Black Friday

É a sexta-feria depois do dia de Ação de Graças nos Estados Unidos. Acho curioso o nome. No Wikipedia diz que é quando os comerciantes saiam do vermelho com o lucro das vendas com descontos, e passavam a escrever em preto na contabilidade, o que originou o termo. Se é ou não eu não sei, mas é um dos poucos usos sociais onde o termo Black (preto) não tem uma conotação negativa.
As raízes mais profundas dos nossos preconceitos e racismos herdados, e muitos (infelizmente) ainda vivos, se mostra através da língua. Usamos termos como lista negra, magia negra, hora negra, até o gato preto virou sinônimo de azar aos supersticiosos. O Black Friday não, esse fala de descontos. É curioso também que no Brasil traduzimos alguns termos e outros não. Não sei quem decide isso, tenho pra mim que é um velho no alto de uma colina, numa casa isolada e de difícil acesso, e um pessoal pega um termo novo, faz a jornada pra mostrar pra ele e espera. Ai do nada ele grita “Thanksgiving não, vai ser dia de Ação de Graças!”, “Delete? Mantém, só coloca um ar no final”, “Black Friday? Deixa assim, ta bacana!”.

Ai entra a competitividade e a Black Friday vira a Black Week e depois Month. Daqui a pouco vai ser o Year todo. Mas também surgem os famosos “metade do dobro”. Diversos comerciantes aumentam sistematicamente os preços antes do tão esperado dia, e assim anunciam descontos cada vez maiores. E aqui fica evidente mais uma das parcialidade humana, mais uma fraqueza do nosso cérebro não tão racional assim. Somos pré-calibrados a comparar preços (e coisas em geral), não pra fazer análises em absoluto. Assim anúncios como “Essa camisa está com 80% de desconto” chamam mais atenção do que um onde o preço final seja ainda menor (pra mesma camisa). Pago 300 reais num par de tênis e 100 numa camisa não porque valorizo o calçado 3 vezes mais que a camisa, mas simplesmente porque esses são os preços. Me balizo pela oferta. O mais louco são pessoas que estavam perfeitamente felizes com suas compras e deixam de estar ao saber que um amigo conseguiu o mesmo produto por menos. Ninguém quer se sentir otário, e não existe preço justo, existe o quanto o meu vizinho pagou.

Mas é isso, como sociedade gostamos de comprar, gostamos mais ainda de descontos, e ninguém vive esses desejos melhor que o povo do Tio Sam, então mais do que justo que essa “tradição” tenha começado por lá. Já escrevi sobre o minimalismo como resposta ao consumismo. Acho que cada vez mais devíamos trocar quantidade por qualidade. Se vou ter apenas um par de tênis, gasto um tempo maior pesquisando, pensando no assunto, buscando um que vai atender exatamente às minhas necessidades. Em alguns casos até criando ou personalizando o produto. Essa dedicação faz com que valorizemos nossas coisas, e há quem diga que um dos segredos da felicidade não é ter tudo o que se deseja, mas desejar tudo que tem. Quando investimos um pouco mais antes da compra, dedicamos tempo e atenção e fazemos uma decisão mais consciente, e assim colhemos uma maior satisfação mais pra frente.

Fiquei alguns dias considerando que computador comprar, quanto gastar, pra que iria usar e etc. No final decidi comprar um Imac. Além de ser uma excelente máquina, tem um valor estético que me agrada, fica bem no meu quarto e eu adoro não me preocupar com vírus e tantos outros detalhes. Ainda encontrei um preço bom, comprei “usado” no Mercado Livre, fora da caixa mas com menos de um mês de uso e até hoje nunca me deu problema. Procurar se dar bem comprando algo de má qualidade quase sempre é o barato que sai caro. Mas o oposto nem sempre é verdade, em muito mais vezes do que eu imaginava o caro que saiu barato nem foi tão caro assim. Foi só buscar um pouco mais e não aceitar algo mais ou menos. Não tem como não citar o Breshop. Brechós são black fridays o ano todo, e esse pertence a um casal de amigos gente boníssimas.

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Esse foi o primeiro do desafio “Um texto por Pessoa”, onde me propus a escrever um texto com o tema, título ou quaisquer condições imposta pelos meus amigos. Nesse caso, o incrível Hernane Cardoso!

Sobre Criatividade e Confiança

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Quando eu era pequeno gostava de brincar sozinho. Como eu brigava muito com a minha irmã tive que desenvolver essa habilidade. Adorava brincar de bonecos. Tinha vários. Nessa época meu pai viajava muito a trabalho para os EUA e quase sempre me trazia um. Mas como eu brincava sozinho as brincadeiras foram ficando cada vez mais na minha imaginação. Especialmente porque eu não gostava quando tinha alguém perto ouvindo o que eu falava, passei a fazer isso mentalmente. Com o tempo vi que não precisava mexer muito os bonecos, so ficar com eles ali, sentando no meu quarto (que eu dividia com a minha irmã) era suficiente. Eu tinha histórias longas, e eu continuava de onde tinha parado no dia anterior. Sempre que via uma cena legal num filme ou desenho, trazia isso de alguma forma pra brincadeira, pro boneco da vez. Ele assim ia evoluindo, herdando habilidade dos personagens de filmes de luta e meus desenhos favoritos. Olhando pra trás é interessante observar o tipo de desafio e histórias eu criava, e como elas foram mudando com o tempo, se tornando mais complexas conforme eu crescia.

Um dia fomos viajar e eu não levei os bonecos, ou por algum motivo não os tinha comigo e tive que improvisar. Estávamos num quarto de hotel e sem nenhuma privacidade, então reduzi ainda mais os movimentos e poucos barulhos que fazia. E me diverti. De alguma forma o que eu passei a fazer nem era necessariamente brincar, era quase o trabalho de um escritor, mas ao invés de escrever as histórias eu só as assistia. Esse processo continuou de alguma forma até hoje, mudando e diminuindo a frequência. Foi o que me deu tanta facilidade quando entrei no teatro e especialmente no improviso. Ter que criar histórias na hora, e ir reagindo quase que instintivamente às ideias dos outros me parece extremamente natural, e mais do que isso, absolutamente divertido. Talvez a maior mudança tenha sido em aprender a aceitar a intromissão dos outros. Brincando sozinho eu, apenas eu, era o criador de tudo. Tudo seguia exatamente como eu quisesse, não havia discussão ou quaisquer atrito. Mas essa mudança foi bastante suave e orgânica. E acho que foi assim pois entrei no teatro mais velho, quando já estava na faculdade. Tinha melhorado sensivelmente minhas habilidades sociais, e a interação com outros no campo das histórias foi uma novidade muito bem vinda.

Seguindo com o improviso cheguei a montar uma peça com uns amigos. As pessoas sempre nos elogiavam pela nossa criatividade e diziam que não seriam capazes de fazer o mesmo. Nesse ponto acho que tive sorte. Não em ser criativo, pois creio em absoluto que todos o são e têm o potencial de ser mais, mas na confiança quanto à minha criatividade.

Além de brincar sozinho, outra forma de entretenimento que eu tinha era desenhar. Adorava, e o ato de praticar constantemente me deixou acima da média em termos de habilidade. Isso não é um grande feito, pois assim como não se veem criativas, a maioria das pessoas tem vergonha de suas habilidades artísticas. Elas não só evitam desenhar e pintar, como elogiam excessivamente os que o fazem minimamente bem. Quase sempre super-valorizamos o que não temos (e desejamos), e sub-valorizamos o que temos. Na prática isso se mostrou com mais elogios do que o merecido, que me estimulava a desenhar mais e naturalmente melhorar. Assim devo ter aceitado comentários a respeito da minha criatividade. Imagino que o ato de brincar como eu brincava tenha me treinado a criar cenários e contextos complexos na minha cabeça, então quando eu compartilhava alguma parte disso com os outros era novamente visto como criativo.

Um traço da minha personalidade que ajudou também foi o de sempre buscar um ponto de vista diferente. Algumas vezes me rendeu o apelido de do-contra, mas, mais do que isso, me trouxe oportunidades de ser visto como engraçado. A comédia na maioria das vezes tem um quê de surpresa, ela conta com o inesperado. E como, por algum motivo, boa parte dos meus pensamentos é inesperado para os outros, foi simplesmente uma questão de tempo até eu descobrir que podia fazer os outros rirem com certos comentários. Acho que até a faculdade esse comportamento foi impensado, quase uma reação instintiva.

Nunca de fato pensei em mim como alguém engraçado, nem quis “fazer piadas” em grupos. Só fui ficar consciente de que isso era um traço particular meu num encontro de ex-alunos do colégio. Assim que cheguei um amigo ao me cumprimentar disse logo “Vai Moitta, fala algo engraçado”. Foi ai que eu percebi que nesse quesito meu comportamento era diferente dos demais. Eu nunca tinha reparado nisso dessa forma. É como a meu jeito de andar. Ninguém pensa sobre ele em relação ao dos outros. Se me perguntarem, sim, eu ando do meu jeito, e cada um tem o seu, mas é meio que a mesma coisa, a gente só anda e pronto. O “ser engraçado” era a mesma coisa. Todo mundo fala algo engraçado de vez em quando e, num grande grupo, especialmente na época do colégio, o somatório de todos os gracejos faz com que estejamos rindo quase que o tempo todo. Eu nunca atinei para o fato de que eu fazia mais contribuições que a média até esse dia.

Hoje tenho total consciência de quanto aprecio a comédia. Adoro ver um stand-up de qualidade, bons textos, peças, filmes e etc. E tenho paixão pelo improviso, pela adrenalina de criar a história em tempo real, tendo que reagir ao inesperado, e percebo como um bom timing de comédia pode fazer toda a diferença numa cena.

Fato é que tudo isso me fez ter uma auto-imagem de alguém criativo. E o feedback dos outros quase sempre veio a confirmar essa visão. Mas a verdade é que todos são criativos, todos os dias, mas infelizmente muitos em áreas onde não são apreciados. Muitas vezes nem chegam a comentar com os outros as soluções criativas que tiveram, e pior que isso, nem chegam a perceber e valorizar quão criativos foram.

O Sir Ken Robinson é na minha opinião um dos maiores educadores vivos, e ele define criatividade como “o processo de ter ideias originais que têm valor”. Primeiro, é um processo, não apenas um resultado. Segundo, são ideias originais. Mas isso não significa que tenham que ser inéditas. Muitas vezes a originalidade esta em usar algo já existente de outra forma. E o ponto final que é o mais importante, que é isso ter valor. Se você resolveu um problema, por menor que seja, isso tem valor. Se usou a torradeira pra fazer um waffle isso pode ser original pra você. Tem valor pra você, e como processo mostra um bom uso do método. Fez ligações incomuns e gerou um resultado que de outra forma não existiria assim.

Logo, se tornar criativo não é a questão. Você já é, pois é único e pensa e age no mundo de uma forma só sua. No entanto o mundo tem muito a ganhar com mais pessoas tendo a confiança criativa. Com mais pessoas buscando resolver problemas, fazendo novas conexões em assuntos antigos e assumindo um papel de criador, que é necessariamente oposto ao de vítima.

Acho que cada um devia simplesmente aceitar que é criativo e celebrar cada pequena manifestação. Quem quiser acertar mais tem que tentar mais. E no começo é normal errar mais ainda, para toda habilidade há uma curva de aprendizado. Começamos fazendo muitos erros, mas progredimos rapidamente.
Sair da zona de conforto. Cada vez mais essa sugestão parece clichê, mas é 100% real. Sair da zona de conforto significa se colocar em situações limite, onde sua habilidade está abaixo da requerida para o sucesso. Assim você se força a ser criativo, a dar a cara a tapa, e a se recuperar quando falhar. Você simplesmente precisa de um contexto no qual há motivação para fazer algo levemente acima do seu nível, recursos limitados e alguma segurança pra falhar e tentar de novo. No livro “O Código do Talento” (que recomendo bastante), essa é exatamente a fórmula.

Costuma-se atribuir criatividade à ações no ramo da arte, como pintar ou compor uma música. Mas a realidade é que toda e qualquer atividade humana pode ser realizada de forma criativa. Em geral o que falta não é inteligência, sagacidade ou genialidade, mas apenas confiança.

Embaixadores da Moral

O papel da filosofia no dia-a-dia costuma ser muito negligenciado. Visto como monopólio de uma entediante elite acadêmica, temos perdido grandes oportunidades de crescer como pessoas e como sociedade ao evitar o debate público sobre temas como moral, ética e religião. A demanda reprimida se mostra mais claramente quando surgem figuras públicas com opiniões sólidas e bem apresentadas. Eis aqui dois dos principais embaixadores da Moral no momento.

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Sam Harris é um autor incomum. Não apenas pela habilidade em organizar os pensamentos, no uso da lógica na argumentação e clareza dos pontos de vista, mas em sua escolha em discutir publicamente temas polêmicos. Ele defende que é extremamente prejudicial haver quaisquer restrição em se falar abertamente sobre moral e ética de uma forma secular. Em seu livro “A Paisagem Moral” ele argumenta como é possível ter uma moral baseada apenas na razão e na ciência, que existem sim respostas certas e erradas quando se fala da experiência de seres conscientes. Ele deixa claro a diferença entre reconhecer a existência de uma resposta e nossa capacidade prática de chegar a ela.

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Outro autor têm feito um incrível trabalho em impulsionar o debate público sobre moral e ética. Michael Sandel é um professor de Harvard de Filosofia Política, além de autor de alguns livros como: “Justiça: o que é fazer o certo” e “Os Limites Morais do Mercado: o que o dinheiro não compra”. Seu curso foi o primeiro a ser disponibilizado gratuitamente online e virou uma sensação. Ele é tido como um Rockstar da filosofia. Em toda aula o formato é de debate, discutir a partir da posição de parlamentares, daqueles que criam uma lei, como deliberar sobre o que é o certo em cada situação. Isso por si só já seria suficiente pra um curso excepcional, mas aonde o Michael se destaca ainda mais é pela escolha dos exemplos. Atuais, reais e representando muito bem o tema em discussão. Uma das aulas é sobre deveres cívicos e se uma estrutura de mercado deveria se aplicar por exemplo ao preenchimento das fileiras militares. os alunos discutem com argumentos e contra-argumentos, aprofundando exatamente o que entra em questão quando falamos sobre alistamento militar, patriotismo e as obrigações morais do contrato social. Depois ele fala sobre a guerra do Iraque, onde houveram mais tropas contratadas do que do exército americano. Mais rodadas de argumentos contra e a favor, mas cada um sendo forçado a dizer exatamente o que há de errado em um exército mercenário ou porque seria importante para a sociedade ter seus membros lutando por ela. Em outra aula há o caso de uma empresa situada na Índia que provê o serviço de barrigas de aluguel. Assim um casal que não queria passar pelo desconforto da gravidez doa o óvulo e o esperma a uma indiana que terceiriza o serviço. Naturalmente a conversa toca na desigualdade social, nas diferentes escolhas das pessoas e exatamente quando uma preferência deixa de ser saudável.

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O principal ponto é o quão inexperientes somos em relação a debates. Quão incomum é à grande maioria o terreno de discussões profundas e respeitosas. Frases como “Política e religião não se discute” são representantes de uma visão onde discutir = brigar. Isso vêm de um contexto onde se valorizam as aparências mais que os conteúdos. Onde fazer sala é importante, há de se conversar, e o ato é tudo. Assim não importa o conteúdo, e, inclusive, se algum conteúdo afeta a forma, da a impressão de desarmonia, melhor evitá-lo. Discutir, conversar, argumentar sobre um assunto é a melhor forma de chegar a conclusões. Vivemos em sociedade, optamos pela democracia, então a arte do debate democrático é fundamental para tomarmos as melhores decisões enquanto grupo de pessoas.

Há ainda o incômodo que vêm da quebra da ilusão. Quem é apegado à auto-imagem de alguém culto, com opiniões racionais e bem fundamentadas muitas vezes evita colocá-las a prova, pois no fundo sabe que podem não resistir. E há o mito do não decidir. Se algo é difícil, controverso ou complicado demais, alguns dizem que preferem não se manifestar. Mais uma vez um sintoma do mundo das aparências. Numa visão de curto prazo realmente essa postura oferece uma saída pela tangente e evita uma gafe social. Mas no mundo em que vivemos as decisões são tomadas. Ou se é a favor ou contra. Não existe neutralidade. Posso até ter a minha opinião e não agir por outros motivos (não vale o investimento de recursos no momento ou outra razão) mas não há abstenção real. No Brasil por exemplo o aborto é ilegal. Ou você concorda com isso ou discorda. Há pontos mais completos a serem feitos, mas no final ou está de acordo com que a lei exista ou não. Isso não significa que vá de fato lutar pra mudar, cada um tem o ativismo político que preferir, mas dizer que não tem opinião sobre o assunto (e portanto não vai fazer nada) é seguir o status quo, e validar, mesmo que por inércia, a decisão vigente. Sobre esse ponto é cabível a frase “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Tanto Michael Sandel quanto o Sam Harris trazem ao grande público a importância do debate, da troca de ideias. Ambos conseguem falar a um grande número de pessoas sem simplificar os assuntos, mantendo a complexidade dos fatos onde ela é devida. Mostram que o lugar da filosofia (pelo menos de parte dela) é no dia-a-dia, que tomamos decisões e fazemos julgamentos a todo instante, e não discutir conscientemente o assunto é permitir diversas inconsistências e mesmo uma estagnação intelectual.

Somos adestrados a evitar o erro mais do que buscar o acerto. Temos medo do ridículo, de pagar mico e fazer papel de bobo, então buscamos ficar onde é seguro, onde sei que não vou errar. Seguindo essa tendência criamos uma série de regras sociais que não apenas é indiferente à conversas profundas, como costuma mesmo ser hostil a elas. Desestimulamos toda troca que possa ir por um caminho sensível, que possa gerar um desconforto mesmo que momentâneo. Pessoas como Michael e Sam evidenciam o preço dessa alienação semi-voluntária. Não decidir é uma ilusão que significa deixar seu voto ir com a maioria. E, em geral, tanto na esfera pública quanto na privada, quando outra pessoa decide por você o resultado não é o que você gostaria.

Além dos livros, Michael Sandel e Sam Harris têm palestras online, no TED e tantos outros eventos disponíveis a quem quiser experimentar o tom e estilo de cada um. É sempre importante estar atento às nossas imparcialidades. Assim como sabemos que nossos instintos alimentícios não são confiáveis e levariam à obesidade sem o controle da razão, o mesmo vale pra tantas outras esferas. Um debate consciente traz a tona novos pontos de vista, estimula a pesquisa sobre o assunto, evidencia nossas falhas argumentativas e é uma excelente forma de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. A cereja do bolo: esses livros contém uma escrita ímpar, que torna a leitura fácil e deliciosamente agradável.

 

Sobre não Mentir

O quanto você mente? Pequenas mentiras, mentiras brancas…apenas para agradar, essas podem, né? Qual o ganho de não mentir?

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Poucos momentos tiveram um impacto tão grande, e imprevisto, em minha vida como o momento em que decidi fazer um voto de não mentir. Após esse momento, qualquer pequena mentira ganha uma proporção épica, pois você não só está mentindo, o que por si só, no fundo, já gerava algum incômodo, mas está quebrando um voto.

Nunca me considerei um grande mentiroso, pelo contrário, apesar de não pensar muito no assunto, acho que se me perguntassem, antes disso, eu me diria acima da média em termos de honestidade. Uma mentira aqui ou ali, sim, mas nada grande. Fazer o voto me fez, imediatamente, perceber o quanto eu mentia. Não que eu mentisse muito, pelo contrário…mas, ainda assim, mais do que eu teria imaginado. Mas, mais do que a quantidade, o que me espantou foram os motivos. A grande maioria era por motivos completamente desnecessários, e tantas outras eram simplesmente uma pior escolha do que dizer a verdade. Ou por puro hábito. E quantas mentiras, também, não geravam o efeito contrário?

Em poucas semanas, o processo que se deu foi mais ou menos assim: no início, eu mentia. E, pouco depois, percebia o que tinha feito. Irritava-me e refletia no motivo pelo qual eu havia mentido naquele caso, e qual seria a opção, o que deveria ter falado. Gradualmente, o tempo entre a mentira e a percepção foi diminuindo. Às vezes, percebia segundos depois, e comecei a me forçar a corrigir, voltar atrás, me desculpar e falar a verdade. Eventualmente, esse tempo chegou a zero, quando eu me peguei ficando consciente no exato momento, na iminência de mentir.

Uma opção que tive que seguir, muitas vezes, foi o silêncio. Até hoje, se não tenho nada real para falar, o silêncio é sempre uma boa escolha. Mas, houve um período de ajuste, de ir testando os limites e ver onde quero de fato estar. Tive períodos de longos silêncios, falando bem pouco.

Outro extremo foi ser desagradável pela desculpa de não mentir. Então, falar que não gosto de alguém na cara, e coisas do tipo, era um tipo de atitude que eu me forçava a ter, mas mais para frente, percebi que estava racionalizando outras vontades. É impossível falar tudo que se pensa, pois pensamos muito mais palavras por minuto do que somos capazes de falar. E curiosamente esse meu zelo pela verdade existia para falar mal de alguém, mas não estava tão afiado na hora de me abrir emocionalmente, especialmente com pessoas menos íntimas.

O não mentir é uma regra boa por ser prática, fácil de seguir no dia-a-dia, não requer muita interpretação, mas o objetivo é maior, é ser honesto, autêntico. É mostrar-me como sou, para os outros e para mim. É, certamente, parte de me auto-conhecer, e me aceitar. Na caminhada, vi o quanto eu inventava coisas que não lembrava, mas tinha a sensação de estar certo. Simplesmente inventava dados, pois eu tinha uma conclusão, e queria que a pessoa chegasse a ela, mas às vezes, meus argumentos não eram suficientes, então eu criava um. Isso foi me mostrando o quanto, muitas vezes, quem tinha que rever a conclusão era eu, e não ficar irritado com o fato de o outro não ter aceitado essa conclusão como você.

Somos emocionalmente apegados às nossas opiniões e, mais ainda, à realidade de quão pouco racional ela é, ou quanto à sua fragilidade real. É uma das nossas grandes parcialidades. Meu pai me perguntou outro dia se existia o aplicativo do Gmail pro Ipad 1. Eu disse que sim. Ele fez uma cara meio descrente, e na hora eu me incomodei com isso e meu instinto foi de reforçar minha primeira afirmação. Porque eu não sei exatamente, mas essa é a vontade. A verdade é que eu não tinha certeza, mas me parecia fazer sentido que sim. Como não existir o app? Não fazia sentido. E esse universo de aplicativos e celulares é algo com o qual convivo bastante, admitir não saber, é admitir ter um conhecimento menor do que eu tenho. Mais do que isso, diz sobre o meu processo mental. Se me perguntam se eu tenho uma cama, o processo mental é visualizar a minha cama, há uma sensação e a resposta: sim. Só que, às vezes, essa visualização é imaginada. Mas, tão bem imaginada que me engana, que encaixa. Admitir o erro é admitir uma falha num processo, um que uso o tempo todo, e que é muito custoso passar a duvidar dele, é certamente fora da zona de conforto. E o inconsciente, ou algo assim, luta para evitar isso, para preservar esse ‘status quo’.

Essa nova regra (não mentir) me ajuda a corrigir, ou olhar para isso quando é necessário. No caso, eu já evito o erro antes, dizendo “eu acho que sim”, ao invés de “sim”. E antes de falar, já aceitei a hipótese de estar errado, e isso faz toda a diferença. Mudar o significado de estar errado, especialmente quando ele não era exatamente consciente, de “se errei eu sou um merda”, para “legal, aprendi algo novo, agora sei mais que antes” fez uma enorme diferença. A mentira é o grande atalho que pegamos para diminuir a distância entre quem sou e quem quero ser. Nesse caso, o ‘quem quero ser’ é para os outros. Exceto quando minto para mim também.

Os longos silêncios tiveram vários ganhos secundários, também. Mas, o maior deles foi a organização do pensamento. Muitas veze, para não mentir e continuar tendo as conversas que queria, eu tinha que me forçar a lembrar de detalhes que antes simplesmente não pensava, comecei a ser bem mais específico, mais exato. Percebi como minha memória melhorou depois disso. Em diversos casos fui pesquisar, reler ou buscar a fonte de algo que falei numa conversa, mas não lembrava exatamente.

E outro ganho que eu realmente não esperava foi o da tranquilidade constante. Acho que assim como o peixe que nunca percebeu a água, pois viveu sempre nela, só percebi a ausência da ansiedade e o desconforto que mentir causam quando consegui parar (ou diminuir muito). Uma tranquilidade constante ao ser questionado ou de retomar pontos de conversas anteriores, algo como um “não ter nada a temer”. São coisas pequenas, nada dramático como um criminoso que agora leva uma vida honesta, mas muito maior do que eu imaginaria.

Há uma certa exaustão mental em mentir, ficar criando o que vai ser dito, validando se isso é verossímil, falando e tendo que manter um registro mental para depois, tudo feito semi-automaticamente e em segundos, mas ainda assim fatigante. Nunca tinha me dado conta do impacto que isso tinha até ficar sem. Assim como um zumbido constante que você se acostuma, e nem percebe mais, até ele parar e você perceber o quão mais agradável é o silêncio. É a mesma coisa.

Uma maior clareza mental acho que veio, em grande medida, da combinação do exercício de memória, de tentar ser mais preciso, junto com mais silêncio – que facilita a reflexão e a organização dos pensamentos. Algo como criar um ambiente mais propício na sua mente. Além do hábito de falar a verdade, se confrontar com o que não gosta sem o atalho da mentira. Se estou atrasado e você me liga, sou forçado a ter essa conversa, a correr o risco de te magoar, pois você acha que não me importo com você. E sou forçado a ver se, de fato, não me importo, ou se realmente está na hora de mudar, pois não vale a pena passar por isso. Todas as opções geram ou um crescimento ou um aprofundamento – coisas que muito valorizo, e que ficariam intocadas no caso de uma mentira. Aceitar a realidade é um exercício constante.