“Esse cara come demais, você vai ver!”

Sobre expectativas e frustrações

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Acho curioso quão pouco precisamos pra querer agradar os outros, quão fortemente as expectativas podem nos impactar, mesmo quando estamos conscientes disso.

Na adolescência, lembro de estar em algum grupo de amigos num rodízio de pizza e o pessoal comentar que eu comi mais do que todo mundo. Tinha um clima de brincadeira, como quase tudo, mas foi de alguma forma um destaque, um elogio mesmo que indireto, e foi bom. Nada demais, um clima agradável com o pessoal, alguém nota, comenta isso e ficamos alguns momentos brincando sobre, depois mais algumas brincadeira espaçadas e pronto. Passam algumas semanas e a coisa se repete, outro evento com algumas pessoas do grupo em comum, no qual novamente me destaco por comer mais, por aguentar tanta comida e impressionar o pessoal por isso. Mais uma vez não é nada surreal nem exagerado, mas existe essa atenção extra, esse destaque.

Mais uns poucos eventos nos quais isso acontece, e eu me percebo numa situação curiosa. Fui num restaurante com amigos num dia sem fome, mas me forcei a comer a mais só pela expectativa que tinham de mim. Fiquei sem graça de quebrar ela, de perder essa identidade (ou parte dela), de desapontar os outros. É absolutamente ridículo quando coloco em palavras, nem eu nem nenhum amigo diria que se importa minimamente com isso, mas analisando como me senti, foi exatamente assim. Existe uma expectativa, uma pressão em agir em conformidade, mesmo em algo tão bobo e pequeno. E eu não percebi na hora, apenas fiquei sem graça de pegar pouca comida, e me forcei além do que me seria agradável, mas sem saber exatamente porque agia assim. Eu nunca nem diria que havia alguma expectativa sobre mim.

Eu levei um tempinho até perceber e mudar, e estar ok com “frustrar” o pessoal nesse sentido, e comer só o quanto queria. Como sempre, é bem mais tranquilo do que eu tinha imaginado, um breve “passei dessa fase, agora eu to comendo menos” ou qualquer variação e a galera leva numa boa. O ponto é o quão longe eu fui, e estive disposto a ir, pra manter uma expectativa que era sem importância tanto pra mim quanto pros outros. E imagina quando a expectativa é maior, mais arraigada, quando mais variáveis entram na equação?

Essas “pequenas” expectativas são bons casos para análise, justamente por serem tão pequenas é que não prestamos a devida atenção e a coisa se desenrola de forma quase inconsciente. Percebi isso em outros momentos também.

Sei que somos seres sociais, que evoluímos de forma a dar grande valor à opinião do grupo pois dela dependia nossa sobrevivência, sei que hoje não devemos nos importar demais com a opinião dos outros e tudo o mais. Acho que esses casos são curiosos exatamente por serem pequenos demais pra serem notados. Se fosse algo grandioso, eu iria bater de frente. Se existe mesmo um estigma social com o qual discordo, posso usar minha razão e me motivar o suficiente pra agir. Mas nesse caso não, a pressão entrou pela porta dos fundos, agiu nos bastidores, e eu só percebi muito depois.

Foi difícil admitir que fui tão longe por tão pouco. Admito que gosto de ser elogiado e admirado e não me assustaria em descobrir essa motivação sendo a causa raiz de certos comportamentos meus. O que assustou aqui foi o tamanho, a intensidade da minha ação sendo desproporcional a pequenez da expectativa.

Se eu perceber que estou querendo ter sucesso financeiro numa área e parte da motivação é impressionar um ex-chefe por exemplo, ok, é algo que prefiro mudar em mim se possível, mas que não seria tão espantoso de descobrir. Ou que estou indo na academia todo dia porque uma menina vai me achar mais bonito. Um tanto fútil, mas ainda não tão distante de mim. Agora me forçar a comer sem vontade, criar mentiras pra mim mesmo enquanto faço isso (me enganar), tudo por uma mini-expectativa que não importa pra ninguém, bem, isso eu não esperava mesmo.

Acho que nos apegamos às nossas identidades, mesmo as que não escolhemos. Elas são colocadas sobre os nossos ombros e com o tempo passamos a gostar e até sentir falta. Todos os meus amigos dizem que eu sou um dos poucos, quando não o único, amigo que sai com o pessoal e nunca bebe. Não foi um voto que fiz, não tenho nenhum problema com o álcool, só não gosto do sabor e não faço questão da sensação, então na prática, nunca bebo. Com o tempo me vi carregando esse estandarte, mesmo sem querer — o “não bebedor da galera”. No carnaval resolvi que ia beber um dia, e me peguei com uma resistência a mais do que esperava: o pessoal. O que dizer pros amigos que me virem bêbado?

Como a coisa foi consciente, eu logo ri da prematura vergonha e lembrei que eu não devo nada a ninguém, que bebo ou não conforme a minha vontade. E que a “solução” pro que nem bem era um problema eu já tinha há muito tempo. A verdade. Quem me vir bebendo e perguntar, digo a verdade, que resolvi curtir essa sensação num dia de carnaval. Isso não significa que eu vá começar a beber, nem que não. Se der vontade vou, mas sinceramente não pretendo. E pronto. Assim que gastei uns poucos segundos refletindo nisso, o peso sumiu, e eu curti minha onda no carnaval sem culpa, e, como sempre, os amigos não se frustraram ou ficaram estranhos comigo. Não havia nenhuma grande expectativa, ou se existia, estava muito mais em mim. E mesmo que estivesse no outros, e daí?

Boa parte da reflexão bate na noção de que não sou um ser estático, de que sou mutável. Mudo de opinião, mudo de ideia, paro de comer carne, depois decido voltar, resolvo trancar a faculdade, depois repenso a situação. Em geral não realizamos grandes mudanças com frequência, e isso nos dá a sensação de que somos basicamente os mesmos.

Além da segurança do conhecido. Se todos os meus amigos me conhecem como o cara brincalhão e extrovertido, é mais fácil me manter assim do que explicar que não estou mais tão à vontade nesse papel, que tem sido um esforço nos últimos dias, que estou pra baixo e sem tanta confiança. É difícil mudar especialmente quando mudamos pra algo menos glamuroso. E mais difícil ainda quando nem percebemos o peso das pequenas expectativas, quando as pressões atuam nas entrelinhas e bastidores, longe da nossa consciência. Tirar uns momentos pra refletir e perceber alguns motivos das minhas ações, como me senti em tal momento, admitir a forma e intensidade que me afetei por causa dos outros, tem sido bem interessante.

Talvez minha surpresa exista pois eu mesmo tenho certas expectativas de mim, tenho identidades com a qual me identifico. Não quero me ver como o tipo de pessoa que iria comer sem vontade só pra impressionar os amigos, e tantos outros exemplos que poderia dar.

Aceitar a mudança em potencial é uma boa forma de estar atento ao presente também, sem apego ao passado. Acho que no fundo eu quero estar melhor em perceber minhas próprias mudanças, e aceitar bem elas. Se eu estiver em paz com quem sou, vai ser suave a interação com os outros sobre o assunto, seja ele qual for.

Vale ficar atento a quando estou passando essa pressão adiante também, impondo identidades, criando expectativas para que os outros se comportem de uma determinada maneira. As vezes é ainda mais difícil aceitar a mudança no outro do que em nós mesmos.

“Como assim você não curte mais forró? O João disse que quer ficar em casa na sexta? Você tá brincando, né?”

Somos opressores e oprimidos, alternamos constantemente os papéis como uma trupe com menos atores do que personagens numa peça. Talvez alguns achem um exagero chamar isso de opressão, mas qualquer ação pode ser medida pelo impacto que causa nos envolvidos. Uma pequena farpa as vezes incomoda mais que um grande corte.Frustrar o outro nos amedronta, mesmo quando a frustração vem de uma expectativa que ele nem sabia que tinha. Somos seres esquisitos, cabe a nós fazer o melhor da nossa esquisitice.

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