Sobre as Boas Maneiras

A importância do porquê, e como chegamos, curiosamente, ao local de partida.

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As vezes sinto que dei uma volta grande e cheguei no mesmo lugar. Me tornei aquilo de que fugia, só que cheguei por um caminho diferente. Gosto da ideia de uma espiral, ao terminar uma volta você chega no mesmo lugar, só que mais acima.

Lembro de como me incomodava com as normas de boa conduta, as coisas que me mandavam fazer em nome da boa educação. Minha avó dizia que eu tinha que oferecer o que eu estava comendo às visitas, por exemplo, e a justificativa era “senão, o que as pessoas vão pensar? Vão achar que você é mal educado!”. Nunca percebi que me incomodava com a justificativa, mais do que com a ação em si. Me irritava essa preocupação extrema com o que os outros iriam pensar, especialmente nesse formato. E sendo criança, ainda me incomodava em ter que dividir meu chocolate.

Fui crescendo e ganhando mais liberdade, e usei em parte pra me rebelar contra isso, jogar o pêndulo pro outro lado. Acho que nunca cheguei a ser realmente grosseiro com ninguém (pelo menos espero), mas tive um período de rejeitar algumas dessas normas. Olhando agora, foi um exagero pra lá pra compensar um exagero pra cá.

Quando compreendo o contexto dentro da qual certas normas foram criadas, isso faz toda a diferença pra mim. As normas de boa conduta são práticas realmente úteis para nos tornar atentos às necessidades dos outros. Você cumprimenta as pessoas, tece elogios, sorri e olha nos olhos. A premissa é que você genuinamente expressa o que pensa, só diz algo se de fato representar como se sente, e não mente apenas pra agradar.

Comumente eu admiro pessoas, penso em elogios mas esqueço de dizer a elas. Reparo em como tal pessoa é bonita, inteligente, elegante, engraçada, mas simplesmente por inércia esse pensamento permanece sem ver a luz do dia. Não sei porque, mas percebo uma qualidade interessante em alguém e guardo isso pra mim, talvez por timidez.

As boas maneiras criam roteiros dentro dos quais podemos inserir esses conteúdo, se quisermos. É um default, um padrão que facilita que nos lembremos disso. É mais fácil elogiar alguém se eu lembrar que devo, ou que isso cabe pelo menos, há uma lacuna a ser preenchida.

Há quem se prenda à forma em excesso, é verdade, e distorça toda a coisa até torná-la vazia ou mesmo mentirosa. Mas há também um uso honesto da educação, do saber como se expressar, como buscar ser agradável aos outros e considerado para com seus sentimentos e vontades.

Quando alguém te visita na sua casa, você deve oferecer à pessoa um lugar pra sentar, perguntar se gostaria de algo pra beber, mostrar onde é o banheiro e etc. Isso porque somos esquecidos de como os outros diferem de nós. Quando eu estou na minha casa, simplesmente bebo quando tenho sede e sento onde quiser. Eu conheço o lugar, me sinto à vontade nele, sei como abrir a gaveta emperrada e que a descarga está disparando. Porém a visitante não vai sentir a mesma liberdade, e devemos ou constantemente nos colocar na posição dela, se quisermos que ela fique confortável, ou apenas lembrar algumas normas de boa conduta. Essa é a utilidade das regras, são “truques mentais” que nos ajudam a ser quem gostaríamos de ser.

Algumas pessoas são excepcionalmente tímidas e passivas, e preferem ficar desconfortáveis uma tarde inteira a pedir algo pra beber, ou uma almofada, ou o que seja. Cabe ao anfitrião ser capaz de ler essas pessoas, e ser simpático, deixar elas o mais à vontade possível. Exatamente como eu gostaria de ser tratado, ou como gostaria que tratassem um amigo querido por exemplo.

Ao longo dos anos, a essência das boa práticas se tornou os hábitos que ensinamos e definimos como boa educação. O problema, na minha opinião, é como eles são ensinados. As pessoas em geral não explicam que quando alguém visita a sua casa você deve oferecer uma bebida pois essa pessoa pode estar com sede e com vergonha de pedir, que essa é uma reação bem natural apesar de falarmos pouco sobre. Não, elas dizem que você tem que fazer isso e pronto, tem que obedecer sem questionar, sem entender o porquê, ou então só estão preocupadas com a imagem, preocupadas com o que os outros vão pensar se você não fizer isso. Vão pensar que você é mal educado.

Quando eu entendi como é chato ficar vendo alguém comer algo e com vontade e vergonha de pedir, ai eu entendi que não quero gerar isso em ninguém, e me lembro sempre de oferecer o meu chocolate.

Certamente ainda tenho muito a melhorar, mas acredito que cheguei, por outras motivações, no resultado que minha avó tanto desejava.

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