Sobre (não) ser Vingativo

A vingança não é só aquele plano feito num porão escuro pra matar o inimigo. As vezes é um olhar, um comentário, um silêncio…

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Outro dia uma amiga furou um encontro comigo, me ligou super culpada e pediu para eu “não fica chateado”. Acredito que ela foi muito honesta no pedido, que realmente estivesse culpada e quisesse que eu não ficasse mal. Mas o que percebi foi que eu não sabia como. Eu não sabia como não ficar chateado. Eu fiquei chateado.

Ela me pedir pra não ficar chateado comunica que essa é a intenção dela, mas não me ensina a fazer isso, não me diz como chegar lá. Se eu soubesse, eu realmente preferiria não ter ficado chateado, mas eu fiquei.

Fiquei refletindo, e vi que existem diversas formas de mudar de estado, de deixar de ficar chateado. No caso, eu consegui deixar de ficar chateado em bem pouco tempo, e logo mudei de estado e perdoei minha amiga. Mas foi um exercício, um esforço consciente. Acho que meu natural seria ficar chateado, e permanecer chateado, o que iria contaminar meu humor por possivelmente aquelas próximas horas mais intensamente, e ainda voltar de vez em quando nos dias seguintes. Seria a pior escolha, a mais infantil e quem mais sofre com ela sou eu mesmo.

Observando minhas ações passadas, percebi (com algum arrependimento) que eu fui diversas vezes o tipo de pessoa que ainda iria querer me vingar, punir a amiga pelo que ela me causou. Isso nunca foi consciente, mas olhando minha ações passadas, percebi que isso aconteceu sim.

Qualquer vingança, é como segurar um carvão em brasas pra tacar no outro. Você sofre mais no processo, e não resolve nada. Eu nunca me vi como alguém vingativo, pois pensava que vingança era aquela coisa de filmes, o assassinato da amante pela esposa ciumenta, ou o assaltante que trama uma armadilha pros comparsas que o traíram, algo assim. Mas as vezes vingança é só ficar de mal, sem falar com alguém uns dias. Pode ser até menos. Um olhar, um comentário baixinho. Por fora a coisa pode parecer quase nada, mas isso esconde intensas emoções.

Tenho alguma vergonha de reconhecer que já agi assim, e mais ainda em pensar que esse impulso ainda surge de quando em vez. Consigo controlar, ressignificar, mudar mesmo de estado, mas isso ainda requer algum esforço consciente, em diversos casos. Menos que antes, e esse é meu maior indicador de progresso, a cada vez percebo que consigo mudar mais facilmente de estado, que a intensidade vêm mais fraca e dura menos.

É meio bobo, mas tudo começa com o desejo de mudar. Eu sempre achei isso meio clichê, mas nesse caso só posso dizer que é exatamente assim. Pelo menos foi comigo. Podem haver técnicas e outros caminhos que eu desconheço, mas pra mim, o grande diferencial foi querer mudar, querer deixar de ser vingativo, ou ciumento, ou de ficar de mal com a amiga ou quem quer que seja.

É estranho pensar que isso pode ser uma decisão, pois eu fui acostumado a me ver como um passageiro nesse quesito, a emoção brota e tudo o que posso fazer é viver ela. Se me vem uma raiva, tudo que me resta é sentir e esperar passar. Nunca imaginei que ficar pensando em algo, imaginando situações, tendo discussões mentais e tantos outros devaneios pudessem piorar ou manter um estado X, e nunca me percebi como o autor real desses pensamentos, como o criador ativo desse estado.

O impacto dos pensamentos são gigantescos, e por mais que não pareça, são decisões. Conscientes ou não, mas ainda assim decisões. E o grande lance é que você pode tornar elas consciente se quiser, e a partir daí mudar é mais viável. O que não quer dizer que é fácil de cara, depende do caso e da sua prática, é como um músculo, quanto mais você pratica, mais forte fica.

E saber isso não te deixa pra sempre imune, pelo menos comigo não tem sido assim. Foi bem esquisito admitir que tenho ou tive esse padrão, que fui sim vingativo, quis punir o outro emocionalmente por como ele me fez sentir, desejei isso de forma silenciosa e maldosa. E não foi num passado obscuro, quando eu viva uma vida de crimes e drogas. Isso aconteceu numa vida bem agradável na real, com um bom conforto material, amigos, encontros, saídas, tudo tranquilo, tudo favorável. Foram poucos momentos, mas existiram.

As vezes algo acontece e eu me pego pensando nisso, um professor é meio babaca comigo e eu me pego visualizando ele sendo demitido ou tendo outro problema qualquer, um seriado que eu gosto é cancelado e eu imagino (e secretamente desejo) o responsável sendo punido de alguma forma, a síndica cria uma regra que me incomoda e vejo a na minha tela mental ela sendo processada. Recentemente eu percebi uma mudança. O nível de punição que ocorre mesmo na minha imaginação tem sido mais suave, não é mais a pessoa sendo espancada, e sim uma ação que afeta mais a moral dela, meio que uma lição, e achei bem bacana essa percepção.

Outro ponto é que é raro eu não me tocar no momento em que estou pensando isso e resolver mudar, ou, no máximo, isso acontecer um pouco depois, num momento mais calmo do mesmo dia eu me ligo que desejei o mal de alguém sem nenhum bom motivo.

Pode soar como besteira pra muita gente, mas eu não quero ser o tipo de pessoa que deseja o mal dos outros, por nenhum motivo. E segundo, é um pensamento meio merda, não me leva a lugar nenhum, não melhora minha situação, muito pelo contrário, só me deixa mais tempo remoendo algo que foi ruim, me fazendo reviver a parte chata de novo, sem necessidade, sem utilidade.

Tem hora que é difícil? Lógico, vejo as pessoas com atitudes absurdas que destoam completamente dos meus valores e crenças, por isso é um exercício constante o de parar ou mudar os pensamentos que surgem. A boa notícia é que, pelo menos comigo, mesmo uma pequena taxa de sucesso, umas poucas vezes que eu consiga mudar os pensamento, isso altera bastante o meu estado e tem um resultado considerável no meu humor, na minha qualidade de vida mesmo, em como me sinto comigo.

Realmente acredito que cada um colhe o que planta, então preciso ficar gastando meu tempo desejando que fulano ou ciclano seja punido pelo que me fez. Isso me ajuda a mudar, a ir da raiva pra pena, pra reflexão, e depois finalmente me leva perdoar e desejar o melhor ao outro. O universo não precisa de mim pra punir ninguém, e cada um tem seus motivos pra agir como agiu. Nunca vou saber a história completa da pessoa que me “feriu”, cada um está lutando uma batalha da qual não sabemos nada. O melhor que eu faço é aprender com a situação e seguir em frente. Sem rancor, sem culpa, sem vingança.

E uma coisa é certa, ficar remoendo a situação e desejando vingança é garantido de deixar uma pessoa mal: Você.

Se o outro vai ser afetado ou não pode depender da sua crença, mas o que não depende dela é saber que se você gastou 15 minutos pensando em como “ferrar” alguém, foram 15 minutos bem merdas da sua vida, e que provavelmente vão contaminar muitos outros minutos, horas, dias…

A vingança é uma rua feia, suja e escura pela qual andamos de vez em quando. Todo mundo sabe que ela não leva a lugar nenhum, e que andar por lá sempre termina mal, mas ainda assim de vez em quando ficamos curiosos e vamos dar uma espiadinha, só alguns metros adentro..  Tenho percebido como meus dias ficam melhores quando decido simplesmente não entrar, nem passar perto. Seguimos muitos caminhos só pelo hábito, vai no automático. Mas de vez em quando é bom parar e reparar se estamos indo pra onde queremos chegar.

 

Sobre a Saudade

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A saudade é esse sentimento curioso, dúbio, bom e ruim ao mesmo tempo. Creio que só um falante do português poderia falar da saudade, pois é uma palavra sem tradução pra qualquer outro idioma. Também não é por menos, talvez seja uma emoção bem complexa mesmo. Sentir saudade vai de uma nostalgia gostosa ao lembrar as férias na casa de campo até a dor da solidão de quem lembra da grande amiga que se foi. Não sei de nenhum outro sentimento com essa capacidade de ser bom e ruim ao mesmo tempo. Há quem goste da dor por exemplo, e talvez a saudade seja um pouco isso, um canto nosso que é um pouquinho masoquista, pra onde vamos quando estamos sozinhos pra nos sentir ainda mais sozinhos. Mas a saudade é tão gostosa também. Não sei como que a saudade vai de boa pra ruim, talvez seja um pacote fechado e indissociável. Pra curtir o gostoso da saudade tem que se aceitar o amargor residual de uma breve solidão que te assola no final.

No fundo, como tudo, a saudade pode ser boa ou ruim, bem ou mal utilizada, e o que buscamos é o equilíbrio. Se eu fico demais na saudade, fico demais no passado, deixo de viver o presente. Fico a ver navios, pensando eternamente no amor que se foi e não vejo o novo que vem chegando, e ele passa sem eu perceber, estava ocupado demais olhando pra trás e não vi quem vinha vindo. Podemos ter saudade do futuro também, um paradoxo que só a gente, que tem uma palavra pra saudade, sabe que é possível. Não sei se um gringo seria capaz de ter saudade do futuro. O conceito de saudade já é difícil de explicar, dizer isso do futuro seria dar um nó que só quem tem um tico que seja de sangue lusitano consegue desatar. As vezes é um buraco genético na nossa lógica que cria o espaço pra essa emoção brotar.

Acho que a nossa mente deve viver numa harmonia entre passado, presente e futuro. Precisamos do passado, ele nos ensina, nos mostra muito do que somos, pode ser nosso porto seguro, mas de um porto se parte, se segue adiante. A partir dele podemos ir muito longe. O futuro é o que se vê lá de cima do mastro. Precisamos nos planejar, visualizar o que queremos e ter motivação pra içar as velas e perseguí-la, ter um norte a nos guiar, uma estrela d’alva pessoal e única. O presente é o tecido do qual todo o resto se faz. É nele que respiramos. Respire fundo agora e sinta a calma que te invade. É um presente mesmo. Nele vivemos a vida, nele lembramos do passado e nele vislumbramos o futuro.

Acho que a saudade nos mostra o quão bom foi aquele presente. Existem momentos, pessoas, emoções que são tão fortes, tão intensas, que o agora não dá conta, e temos que sentir elas depois mais um pouquinho. São as prestações de um depósito que recebemos, tão grande que não conseguimos guardar tudo na primeira viagem, e quando me vejo, to voltando pra buscar mais um tanto.

Mas o futuro é bacana também, se o passado foi tão bom, se conhecemos pessoas tão incríveis, vivemos momentos tão maravilhosos, podemos viver ainda mais. O céu é o limite, a cada nova viagem outras tantas se tornam possíveis. Novas experiências com novas pessoas, com velhos amigos, aprofundar amizades, rever pessoas e locais queridos, provar comidas, comer de novo aquela rabanada da avó, aquela bolinha de queijo da estrada pra Mauá. Precisamos do passado pra seguir em frente, e a saudade é uma lente através da qual vemos o passado que foi bom. O maior respeito que podemos prestar a ele, creio, é pensar no futuro, viver o presente, criar mais memórias gostosas, dar à saudade que tanto gostamos boas companhias, pra que ela não fique sozinha num quarto escuro. Não, quero que minhas saudades conversem umas com as outras, façam festas de arromba, descansem bem relaxadas e me visitem só de vez em quando. E assim a gente não fica sozinho aqui, acho que é com um bom passado e um instigante futuro que se faz um bom presente.

Eu gosto das minhas saudades, tenho um carinho por elas. Tanto que quis vir aqui escrever, só pra curtir um pouco mais essa curiosa emoção.

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Sinto que alguns textos meus são diferentes dos demais, como esse por exemplo. Talvez essa diferença só seja aparente pra mim.
A foto é de uma viagem, fonte de saudades.

O Karma e a culpa

Um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

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Não existe ação sem motivação. Agimos em busca do prazer e pra fugir da dor de uma forma ou de outra. Claro que isso é uma generalização. Muitas pessoas que dizem fazer caridade sem nenhum motivo na verdade querem dizer nenhum dos motivos mais superficiais, como reconhecimento, elogios ou qualquer retorno material. Mas existem milhares de outros motivos.

Alguns mais comuns nesse caso: a expectativa de benefícios futuros. Muitos acreditam que quem é bom vai pro céu, e agir caridosamente é uma das ações que te aproxima desse objetivo. Há uma clara motivação semi-material. É a busca do prazer, mas não nessa vida, sim numa próxima, e em alguns casos por toda a eternidade – um excelente negócio ao se pensar por esse prisma.

Há também a motivação da identidade. É extremamente agradável ter uma auto-imagem de alguém bondoso, virtuoso e correto. Assim, ao ajudar os outros de forma anônima, ganho o prazer de me valorizar, ficar feliz com a minha identidade, com a história que conto de mim para mim mesmo. Há também o prazer de contribuir, de saber que de fato ajudei pessoas. Isso tudo são sentimentos bons. Assim como uma pessoa busca uma boa música, uma comida gostosa e entretenimento de qualidade pois elas lhe geram prazer, sentimentos agradáveis. A diferença está na forma do prazer e nos valores que nossa sociedade, e nós mesmos, damos a cada um.

Uma forma de prazer pode ser muito mais nobre que o outra, mas o meu ponto é que nenhuma ação é de fato “pura”, no sentido de neutra, de ser desprovida de motivações. O melhor que podemos fazer é buscar ter motivações mais nobres, de acordo com nosso próprio sistema de crença, moral e ética. E nisso a gestão karmica pode ajudar.

Há um outro ponto, de apenas compreender e aceitar a realidade como ela é. Talvez eu ainda fizesse o bem e buscasse ajudar os outros mesmo que não fosse ganhar nada com isso, mas existe uma lei de causa e efeito, o universo é como esse grande espaço onde nossas intenções ecoam e retornam pra nós, por meio de uma intrincada rede que ainda não compreendemos completamente, mas da qual não podemos escapar. Não adianta lutar contra a lei da gravidade, ela existe e pronto. O que podemos fazer é aceitar e trabalhar com ela da melhor forma, e com alguma engenhosidade descobrimos como fazer máquinas que voam, curtir um salto de bungee-jump e gerar energia com quedas d’água.

Querer agir sem colher os frutos das ações é como querer que dois elétrons se atraiam. Não é assim que a banda toca. Na natureza nada se cria, tudo se transforma. Uma energia posta em movimento num sistema deve retornar de alguma forma, tudo o que você faz vai voltar pra você.

Compreender as leis de causa e consequência te permite ser ainda mais eficiente e ajudar mais pessoas, se esse for o seu objetivo maior. A saída aos que realmente se incomodam com isso é agir sem absolutamente nenhum apego. Ao agir completamente dissociado do resultado das ações (e o ‘completamente’ é a chave) você alcançou a iluminação, despertou, tornou-se um Buddha. Ainda podem haver sementes antigas que devem brotar, mas nesse nível as novas sementes mudam completamente, pois não há mais intenção ou desejo nas ações, e sua realidade passa a ser outra. Podemos falar sobre, mas não sendo um ser iluminado, suponho que seja como um virgem tentando falar sobre o sexo. Podemos ter alguma ideia de como é e tudo o mais, mas estamos distantes de poder falar com propriedade. Esse momento de iluminação é o que nos permitiria sair da Samsara, o ciclo de nascimento e morte que nos prende a esse mundo de ilusões, aos que creem em renascimento, ou simplesmente um momento de completa realização pessoal, de uma forma absolutamente secular. Nossos apegos geram sofrimentos. Disso tratam muitos textos budistas das mais variadas formas.

Acredito que com o tempo iremos evoluir e talvez possamos realmente agir sem apego, mas creio ser um estágio um tanto distante. Útil como norte, como direção a seguir. Na minha opinião o melhor caminho pra isso passa pelo domínio dos desejos. Quando entendemos como conseguir o que queremos, como “controlar” esse mundo de ilusão (se é que é isso), pois a única forma de fazer isso é pelos outros. Primeiro devemos aprender a criar o mundo que queremos, e só então podemos pensar mais seriamente em nos livrarmos completamente dos desejos e anseios.

Pra ter o que queremos, teremos que ajudar os outros a conseguir o mesmo, e na caminhada ao desapego total iremos crescendo, a cada desejo meu que realizo me torno um pouco mais livre dele (em alguns casos totalmente) e me conecto um pouco mais a todos que tem ou tiveram o mesmo anseio, que sofreram com essa mesma falta. Acredito que seguindo nessa jornada, o natural é que os desejos diminuam, não do dia pra noite, mas de forma constante, devagar e sempre.

Vou cada vez mais curtindo os prazeres da vida e entendendo o que é essa ilusão, o mundo da matéria, dos prazeres e desprazeres. Ao me conectar aos outros entendo cada vez mais como não somos exatamente separados, e minha percepção da realidade muda inteiramente, também não em um momento, mas aos poucos.

Alguns desejos passam a não mais fazer sentido, como um adulto que não mais deseja um boneco. Quando criança não poderia conceber ele não querer tal brinquedo, ou o doce, ou assistir ao desenho animado, tamanha era sua vontade deles, mas passado o tempo, numa infância saudável, se a criança pode brincar o quanto quis, naturalmente essa vontade vai embora. Não é que o boneco mudou ou deixou de ser divertido, a realidade da pessoa que mudou, e o desejo pelo boneco deixou de existir.

Penso que o mesmo acontece com os demais desejos – conquistas, coisas brilhantes que estimulam nossos sentidos e nos seduzem, os carros, casas, status, conceitos de identidade – com o tempo eles deixarão de nos iludir, deixarão de nos seduzir. Iremos olhar pra eles assim como vemos um bicho de pelúcia que outrora nos foi incrivelmente valioso, e que agora não mais nos atrai.

Mas, assim como a criança que teve seu tempo, aceite brincar um pouco também, aceite se dar um tempo pra amadurecer. Se tiramos o brinquedo cedo demais a criança pode demorar pra superar isso, e tentar como adulto compensar a falta que teve, o trauma. Existe a possibilidade de nos seduzirmos demais pelos “brinquedos” e tentar justificar os excessos com a ideia de que curtir por um tempo pode ser saudável. O equilíbrio é delicado e nem sempre fácil. Como sempre, você é o júri e juiz, e vai saber o quanto é demais, se realmente quiser.

Mas não se cobre mais do que pode dar, não dê um passo maior do que a perna. Compreenda os conceitos, entenda que sua felicidade não depende das coisas e se permita refletir e aceitar exatamente onde está. Eu fui vegetariano por 7 anos, e depois resolvi voltar a comer peixe. Continuo achando que ser vegetariano é uma opção melhor, mas por diversos motivos resolvi que pretendo ficar um tempo assim. Mais pra frente pretendo voltar ao vegetarianismo. Reconheci minhas dificuldades, meus desejos, meu tempo. Que muda constantemente, como tudo.

Nem adianta tentar se enganar, pois a vida tem sua forma de ensinar, de nos mostrar onde exageramos, seja pra mais ou pra menos: pela dor. O sofrimento é o professor último, e pode vir de infinitas formas. Pode ficar tranquila que se você se esquecer de prestar atenção, um sofrimento vai vir pra te mostrar onde está o erro. Mas se quiser evitá-lo (cada um é livre pra agir como achar melhor) o entendimento das leis do Karma pode indicar um caminho.

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Um trecho do livro que estou escrevendo sobre gestão Karmica.

2 conceitos que são fundamentais e que podem fazer falta aqui (bem resumidos):

1 – Sementes Mentais. Tudo que vc faz te marca, é como se vc plantasse uma semente em si mesmo. Essa semente brota mais pra frente como a realidade que vc percebe.

2 – Vacuidade. Tudo é neutro de significado, e a realidade é determinada pelas sementes que constantemente plantamos com nossas ações, pensamentos e palavras.

“Esse cara come demais, você vai ver!”

Sobre expectativas e frustrações

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Acho curioso quão pouco precisamos pra querer agradar os outros, quão fortemente as expectativas podem nos impactar, mesmo quando estamos conscientes disso.

Na adolescência, lembro de estar em algum grupo de amigos num rodízio de pizza e o pessoal comentar que eu comi mais do que todo mundo. Tinha um clima de brincadeira, como quase tudo, mas foi de alguma forma um destaque, um elogio mesmo que indireto, e foi bom. Nada demais, um clima agradável com o pessoal, alguém nota, comenta isso e ficamos alguns momentos brincando sobre, depois mais algumas brincadeira espaçadas e pronto. Passam algumas semanas e a coisa se repete, outro evento com algumas pessoas do grupo em comum, no qual novamente me destaco por comer mais, por aguentar tanta comida e impressionar o pessoal por isso. Mais uma vez não é nada surreal nem exagerado, mas existe essa atenção extra, esse destaque.

Mais uns poucos eventos nos quais isso acontece, e eu me percebo numa situação curiosa. Fui num restaurante com amigos num dia sem fome, mas me forcei a comer a mais só pela expectativa que tinham de mim. Fiquei sem graça de quebrar ela, de perder essa identidade (ou parte dela), de desapontar os outros. É absolutamente ridículo quando coloco em palavras, nem eu nem nenhum amigo diria que se importa minimamente com isso, mas analisando como me senti, foi exatamente assim. Existe uma expectativa, uma pressão em agir em conformidade, mesmo em algo tão bobo e pequeno. E eu não percebi na hora, apenas fiquei sem graça de pegar pouca comida, e me forcei além do que me seria agradável, mas sem saber exatamente porque agia assim. Eu nunca nem diria que havia alguma expectativa sobre mim.

Eu levei um tempinho até perceber e mudar, e estar ok com “frustrar” o pessoal nesse sentido, e comer só o quanto queria. Como sempre, é bem mais tranquilo do que eu tinha imaginado, um breve “passei dessa fase, agora eu to comendo menos” ou qualquer variação e a galera leva numa boa. O ponto é o quão longe eu fui, e estive disposto a ir, pra manter uma expectativa que era sem importância tanto pra mim quanto pros outros. E imagina quando a expectativa é maior, mais arraigada, quando mais variáveis entram na equação?

Essas “pequenas” expectativas são bons casos para análise, justamente por serem tão pequenas é que não prestamos a devida atenção e a coisa se desenrola de forma quase inconsciente. Percebi isso em outros momentos também.

Sei que somos seres sociais, que evoluímos de forma a dar grande valor à opinião do grupo pois dela dependia nossa sobrevivência, sei que hoje não devemos nos importar demais com a opinião dos outros e tudo o mais. Acho que esses casos são curiosos exatamente por serem pequenos demais pra serem notados. Se fosse algo grandioso, eu iria bater de frente. Se existe mesmo um estigma social com o qual discordo, posso usar minha razão e me motivar o suficiente pra agir. Mas nesse caso não, a pressão entrou pela porta dos fundos, agiu nos bastidores, e eu só percebi muito depois.

Foi difícil admitir que fui tão longe por tão pouco. Admito que gosto de ser elogiado e admirado e não me assustaria em descobrir essa motivação sendo a causa raiz de certos comportamentos meus. O que assustou aqui foi o tamanho, a intensidade da minha ação sendo desproporcional a pequenez da expectativa.

Se eu perceber que estou querendo ter sucesso financeiro numa área e parte da motivação é impressionar um ex-chefe por exemplo, ok, é algo que prefiro mudar em mim se possível, mas que não seria tão espantoso de descobrir. Ou que estou indo na academia todo dia porque uma menina vai me achar mais bonito. Um tanto fútil, mas ainda não tão distante de mim. Agora me forçar a comer sem vontade, criar mentiras pra mim mesmo enquanto faço isso (me enganar), tudo por uma mini-expectativa que não importa pra ninguém, bem, isso eu não esperava mesmo.

Acho que nos apegamos às nossas identidades, mesmo as que não escolhemos. Elas são colocadas sobre os nossos ombros e com o tempo passamos a gostar e até sentir falta. Todos os meus amigos dizem que eu sou um dos poucos, quando não o único, amigo que sai com o pessoal e nunca bebe. Não foi um voto que fiz, não tenho nenhum problema com o álcool, só não gosto do sabor e não faço questão da sensação, então na prática, nunca bebo. Com o tempo me vi carregando esse estandarte, mesmo sem querer — o “não bebedor da galera”. No carnaval resolvi que ia beber um dia, e me peguei com uma resistência a mais do que esperava: o pessoal. O que dizer pros amigos que me virem bêbado?

Como a coisa foi consciente, eu logo ri da prematura vergonha e lembrei que eu não devo nada a ninguém, que bebo ou não conforme a minha vontade. E que a “solução” pro que nem bem era um problema eu já tinha há muito tempo. A verdade. Quem me vir bebendo e perguntar, digo a verdade, que resolvi curtir essa sensação num dia de carnaval. Isso não significa que eu vá começar a beber, nem que não. Se der vontade vou, mas sinceramente não pretendo. E pronto. Assim que gastei uns poucos segundos refletindo nisso, o peso sumiu, e eu curti minha onda no carnaval sem culpa, e, como sempre, os amigos não se frustraram ou ficaram estranhos comigo. Não havia nenhuma grande expectativa, ou se existia, estava muito mais em mim. E mesmo que estivesse no outros, e daí?

Boa parte da reflexão bate na noção de que não sou um ser estático, de que sou mutável. Mudo de opinião, mudo de ideia, paro de comer carne, depois decido voltar, resolvo trancar a faculdade, depois repenso a situação. Em geral não realizamos grandes mudanças com frequência, e isso nos dá a sensação de que somos basicamente os mesmos.

Além da segurança do conhecido. Se todos os meus amigos me conhecem como o cara brincalhão e extrovertido, é mais fácil me manter assim do que explicar que não estou mais tão à vontade nesse papel, que tem sido um esforço nos últimos dias, que estou pra baixo e sem tanta confiança. É difícil mudar especialmente quando mudamos pra algo menos glamuroso. E mais difícil ainda quando nem percebemos o peso das pequenas expectativas, quando as pressões atuam nas entrelinhas e bastidores, longe da nossa consciência. Tirar uns momentos pra refletir e perceber alguns motivos das minhas ações, como me senti em tal momento, admitir a forma e intensidade que me afetei por causa dos outros, tem sido bem interessante.

Talvez minha surpresa exista pois eu mesmo tenho certas expectativas de mim, tenho identidades com a qual me identifico. Não quero me ver como o tipo de pessoa que iria comer sem vontade só pra impressionar os amigos, e tantos outros exemplos que poderia dar.

Aceitar a mudança em potencial é uma boa forma de estar atento ao presente também, sem apego ao passado. Acho que no fundo eu quero estar melhor em perceber minhas próprias mudanças, e aceitar bem elas. Se eu estiver em paz com quem sou, vai ser suave a interação com os outros sobre o assunto, seja ele qual for.

Vale ficar atento a quando estou passando essa pressão adiante também, impondo identidades, criando expectativas para que os outros se comportem de uma determinada maneira. As vezes é ainda mais difícil aceitar a mudança no outro do que em nós mesmos.

“Como assim você não curte mais forró? O João disse que quer ficar em casa na sexta? Você tá brincando, né?”

Somos opressores e oprimidos, alternamos constantemente os papéis como uma trupe com menos atores do que personagens numa peça. Talvez alguns achem um exagero chamar isso de opressão, mas qualquer ação pode ser medida pelo impacto que causa nos envolvidos. Uma pequena farpa as vezes incomoda mais que um grande corte.Frustrar o outro nos amedronta, mesmo quando a frustração vem de uma expectativa que ele nem sabia que tinha. Somos seres esquisitos, cabe a nós fazer o melhor da nossa esquisitice.

Sobre Desobediência Civil

um protesto só é protesto se doer

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Sou aquariano. Por influência dos astros ou mera coincidência, desde cedo eu tenho alguma resistência em aceitar cegamente algumas regras. Depois que li sobre a desobediência civil, encontrei um poderoso argumento pra mim mesmo. Outro dia percebi que estava usando ele pra me enganar.

Fui entrar sem camisa no meu prédio, e o porteiro disse que não podia. Fiquei bem incomodado e pensando no que fazer. No final, cheguei a conclusão que aquela regra era imbecil. No calor do RJ não faz sentido não poder andar sem camisa. Não era uma questão de estar suado ou não, senão, mesmo de camisa seria um problema, e não é. No fundo, é apenas um tabu com o qual discordo, que estar sem camisa não é arrumado o suficiente pra entrada social. E ai rapidamente minha mente corre nos arquivos de justificativas e encontra lá a desobediência civil. Agora eu estava armado contra qualquer culpa pra ignorar a tal regra, estava agindo corretamente, lutando por um mundo melhor, militando em prol de uma sociedade mais livre e moderna.

Só que não.

Por mais que todos os meus argumentos tenham fundamento, e que eu realmente acredite neles, eu estava apenas racionalizando. A dica é, quando agir de forma moralmente correta me beneficiar sem nenhum preço, nenhum incômodo pra mim, mas sim para os outros, então muito provavelmente eu estou enrolando, buscando um atalho, fazendo uma decisão preguiçosa.

Nesse caso, entrar sem camisa era o meu benefício, e, na prática, só me gerava um pedido do porteiro pra colocar a camisa. Já pra ele, pro porteiro, poderia realmente ser um incômodo bem maior. Isso não é lutar pelos direitos, é ser um babaca. Se eu quiser realmente lutar, vou na reunião de condomínio e digo que essa regra é ridícula, passo de porta em porta com um abaixo assinado pra mudarmos as regras, contrato um advogado e abro um processo, o que for. Ai sim eu tomei uma posição de ir contra uma regra com a qual discordo, mas respeitando as pessoas. Tem um lado de respeitar mesmo o sistema que eu quero mudar. Lutar de dentro, e enquanto o processo acontece, vou usar a camisa na portaria social.

Muita gente baixa filmes piratas e justifica suas ações dizendo que os estúdios são milionários, os cinemas caros demais e isso é quase uma forma de protesto. Eu mesmo fazia isso, menos com filmes, mais com livros, usando a mesma lógica pra me justificar. Bem, eu não gostaria que fizessem isso comigo. Do meu ponto de vista um estúdio pode sim ter dinheiro infinito e não precisar do meu ingresso, mas o mesmo vale pra um menino de rua. Do ponto de vista dele, eu (ou minha família) tenho dinheiro infinito, e ele me furtar um celular ou 50 reais não vai fazer a menor diferença.

Se eu realmente estou incomodado com a indústria do cinema, posso não participar dela. Mas querer o benefício do entretenimento, ver o filme, sem o ônus de gastar o dinheiro e ainda achar que isso é correto, ai eu discordo. Ou eu aceito as restrições da minha moral e vou viver sem aquilo, “sofrer” aqui, ou vou ativamente lutar contra, da forma que me for possível. Mas não vou desrespeitar milhares de pessoas.

Acho que o ponto é que a postura moralmente correta frente a algo que discordamos nunca é passiva, e nunca é ativa apenas o suficiente pra nos darmos bem sem nenhum desconforto. Ou aceitamos que é algo que não podemos mudar e iremos nos abstrair desse mercado, como é a postura de um vegetariano por exemplo (discordo da matança e simplesmente não como carne), ou vamos iniciar um movimento para tentar mudar as coisas. Justificar o mínimo de ação (baixar o filme, entrar sem camisa) como uma forma de protesto é uma hipocrisia míope. E karmicamente é uma forma de plantar sementes que certamente não gostaremos de colher.

Existem cenários mais extremos nos quais lutar contra algo desrespeitando a lei é preciso. Os negros que foram contra o apartheid realmente estavam fora da lei, mas estavam colocando suas vidas em risco, e esse é um excelente indicador de que não era apenas uma racionalização. Quanto mais risco você assume ao lutar por uma causa, menor a chance de estar apenas se enganando e racionalizando uma desculpa com o argumento moralista. Caso contrário, vale a pena parar e refletir.

O Alex Castro tem um ponto de vista interessante sobre a hipocrisia. Ele diz que, por definição, nosso ideal de conduta é aquela conduta que nem sempre conseguimos praticar no dia-a-dia.

Da minha parte, concordo. Esses pensamentos não são fixados em pedra. A cada dia me percebo errando aqui ou tentando melhorar ali. Assisto filmes piratas ainda, mas não baixo, e ainda assim abro excessões sim. Valorizo o “fazer a coisa certa”, mas em diversos momentos a prioridade muda. Com livros por exemplo, eu me permito baixar a versão pirata pro kindle se eu já tenho o livro de papel, ou ganhei de presente. Entendo que o autor foi compensado e que eu, por conveniência, prefiro ler a versão digital. E vários outros pequenos casos, como quando um filme não está disponível no Brasil por alguma treta legal. Baixo sem cerimônia. Mas é assim, muitas vezes escrevo pra mim mesmo, como uma forma de me lembrar de como quero agir. Se num momento não consegui, ok, haverão outros. Colocar em palavras me deixa mais atento a essas pequenas coisas.

Sobre amar o que faz

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O Sir Ken Robinson disse numa icônica palestra no TED: “Eu acredito que nós temos uma segunda crise climática, que é tão severa, que tem a mesma origem e com a qual devemos lidar com o mesmo senso de urgência. (…) É uma crise não de recursos naturais, embora eu também acredite nessa, mas de recursos humanos. Eu acredito que nós fazemos uma pobre exploração dos nossos talentos. Um grande número de pessoas passa a vida inteira sem ter uma noção clara de quais seus talentos poderiam ser, ou se é que de fato possuem algum. Conheço todo tipo de pessoas que não acreditam que sejam realmente boas em algo.“

Sempre tive um grande interesse em qualidade de vida, e desde cedo percebi o impacto que o trabalho que escolhemos vem a ter na nossa. A maioria das pessoas passa a maior e melhor parte da vida no trabalho. De segunda a sexta, de 9-18h, tirando 30 dias por ano de férias, e olhe lá. Os colegas de trabalho viram os amigos, os assuntos do trabalho são os maiores inquilinos na nossa mente, sua função na empresa torna-se uma parte primordial da sua identidade.

Num primeiro momento, rejeitei essa regra, esse estilo de vida. Encontrei pessoas que criticavam esse modelo, e fui absorvendo seus argumentos. Falavam sobre a corrida dos ratos, como tanta gente joga fora sua vida para enriquecer (e quem enriquece mesmo é o chefe), li sobre como trabalhar menos, viajar o mundo, os custos pra sua saúde dessa rotina maçante. Que quando temos tempo, não temos dinheiro, e quando temos dinheiro não temos tempo, etc.

Um mote bem famoso atualmente, um dos conselhos mais falados e propagados é o “siga sua paixão”. E por ser assim tão abrangente, ele é perigoso. Perigoso pois sua simplicidade contém tanto verdades quanto uma grande armadilha. Falo com o conhecimento de quem caiu nela.

Pra compreender isso, precisamos entender melhor contexto no qual ele veio a existir.

“Siga seu sonho, faça o que ama ou siga sua paixão”. São variações de uma mesma ideia, uma resposta, um contraponto a uma cultura excessivamente autoritária, que por muito tempo considerou trabalho uma obrigação e nada mais. A pais impositivos que decidiam pelo filho o que ele deveria fazer por toda sua vida, a pessoas que desprezaram certas opções de carreira por serem mais arriscadas financeiramente. Em resumo, a uma visão de mundo que vê o trabalho com uma única função – prover o salário – e nada mais. O resto, são ônus e bônus, dos quais não se deve reclamar ou discutir.

O mercado é tudo, o chefe é o rei, a empresa seu Deus. Num mundo que despreza objetivos e vontades do indivíduo, tudo que importa é o que o mercado quer, quem está contratando, uma atitude excessivamente servil. Era o foco exagerado “lá fora”.

Com o tempo a sociedade foi mudando, a economia se tornando mais próspera, e as pessoas começaram a ter mais opções de trabalho. Não que fosse mil maravilhas, mas o suficiente pra ter pessoas refletindo mais sobre suas opções, mais que isso, com as pessoas percebendo que elas tinham opções. Assim alcançamos as CNTPs mínimas que permitem a proliferação da cultura do “faça o que ama”. Inicialmente pequena, mas crescendo e se espalhando num ritmo cada vez maior.

O pensamento do advogado com estabilidade financeira, mas frustrado por nunca ter sido desenhista, é de que faltou coragem lá atrás. Costumamos dar aos filhos as oportunidades que gostaríamos de ter tido. Muitas vezes exageramos. Traumatizados pela falta, damos em demasia aquilo que não tivemos, como que pra compensar, por meio deles, retroativamente a nossa carência.

A diferença entre o remédio e o veneno está na dose.

A geração atual cresceu em parte recebendo em excesso essa mensagem. Mas uma resposta à opressão sem a tal opressão é como a pessoa que grita “não me segura não” sem ninguém por perto tentando lhe segurar.

Esse conselho, com essa força, talvez tenha sido necessário pra resistir e ir contra o peso do paradigma antigo. Pra ir contra a noção de que deve-se quase que viver pra trabalhar. Agora a situação mudou, mas esse conselho foi apenas ganhando força, ganhando mais adeptos, mais heróis e exemplos, e o mundo foi mudando. As pressões que antes existiam agora são a excessão, mais do que a regra, e mesmo assim bem menos intensas (na maioria dos casos). Num mundo onde as pessoas já partem do pressuposto que o trabalho não é única e exclusivamente uma fonte de renda, a constante promulgação do lema “faça o que ama, siga sua paixão” gera danosos efeitos colaterais.

Ela cria um pressão de que você deveria ser feliz o tempo todo. Que seu trabalho deveria ser perfeito, desde o primeiro momento, e que se não é, tudo que falta é coragem pra você pedir demissão e ir seguir seu verdadeiro caminho. Que está desperdiçando sua vida num cubículo de escritório. Que existe um trabalho perfeito, sua alma-gêmea laboral, e que basta procurar até que a indubitável sensação do amor à primeira vista irá indicar o seu ‘feliz para sempre’.

A decisão do que cursar na faculdade passa a ser possivelmente a maior da sua vida. Errar aqui significa anos desperdiçados, janelas de oportunidades pra sempre fechadas. O medo que cada um tem por não saber exatamente o que quer gera crises existenciais intensas. Adultos, adolescentes, e mesmo crianças inundam divãs e, de olhos lacrimejantes, admitem que são um fracasso, pois até agora não sabem seu verdadeiro propósito, não sabem o que querem da própria vida. Como fazer o que amo, se não sei o que amo? O que eu quero no mundo, qual minha missão? Quem sou eu?

E assim a consulta segue, terminando possivelmente com a realização de que o pai era uma figura ausente e que a busca por aprovação segue na vida adulta em forma de traumas, bloqueios e fixações sexuais diversas.

Abundam no mercado gurus da auto-realização. Testes vocacionais cada vez mais caros e sofisticados, no entanto com as mesmas respostas abrangentes, que dizem você tem grande potencial criativo, boa capacidade comunicativa e que trabalha melhor quando compreende o motivo do que faz. A ciência tradicional se mostra tão incompleta que outras alternativas absorvem a demanda reprimida. As ciências ocultas, da astrologia ao tarot, da umbanda ao candomblé, passando pelas promessas à nossa senhora, chovem pessoas querendo saber quem são e onde irão encontrar a prometida felicidade, se no cinema ou na defensoria pública, na petrobrás ou dando aula para crianças. Onde está o oásis no qual vão desenvolver suas habilidades em meio a pessoas amigas e interessadas, com um salário de honesto pra gordo e um lindo plano de carreira que termina com sua aposentadoria na casa de campo e um belo álbum de fotografia das viagens, amigos, casamentos e batizados?

Como resultado dessa pressão, as pessoas chegam ao mercado de trabalho cada vez mais exigentes, e portanto, cada vez mais insatisfeitas. As demissões vão crescendo, assim como as infinitas tentativas de alternativas. Todo mundo quer ser ouvido, quer espaço pra se mostrar o gênio que sempre soube ser. Poucos estão dispostos a se dedicar de fato ao tempo que leva até você gerar mais valor do que quer receber em troca.

No entanto, a distância entre a ilusão e a realidade cobra seu preço. O ponto não é que essa filosofia está completamente errada. Se fosse assim, ela não teria durado tanto. Mas ela permite, e quase estimula, uma postura focada no eu, focada no que o mundo tem a me oferecer.

Eu falo de dentro, de alguém que já comprou 100% essa ideia, me apaixonei por ela, tivemos um romance, namoro sério, e como o amor é cego, demorei pra começar a ver seus defeitos. Tive um começo de desilusão, ai minha fidelidade fraquejou. Comecei a flertar com outras ideias, sai com outros conceitos, tive como amantes outras filosofias. Tentei não falar nada por um tempo, mas comecei a reparar cada vez mais nas falhas da minha amada. Ela não era tão boa aqui, deixava a desejar ali. Em algum momento tive que confrontar o problema. Ela foi compreensiva, tentamos algo aberto. Eu podia ter outras perspectivas contanto que não ferissem seus ideais centrais. Chegamos a dar um tempo, mas não teve jeito. Terminamos. Mas agora tá tudo bem, somos bons amigos. Compreendemos as falhas um do outro, onde ela não me satisfaz, e hoje nossa relação está melhor que nunca. O preço da desilusão foi alguma dor, admito. Um período de confusão, alguma culpa, até raiva, mas no final, compreendi que precisava ter passado por tudo isso.

Tive um caso com um paradigma que de início parecia o extremo oposto do meu primeiro amor, mas me atraiu mesmo assim, a contragosto, e quando vi, estava envolvido. Fui seduzido sem perceber, não conseguia largar ele, tinha algo que eu precisava entender, ele me fascinava pela força dos seus argumentos. Já mais maduro e vivido, fui mais cético ante sua promessa de perfeição, e vi seus defeitos um pouco antes, sem precisar passar por todo o processo de ilusão e desilusão. Mas ele me ensinou algo fundamental:

É mais importante a sua postura para com o trabalho do que o trabalho em si.

A palavra paixão, assim como amor, é ampla, e pode significar muitas coisas. Digo que amo minha namorada, assim como amo meus pais, meu travesseiro, viajar, a batata do outback e tantas coisas mais. Amar pode significar desde paixão avassaladora até um leve interesse momentâneo. E aí que mora o perigo. Há quem interprete ‘amar o que faz’ como a necessidade de emoções intensas desde o primeiro dia, um amor constante e inabalável.

Mas o que você percebe ao estudar pessoas que são felizes com seus trabalhos, que alcançaram sucesso profissional e financeiro, e que tem verdadeiramente grande satisfação em fazer o que fazem, amor mesmo, bem, a coisa é um pouco mais complicada. Elas não começaram com essa paixão toda. Ela foi crescendo e se desenvolvendo com o tempo. Na medida em que as pessoas aprendiam mais sobre a área, melhoravam seus conhecimentos e habilidades, seu interesse e liberdade crescia também, assim como a capacidade de se expressar no meio, seja ele qual for. Depois de investir muito, elas colheram os frutos dessa dedicação. Se tornaram capazes de moldar suas rotinas pois se tornaram valiosas, e puderam barganhar mais flexibilidade, maiores salários e etc.

Os traços que tornam um trabalho satisfatório são: Criatividade, Impacto e Controle. Quando você sente que pode expressar sua criatividade, que seu trabalho tem um impacto positivo e que você tem algum controle sobre o que faz, você está num ambiente propício à felicidade. Essas características não são específicas dessa profissão ou daquela, mas podem ser conquistadas em qualquer uma, dependendo do que se ofereça em troca.

O ser humano é preguiçoso, e facilmente seduzido pra caminhos que prometem grandes retornos pedindo pouco trabalho. É coerente com a noção de que eu sou especial, de que eu mereço, de que tudo que eu produzo é ouro (ou no pior caso, tem o potencial de ser, se for um pouquinho trabalhado).

É isso que essa geração cresceu ouvindo, junto com a importância de seguir sua paixão. Realmente, é fácil imaginar uma posição na qual eu trabalho como e quando quero, sou financeiramente bem recompensado, tenho meu impacto no mundo, afinal, eu sou consciente, no meu trabalho irei buscar cuidar do meio ambiente e de causas sociais, farei algo que estimule estilos de vidas saudáveis, imaculado dos sistemas corruptos, das burocracias autoritárias e ineficientes. Tenho liberdade pra agir como quero, recebo reconhecimento e algum status, mesmo que não me importe com isso. E é uma troca justa, pois estou disposto a trabalhar. Não sou preguiçoso, vou me esforçar. Claro que não o tempo todo, não de 8-19h pois isso não é saudável, eu quero curtir a vida, mas compenso com minha eficiência, minha genialidade, afinal, eu sou foda.

Curiosamente essa visão nem é tão exagerada assim. Dela resultam pessoas que largam tudo pra viajar o mundo, na expectativa de se bancarem por meio do blog, cujo conteúdo é a própria divulgação desse estilo de vida. Eles ensinam como largar o emprego e ser feliz, baseado na experiência de quem ainda não fez isso. Mas são tão seguros que vai dar certo, que já começam a ensinar seus passos, e dar aulas, cursos e webinars, e aguardam o natural sucesso por sua postura ousada e correta.

Como um enfoque enorme é dado à coragem, como tantos dizem que ela é tudo que está entre você e seu sonho, os que conseguem reuní-la e dão o salto, pedem demissão, acham que ultrapassaram a última barreira, mataram o chefão, e agora é só curtir. Os detalhes devem se resolver. O site deve encher de leitores, e o dinheiro vai seguir.

Alguns de fato conseguiram, e ficam tão em evidência que recrutam mais e mais soldados para suas trincheiras, querendo ou não. Estudando os casos de sucesso vemos que a coisa nunca foi tão simples, que há um grande e consistente trabalho por trás de todo site bem sucedido. Planilhas de excel, planejamentos semanais, conversas com contador e tudo o mais.

No final, quem consegue um equilíbrio satisfatório entre vida e trabalho, entre surfar, mergulhar no caribe e preencher planilhas com a prestação de contas, seja por ter abandonado sua vida no escritório ou não, tem algumas coisas em comum.

O que minha amante me ensinou foi que mais vale a sua atitude ante o trabalho do que o trabalho em si.

Não temos, necessariamente, uma paixão, uma e apenas uma única coisa que deveríamos estar fazendo. Não existe um Dharma, um caminho único, ou se existe, ele não está fechado numa profissão, é mais amplo, mais abrangente.

Temos áreas de interesses, coisas que gostaríamos de fazer ou com as quais achamos interessante nos envolver nesse momento, mas elas, pra cada pessoa, são tantas e tão amplas que não faz sentido falar “do que você ama”.

É um equilíbrio entre o foco interno e externo. Por um tempo, o problema do “faça o que ama” foi que isso resultou num exagerado foco interno. Tudo que importa sou eu, o que eu recebo, o que eu sinto, como vou me expressar e etc. Presumia-se, ou esperava-se, que o mundo fosse desejar isso ardentemente, que era simplesmente uma questão interna, assim que eu superar meus medos e minha timidez e mostrar quem sou ao mundo, ele vai me recompensar, instantaneamente. É olhar muito pra cá e pouco pra lá.

Ambas atitudes estão incompletas. O pêndulo foi demais pra lá, e compensaram jogando ele demais pra cá. Me parece que agora temos o suficiente pra encontrar, ou vislumbrar ao menos, um equilíbrio mais saudável. Olhar pra dentro o suficiente, buscar se compreender e valorizar a importância da satisfação com o trabalho, de viver bem sua vida e desejar prazer e felicidade. Ao mesmo tempo, olhar pra fora, ter o pé no chão de quem entende o que o mercado pede e oferece, qual a oferta e a demanda, e em diversos casos, quais os sacrifícios que precisam ser feitos, qual a melhor escolha levando os dois lados em consideração. Como vou fazer por merecer, qual a estratégia mais inteligente pra conseguir o quero? E essa estratégia é, necessariamente, a mais correta, a que ajuda os outros, a que é justa. Senão, você provavelmente está se iludindo, e o tempo dirá exatamente como.

É esse o caminho para a satisfação profissional. Ele é mais longo e trabalhoso, mas é real.

A paixão é muito mais o resultado de um aprofundamento e desenvolvimento em uma área de interesse, é o produto “final” de anos de trabalho, e não a motivação inicial para a dedicação nesse ramo. Ela vem com o tempo. Ela vem com a maestria, o desenvolvimento e domínio de habilidades, a conquista da sua voz no meio. Quando você sabe do que está falando, as pessoas param pra te ouvir. Quando faz boas contribuições consistentemente, será recompensado, e terá poder de barganha para moldar a vida como deseja. Trabalhar menos, horários mais flexíveis, tirar um sabático, ou abrir sua própria empresa. Mas pra ter isso, pra saber o que dizer e ter algo de valor a oferecer de forma consistente, vocẽ tem que ralar. Tem que se dedicar de forma a criar esse ‘capital de carreira’. E, em geral, o começo é bem pouco glamouroso.

Porque um artista famoso faz exigências quase absurdas pra trabalhar num show ou filme? Cobram um salário de milhões, exigem limousine, pétalas de rosa, 20 assistentes ou o que for? Porque eles sabem que podem. Eles entendem o seu valor de mercado. Quando o Brad Pitt aparece num filme, isso traz bilheteria, vende ingressos. Ele gera mais milhões do que ele pede. Enquanto isso for verdade, enquanto ele der mais valor do que cobrar, vai ter gente disposta a pagar. E ele pode pedir que todo mundo no set use apenas azul, que o café venha da Malásia e que sua maquiagem chegue de helicóptero.

Os traços de um grande trabalho, que criam uma carreira satisfatória, são valiosos e raros, e você deve, portanto, ter algo igualmente valioso e raro para oferecer em troca. Chamamos isso de Capital de Carreira – as habilidades que você tem a oferecer que são extremamente valiosas para esse mercado.

Se paixão fosse o suficiente, metade dos brasileiros jogaria melhor que o Neymar. Paixão muitos têm, o que falta é treino, prática deliberada, esforço inteligente.

Se quer largar seu emprego, crie um crédito de capital de carreira no novo mercado aonde quer entrar. Quer saber quando é a hora, quando está pronto pro salto? Quando as pessoas estiverem dispostas a te pagar bem pelo que tem a oferecer. Esse é o indicador.

Quer largar seu emprego de analista pra dar aulas de yoga? Como saber qual o momento?

A resposta está em quantas pessoas estão disposta a pagar pela sua aula. E não só os amigos, e não um preço camarada, e não só no primeiro mês. O suficiente pra você viver com conforto, pagar o aluguel da sala, a reforma, as contas e funcionários, e fazer uma reserva saudável pra momentos de baixa. Passada a novidade inicial, o que você tem a oferecer a esse mercado? Se a resposta for “minha dedicação, amor, vou estar sempre melhorando”. Ok, bonito, como isso se traduz? Tem gente querendo pagar? Pagar muito, fila de espera? Ai sim, está pronta. Você gera mais valor que as demais professoras e vai conseguir viver disso. Senão, continue trabalhando, invista mais, faça mais cursos. Ou tenha um estilo de vida que se sustente com o pouco que consegue ganhar. Mas sem ilusões.

Senão você só olhou pra dentro. Olhou, viu que queria isso e foi. Fez só metade do trabalho. Faltou olhar pra fora e ver o que os outros querem. Todo trabalho gera valor ao resolver o problema de alguém. Tem 2 lados que demandam atenção. É simples assim.

Aos que dizem que só é possível se dedicar de verdade ao que se ama, eu trocaria isso por “área de interesse”. Não é ir fazer qualquer coisa, temos claramente áreas nas quais não nos encaixamos. Mas também não tem só uma na qual poderíamos ser felizes.

É sempre uma boa opção seguir suas paixões, dar vazão às suas curiosidades. A coisa pode crescer e virar um trabalho, ou se manter como um bom hobby. É uma forma de estar explorando novas possibilidades e se estimulando, se colocando fora da zona de conforto de uma forma inteligente. Onde quer que esteja, busque aprender o máximo possível, ser útil e entender como pode gerar mais valor alí, até se destacar, se quiser. Em alguns casos mudar de emprego ou área será necessário, mas é mais importante fazer isso com o mindset certo. Com a postura, vontade e paciência de quem quer trabalhar e se desenvolver, de pensar “o que eu posso oferecer ao mundo”, e não o contrário.

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Alguns livros, mais do que outros, serviram de inspiração e uma valiosa fonte de informações para o tema. Destaco aqui os 3 que mais se destacaram. “So Good They Can’t Ignore You” do Cal Newport. “O Elemento Chave” do Ken Robinson e “Mastery” do Robert Greene.

Como eu uso o Facebook

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Acho que como a maioria das pessoas, já me percebi perdendo tempo demais no facebook, vendo informações que não me acrescentavam em nada e as vezes até me faziam mal.

Ouço constantemente pessoas reclamando do facebook, em como perdem tempo nele ou que acabam se sentindo mal por usar demais. Por um tempo eu me senti procrastinando muito ali, assistindo brigas de egos, pensando em responder algo absolutamente sem importância e ainda assim me sentindo culpado por continuar entrando. Pensei em cortar completamente, mas pesando prós e contras, ia deixar de saber de muita coisa bacana também. Resolvi ir mudando, e acabei chegando num formato com o qual estou absolutamente satisfeito.

Sinto que ele me acrescenta em muito, me permite descobrir diversas coisas legais, e achei que valia falar sobre como cheguei a esse ponto.

Logicamente, essa personalização que fiz vale pra mim, pros meus valores e interesses, de acordo com a minha rotina e estilo de vida, não acho que é A forma certa ou que outros deveriam ser assim. Apenas digo o que fiz caso alguém ache de alguma forma útil.

Vou começar com um exemplo. Entrei agora na minha Timeline.

Na ordem, essas são as primeiras 20 coisa que apareceram:

1. Texto/atualização de uma amiga, a opinião dela sobre o prefeito de São Paulo. – Gostei de saber, é uma amiga querida, me interesso por saber o que ela está pensando (eventualmente, e ela não exagera na frequência em que diz algo), e é um assunto que me atrai, já li algumas coisas positivas sobre o Dória, e gostei de ver o breve ponto de vista dela.

2. Texto de um autor que sigo – Um pedido ao leitores pra responderem naquele post frases que te marcaram, para um trabalho desse autor. Eu respondi e achei válido ter participado.

3. Link de autor que sigo – Um excelente texto sobre o mercado de auto-ajuda e os experts, sendo o relato de alguém que trilhou esse caminho. Em inglês. Adorei ter lido, nunca teria encontrado de outra forma, e é um assunto sobre o qual muito me interesso (e que não é, em geral, sobre o que esse autor costuma falar).

4. Amigo compartilhando um vídeo fofo. – um pai e uma filha tocando violão.. Não assisti, mas acho bacana de vez em quando saber o que esse amigo está pensando e fazendo. Ele mora longe, e não posta com tanta frequência.

5. Texto de autor que sigo – uma reflexão do Alex Castro sobre nossa noção de estética, contando um caso da vida dele. Bem interessante, curto e bem escrito.

6. Opinião aleatória de uma amiga, levemente engraçada – uma amiga que está viajando, gostei de ouvir um pouquinho dela e saber que está se divertindo lá.

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7. Divulgação/convite sobre a peça de um amigo – gostei de saber. Na verdade, já sabia, mas me lembrei de quando é e onde, e to querendo ir. Gosto de divulgação de peças, preciso ser lembrado constantemente de quando e onde é cada uma, especialmente a dos meus amigos, pois mesmo se eu não puder ir, gosto de saber quem fez o que, e depois conversar sobre.

8. Link de autor que sigo – sobre ensinar inglês no exterior. Fiquei levemente curioso, mas não cliquei pra ler depois.

9. Vídeo compartilhado por uma amiga, bem interessante. “Bored Panda”, uma animação com objetos não se comportando como vc esperaria (ovos quicando ao invés de quebrar, etc). Bem feito, curioso e algo que eu nunca teria visto de outra forma, bem curto, bem bacana.

10. Vídeo compartilhado por um amigo sobre a situação da vela (esporte) no Brasil – não é uma área de interesse específica minha, mas achei bacana o gesto (porém, agora, não assisti).

11. Link de autor que sigo, sobre o ativismo na era do Trump – bem interessante, já li outros no mesmo assunto, no momento não quis ler esse.

12. 9GAG, fotos de uma modelo – Não cliquei, mas volta e meia acho bacana os posts do 9GAG, que eu sigo.

(propaganda)

13. Post de personalidade que sigo – Schwarzenegger (que eu sigo) falando sobre seu encontro com o papa. Achei minimamente interessante, mas não cliquei pra ler mais.

14. Vídeo do Cirque du Soleil (que eu sigo) mostrando partes de uma apresentação. Incrível. Adoro ver o que os caras tem feito. Já fiz aulas de circo, tenho um ex-professor atualmente trabalhando lá, li um bocado sobre o Cirque, então gosto de ver o que estão fazendo por uma curiosidade tanto estética quanto empresarial.

15. Flyer de uma amiga sobre nossa posição no ranking de bem estar animal – uma amiga querida, que trabalha com veterinária. Não fazia ideia nem que esse ranking existia, gostei de saber dessa iniciativa, e ver o continuado envolvimento dela na área.

16. Aviso que uma amiga tem interesse num evento (em Minas) – por ser em minas eu não vou, mas fico sabendo de muitos bons eventos assim.

17. 9Gag – 16 atores ao lado das figuras históricas que eles interpretam – Potencialmente interessante, mas não cliquei.

(Propaganda)

18. Vídeo compartilhado por figura que sigo: “years of living Dangerously” – Vi apenas um pedaço, mas achei legal. Em outro momento veria inteiro, me pareceu inspirador e bem feito.

19. Foto de um amigo e sua namorada – achei fofo.

20. Texto de autor que sigo – do Alex Castro sobre críticas e a forma que as pessoas lida com ela.

Eu não filtrei isso de nenhuma forma, nem dei uma olhada pra ver se estaria legal pra compartilhar. Nem ia falar da minha timeline, mas quando comecei a escrever mais abstratamente sobre o assunto, achei que o exemplo falaria mais alto.

Segui mais um pouco depois, e é esse padrão mesmo. Há momentos com mais post de amigos, outros com mais coisas de canais, mas em geral, é por ai.

Como não assisto TV ou leio jornais, boa parte do que sei sobre atualidade me chega pelos comentários ou links compartilhados por amigos. Toda semana, quase todo dia, leio algum artigo que acho incrivelmente interessante, tanto de assuntos que já estou pesquisando  quanto de coisas totalmente fora do que penso normalmente. De vez em quando resolvo mergulhar mais no assunto, e outras ficam só de curiosidade mesmo.

Fico sabendo de eventos, peças, festas, exposições, e acho que mais da metade dos últimos eventos que fui, eu fiquei sabendo por meio do facebook (nunca propaganda, sempre por amigos ou pessoas que sigo, compartilhando). Sigo atores que admiro, companhias de teatro que também divulgam tanto peças quanto workshops e oficinas que adoro fazer.

Gosto muito de saber dos meus amigos, especialmente os que estão longe, mas ai mora

um grande perigo. O potencial procrastinador disso é infinito. Então a solução é ter um bom equilíbrio entre posts apenas pessoais (um amigo falando da sua viagem por exemplo, ou só dando sua opinião a quem quiser ouvir), coisas úteis, como uma amiga compartilhando algo, e posts de terceiros, de canais, autores e personalidades.

Consegui um bom equilíbrio ao longo do tempo, tanto deixando de seguir (ou deletando) pessoas cujos posts me incomodavam ou eram em sua maioria superficiais ou inúteis (na minha opinião, é claro. E estou exagerando levemente aqui por motivos de simplicidade), quanto ao começar a seguir canais, autores e personalidades que postam quase que sempre coisas interessantes. Gosto de ver opiniões diferentes das minhas, então tenho amigos que defendem o Bolsonaro por exemplo, mas apenas quem o faz de uma forma interessante (o que é raro, admito).

Com o tempo, fui passando a ter quase que apenas pessoas com hábitos de compartilhar e postar coisas legais. E não demorou tanto. Via de regra, menos de 50% do meu feed é de amigos.

Sigo alguns autores e canais, e volta e meia escolho a opção “mostrar primeiro”. Os meus favoritos são o The School of Life, que posta 2 vezes por semana vídeos incríveis sobre relacionamentos, trabalho, filosofia e reflexões sobre a vida, além de trechos de livros e outros pensamentos. O TED e o TED-Ed, vejo toda semana alguns vídeos deles, gosto de receber essas atualizações, boa parte assisto na hora, outra deixo pra ver depois (e sempre vejo). O “I Fucking Love Science” tem vídeos e artigos interessantes, mesmo que eu não clique em todos, volta e meia tem algum que vale a pena. Sigo o Hypeness, mas esse abro os artigos com menor frequência. Sigo também umas poucas bandas e músicos que gosto, e fico sabendo dos shows.

De autores, sigo o Tim Ferriss, e quase sempre leio ou assisto o que ele posta, o mesmo vale pro Derek Sivers, Tynan, Alex Castro, Michael Sandel, Sir Ken Robinson, Tony Robbins e o Andrew Solomon. Mas eles costumam postar com uma frequência menor. O Sam Harris eu não leio tanto assim os artigos, mas ainda assim bastante do que ele fala me interessa.

(o que faz meu computador ter, praticamente a qualquer momento, pelo menos 3 abas abertas de textos que quero ler)

O resto fica num mix de coisas interessantes, meras curiosidades ou só um besteirol mesmo. Sigo o 9GAG por exemplo, mas clico com pouca frequência. Sigo outros canais, que não priorizo (mental floss, kurzgesagt, mundodasmarcas), então o grosso mesmo são esses que mencionei aqui.

A quantidade de coisas boas que descobri por meio do facebook, por recomendação de algum amigo ou canal, é enorme. Atualmente, acho que tenho uma boa relação com o facebook, entro todo dia, mas não fico tanto tempo, até porque to sempre clicando em algo que leva tempo pra ser consumido (textos longos, vídeos, etc). Eu mesmo posto poucas coisas, de vez em quando compartilho algo que acho que tem valor. As vezes acho que exagero um pouco e procrastino mais do que deveria, realmente perco tempo, mas também em outros momentos fico dias sem entrar e não sinto honestamente nenhuma falta. Então, posso e pretendo melhorar minha interação.

Vejo fotos bonitas, fico sabendo de quem viajou pra onde, quem ta fazendo o que, mas numa proporção boa com assuntos mais “intelectuais”. Talvez eu naturalmente não seja tão interessado assim nas novidades, mesmo dos meus amigos, então depois de pouco tempo já estou cansado e vou fazer outra coisa. Pode ser que isso me facilite a ter uma relação que considero mais saudável e útil com o facebook, mas ainda assim me policio constantemente, pois sei que posso facilmente me perder e ficar procrastinando e perdendo tempo. Sei que é muito fácil começar a se comparar com os outros e entrar numa espiral de sentimentos negativos.

Existe um trade-off ao parar de seguir alguém, pois muita gente é amiga o suficiente pra eu me interessar em saber o que a pessoa fez, mas, por outro lado, acaba postando muita coisa que não gosto, sejam reclamações, críticas feitas num estado que prefiro não ler, e compartilhando coisas que acho que são perda de tempo ou fazem mais mal do que bem. Preferi pecar pelo excesso e correr o risco de deixar de saber de algo legal pra ter menos disso. Então, deixar de seguir algumas pessoas foi um pouco mais difícil, mas no final, acho que valeu a pena.

Criei uma página para postar apenas textos meus (Escrevinhanças), mas eu basicamente escrevo fora, entro, posto e saio. Tem pouquíssimos seguidores, e, portanto, quase nenhuma interação, o que me faz gastar quase nada de tempo ali. Pretendo postar mais, mas imagino que isso vá aumentar o meu tempo escrevendo, e não no facebook de fato.

Pode ser que eu venha a mudar minha relação com o site, provavelmente passando a usar ainda menos, mas, no momento, é assim que uso o facebook, e estou bem satisfeito com o que ele me proporciona. Tem muita coisa legal sendo dita e compartilhada. É só criar espaço pra elas, é só tirar o resto.