Banheiros sem gênero

Quão menor tem que ser o meu desconforto do seu, a ponto de eu topar mudar alguma coisa?

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Porque é que separamos o banheiro em masculino e feminino pra começo de conversa?

Tava vendo uma matéria sobre os transgêneros e me peguei pensando nisso. Qual a justificativa?

A primeira que me vem a mente é que no dos homens há o urinol, onde existem ângulos em que o pênis do cara poderia ser visto por uma mulher. O que é bem ridículo na real, especialmente se você já andou pelo RJ no carnaval. Existem diversas soluções, como aumentar um pouquinho a divisória, e outras tantas. E lembrar que o pior caso é esse, uma mulher que viu por um momento o pinto de um cara. Essa é meio que a única justificativa mesmo. Todas as outras são uma forma ou outra de forçação de barra.

Dentro da cabine não há diferença, fecha a porta e pronto. Quem falar que homem suja mais a privada nunca entrou num banheiro feminino. Em casa todo mundo divide banheiro, a questão é quando há banheiro onde irão diversas pessoas ao mesmo tempo.

Se falarem que mulher gosta de se maquiar, se ajeitar e conversar coisas que não falariam com homens perto, isso é uma questão cultural apenas, e, sim, se os banheiros fossem um só, haveriam mudanças, quanto a isso não há dúvidas. O ponto é se no final valeram a pena. Pra mim o que se perde é infinitamente menos importante que o que se ganha.

Mesmo pra quem não se importa muito com a questão dos transgêneros, gays, lésbicas e bisexuais, puramente por entender que estamos superando um tabu datado já seria motivo o suficiente. Como na Holanda onde se trata da sexualidade com muito mais naturalidade, pode-se ficar nu em público, até transar em alguns parques, não se vê o corpo com essa culpa e luxuria surreal. Só por isso já faz sentido ter apenas banheiros, sem distinção entre masculino e feminino. Entra todo mundo junto, quem quer ir na cabine vai, quem quer usar o urinol usa, e pronto. Cada um faz o seu. Somos todos seres humanos, vivemos em grupo, precisar de banheiros separados é dar vazão à pensamentos com os quais não mais concordamos. A verdade é que essa categoria “homem” e “mulher” é insuficiente e precisa ser atualizada. Mesmo que pra você isso não faça diferença, pra muitos faz, e, querendo ou não, vivemos em sociedade. Os desejos e problemas de cada um devem ser considerados, cada um a sua medida. Há casos nos quais o “sofrimento” de poucos é justificado, em outros não. Nesse caso pra mim é bem claro o que está em jogo, em cada lado da balança, e a solução me parece simples.

Tem um lado de exercer nossa civilidade. Toda vez que alguém sentir um desconforto por estar compartilhando o banheiro com alguém do sexo oposto, essa pessoa pode se lembrar que esse incômodo é muito menor que o preconceito que tantos sofrem pela orientação sexual.

Quão menor tem que ser o meu desconforto em relação ao seu, a ponto de eu topar mudar alguma coisa?

Vestiários pra mim ainda devem esperar. Como nele realmente as pessoas ficam peladas, ainda há uma possibilidade de uma tensão sexual que gere um grande desconforto pra muita gente. Acho que o ideal é caminhar pra uma sociedade na qual não haja o menor problema ou risco em uma mulher e um homem desconhecidos se trocarem na frente um do outro, sem desrespeito. Mas admito que no Brasil ainda não estamos lá, na minha opinião. Mas banheiros públicos, de shoppings e restaurantes? São usados pra xixi e cocô, e a pia, pra lavar as mãos e alguém se maquiar. É isso, nada que não possa ser compartilhado entre os diferentes sexos. Financeiramente é mais eficiente e barato construir um banheiro com capacidade pra 12 pessoas do que dois com capacidade pra 6 cada, por exemplo.

Muitos propõem um terceiro banheiro, talvez seja um passo necessário, mas gostaria de caminhar de encontro a uma sociedade na qual essa distinção não importa. Assim como posso sentar a mesa do lado de uma mulher, um gay, um travesti ou o que for, não me incomodo de ir ao banheiro ao lado dele ou dela. E se me incomodo, quero parar de me incomodar.

No Japão por exemplo as pessoas usam máscaras na rua não apenas pra não se contaminarem, mas pra não contaminarem os outros com um vírus que tenham. Há um respeito imenso pelo outro. Como em tudo cultural há exageros, mas no geral é importante tomarmos decisões que nos direcione no sentido certo, de se preocupar com o outro e viver bem em comunidade. Temos investido de forma desequilibrada no individualismo a séculos, e há um preço pra essa hubris, pra tudo que passa da medida. Compreender aonde estamos falhando e buscar compensar isso é o objetivo de atualizarmos algumas regras. Essa pra mim, já passou da hora.

Curioso como uma coisa tão pequena, tão comum quanto a divisão de banheiros pode dizer tanto sobre nossa sociedade e o momento em que vivemos. Como fazemos uma coisa é como fazemos tudo.

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