem nos impactar, mesmo quando estamos conscientes disso.

Na adolescência, lembro de estar em algum grupo de amigos num rodízio de pizza e o pessoal comentar que eu comi mais do que todo mundo. Tinha um clima de brincadeira, como quase tudo, mas foi de alguma forma um destaque, um elogio mesmo que indireto, e foi bom. Nada demais, um clima agradável com o pessoal, alguém nota, comenta isso e ficamos alguns momentos brincando sobre, depois mais algumas brincadeira espaçadas e pronto. Passam algumas semanas e a coisa se repete, outro evento com algumas pessoas do grupo em comum, no qual novamente me destaco por comer mais, por aguentar tanta comida e impressionar o pessoal por isso. Mais uma vez não é nada surreal nem exagerado, mas existe essa atenção extra, esse destaque.

Mais uns poucos eventos nos quais isso acontece, e eu me percebo numa situação curiosa. Fui num restaurante com amigos num dia sem fome, mas me forcei a comer a mais só pela expectativa que tinham de mim. Fiquei sem graça de quebrar ela, de perder essa identidade (ou parte dela), de desapontar os outros. É absolutamente ridículo quando coloco em palavras, nem eu nem nenhum amigo diria que se importa minimamente com isso, mas analisando como me senti, foi exatamente assim. Existe uma expectativa, uma pressão em agir em conformidade, mesmo em algo tão bobo e pequeno. E eu não percebi na hora, apenas fiquei sem graça de pegar pouca comida, e me forcei além do que me seria agradável, mas sem saber exatamente porque agia assim. Eu nunca nem diria que havia alguma expectativa sobre mim.

Eu levei um tempinho até perceber e mudar, e estar ok com “frustrar” o pessoal nesse sentido, e comer só o quanto queria. Como sempre, é bem mais tranquilo do que eu tinha imaginado, um breve “passei dessa fase, agora eu to comendo menos” ou qualquer variação e a galera leva numa boa. O ponto é o quão longe eu fui, e estive disposto a ir, pra manter uma expectativa que era sem importância tanto pra mim quanto pros outros. E imagina quando a expectativa é maior, mais arraigada, quando mais variáveis entram na equação?

Essas “pequenas” expectativas são bons casos para análise, justamente por serem tão pequenas é que não prestamos a devida atenção e a coisa se desenrola de forma quase inconsciente. Percebi isso em outros momentos também.

Sei que somos seres sociais, que evoluímos de forma a dar grande valor à opinião do grupo pois dela dependia nossa sobrevivência, sei que hoje não devemos nos importar demais com a opinião dos outros e tudo o mais. Acho que esses casos são curiosos exatamente por serem pequenos demais pra serem notados. Se fosse algo grandioso, eu iria bater de frente. Se existe mesmo um estigma social com o qual discordo, posso usar minha razão e me motivar o suficiente pra agir. Mas nesse caso não, a pressão entrou pela porta dos fundos, agiu nos bastidores, e eu só percebi muito depois.

Foi difícil admitir que fui tão longe por tão pouco. Admito que gosto de ser elogiado e admirado e não me assustaria em descobrir essa motivação sendo a causa raiz de certos comportamentos meus. O que assustou aqui foi o tamanho, a intensidade da minha ação sendo desproporcional a pequenez da expectativa.

Se eu perceber que estou querendo ter sucesso financeiro numa área e parte da motivação é impressionar um ex-chefe por exemplo, ok, é algo que prefiro mudar em mim se possível, mas que não seria tão espantoso de descobrir. Ou que estou indo na academia todo dia porque uma menina vai me achar mais bonito. Um tanto fútil, mas ainda não tão distante de mim. Agora me forçar a comer sem vontade, criar mentiras pra mim mesmo enquanto faço isso (me enganar), tudo por uma mini-expectativa que não importa pra ninguém, bem, isso eu não esperava mesmo.

Acho que nos apegamos às nossas identidades, mesmo as que não escolhemos. Elas são colocadas sobre os nossos ombros e com o tempo passamos a gostar e até sentir falta. Todos os meus amigos dizem que eu sou um dos poucos, quando não o único, amigo que sai com o pessoal e nunca bebe. Não foi um voto que fiz, não tenho nenhum problema com o álcool, só não gosto do sabor e não faço questão da sensação, então na prática, nunca bebo. Com o tempo me vi carregando esse estandarte, mesmo sem querer — o “não bebedor da galera”. No carnaval resolvi que ia beber um dia, e me peguei com uma resistência a mais do que esperava: o pessoal. O que dizer pros amigos que me virem bêbado?

Como a coisa foi consciente, eu logo ri da prematura vergonha e lembrei que eu não devo nada a ninguém, que bebo ou não conforme a minha vontade. E que a “solução” pro que nem bem era um problema eu já tinha há muito tempo. A verdade. Quem me vir bebendo e perguntar, digo a verdade, que resolvi curtir essa sensação num dia de carnaval. Isso não significa que eu vá começar a beber, nem que não. Se der vontade vou, mas sinceramente não pretendo. E pronto. Assim que gastei uns poucos segundos refletindo nisso, o peso sumiu, e eu curti minha onda no carnaval sem culpa, e, como sempre, os amigos não se frustraram ou ficaram estranhos comigo. Não havia nenhuma grande expectativa, ou se existia, estava muito mais em mim. E mesmo que estivesse no outros, e daí?

Boa parte da reflexão bate na noção de que não sou um ser estático, de que sou mutável. Mudo de opinião, mudo de ideia, paro de comer carne, depois decido voltar, resolvo trancar a faculdade, depois repenso a situação. Em geral não realizamos grandes mudanças com frequência, e isso nos dá a sensação de que somos basicamente os mesmos.

Além da segurança do conhecido. Se todos os meus amigos me conhecem como o cara brincalhão e extrovertido, é mais fácil me manter assim do que explicar que não estou mais tão à vontade nesse papel, que tem sido um esforço nos últimos dias, que estou pra baixo e sem tanta confiança. É difícil mudar especialmente quando mudamos pra algo menos glamuroso. E mais difícil ainda quando nem percebemos o peso das pequenas expectativas, quando as pressões atuam nas entrelinhas e bastidores, longe da nossa consciência. Tirar uns momentos pra refletir e perceber alguns motivos das minhas ações, como me senti em tal momento, admitir a forma e intensidade que me afetei por causa dos outros, tem sido bem interessante.

Talvez minha surpresa exista pois eu mesmo tenho certas expectativas de mim, tenho identidades com a qual me identifico. Não quero me ver como o tipo de pessoa que iria comer sem vontade só pra impressionar os amigos, e tantos outros exemplos que poderia dar.

Aceitar a mudança em potencial é uma boa forma de estar atento ao presente também, sem apego ao passado. Acho que no fundo eu quero estar melhor em perceber minhas próprias mudanças, e aceitar bem elas. Se eu estiver em paz com quem sou, vai ser suave a interação com os outros sobre o assunto, seja ele qual for.

Vale ficar atento a quando estou passando essa pressão adiante também, impondo identidades, criando expectativas para que os outros se comportem de uma determinada maneira. As vezes é ainda mais difícil aceitar a mudança no outro do que em nós mesmos.

“Como assim você não curte mais forró? O João disse que quer ficar em casa na sexta? Você tá brincando, né?”

Somos opressores e oprimidos, alternamos constantemente os papéis como uma trupe com menos atores do que personagens numa peça. Talvez alguns achem um exagero chamar isso de opressão, mas qualquer ação pode ser medida pelo impacto que causa nos envolvidos. Uma pequena farpa as vezes incomoda mais que um grande corte.Frustrar o outro nos amedronta, mesmo quando a frustração vem de uma expectativa que ele nem sabia que tinha. Somos seres esquisitos, cabe a nós fazer o melhor da nossa esquisitice.