Sobre o Poder do Exemplo

Sobre o quanto somos conectados, afetamos e somos afetados pelos outros. Basta, pra tanto, existir.

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Outro dia um amigo pagou um lanche pro grupo. Nada demais, fomos comer algo, ele fez o pedido pra todo mundo e deixou pago. Esse pequeno ato me fez refletir bastante. Me fez lembrar os momentos em que eu paguei coisas pros outros. Houve uma época em que fiz isso com maior frequência. Me fez pensar na minha luta particular contra a pão-durice ou mesquinhez. Acho que nunca fui muito pão duro, mas a generosidade não me vinha naturalmente em todas as áreas. Com algumas coisas realmente sempre fui, mas com outras não, e há um tempo que me forço a ficar atento a esse meu lado. Nesse dia isso me voltou à mente, mas mais do que a generosidade em especial, foi a importância do exemplo, pois ele não fazia ideia de como esse simples gesto me fez refletir.

Nunca sabemos como, quanto ou quando uma ação nossa vai impactar os outros. Chega a ser engraçado o quanto somos inconsistentes nisso. As vezes alguém fala o tempo todo pros amigos sobre algo, o quanto é importante entender de política por exemplo, saber em quem você tá votando, como as pessoas são superficiais, e cita sites com boas informações e artigos profundos, mas ninguém lê ou, no final, amigos de anos não mudaram nada em relação a isso, apesar da militância consciente, da pessoa saber exatamente como gostaria de afetar o comportamento dos outros quanto a esse ponto. E um dia ela para o carro pra ajudar um estranho a trocar o pneu e os três amigos que estavam juntos só observam a naturalidade da decisão. Sem nunca conversar sobre isso, acabam profundamente impactados e se tornando um pouquinho mais atentos às oportunidades de ajudar um estranho. Passam horas refletindo e chegam a mudar um comportamento, coisa que não fizeram com todos os argumentos e discussões anteriores.

Sempre tendi mais a um individualismo, sou muito firme nas minhas decisões e em aceitar as consequências delas, pra mim. Entendo que se dirijo sem cinto corro o risco de uma multa, de me acidentar e me machucar mais, aceito as consequências inclusive de ter julgado mal a mim mesmo e minha habilidade na direção, ou no que for. Mas uma consequência que por muito tempo desconsiderei foi como posso influenciar os outros pelo exemplo. Não achava que era minha responsabilidade, mas, em algum nível, é. Se eu atravesso a rua com o sinal aberto, eu estou dando um exemplo, querendo ou não. Pode ser que eu saiba que consigo correr se o carro acelerar, que confie nos meus reflexos, mas e se o menino que resolveu me copiar não conseguir? A culpa é dele, sem dúvida, decidiu mal quem imitar, mas no que me diz respeito, acho que há uma minha também, pois entendo que somos seres sociais e nos afetamos uns aos outros de diversas formas. Não existe individualismo real a menos que se esteja completamente isolado, no meio deserto ou sozinho numa gruta. Se alguém pode te ver, essa pessoa já é afetada por você, mesmo que muito pouco, já existe uma relação. E mesmo sozinho, a sua falta é percebida. Não tem jeito, somos fadados a existir.

Resisti muito a aceitar que simplesmente a minha presença pode influenciar os outros. Ações e palavras, até vai, mas o simples ato de existir e ser percebido afetar o grupo? Não. Queria meu espaço, minha independência. Mas na medida que meu entendimento cresce, crescem também minhas responsabilidades. A partir do momento em que entendo mais sobre como interagimos, como criamos significados, o tipo de animal social que somos e muito mais, ai percebo o quanto de responsabilidade cada um tem. Quanto mais penso sobre o Karma, sobre colher o que planto, mais fica claro que estou conectado aos outros de tantas formas diferentes que nem consigo vislumbrar.

Outro dia tive uma conversa com um grupo de amigos que resolvemos filmar e deixar disponível. Fiquei impressionado com as pessoas que assistiram e vierem comentar comigo, várias eu nunca imaginaria. E a forma em especial que algumas se identificaram com isso ou aquilo, a atenção que deram a algo que pra mim talvez fosse um mero detalhe, achei muito curioso. Qualquer ação fala mais alto que palavras, sempre foi assim, e creio ser muito sortudo por estar rodeado de pessoas cujas ações admiro. Nem sempre, nem em tudo, mas o suficiente. As vezes vale o exemplo oposto também. Vejo alguém brigando, discutindo à toa com a namorada e internamente decido não ser assim, penso onde e como posso ter agido de forma similar. Acho que aprender também com a experiência dos outros, erros e acertos, é um caminho interessante, e um componente fundamental de uma vida consciente. Afinal, não estamos sozinhos. Nem meu erro nem meu acerto são só meus. Estamos conectados de tantas maneiras…

Muitas vezes vejo alguém falando algo que é mais pra si do que pros outros. Realmente aprendemos ensinando, e acho que esse é um mecanismo do nosso inconsciente, a vontade, a necessidade, o ímpeto de falar de um assunto, doutrinar o outro, quando na verdade estamos falando mais pra nós mesmos. Esse texto é mais pra mim. É uma lição com a qual flerto intelectualmente, mas sinto que ainda não absorvi de fato. Mas espero que possa ser pra você também, afinal, nada é só meu. Ou só seu. Como tantos já disseram: “É tudo nosso!”.