6 formas pelas quais o romantismo atrapalha o seu relacionamento

Sobre a herança cultural que vivemos no dia-a-dia, as expectativas que existem nos relacionamentos, muitas das quais não estamos conscientes e que acabam arruinando relações e gerando sofrimentos desnecessários.

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Em meados de 1750 ocorreu o movimento intelectual que chamamos de romantismo (ou romanticismo). Filósofos, escritores, poetas e artistas de toda sorte desenvolveram um set de ideias e conceitos a respeito do indivíduo e da sociedade, em especial sobre o amor e os relacionamentos, que formou o que veio a ser conhecido como o período romântico. Muitos dos rituais e ideias criadas nessa época continuam vivos e a nos influenciar fortemente nos dias de hoje.

Acho interessante entender o contexto no qual as coisas existem, especialmente as que nos impactam. Cada criação é inventada pra resolver um problema. Muitas vezes o contexto muda, mas como somos criaturas de hábitos, continuamos a fazer as mesmas ações, só porque todo mundo faz, ou porque “sempre foi assim”.

Levar flores ao funeral por exemplo, essa tradição surgiu quando as pessoas ficavam com o defunto em casa por um período grande antes do enterro, pra dar tempo dos parentes receberem a mensagem e, em muitos casos, viajarem para o funeral. Naturalmente o corpo começava a se decompor e isso gera um cheiro desagradável, então colocava-se flores para amenizar o odor do local. Mais pra frente isso deixou de ser necessário, mas mantivemos a cultura. Com o tempo as flores receberam outro significado – confortar os vivos, ser um sinal de beleza e alegria num momento triste e etc.

Muitas regras e crenças sobre o amor e como nos relacionamos são heranças de outras épocas, e dado que a qualidade da sua vida é incrivelmente afetada pelos relacionamentos, acho válido compreender melhor nossas raízes nesses assuntos. 

 

  1. Casamento

Os românticos criaram a ideia de que um casamento deve ser um eterno estado de amor e paixão ininterruptos. Deve durar uma vida inteira e se você não consegue ou falha nisso de alguma forma ou por um segundo sequer, é porque você não ama o outro de verdade.

Antigamente o casamento ocorria por outros motivos – mesma religião, a sua família queria selar laços com aquela outra, as terras dele eram próxima das dela e etc.

Naturalmente acho que amor e paixão devem estar presentes num relacionamento, mas o peso que é posto pela visão romântica é irreal e potencialmente danoso. A expectativa de um eterno estado de admiração e excitação com o outro é incompatível com o ser humano. Somos criaturas em constante mudança, vivemos diferentes momentos ao longo da vida, ao longo do dia, e isso afeta como nos sentimos, inclusive com relação ao parceiro. A culpa de se ver isso como uma falha profunda ou a dúvida “será que eu então não amo tanto ele/ela?” apenas adiciona um problema a mais na situação.

Os românticos criaram uma versão idealizada do ser humano, e sempre que nossa imaginação de ‘como deveria ser’ difere do ‘como é’, temos a receita para o sofrimento.

Se acredito que minha filha beijar alguém é ruim, que se um menino transar com ela ele estará “se dando bem” às custas dela, sempre, isso é uma forma de garantir sua infelicidade no futuro, e provavelmente a da minha filha também. Sim, podemos controlar nossas crenças. Mesmo que a maioria seja criada ou absorvida de forma inconsciente, podemos nos tornar cientes delas e modificar. Isso faz parte de amadurecer e ser uma pessoa racional.

Um casamento pode sim significar muita felicidade e a celebração do amor que duas pessoas sentem uma pela outra, mas sem os exageros e idealizações em excesso. Um problema, um momento em que se esteja menos apaixonado não quer dizer que seu amor era falso, apenas que somos seres humanos e temos questões a resolver. Dentro e fora de qualquer relação.

 

  1. Aceitação

Uma das ideias mais danosas dos românticos, na minha opinião, é de que devemos aceitar as pessoas como elas são. Existe uma diferença entre ser um tirano controlador de cada detalhe da vida do outro e compreender que somos seres em construção e buscar influenciar positivamente quem amamos. Se minha namorada percebe que eu sou péssimo em algo, acho super válido que ela me fale. É tênue a linha entre comandar e sugerir, e tudo depende da forma e intensão da comunicação.

Se você usa óculos é porque não se “aceita como é”. Você entende que tem um problema na vista e que é mais confortável mudar isso artificialmente. Não é um ataque a sua personalidade dizer que sua vista está ruim e você precisa de óculos. Não estamos constantemente atentos a nós mesmo, e o feedback dos outros é sempre valioso, mesmo que as vezes seja difícil aceitar algumas verdades. Exatamente essa dificuldade que alimenta a fuga pelo “você tem que me aceitar como sou, ou não me ama.”

Aqui esta implícita a noção de que o que é natural é bom, e o que é consciente ou planejado é artificial. Veneno de cobra é natural, picada de abelha é natural, cianureto é naturalmente encontrado também. Meu estado preguiçoso e procrastinador pode ser natural, mas tentar ser mais ativo e produtivo é forçado e negativo? Aprender uma língua não é natural, há um esforço constante desde que balbuciamos o primeiro ‘mamãe’ até compreender as regras gramaticais da sua língua (quem entende todas né..). Nada mais natural que a curiosidade humana, o desejo de se melhorar e desenvolver. Não é um sinal de falta de amor o outro querer que você se desenvolva, é um sinal de que ele ou ela se preocupa com você, mas existe muito a se trabalhar no campo do como conversar sobre tais assuntos, e sobre respeitar as decisões e espaços do outro. Um relacionamento é uma eterna troca, e esse equilíbrio em particular pode ser dos mais delicados. 

 

  1. Instinto

Uma ideia forte é a de que o amor é algo que acontece, que somos passageiros no trem das emoções que nos assola, e devemos apenas seguir nossos instintos que o conto de fadas vai seguir seu curso pre-destinado, terminando na estação final “e viveram felizes para sempre”.

A verdade é que não nos elevamos ao nível das nossas aspirações, mas caímos ao nível da nossa prática. Posso te amar e estar incrivelmente motivado, mas se sou inexperiente na cama é provável que eu não vá ser tão bom quanto poderia. Se eu gosto de fazer massagem nas pessoas, não quer dizer que isso por si só seja suficiente pra me tornar um bom massagista, o instinto não me leva até o final. Devo fazer cursos, ter aulas, praticar, ler livros e estudar muito pra realizar meu potencial. Com tudo é assim. O estudo consciente dirige a prática e a eleva. Mesmo o maior talento é mais uma predisposição do que qualquer coisa. Podemos aprender e nos aperfeiçoar a falar em público, a negociar, a cozinhar, a conversar, dirigir, transar, ser um bom anfitrião… A lista é infinita. Pensar que o sucesso de um relacionamento é única e exclusivamente devido à quanto cada membro ama o outro é não apenas errado e superficial, mas a causa de muito sofrimento, traições e inseguranças.

Essa é, na minha opinião, uma noção perigosa que herdamos dos românticos. Há uma série de sentimentos maravilhosos que de fato acontecem. Ter um crush, estar apaixonado e ainda por cima ser correspondido é incrível, e muitos desses sentimentos nos pegam “de surpresa”, e parte da onda é simplesmente viver isso, sim, curtir esse momento mesmo. A questão é que no longo prazo a expectativa de que tudo tem que ser natural, no sentido de não planejado, o tempo todo, é horrível. Temos que fazer esforços conscientes para compreender o outro, para ler os momentos dele ou dela, entender as melhores formas de dar carinho, respeitar o espaço, dar e receber prazer. Lembro a primeira vez que perguntei a minha namorada do que ela mais gostava na cama, e se tinha preferências e do que não gostava. Nunca me vi como careta ou aceitando tabus, mas ainda assim senti alguma dificuldade em quebrar essa barreira e falar abertamente sobre isso. No final foi tão simples e positivo, como a maioria dos medos que enfrentamos. Mas certamente não foi “natural”. 

Imagine uma médica que não estudou medicina, apenas sente uma paixão imensa por ajudar os outros e faz o que seus instintos mandam, você faria uma cirurgia com ela? Ou um piloto que não fez o treinamento mas pretende pousar o avião “naturalmente”, sem forçar nenhuma regra de cursos ou manuais. Nas devidas proporções, o mesmo princípio se aplica aos relacionamentos. É uma atividade humana que vai se beneficiar do tempo e atenção que dedicarmos a ela, conscientemente tentando melhorá-la. Conversando, experimentando, pensando e trocando sobre o assunto.

 

  1. Amor e sexo

Os românticos transformaram o sexo na expressão máxima do amor. Isso é tão forte que pra muitas pessoas a palavra amor significa sexo. Como “fazer amor = transar”. Pessoalmente acho muito melhor o sexo com alguém que amo, mas essa não é a única implicação dessa forma de pensar. Tivemos algumas gerações de “revolucionários” pra quebrar um pouco esse tabu. Não preciso ser um depravado sexual pra poder ter uma noite com alguém e estar ok com isso, os dois se divertiram e tá tudo bem. Também não é o fim do mundo se você e seu parceiro/a não são como dois coelhos transando o tempo todo. Uma vida sexual saudável é um objetivo, sexo pode fazer parte do amor, mas não acho que deva, necessariamente, ser visto como a expressão máxima dele. Há diversas formas de amor sem sexo (amigos, família), assim como há diversas formas de sexo sem amor.

Pense por um momento num casal que não tem tanto interesse por sexo assim. Há uma constante pressão invisível, um bicho papão social que paira como uma nuvem negra estacionária, intermitentemente os lembrando que eles provavelmente não se amam “de verdade”. Um terreno delicado a ser manobrado com sorrisos constrangidos em conversas quanto o tópico surge. Uma angústia que é alimentada sem percebermos e faz o casal duvidar de si mesmo, quando não há nada de errado. Assim como não há nada de errado em alguns casais gostarem de jogar vôlei juntos e outros não. Mas um ocorre num quase crime social, o outro não.

Nossa função deve ser repensar o relacionamento com o que sabemos e o que queremos. Há períodos na vida em que experimentamos mais, em outros podemos buscar conforto e estabilidade. Sexo deve ter o espaço que lhe cabe, assim como quaisquer atividades. É prazeroso, uma troca íntima incrível e com muito potencial, uma atividade de conexão e possível êxtase, mas não a expressão máxima de amor. Talvez uma, mas não “a”.

 

  1. Fim da Solidão

É comum ouvir em discursos de casamentos como o outro é tudo. Meu amor, meu confidente, meu melhor amigo, meu amante, meu guia espiritual, quem cuida de mim, parceiro nos esportes, etc, etc. Essa expectativa da alma gêmea, alguém que te complemente e seja compatível em 100% das suas atividades e interesses. O derradeiro fim da solidão. Nunca duas pessoas serão perfeitamente complementares. Haverá sempre desencaixes. O segredo é que haja complementaridade no que é mais importante, e que saiba se conviver com o que não é. Tolerância pode te levar longe. Entendo que ela gosta de assistir esse seriado, e eu não. Mas não me importo de ficar do lado dela lendo, ou usar esse momento pra cozinhar. Ela sabe que pra mim é importante ser pontual, e faz um esforço extra. Concordamos nas coisas mais importantes, em como educar os filhos, pra onde viajar, sobre espiritualidade, fidelidade e como ter conversas profundas. E toleramos pequenas coisas em prol do bem do relacionamento.

 

  1. Aspectos Práticos

Aqui também está mais um ponto, as praticalidades. O romantismo excluiu-as completamente. Falar de questões práticas é frio e errado – o anticlímax do amor. Deveríamos apenas falar dos sentimentos. Se duas pessoas vão conviver juntas, é altamente subvalorizada a importância de se alinhar diversos pontos “menos importantes” do dia-a-dia. Um realmente se importa que as roupas estejam sempre arrumadas no armário, outro acha péssimo televisão ligada antes de dormir. Falar sobre tais pontos abertamente, sobre questões financeiras, não é anti-romântico, muito pelo contrário, é provavelmente uma das atitudes que melhor permite que o relacionamento (e o amor nele) perdure.

 

Não acho que todo o romantismo deva ser abdicado ou seja prejudicial. Apenas reconhecer o impacto que certas crenças têm, e que em certos momentos podem por um peso extra, desnecessário a quem já está sofrendo e com dúvidas. Fazer sexo com quem se ama, buscar o amor no casamento e a complementaridade no parceiro de forma consciente é absolutamente positivo. Mas como um objetivo a ser perseguido, não um indicador binário da presença ou ausência do amor. Assim como estudar pra prova buscando o 10 é válido, mas a taxa de suicídio na Korea, por exemplo, de jovens que tiram 7, é indicativa do peso e do risco de se confundir o estímulo no processo com a rigidez de um resultado pré-definido e único.

Podemos agir de uma forma madura, compreendendo que as adversidades existem e podem ser contornadas, e não se sentir mal por acreditar que um segundo de não-amor é um pecado e que você não é digno de uma relação feliz e bem sucedida. A pessoa com quem escolhemos viver, aos que escolhem esse caminho, terá um impacto gigantesco na nossa qualidade de vida. Cada membro de um relacionamento deve estar atento a si, ao outro, e à relação, esse 3º elemento, essa entidade que surge ante a união de duas pessoas (ou mais).

É importante entender de onde vem a pressão social e como expectativas culturais nos afetam de forma quase imperceptível diariamente. A partir do momento em que entendo a idealização do parceiro, não faz sentido esperar que ele me complete em cada mínimo detalhe, consigo caminhar de encontro a um relacionamento mais feliz, pois me livro de amarras antigas e formas de pensar que não mais me convêm.  

 

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Esse texto foi completamente inspirado por palestras vídeos e livros do Alain de Botton, na minha opinião, um dos maiores filósofos e pensadores da atualidade. Recomendo fortemente seu canal no youtube “The School of Life”. Dois videos em especial falam exatamente sobre tudo que falei aqui: “Alain de Botton On Love” e “How romanticism ruined Love”

 

 

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