Justiceiros

Sobre nossos julgamentos, o que pensamos dos outros, e como isso nos afeta.

Thumbs Down

Quando falamos de Karma, imediatamente as pessoas pensam em merecimento, na justiça. Uma faceta humana é a nossa vontade, muitas vezes prazer, em ver alguém ser punido – quando sabemos (achamos) que a pessoa é culpada. Existe uma palavra pra isso em alemão, Schadenfreude. Schaden (dano) e Freude (prazer), utilizada para designar o prazer obtido com o sofrimento dos outros.

Alguns pesquisadores estudam o assunto mais a fundo, e à princípio acreditam que essa pode ter sido uma vantagem evolutiva que nos permitiu viver em comunidade. Um grupo primitivo teria mais chances de sobreviver se viesse a punir os que descumpriam as regras (roubando comida ou pondo o bando em risco de alguma forma). E puniam mais os que tinham algum prazer em punir.

Vemos traços dessas características em frases como “bem feito”, “merecido”, e até “tinha que ser pior”. Fazemos julgamentos a respeito dos outros e decidimos a intensidade da punição, em geral baseado em quão incomodado ficamos com a ação do outro. Quanto mais incomodado eu fico, maior a punição desejada, e maior o prazer ao saber que ela foi executada.

Quando sai a notícia que um político corrupto foi preso, muita gente fica feliz, não por pensar que sua democracia está com melhores chances de funcionar como devia, mas por imaginar esse político sofrendo, e por ter raiva de quem age assim, gostamos de acreditar que ele vai receber o que merece, vai se dar mal, vai sofrer.

Falei mais de ações e palavras e seus impactos karmicos, mas pensamentos também criam o seu Karma. Não apenas por serem os precursores das ações, uma vez que tudo se inicia como um pensamento, mas o simples pensamento já é uma semente sendo plantada.

A quintessência do Karma é a conexão com o outro. Enquanto desejarmos a alguém alguma forma de “mal”, de desprazer ou desconforto, ainda temos o que trabalhar. Amar o outro como a nós mesmos é mais do que uma dica, uma boa prática, é a única forma de sermos realmente felizes. Presume que nos amemos, o que pra alguns já é um grande desafio. Amar a si mesmo é fundamental.

Amar o próximo é uma receita. É o melhor conselho pra conseguirmos o que queremos. Como “quebrar dos ovos, misturar com farinha e…”, é uma receita para fazer um bolo, não uma ideia abstrata de como se portar na cozinha. Não é pra agradar quem criou a receita. É pra você, que quer um bom bolo.

Por muito tempo pensamos que “amar o próximo” era algo que fazíamos para merecer as benção divinas, que existe uma entidade que vai ficar feliz se você agir assim e te presentear com boa sorte. A ligação entre causa e consequência é indireta, passa por um agente julgador. Quando entendemos o Karma, percebemos que amar o próximo é o que nos faz colher o que queremos, o ato de amar o próximo é ser caridosa/atenciosa/cuidadosa, e ao realizar essa ação plantamos as sementes da nossa própria felicidade.

Ter prazer com o sofrimento alheio é um karma ruim, em geral, um sinal que ainda estamos presos à formas antigas de pensar. Uma mentalidade da escassez, uma forma de se preocupar com o outro que não é saudável. É o que gera a fofoca maliciosa, a inveja, e em outros níveis a vergonha, raiva, orgulho.

Existem, sim, punições úteis e necessárias. Se você é um juiz, promotor ou parlamentar discutindo sobre leis e suas aplicações, certamente cabe pensar demoradamente sobre as diferentes formas de punição e suas consequências, mas não é assim que a maioria das pessoas pensa sobre o assunto.

Percebi em mim mesmo, que havia um lado racional que não queria abandonar o desejo de justiça, que inclui o prazer com a punição. Temi passar a ser conivente, alguém que aceita de tudo, passa a mão na cabeça dos culpados, e isso não é coerente com quem sou, com quem quero ser. Com o tempo, fui entendendo que posso desejar o bem a todos, e ainda assim agir de forma que creio correta. Vou defender meus pontos de vista, vou abertamente declarar e enfrentar uma situação que acho estar errada, demitir alguém que age em desacordo com os valores da minha empresa e tudo o mais, mas não vou desejar o mal a ninguém.

Nem sempre é fácil ou intuitivo, é um exercício e observação constante.

Algumas mudanças são mais silenciosas, começam nos bastidores e, externamente, pouco se nota a diferença. Comigo, foi um período longo com alguns esforços grandes pra mudar como me sinto em relação a isso. A partir do momento em que realmente compreendo a lei do karma, sei que cada um vai colher o que plantou, e passo a ter muito mais pena do que raiva dos bandidos. Penso que as pessoas estão cavando seus próprios buracos, e o universo não precisa de mim pra garantir seu equilíbrio. Ele já funcionava bem antes de mim e deve continuar um bom tempo depois que eu me for.

É um tanto prepotente se colocar na posição de justiceiro, alguém que se esforça pra garantir que cada um receba o que merece. Primeiro, presumir que sabemos, apenas com a nossa observação externa, as motivações reais e mesmo como é a realidade do outro, isso é, no mínimo, delicado. Quantas vezes mesmo processos longos de investigação feito por pessoas competentes se mostram errôneos, quem dirá de nós, com todas as nossas falhas e deficiências tentando fazer o papel de advogado, promotor, investigador e juiz ao mesmo tempo. Mais ainda, chegamos a dar o próximo passo, que é se julgar capaz de definir e executar a sentença adequada. Fazemos isso constantemente.

É um longo processo, pelo menos foi comigo, o de deixar de, ou diminuir consideravelmente, os sentimentos de raiva e inveja, e o desejo de ver o sofrimento daqueles que, na minha opinião, merecem. Há uma parte da postura que vem da humildade. Um acreditar que não tenho todas as informações, que (na grande maioria dos casos) eu não sei de tudo e posso estar interpretando algo erroneamente, posso não saber de partes importantes da história.

Um homem entra no metrô com 3 crianças. Ele se senta enquanto os filhos correm soltos pelo vagão, falando alto, gritando, pulando, brigando, evidentemente incomodando os demais passageiros. O homem, um senhor na faixa dos seus 50 anos, nem se mexe pra controlar as crianças, deixa-as fazer o que querem, e os passageiros começam a ficar cada vez mais incomodados com a algazarra.

Num dado momento uma senhora não se aguenta, resolve levantar, vai até ele e diz “Senhor, não está vendo que seus filhos estão incomodando a todos aqui? Esse tipo de comportamento é inaceitável, um absurdo, você devia se envergonhar, por favor contenha suas crianças”. Ele levanta o rosto e observa a situação, aparentemente completamente alheio a ela até então.

Ele leva um tempo observando tudo. Após alguns segundos olha nos olhos dela e diz “Peço perdão pelo comportamento dos meus filhos, não gostaria de lhes incomodar. Acontece que estamos voltando do hospital onde minha mulher, mãe deles, acabou de falecer de um acidente inesperado. Acho que eles não estão sabendo lidar muito bem com a situação, e honestamente, eu também não”.

O homem desce com seus filhos na estação seguinte, deixando a senhora, e todos no vagão, se sentindo absolutamente culpada. Nada mudou em relação às crianças e como elas se comportaram, a “realidade” continuou sendo a mesma. Mas o incômodo mudou, como as pessoas se sentiam, isso mudou. O julgamento partia de certas premissas a respeito da vida do outro, do que é certo e o que é errado. Assim que a senhora compreendeu o momento de vida desse homem, seu julgamento se expande e esse comportamento passa a ser digno de apoio, e não de punição. Ela gostaria de ter oferecido ajuda, e não uma repreensão.

É apenas um exemplo, mas é verdade que cada um está lutando uma batalha da qual não sabemos nada. Na ideia de que antes de julgar alguém devemos andar uma milha nos seus sapatos, a metáfora mostra como é habitual analisarmos a vida dos outros de forma incompleta, e “calçar os seus sapatos” é uma forma de experienciar o que eles estão passando em primeira mão. Só assim cobrimos o gap de informação entre o que achamos que sabemos e como realmente é pro outro.

De forma prática, é claro que precisamos de leis e regras como sociedade. Precisamos de um sistema judicial e executivo que seja capaz de identificar, punir e prender criminosos. Ser a favor da prisão de um criminoso, por exemplo, não quer dizer que eu deseje seu mal. Não estou no nível de conseguir amar uma pessoa assim, e é muito mais fácil quando o crime não aconteceu comigo ou com alguém próximo, mas isso diz muito mais sobre mim do que qualquer coisa. Uma pessoa assim deve ser afastada da sociedade até que se mostre capaz de conviver sem ser um risco aos demais, mas realmente gostaria que as prisões focassem mais em reabilitação, e não tanto na punição. Estar isolado por anos já deveria ser punição o suficiente, e pra quem não acha que é, o karma dessa pessoa vai se encarregar disso. Se preocupe com o seu. Desejar o mal a alguém, querer que essa pessoa sofra (mesmo que seja “justificado”), isso planta um tipo de semente que é quase uma erva daninha. Ela cresce e se alastra, te prejudicando mais do que pode perceber.

Sentir raiva do outro é como segurar um carvão em brasas pra tacar na pessoa. Pode até fazer algum dano a ela, mas você sofre mais (e desnecessariamente) no processo. Esse tipo de pensamento certamente é uma semente que vai te gerar frutos. Poucos desejam a colheita correspondente.

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Trecho do livro que estou escrevendo sobre Gestão Karmica.

Entrevista sobre Gestão

Um incrível casal de amigos da capoeira, Pirata e Graveto (lá chamamos as pessoas pelo apelido), têm uma empresa bem interessante. Começaram com um brechó online, que se desenvolveu e é hoje a Arara Garimpo, cuja missão é trazer frescor para o mercado de moda de segunda mão agregando qualidade, estilo e um serviço de primeira.

Queridos que são, se ofereceram pra divulgar um pouco sobre gestão numa entrevista que tive o prazer de responder.

Toda a ideia de um mercado para roupas usadas é absolutamente coerente com o que acredito e penso sobre consumo e nossa relação com as coisas e pessoas. Eles vivem isso de uma forma profunda e bem autêntica, fica minha recomendação pra quem curtir dar uma garimpada lá no site!

https://araragarimpo.com.br/entrevista-felipe-moitta/

Sobre rotinas emocionais

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É difícil prever como um jeito de agir com o outro vai impactar aquela pessoa.

Uma boa mãe acaba sabendo muito bem o que o filho quer. Sem ele ter que dizer, ela sabe a hora de dar isto ou aquilo, sabe ver quando ele está chateado e dá um abraço, diz coisas doces, prepara um lanche e respeita o tempo dele vendo desenhos logo em seguida. Ou percebe que ele ficou frustrado e deixa o menino jogar mais videogame e ir dormir sem tocar no dever de casa. Ela sabe criar expectativa, fazer uma surpresa, dar um presente legal e nem se incomoda com a falta de reconhecimento. Ela ama o filho e quer dar o melhor pra ele. O filho se acostuma a isso, a viver esses momentos e nem percebe o quanto existe alguém orquestrando tudo nos bastidores. Do ponto de vista dele, as coisas simplesmente acontecem, são assim.

Cada pessoa tem suas rotinas emocionais, muitas criadas na infância, mas não percebemos isso. O fato de não sabermos exatamente como e quais são, explica porque quase sempre somos péssimos em comunicar isso aos outros.

Esse menino vira um homem, se casa, e de repente percebe que não está satisfeito com a relação, existem pequenos atritos, pequenas frustrações. Nada absurdo, difícil até colocar em palavras, mas a verdade é que a esposa não conhece a rotina que ele está acostumado a viver quando fica chateado (e tantas outras). Pior, a esposa foi acostumada com outras rotinas, na casa dela se alguém estava triste eles ficavam tentando alegrar a pessoa, chamando pra brincadeiras e fazendo piadas com a situação. Sem perceber, a esposa busca fazer o mesmo com o marido, que fica só mais irritado, pois o que ele queria mesmo era um abraço, um aconchego e depois espaço pra ficar sozinho, vendo talvez uma boa série (o desenho dos adultos). Nessa ordem. Mas ele não sabe disso, muito menos ela, e é difícil argumentar quando não se sabe a causa raiz do sentimento, pois racionalmente, ele sabe que ela não fez nada de errado.

– O que foi amor? Ficou chateado com o seu sócio que não te consultou pra fechar o contrato? Ah, deixa isso pra lá, vamos sair, vamos no cinema ver aquele filme que você queria, que tal?

– É…  não sei se quero ir hoje..

– Ah, vamos! Vem cá, esquece esse sócio, ele é narigudo e careca, não dá pra se preocupar com alguém assim né?

– Não, vai você no cinema, eu to meio cansado, não quero sair agora.

– Tá com fome? A gente podia ir naquele japonês que você gosta hein, encher a cara de sashimi, que tal?

– Pode ir você, se ta querendo sair pode ir, eu não to com cabeça pra isso, é bom que eu aproveito e assisto alguma série dessas que você não gosta.

O marido não compra a brincadeira, ele não quer entrar nesse clima. Ele quer viver outro estado de espírito. Ao mesmo tempo, ele entende que a mulher está tentando dar apoio, está querendo ajudar, ele percebe isso, mas ainda assim a coisa não encaixa, e ele fica ainda mais mal pela falta de sintonia, além da questão com o sócio. A esposa percebe que não está funcionando, se sente triste por não conseguir uma sinergia alí, usa toda sua criatividade e bom humor e nada, suas tentativas escorrem pelo ralo, nada parece funcionar.

Ela se sente mal e triste, sozinha.

E quanto mais incomodado cada um fica, menos claro é o pensamento, e em algum momento alguém toca numa ferida, diz algo num tom errado, e trocam-se comentários mais ríspidos, alfinetadas e, sem perceber, o marido foi bem mais grosseiro do que gostaria, numa tentativa inconsciente de conseguir o que ele estava acostumado a ter nessas situações: um tempo sozinho. O preço emocional foi alto.

Mais do que a felicidade, buscamos o conhecido. Eu quero sofrer do jeito que fui acostumado, meu subconsciente gosta disso, do que é sabido, pois é seguro, e está disposto a ir bem longe pra tal. Posso dizer que prefiro estar feliz, ou contente, mas o subconsciente não é exatamente racional. Ele funciona por gatilhos. Se reconhece os gatilhos da frustração ou tristeza sendo acionados, só tem uma coisa a fazer: a rotina.

O que ele quer é, simbolicamente, o abraço da mãe, seguido do carinho (palavras e comida) e um tempo sozinho, quiçá um desenho que o entretem enquanto a dor vai passando. E ele vai dar um jeito de chegar o mais perto disso possível. Essa é a rotina com a qual ele foi acostumado, ela que reina até segunda ordem. No entanto, enquanto ela permanecer fora do alcance da mente racional, fica intocável e exerce sua influência sem maiores interrupções.

Aos poucos esses pequenos desentendimentos se somam, e podem ir gerando ressentimento, distância, uma sensação de que o outro não te entende, que não é mais como era, não existe mais aquela conexão. Mas a história é mais complexa, os dois tem muitas coisas positivas também, e os pontos fortes escondem uns pontos fracos, o que faz a coisa ir se estendendo mais e mais.

Esse tema é muito mais complexo e toca em profundas questões nossas, mas chamo a atenção agora para a importância de perceber como nos sentimos e depois sobre como comunicar isso ao outro.

O menino não aprendeu a fazer isso, pois nunca precisou. Até estranharia pra ele dizer que gostaria de um pouco de carinho, de colo mesmo, e de um tempo sozinho vendo alguma coisa, talvez com um sanduíche e uns biscoitos. Ele se vê como um adulto, e essa não é a necessidade de um adulto, que ridículo, quem precisaria disso pra superar um incômodo com o sócio?

Todos somos mais ou menos maduros do que aparentamos. Fisicamente é muito evidente quão desenvolvida a pessoa é, mas emocionalmente, psicologicamente, escondemos grandes questões, avançamos numa área à custa de outras, deixamos coisas pra trás, fechamos os olhos pra não ver.

O primeiro passo é quebrar essa redoma, essa sensibilidade com a necessidade de se ver como uma pessoa completa, madura, perfeita. Não, não somos. Ninguém é.

Depois, analisar com calma nossas emoções e sentimentos. Olhar um pouco pro passado e perceber o que é o nosso normal, o que me é conhecido, quais as rotinas emocionais que me agradam pra cada situação. E é possível mudar, não estamos fadados a reviver os roteiros da nossa infância, mas mudar pede atenção, determinação.

Mudando ou não, é uma faceta de nós mesmos que exerce grande influência sobre nossas vidas, mais do que gostaríamos de admitir, então vale um tempo investido ai.

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Esse assunto é muito amplo e complexo, não pretendo de nenhuma forma me propor a esgotar o tema, muito pelo contrário, estou apenas arranhando a superfície. Mas de grão em grão sinto que as vezes é uma boa forma de ir pensando sobre certas coisas, descobrindo pontos em mim e nas pessoas próximas. Parto sempre da premissa que quem tiver interesse vai encontrar outras fontes e recursos. O pouco que tenho, compartilho com prazer, mas sou obviamente limitado pela minha própria ignorância. Até onde pudermos ir juntos, será um prazer sentir que fui útil de alguma forma.

Sobre ser Massa de Manobra

Em algum momento todos fomos, somos ou seremos massa de manobra. E tudo bem.

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Quando vc está junto com a maioria, quando sua opinião é a mesma de um grande número de pessoas, existe uma boa chance de vc estar sendo massa de manobra de alguém.

A maioria é ignorante, é boiada, manobrada, conduzida. Não digo isso me excluindo, como se alguém fosse ou maioria ou um indivíduo com ideias próprias. Todo mundo é maioria em alguma coisa, todo mundo segue a boiada em alguns assuntos.

Eu sou maioria quanto à saúde por exemplo. Sou leigo no assunto, sei quase nada, e quando passo mal, vou no médico e vou seguir o que ele falar. Pode ser que no processo eu seja massa de manobra de grandes conglomerados farmacêuticos que influenciam médicos a receitar mais do remédio A que do B, que eu faça mais exames que o necessário pois a indústria de seguros impõe um ritmo de atendimento que estimula o medo de errar, e os médicos pecam pelo excesso, e eu pago um pedacinho dessa conta.
Sou massa de manobra quando vou no supermercado. Tirando uns poucos ítens que eu realmente conheço, na média compro o que está disponível. Dou preferência a produtos orgânicos e tal (talvez por ser massa de manobra da conta-cultura do orgânico), mas uma vez conversei com um amigo que trabalha com isso e ele me explicou que muitos selos orgânicos são furados. É, eu disse, sou massa de manobra ai, sou vítima de algum marketing verde de alguém que pode estar ganhando a mais com a minha ingenuidade nesse assunto.

Pego ônibus, pago meu riocard pelo site, uso o banco, entro e saio, sento onde pode sentar, uso estruturas como algum arquiteto definiu, sigo as burocracias que alguém criou, assisto filmes e séries, e gosto delas, tudo exercitando apenas parte do meu livre arbítrio.

Eu que escolhi assistir “House”, por exemplo, mas tem mais que isso. Escolhi dentre as opções que estavam disponíveis. Eu aceitei o cardápio, aceitei que essa forma de entretenimento é válida, aceitei muita coisa. Coisa que eu nem cogitei decidir, alguém ofereceu assim, alguém decidiu por mim entre o que e o que mais eu poderia escolher.

Tem muita gente envolvida em decidir que séries vão ser feitas, sobre quais assuntos, quais vão receber dinheiro pra publicidade, que fez essa estar disponível num canal que eu tinha, e num horário que encaixava com o meu. Até mesmo quando eu devo estar livre e quando não. Tudo isso foi pensado por alguéns, não necessariamente pra mim, mas pra diversos grupos nos quais eu vou me encaixando, querendo ou não.

E em cada etapa tem alguém reparando como tem coisa errada e que tem que mudar. Só nesse exemplo, essa série é americana, e tem toda uma galera mostrando como a indústria do entretenimento está desequilibrada, como a atenção desproporcional a produtos de origem americana, que se passam nos EUA e etc. Ok, realmente, é uma forma da imagem americana se propagar e ficar mais forte no mundo, não exatamente uma teoria da conspiração, mas ainda assim reconheço que pode ser interessante investir mais em outros países, mostrar outras culturas. Concordo com a importância da diversidade.

Esquecendo o país, outras pessoas trazem outros pontos à tona. Uma palestrante do TED mostrou quantos filmes tem protagonistas do sexo feminino, ou negros, ou com deficiências, comparado com seu percentual na população, explicando os diversos problemas de termos uma representação deturpada da realidade no que assistimos, e falou de todo um movimento pra mudar isso. Segundo ela, devíamos assistir mais filmes e séries nas quais uma mulher é protagonista, ou que uma mulher dirigiu, e uma série de outras condições, todas válidas e que na minha opinião merecem sim mais atenção. Quando assisto House, estou sendo massa de manobra de muita gente, sendo mediano, boiada, maioria. E sou isso sob infinitas óticas. Só o fato de estar vendo televisão, sentando, consumindo esse tipo de produto nesse formato, usando minha atenção assim e não fazendo outras coisas.

E meu ponto é que tudo bem, pelo menos de forma prática, não dá pra comprar todas as brigas.

Todo mundo acha que o seu problema é o maior do mundo, e que é um absurdo as pessoas não perceberem isso.
Toda profissão acha que devia se aposentar mais cedo que as outras. Os policiais pois vivem num clima de risco e tensão, as professoras pois há um peso psicológico e stress enorme em lidar com turmas de 50 crianças o dia inteiro, os garis pelo esforço físico e risco à saúde, assim como o pessoal da construção civil, os motoristas de ônibus, as enfermeiras porque… Não to dizendo que essas pessoas não tem razão, meu ponto é que o nosso problema sempre nos parece maior. E isso é um problema.

E ser massa de manobra não é necessariamente ruim. O fato de alguém estar te conduzindo, de você seguir a opinião de outro, isso pode ser bom (e, obviamente, pode ser ruim). Temos essa ideia de que apenas nossa própria opinião tem valor, e se você não tem a sua, que você mesmo criou, está sendo o fantoche de outra pessoa. Essa visão purista de que seria possível ter uma opinião realmente própria, livre de influências externas, isso é em si uma grande ilusão.

Quando eu disse que prefiro comprar produtos orgânicos, admito que estou sendo massa de manobra. De quem? De uma galera que percebeu que a indústria dos alimentos tem diversos problemas, não só socioeconômicos em termos de concentração de renda e poder na mão de magnatas agricultores, que influenciam a lei de diversas formas como pela bancada ruralista, mas mesmo se só focarmos na forma de produção, grandes monoculturas são prejudiciais pro meio ambiente, o uso de agrotóxicos é, em muitos casos, danoso à nossa saúde, além de diversos outros pontos. Teve um pessoal que percebeu isso. Essa percepção não foi fácil nem imediata, e só é assim pra mim agora pelo trabalho desse pessoal. Eles iniciaram um movimento contra a “maioria” naquele meio, o dos orgânicos, dos pequenos produtores, que é a solução pra tudo (ou quase tudo) que eles perceberam de errado ai. O movimento que eles começaram virou uma onda, e foi crescendo conforme mais pessoas aderiram. Mas não dá pra todo mundo estudar a fundo o porquê de cada ação, e quão menor for o seu envolvimento, mais você é massa de manobra de alguém.

Mesmo minhas opiniões não são exatamente minhas. Nada se cria, de fato. Elas são adaptações baseadas em tudo que vi, li e ouvi. Algumas vezes absorvo completamente a opinião de outra pessoa, em outros casos apenas parte, ou posso ser firmemente contra, pois essa ideia vai de encontro a outra a qual já estou mais apegado. Mas eu mesmo não criei nada, ou criei por remendos. Desde que nasci foram me alimentando com informações e conhecimentos, regras e valores, e com o tempo eu aceitei alguns e rejeitei outros de forma a criar o que chamamos de “minha individualidade”.

E eu posso estar do outro lado também, querendo ser manobrista de massa. Estudo e trabalho com Gestão de Empresas, e percebo as falhas dos sistemas tradicionais de gestão, o custo psicológico para tantos funcionários, e muito mais. Realmente quero fazer tudo a meu alcance pra melhorar a vida das pessoas e a eficiência das empresas. A conclusão que chego, a proposta de solução, é resultado de anos de experiência, conversas, livros, cursos, vivências e etc. Realmente, não dá pra esperar que todo mundo se dedique tanto a esse assunto. Então eu crio um slogan, busco uma forma de comunicar o essencial, e passo a influenciar as pessoas para uma mudança na direção que eu acho melhor. Viro manobrista.

O que, de novo, não é necessariamente ruim. Quando estamos estacionando um manobrista pode ajudar, pois o interesse dele está alinhado com o seu – colocar o carro na vaga sem bater em nada.

Dado que vamos, inevitavelmente, ser massa de manobra de alguém, o máximo que podemos fazer é garantir que nossos objetivos estejam alinhados com o do manobrista. E ficar atento ao preço. As vezes é 5 reais, adiantado, a noite toda.

Sobre Minimalismo e Redundância

Quem está melhor, o cara com um depósito de comida pra 3 anos no seu bunker em casa, ou o que vive com tudo que tem numa mochila?

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Acho interessante encontrar opiniões que divergem da minha, e me acho especialmente sortudo quando elas são bem explicadas e com bons argumentos.

Há algum tempo acho a ideia do minimalismo interessante, de possuir o mínimo necessário, e leio pelo menos um blog cujo autor é adepto desse estilo de vida. O blog não é sobre isso, mas invariavelmente toca no assunto com alguma frequência.

Li então um artigo com o conceito de Anti-Frágil (de um livro do Nassim Taleb). Uma das ideias do livro é que existem três tipos de sistemas: o Frágil, o Resiliente e o Anti-frágil.

Os frágeis, que são aqueles que ao passar por uma situação difícil podem se quebrar, e vão estar pior depois do golpe do que estavam antes. Há os resilientes, aqueles que resistem bem. O símbolo aqui é a fênix, que pode morrer se a situação for difícil, mas renasce das cinzas, tão forte quanto antes. Sempre pensei na fênix como um objetivo de muitas empresas e sistemas. Ser capaz de resistir, voltar tão bem quanto antes, se recuperar, isso seria força, estabilidade.
O terceiro conceito é o anti-frágil, que vai além, e fala de sistemas que ficam mais fortes com o stress, com ataques e dificuldades. Aqui o animal mítico seria a Hidra, que ao ter uma cabeça cortada, duas crescem no local, e ela se torna mais forte e mais ameaçadora após cada ataque.

A evolução nos dotou com diversos sistemas assim. Uma pequena pancada no osso e ele se reveste de cálcio, tornando a parte ferida mais resistente que antes (de forma bem simplificada). O músculo, cresce e se torna mais forte com o stress. Nosso sistema imunológico fica mais forte depois de enfrentar um determinado vírus, e é em cima disso que criamos as vacinas.

Num momento do artigo ele compara dois “estilos de vida” aparentemente opostos. Os minimalistas com o grupo que se prepara o tempo todo para uma catástrofe, os “survivalist” (não encontrei nenhuma tradução boa pra esse termo. Sobrevivicionistas?).

Esse grupo são os caras que chegam a ter bunkers em casa, tem estoques de comida, armas, possuem fogão e estocam lenha, tudo em dobro, pois querem estar preparados para momentos de crise, seja uma guerra ou um desastre natural. São um outro nicho que me atrai a curiosidade de alguma forma. Essa é a ideia da redundância, ter em dobro, caso um dê problema, ter um excesso pode te salvar.
Os minimalistas estão no outro extremo, pessoas que carregam tudo o que possuem numa pequena mochila. Uma calça, duas camisetas, um computador, em geral da apple, e mais uns poucos ítens de vestimenta e higiene pessoal.

Num primeiro momento tive alguma resistência ao perceber uma crítica a um estilo de vida de pessoas que admiro. Notando isso, resolvi me colocar do outro lado. Realmente, ele tem um bom argumento. Os minimalistas dependem do acesso a coisas que, no mundo “normal” atual, é bem factível, mas num estado de crise, isso realmente os deixa bem mais frágeis. E não precisa ser pessimista ou paranóico, todo ano acontecem milhares de pequenos desastres naturais, alguns grandes, e não é absurdo pensar na utilidade de se estar preparado pra um. Um furacão, uma enchente, um terremoto e sua cidade poderia ficar isolada por algumas semanas. Acontece todo ano em dezenas de lugares.

Quando vejo duas opiniões se confrontando, e ambas com bons argumentos, algo me diz que posso estar num terreno propício a uma terceira alternativa. Ela pede que analisemos melhor o contexto de cada uma antes de se mostrar, então, vamos lá.

O minimalismo surge como resposta a uma percepção de hábitos de consumo insalubres, de uma relação desequilibrada com as coisas. Esse desequilíbrio se mostra não apenas nas patologias, tipo acumuladores, pessoas que mal conseguem morar nas suas casas de tanta tralha acumulada, mas pessoas “normais” que têm 40 pares de sapato, que compram roupas todo mês, que tem cada vez mais coisas que não precisam, e continuam comprando.

Então a resposta foi ir na direção contrária. Mas como em qualquer coisa, a primeira resposta não é completa. Todo movimento começa de alguma forma e vai evoluindo aos poucos, na medida em que vão se percebendo falhas e inconsistências, ele cresce e se adapta.

Acho que aqui entra a primeira observação do conflito Survivalists X Minimalistas.
Ele confunde a mensagem com o mensageiro. Boas críticas são gostosas de fazer. Existe um prazer especial em apontar a hipocrisia ou inconsistência da galera que ta pregando um novo estilo de vida, esses excêntricos que de alguma forma estão me atacando, mesmo que indiretamente, ao atacar meu estilo de vida. Então é sinal de uma boa destreza mental um ataque como o do Taleb, autor do Antifrágil. Ele diz que o natural e mais inteligente é ser o oposto do minimalista, ter o dobro de muitas coisas, ser redundante, como o nosso corpo que tem dois testículos, dois rins, quando apenas um daria conta. Diz que isso te deixa mais resistente, anti-frágil. Já a proposta dos minimalistas é bonita por enquanto, mas um dia vai se mostrar pela fragilidade que acarreta.

Ele trocou o mensageiro pela mensagem, e é natural que tenha feito isso. Falamos do que estamos vendo, e criticar pessoas atrai muito mais atenção e interesse.

Outra crítica interessante ao minimalismo é que muitos dos seus garotos-propaganda apesar de possuírem menos objetos, passam o tempo todo falando deles, pensando, escrevendo sobre e etc. Realmente isso tem algum fundo de verdade. Quando se tem uma relação com quantidade e não qualidade, pouco se pensa sobre o que se consome. Se você compra uma camisa por semana, a coisa vai meio que no automático. Se vai ter apenas uma, provavelmente vai querer pesquisar o melhor material e etc. Talvez seja apenas uma forma diferente de pensar e dedicar sua atenção.

Por um lado, acho isso bom. Sou a favor de ações cada vez mais conscientes, o que inclui nossa relação com o que consumimos, com cada ítem de casa, vestimenta, comida, tudo. Diria que devemos ir ainda mais longe e compreender o impacto ambiental de cada coisa, entender mais sobre seu processo produtivo, o preço social disso, se as pessoas estão sendo honestamente recompensadas e por ai afora. Isso dá mais trabalho, e só se torna realmente possível se passarmos a consumir muito menos. Se eu consumo muito, não dá pra dedicar muita atenção a cada coisa. Quando a quantidade diminui, ai sim podemos nos dedicar mais a cada item. Alguns se perdem sim nesses detalhes, e passam de consumistas de quantidade para consumistas de qualidade sob o título de minimalistas.

O que o minimalismo tem de valor a nos oferecer não é necessariamente os pormenores do seu estilo de vida, mas uma essência. A ideia de que temos que mudar nossa relação com as coisas.

Pra mim o recado do minimalismo não é regredir a uma simplicidade exagerada, mas aprender que objetos tem sim seu valor estético e utilitário, que gostamos de ter coisas que funcionam e são agradáveis de olhar, de boa qualidade, e que é legal comprar e tudo o mais. Mas sem exageros.

É diferente de ter pouco. Se eu quero beber 3 litros de água por dia, preciso ter 3 litros disponíveis. Não é pouca água, é o suficiente. Se eu preciso de 2 computadores, terei 2 computadores. Não 1, nem 5. O ponto é saber de verdade se eu preciso de 2 computadores, de acordo com os meus objetivos, valores e estilo de vida. A partir do momento que tenho clareza disso, ok.

Como tudo, não é absoluto. Existem momentos de vida, certos cenários ou condições nas quais ele se encaixa perfeitamente. Especialmente pra quem é ou foi consumista demais, ficar um período com apenas o necessário tem seu valor. Com o tempo, acho que compreendemos o que esse estilo de vida tem a nos ensinar. Pode parecer piegas ou clichê, mas é a verdade – os objetos existem para nos servir, e não o contrário.

Existem diversas formas e caminhos para o autoconhecimento. Tudo que fazemos, todo tipo de ação e interação nossa fala um pouco sobre quem somos, tudo que vem de dentro mostra um pouco sobre nós, se soubermos olhar. Na sociedade de mercado em que vivemos, lançar luz sobre nossa relação com o dinheiro e os bens que circundam nossas vidas tem grande valor. Estou sempre buscando diminuir a distância entre quem sou e quem quero ser, entre onde estou e onde quero chegar. A reflexão sobre o que consumo e como isso me afeta tem sido bem interessante pra mim.

Existe o famoso “barato que sai caro”. Que é um dito sobre a nossa busca por atalhos, como ficamos míopes e não vemos longe na ganância, nos achamos malandros e acabamos pagando o pato. Minha mãe comprou um carro zero e quis economizar no rádio. O rádio de fábrica era algo como 300 reais a mais, e ela viu que poderia colocar numa oficina por 150. Eu disse que o de fábrica era de melhor qualidade, mas ela quis economizar os 150 reais. Em algumas semanas o rádio deu problema, ela voltou lá, se irritou, pois o lugar era longe e o atendimento ruim. Depois deles consertarem ainda deu outros problemas e no final ela gastou bem mais do que 300 reais e ainda ficou com um som de pior qualidade.

Acho que buscar o melhor, a qualidade, é o “caro que sai barato”. Sem migué, sem tentar me dar bem em cima do outro, mas sem aceitar um mal negócio ou pagar à toa. Busco o justo, e aceito o preço daquilo.

Como resultado, tenho percebido uma inclinação a trocar quantidade por qualidade. A pensar bem pra que quero cada coisa que tenho ou penso em comprar. Sinto que penso pouco em coisas, menos que as pessoas da minha bolha pelo menos, e em geral estou bem satisfeito com o que tenho, mas posso estar sendo parcial na minha análise.

Ainda acho que podemos conciliar minimalismo e redundância. A questão é definir o quanto é o “necessário”. Se pararmos pra pensar, a expressão “mínimo necessário” é em si redundante, pois o necessário é uma quantidade só, não tem mínimo ou máximo. Ainda assim, em termos de conforto, pode-se ter alguns ítens em excesso, ou num aparente excesso, pois quando penso no longo prazo, passo a ver a situação de forma diferente.

Eu uso computador todo dia, e muito do que faço depende dele. Ficar sem computador é um empecilho real a minha produtividade e entretenimento. E como é esperado que em algum momento o computador trave ou dê algum problema, ter 2 é uma solução inteligente. No meu caso, ainda tem outras vantagens, pois tenho um desktop e um laptop e isso permite a mobilidade de um, um outro com maior memória e backup, etc. A chance dos dois darem problema ao mesmo tempo é bem menor, e se um trava posso ter calma em resolver, sabendo que eu tenho outro à disposição. Num primeiro momento isso poderia parecer um exagero, mas no fundo é uma relação bem pensada com as coisas. O ponto é que são poucas as coisas que tenho em dobro. E o que tenho, é consciente. Sei porque tenho, sei o quanto é apego, o quanto é uma posição racional, e no final ainda percebo que tenho muito menos coisas que a média.

Acho que pouco importa, no final, o número de coisas que você tem. O que fica é quão bem, quão satisfeito você está com elas, com sua relação com elas, o quanto tempo gasta pensando, se preocupando, curtindo e tudo o mais. Se você está satisfeito como está, perfeito. Se acha que está pecando pelo excesso ou falta em algum ambiente, cabe buscar uma mudança de atitude. Acho que isso vale pra tudo.

Sobre as Boas Maneiras

A importância do porquê, e como chegamos, curiosamente, ao local de partida.

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As vezes sinto que dei uma volta grande e cheguei no mesmo lugar. Me tornei aquilo de que fugia, só que cheguei por um caminho diferente. Gosto da ideia de uma espiral, ao terminar uma volta você chega no mesmo lugar, só que mais acima.

Lembro de como me incomodava com as normas de boa conduta, as coisas que me mandavam fazer em nome da boa educação. Minha avó dizia que eu tinha que oferecer o que eu estava comendo às visitas, por exemplo, e a justificativa era “senão, o que as pessoas vão pensar? Vão achar que você é mal educado!”. Nunca percebi que me incomodava com a justificativa, mais do que com a ação em si. Me irritava essa preocupação extrema com o que os outros iriam pensar, especialmente nesse formato. E sendo criança, ainda me incomodava em ter que dividir meu chocolate.

Fui crescendo e ganhando mais liberdade, e usei em parte pra me rebelar contra isso, jogar o pêndulo pro outro lado. Acho que nunca cheguei a ser realmente grosseiro com ninguém (pelo menos espero), mas tive um período de rejeitar algumas dessas normas. Olhando agora, foi um exagero pra lá pra compensar um exagero pra cá.

Quando compreendo o contexto dentro da qual certas normas foram criadas, isso faz toda a diferença pra mim. As normas de boa conduta são práticas realmente úteis para nos tornar atentos às necessidades dos outros. Você cumprimenta as pessoas, tece elogios, sorri e olha nos olhos. A premissa é que você genuinamente expressa o que pensa, só diz algo se de fato representar como se sente, e não mente apenas pra agradar.

Comumente eu admiro pessoas, penso em elogios mas esqueço de dizer a elas. Reparo em como tal pessoa é bonita, inteligente, elegante, engraçada, mas simplesmente por inércia esse pensamento permanece sem ver a luz do dia. Não sei porque, mas percebo uma qualidade interessante em alguém e guardo isso pra mim, talvez por timidez.

As boas maneiras criam roteiros dentro dos quais podemos inserir esses conteúdo, se quisermos. É um default, um padrão que facilita que nos lembremos disso. É mais fácil elogiar alguém se eu lembrar que devo, ou que isso cabe pelo menos, há uma lacuna a ser preenchida.

Há quem se prenda à forma em excesso, é verdade, e distorça toda a coisa até torná-la vazia ou mesmo mentirosa. Mas há também um uso honesto da educação, do saber como se expressar, como buscar ser agradável aos outros e considerado para com seus sentimentos e vontades.

Quando alguém te visita na sua casa, você deve oferecer à pessoa um lugar pra sentar, perguntar se gostaria de algo pra beber, mostrar onde é o banheiro e etc. Isso porque somos esquecidos de como os outros diferem de nós. Quando eu estou na minha casa, simplesmente bebo quando tenho sede e sento onde quiser. Eu conheço o lugar, me sinto à vontade nele, sei como abrir a gaveta emperrada e que a descarga está disparando. Porém a visitante não vai sentir a mesma liberdade, e devemos ou constantemente nos colocar na posição dela, se quisermos que ela fique confortável, ou apenas lembrar algumas normas de boa conduta. Essa é a utilidade das regras, são “truques mentais” que nos ajudam a ser quem gostaríamos de ser.

Algumas pessoas são excepcionalmente tímidas e passivas, e preferem ficar desconfortáveis uma tarde inteira a pedir algo pra beber, ou uma almofada, ou o que seja. Cabe ao anfitrião ser capaz de ler essas pessoas, e ser simpático, deixar elas o mais à vontade possível. Exatamente como eu gostaria de ser tratado, ou como gostaria que tratassem um amigo querido por exemplo.

Ao longo dos anos, a essência das boa práticas se tornou os hábitos que ensinamos e definimos como boa educação. O problema, na minha opinião, é como eles são ensinados. As pessoas em geral não explicam que quando alguém visita a sua casa você deve oferecer uma bebida pois essa pessoa pode estar com sede e com vergonha de pedir, que essa é uma reação bem natural apesar de falarmos pouco sobre. Não, elas dizem que você tem que fazer isso e pronto, tem que obedecer sem questionar, sem entender o porquê, ou então só estão preocupadas com a imagem, preocupadas com o que os outros vão pensar se você não fizer isso. Vão pensar que você é mal educado.

Quando eu entendi como é chato ficar vendo alguém comer algo e com vontade e vergonha de pedir, ai eu entendi que não quero gerar isso em ninguém, e me lembro sempre de oferecer o meu chocolate.

Certamente ainda tenho muito a melhorar, mas acredito que cheguei, por outras motivações, no resultado que minha avó tanto desejava.