Pessoas que me inspiram – Lições Aprendidas

Inesperados ganhos e aprendizados ao seguir o desafio de escrever todo dia sobre alguém que me inspira ou inspirou.

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Diga-me com quem andas que direi quem és.

Há alguns dias resolvi escrever sobre as pessoas que me inspiram ou me inspiraram. Autores, empresários, filósofos.. Diversas pessoas me marcaram e tiveram um impacto enorme em quem sou e como penso e atuo no mundo. Houveram, no entanto, alguns ganhos inesperados com esse pequeno exercício. Pude perceber alguns temas e atitudes em comum, pude conhecer um pouco mais de mim mesmo ao ver com quem ando, com quem quero andar e porque andei com fulano ou ciclano num dado período. Pude notar como admiro certas características, e como elas aparecem em ambientes tão extremamente diversos e distantes entre si.

Um padrão que percebi é a capacidade de organizar os pensamentos. Mais do que isso, cada pessoa faz da sua forma, há uma beleza e poesia mesmo na prosa, na escolha das palavras, a perspectiva escolhida pra falar do assunto e tudo o mais. Desde pequeno gosto de entender como as coisas funcionam. Acho que essa é uma forma de organizar meus pensamentos. E sei que gosto de ir até o final, entender o porque do porque do porque. Felizmente tive a sorte de encontrar de diversas formas pessoas que fizeram isso com maestria em tantos campos de meu interesse, e ainda se deram ao trabalho de contar aos outros como foi.

Acho que além de organizar bem os pensamentos, admiro o ato de compartilhar. Seja por meio de livros, podcasts, poemas ou qualquer formato, todas essas pessoas tiveram um impacto em mim pois puderam chegar a mim, e elas chegaram por meio das suas ideias, das suas criações. O ato de se mostrar, se expor é de alguma forma se tornar vulnerável, se abrir. Há quem espere ter certeza de que está fazendo isso de uma forma segura, mas muitos aceitam esses “riscos”. Penso que superar algumas travas no me mostrar aos outros era, e é, algo que valorizo, pois sinto que tenho dificuldades ai. É sempre estimulante ver outros fazendo bem aquilo que você tem medo ou algum desconforto. Certamente me ajudou a enfrentar o meu.

É curiosíssimo como algumas pessoas podem ser tão inteligentes e avançadas num assunto e tão ignorantes em outros. É a falta de uma das coisas mais importantes pra mim: Aprendizado (ou pensamento) lateral. A ideia de que você pode transferir os aprendizados de uma área pra outra. Josh Waitzkin é quem mais fala diretamente sobre isso. Um simples exemplo que ele dá com seu filho, que tentou entrar numa loja por uma porta travada, e depois de não conseguir abrir o pai apenas disse apenas “Dê a volta”. E depois, meio de brincadeira, começou a usar exatamente a mesma frase em outras situações, quando ele estava com dificuldade num joguinho ou com um amigo da escola. “Dê a volta”.

Há diversos conceitos mais genéricos que podem ser extraídos dos exemplos mundanos do nosso dia-a-dia, mas há um impacto maior em algo a que se dedica mais tempo. Se você se interessa por traduções, linguística, estuda isso, lê livros e trabalha nesse meio, um aprendizado dessa área é muito mais forte por ser mais presente na sua vida. Transferi-lo pra outras situações tem um peso maior. Essa habilidade é das mais importantes e das mais negligenciadas. E isso, a falta dela, que permite que pessoas excepcionalmente inteligentes e sagazes numa área sejam ignorantes e mesmo desagradáveis em outras.

Um ganho que não esperava ao começar o desafio e escrever todo dia sobre alguém foi um bom humor, um ar de gratidão, sem ser piegas ou exagerado. Mas rever todo dia como tive a sorte de encontrar o trabalho daquela pessoa, o quanto tive prazer e me ajudou estudar aquele assunto, e como fui privilegiado de poder comprar o livro ou o que fosse, foi bem interessante. Me mostra a abundância de gente boa no que faz, que estou cercado por uma rede e posso sempre encontrar alguém que me permita e ajude a seguir um dado caminho, mesmo que distante fisicamente, as vezes até no tempo.

Percebi que também em geral são pessoas com valores de ética e moral que concordo e valorizo, em alguns casos apenas em parte, mas pessoas que têm uma posição a respeito dos assuntos, e aprenderam a melhor forma de interagir a partir dela. Há também a bondade e generosidade num pano de fundo, e depois as idiossincrasias de cada um, que são sempre divertidas de conhecer.

Fiquei impressionado com o quanto tive “contato” com pessoas que nunca encontrei. Também achei mais fácil escrever sobre pessoas assim, mais distantes. Agora estou pensando em falar de pessoas que me inspiraram com quem convivi, amigos, professores, conhecidos e etc. Seguirei com o meu exercício, vendo pra onde ele me leva. Recomendo fortemente a todos, mesmo que sem divulgar. Sabendo com quem andamos, sabemos melhor quem somos. E você, com quem tem andado?

 

Criando espaços vazios

Muitas vezes nossa vida é tão ocupada que mal temos tempo de parar e entender o que esta acontecendo. Se você não observa as pequenas coisas, os pequenos acontecimentos do dia a dia, você esta deixando a vida passar sem perceber. As pequenas coisas são as grandes coisas – reserve um tempo a si mesmo, crie o hábito de refletir e se observar um pouco mais.

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Um produtor de programa infantil para crianças de até 5 anos teve uma ideia simples e incrivelmente eficaz. Ao invés de passar um episódio novo por dia, como de praxe, ele decidiu repetir o mesmo episódio várias vezes antes de passar o próximo. Num primeiro momento isso é contra-intuitivo. O grande detalhe é que é contra-intuitivo pra nós. Quando nós vamos ver uma série, queremos continuidade, queremos novidade. Só que esse programa era pra crianças pequenas. Pra elas o mundo é cheio de novidades o tempo todo, e mesmo um programa infantil tem muita informação pra elas absorverem. Por isso que elas gostam de assistir o mesmo filme mil vezes, pedem pra você contar a mesma história de novo e de novo. Pra elas ainda têm coisas novas a serem compreendidas, e além disso, num mundo com tanta incerteza e tanto desconhecido, como é pra alguém com 3 anos, há um grande conforto no conhecido, em rever algo esperado, ver a mesma coisa. O ritmo deles é esse, por isso foi genial essa sacada de repetir várias vezes o mesmo episódio antes de passar pro seguinte. A audiência cresceu e a aceitação do programa foi muito maior. As crianças amaram.

Acho que em alguma instância somos todos um pouco assim. Tenho percebido que as vezes gosto de rever um mesmo filme diversas vezes, e depois de um tempo eu perco o interesse. Podem haver outros motivos, mas numa análise mais profunda vi que em alguns casos eu ainda não tinha absorvido tudo que podia da mensagem filme (a mensagem principal ou tantas outras secundárias). Em outros casos eu só acho legal ver tiros e explosões, mas quando é assim eu não vejo o filme todo, eu vejo alguns momentos e logo mudo de canal. Nossa vida é tão conturbada que deixamos muitas pequenas coisas passar sem dar a devida atenção. Muitos dizem que essa é uma das funções do sonho, acabamos revendo questões inacabadas, que o subconsciente busca comunicar nesses momentos. Quem deseja ter sonhos lúcidos, por exemplo, um dos primeiros exercícios é rever o seu dia antes de dormir. Isso pra livrar o subconsciente dessa função, trabalhar, pensar ou anotar tudo que possa ter recebido menos atenção que o devido, pro sono poder ser desprovido de interrupções, e assim a pessoa consegue ter sonhos lúcidos, voar e fazer o que mais quiser. Já tive alguns, é uma experiência incrível e pretendo me dedicar mais a isso.

Mas pra mim as pequenas coisas são as grandes coisas. Há eternamente uma relação entre o micro e o macro, e as questões que estão mais prementes, nossos medos, obstáculos, problemas ou o momento em que estamos pede uma reflexão, um absorver as lições onde quer que apareçam. E elas aparecem quando menos esperamos. Quando falhamos em perceber algo, nosso subconsciente busca nos avisar, seja num sonho, seja numa vontade sem motivo aparente de assistir tais filmes, de falar de tais assuntos, seja em imagens que nos surgem do nada na tela mental, letras de músicas que nos vem a mente e etc.

Por isso é importante refletir, meditar, deixar um espaço vazio. Ter calma e se permitir o tempo de olhar pra dentro e perceber o que está acontecendo, acalmar as águas internas, ou apenas observar as ondulações. Acho que estamos ainda arranhando a superfície em termos de nossa relação com o subconsciente. Alguns campos nos dão amostras do quanto ainda temos a desbravar, como a Hipnose, os sonhos lúcidos, nossa criatividade, psicologia e psicanálise, enfim, há muito a se estudar e ainda mais a se descobrir. Mas, sem dúvida, criar o hábito de refletir, seja sentado em postura meditativa, escrevendo num diário, conversando, mantendo um bloco de notas ou apenas observando os pensamentos que vem e vão, isso têm um impacto considerável na nossa qualidade de vida.

Criar espaço vazio é fundamental, especialmente pra quem tem um estilo de vida tão conectado, cheio de interrupções. Um movimento surgiu chamado minimalismo, como estilo de vida. São pessoas que vivem com o mínimo necessário de bens materiais, em geral tudo o que possuem cabe numa mochila, não acumulam nada. Não precisa ser tão extremo, mas ser capaz de se desconectar do mundo externo pra dedicar um tempo ao interno é extremamente importante. Por mais que seja importante manter uma relação com amigos e colegas de trabalho, ler as notícias, saber das festas e ver as fotos, há uma outra relação que não pode ser negligenciada: a sua consigo mesmo. Reserve um tempo pra essa pessoa com quem se convive 100% do tempo. Ouça seus pensamentos, suas angústias, seus medos, suas ideias, paixões.. E não precisa virar um eremita isolado na montanha pra isso, é tudo uma questão de equilíbrio. Não só da pra se reservar um tempo pra si e ainda ter pra encontrar com os amigos, como em geral a situação final passa a ser simplesmente mais prazerosa, mais presente. Um presente pra você e pra todos a sua volta.

Fairplay

“Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”

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Há algum tempo que não concordo com Maquiavel. Acho que os fins não justificam os meios. A forma com a qual fazemos algo muitas vezes se mostra até mais importante que o objetivo final. Einstein disse “nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo grau de consciência que o gerou”, e isso pra mim significa que cada problema pede, ou ainda, exige que nos tornemos melhores. Mas somos preguiçosos por natureza e instintivamente buscamos atalhos. Essa postura é míope, é o barato que sai caro, pois no final fazer o certo da forma certa é sempre a melhor escolha. Não é a toa que diz-se que a mentira tem perna curta. A grande dificuldade está em aceitar que muitas vezes não estou capaz de resolver a questão no calor do momento e manter o fairplay.

Acho lindo essa palavra, fairplay – jogo justo, ou jogo limpo. Quando alguém comete uma falta, por exemplo, e o juiz não viu, o jogador pode seguir o jogo e se beneficiar com a “vantagem”, ou admitir o erro. No curto prazo, o que você quer é aproveitar todas as vantagens que tiver. Mas, pensando com calma, a escolha certa se torna mais clara. Como sempre, cada caso é um caso, e existem exemplos onde uma resposta não é tão simples assim. No entanto, busco na medida das minhas capacidades jogar limpo. No campo, e fora dele.

Por isso me incomoda a forma de alguns protestos. Por exemplo a forma como algumas pessoas falam de política ou políticos em especial. Se estou criticando alguém, tenho meus motivos e argumentos, e devo fazer isso em cima da verdade, ou do maior esforço possível pra estar com ela. Vejo muita gente criticando o Lula, a Dilma, o FHC, o Bolsonaro, o Gabeira.. O problema está na forma. Quando você deturpa a verdade, exagera propositalmente, omite fatos importantes ou mente abertamente, pra mim você errou feio, errou rude. Isso é em geral se deixar levar pela emoção, permitir que a sua raiva contra o fulano domine a razão e ai você só quer que todo o mundo sinta a mesma raiva que você, sem importar como. Tenta fazer com que os outros sintam o que você sentiu de qualquer forma, mesmo que tenha que exagerar, omitir ou mentir descaradamente. Ou seguimos por outro caminho perigoso, o da leviandade. Falamos de forma seria sobre o que não conhecemos, pouco entendemos mas com opinião formada e a crítica na ponta da língua.

Boa parte da dificuldade está em ouvir o outro lado. Rótulos são mais fáceis, nosso cérebro funciona com o preconceito. Com tudo é assim, eu aprendo a usar uma cadeira uma vez e pra sempre quando vejo algo parecido sei o que fazer. Mas isso depende do rótulo. Se não fosse assim eu veria cada cadeira como única, sem conceitos pré concebidos (pré-conceitos) e toda vez teria que aprender como interagir com cada objeto. Cadeiras, mesas, janelas, maçanetas. Rotulamos todos esses e agimos automaticamente com eles pra não perdemos tempo pensando – usamos o rótulo sem nem perceber. Agir assim com objetos é uma coisa, minha TV não tem uma opinião a respeito de como eu ajo com ela, já as pessoas, sim.

Esse mecanismo de pensamento se mostra ativo por exemplo quando demonizamos alguém. A pessoa faz algo que você despreza, o incômodo é tão grande que toma conta de tudo o que ela significa pra você. A falha vira a pessoa e você se fecha a tudo que vêm dela, ou está associado a ela de alguma forma. Isso é ser intransigente, atitude da qual já fui muito culpado. Assim falo por experiência que isso é “fechar os olhos pra não ver”, é ser infantil e potencialmente hipócrita. Lembro de como eu criticava as “indústrias” quando entrei na faculdade de engenharia ambiental. Pra mim era bem claro o impacto da poluição, fruto da ganância de empresários inescrupulosos que passavam por cima do meio ambiente na sua cega corrida rumo ao lucro. Com o tempo fui entrando mais a fundo no assunto e descobrindo que a coisa não é simples assim. E a questão não é que essa visão estava certa ou errada, é que há uma terceira alternativa. O erro estava nesse sistema binário simplista de avaliação. A solução pedia um grau de consciência acima, que cobrou seu preço – anos de leituras, aulas, discussões e convivência com os dois lados.

O mesmo vale pra tantas questões. Quando era novo absorvia o slogan de ser contra as drogas. Maconha é droga, é porta de entrada pra outras drogas, coisa de viciado e ponto final. Com o passar do tempo vi que não era bem assim. Documentários são bons pra falar de um assunto – o formato da mídia faz diferença. Mas ainda assim há o perigo da parcialidade, por isso gosto de ler livros de tópicos e autores que discordo. Tudo é relativo, depende do contexto onde está inserido, e isso torna o ato de pensar e deliberar sobre um assunto algo trabalhoso. O Fairplay demanda que eu ouça meu adversário, que não pegue quaisquer atalho e só se é possível agir assim se eu não tomar a parte pelo todo, o defeito pela pessoa.

Certa vez participei de uma competição de improviso (de teatro), e num dado momento perdemos alguns pontos pois falamos palavrões numa cena. Achamos injusto, o juiz foi parcial e tudo o mais, mas (depois nos estressar mais do que devíamos) compreendemos que não ia adiantar discutir, e o melhor que tínhamos a fazer era ganhar aquela competição sem falar palavrão. Era uma muleta que estávamos usando pra comédia, e mesmo sem abusar foi bom o desafio, nos forçou a achar o humor na história, de forma implícita e basicamente a fazer cenas melhores. O medo inconsciente era que sem o palavrão nossas cenas não seriam tão boas, e o risco era resistirmos e, ou falar os palavrões e perder, ou não falar e mandar mal. Felizmente percebemos uma terceira alternativa. Melhorar. Nos esforçamos mais e brincamos com o desafio. Até hoje acho que nosso melhor ganho lá foi esse aprendizado. O que está no caminho se torna o caminho – o obstáculo é o caminho.

 

Sobre o Aborto e espiritismo

Onde o feminismo encontra o espiritismo.

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Sou a favor da legalização da Maconha e completamente a favor do casamento Gay. Me assusta e entristece ver que racismo, machismo e preconceito ainda existem. No entanto sou contra o aborto, e como essas opiniões tendem a vir no mesmo pacote gostaria de contar meus motivos.

Pra mim a discussão sobre o aborto têm as raízes mais profundas possíveis. Depois que passamos as questões técnicas (médicas, logísticas e financeiras) entramos em terreno delicado – e interessante. Quando começa a vida, e de quem ela é? O clássico “quem sou eu, de onde vim e pra onde vou?”. Bom, se não existe alma ou espírito e a vida é única e exclusivamente o conjunto de reações físico-químicas que ocorrem no cérebro, o início da vida ocorre no nascimento. Assim sendo, antes desse momento caberia apenas aos pais decidirem se um aborto é desejável ou não. Não tem mais ninguém envolvido. Agora, se existe uma alma que é anterior a essa vida e que permanece depois da morte, então o nascimento passa a ser uma passagem e não uma criação. A mãe, apesar de criar biologicamente o corpo da criança, não criou o principal, que seria a alma, e portanto não cabe a ela decidir se impede ou permite a entrada daquele ser no mundo. Estamos sujeitos às leis do universo. Se uma pessoa gosta ou não das leis da física, da gravidade por exemplo, é indiferente, ela simplesmente faz parte da condição humana. O mesmo vale para as leis do renascimento (caso existam).

Me considero suficientemente racional, acredito no pensamento crítico, na argumentação e em um ponto baseado em evidências. E sou espírita. Espiritismo não surgiu como uma religião, mas como uma doutrina. No Brasil virou religião por uma questão burocrática, para que os centros gozassem do nível de proteção reservado às religiões, e como a linha entre doutrina e religião é tênue, assim foi. Uma doutrina é mais próxima de uma filosofia, um conjunto de crenças. E pra mim não há necessidade de fé. Tudo em que acredito sobre o espiritismo tem sua explicação (que naturalmente pra alguns podem não ser suficientes). Ser espírita é acreditar na existência de um espírito (ou alma) que continua a existir após a morte do corpo. Fim. Todo o resto têm seu valor, como passes, centros, encontros e etc, mas se você acredita nisso é 100% espírita. Qual a minha razão pra acreditar nisso? Algumas; tentarei fazer um resumo das principais tão breve quanto possível.

Existem pessoas que dizem se comunicar com os espíritos, outras que vêem, ou apenas ouvem e tantos outros fenômenos chamados mediúnicos. 3 opções: ou essas pessoas estão enganadas, ou estão mentindo ou é verdade. Citar diversos exemplos pra contrapor cada argumento já foi feito, então vou seguir com um exemplo apenas. Chico Xavier escreveu em vida mais de 400 livros. Dizia ele ser medium e não o verdadeiro autor das obras. Além disso, há 2 famosos casos onde o Chico recebeu cartas do além com informações que inocentavam o réu, um deles apareceu no filme, onde a carta diz precisamente onde está a arma do crime. Fosse ele um louco funcional, poderia ser apenas incrivelmente criativo e esquizofrênico, mas a loucura não explicaria como soube dessas informações do caso e de tantas outras das milhares de cartas que psicografou. Fosse ele um mentiroso, cabe entender os motivos. De fato é possível que tivesse pesquisado informações sobre algumas famílias que perderam pessoas e com isso parecer saber demais. O primeiro motivo que pensamos é o financeiro, no entanto Chico doou os direitos autorais de todos os seus livros, isso ainda vivo. E cabe lembrar que enquanto é factível pesquisar em escondido informações sobre algumas pessoas para impressioná-las e parecer ter poderes sobrenaturais, fazer isso consistentemente, toda semana, por anos a fio já não é tão simples assim (ele viveu até os 92 anos, trabalhando até o fim) – enquanto se mantêm um emprego de auxiliar no ministério da agricultura (onde não há registro de faltas).

Há um estudo de caligrafia (que virou livro) onde um especialista analisa as diversas assinaturas de cartas psicografadas e a compara com a letra do espírito enquanto vivo. A conclusão é que são verídicas. Ainda que se diga que é possível falsificá-las, novamente o volume de cartas ao longo da sua vida é tão grande (somado ao tempo consumido por suas demais atividades) que creio que a mentira aqui é improvável – fazer tudo o que ele fez e ainda pesquisar sobre as pessoas que vêm vê-lo, treinar caligrafias em segredo, conseguir cartas dos que morreram, pensar tramas mirabolantes para seus livros e tudo o mais.. Possível, mas improvável na minha opinião. Até porque as ações dele em vida atestam am alguma medida o seu caráter, que não condiz, ao meu ver, com o nível de charlatanismo necessário para manter essa complexa farsa por tanto tempo. Esses são alguns dos motivos, e outros tantos existem, que me fazem crer que o Chico não era louco nem charlatão. Passei a crer assim na existência de espíritos.

Assim comecei a ler mais sobre o espiritismo e encontrei uma seriedade que não esperava. O fato de espíritos existirem e poderem se comunicar conosco não significa que todos o fazem, nem que tudo o que dizem é correto. Assim como falamos besteiras enquanto vivos, ter morrido não nos confere a sabedoria suprema. Bom, existe muito a ser dito sobre isso, tanto que centenas de livros foram escritos sobre o assunto. Allan Kardec é reconhecido como o codificador do espiritismo (ele não era médium, logo não psicografava nada) e, aos interessados, 2 livros dele se destacam na minha opinião: “O Livro dos Espíritos” – uma série de perguntas feitas aos espíritos e suas respostas, e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. A doutrina foi criada de forma completamente experimental. A partir de fenômenos físicos (como mesas girantes na época) hipóteses iam sendo elaboradas e refutadas, e assim foi até que a única explicação plausível que permaneceu eram seres inteligentes. Quando a comunicação se intensificou começamos a ter respostas cada vez mais profundas e coerentes.

Bom, seguindo isso, o que li sobre o aborto sugere que há grande sofrimento ao espírito que é abortado. Que é diferente no caso do aborto natural. O espiritismo não proíbe ou obriga nada, apenas explica que cada ação têm suas consequências, deixando cada um usar o livre arbítrio como entender. Nesse caso em especial há grande sofrimento no futuro para mães que abortaram filhos, não causado por uma entidade punidora, mas pela própria culpa da mãe ao compreender o que não podia saber na época (sua relação passada com o filho, o porque da gravidez naquele momento e etc). O espírito do filho não veio por acaso, somos (na maioria) ligados uns aos outros por laços passados, e o esquecimento disso é mais uma das condições humanas. Mas li casos o suficiente pra perceber que em geral essa é a consequência. Assim como sei quais as consequências de uma criança que se recusa a aprender a ler. Cada caso é um caso, mas posso afirmar com alguma segurança que essa é uma má escolha, e faria tudo no meu poder pra convencer a tal criança a querer estudar. O mesmo vale para o aborto. Na medida em que li diversos relatos mostrando o que acontece depois, penso que é uma má escolha para a mãe – pois acarreta em consequências das quais ela mesma vai se arrepender depois. E mesmo sem isso, ao acreditar que há uma alma a caminho da encarnação por meio dela, interromper isso passa a ser mais complexo, pois envolve outra pessoa (pelo menos).

Quis ser breve, correndo o risco de ser leviano ou simplista. Se alguém tiver dúvidas ou interesse no assunto posso sugerir livros. Meu objetivo não é necessariamente convencer ninguém, mas colocar minha posição e mais importante, a razão pra ela.

Uma nota final – Somos responsáveis na medida dos nossos conhecimentos, e a intensão conta. Pode ser alguém leia isso e se preocupe por já ter feito um aborto. Bom, o que está feito está feito. Decidimos com o que sabemos e acreditamos, com o turbilhão de emoções do momento e tudo o mais. Cada caso é único. Acho que cabe fechar com uma famosa citação do próprio Chico: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

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Escrevi recentemente aqui e na minha página no facebook sobre porque sou contra o aborto. Inicialmente meu interesse era numa discussão mais filosófica, sobre aonde começa a vida e como algumas questões são mais profundas do que parecem. Vejo que claramente pequei por não ter dada a devida atenção ao ponto onde esse assunto é mais quente pra muitos – a faceta legal. Falhei na minha comunicação.

Não disse que sou contra a legalização do aborto, mas contra ele apenas. Opinião com a qual a maioria das pessoas parece concordar “eu nunca faria ou aconselharia ninguém a isso, mas não acho que deve (necessariamente) ser proibido”. De acordo. Já cheguei a pensar que legalizar o aborto é na prática uma forma de reduzir seu número (como pesquisas mostram), e há um tempo quando pensei no assunto fiquei na dúvida de como votaria se houvesse um plebicito. Acho que não cheguei a uma conclusão firme sobre como votaria, e o tempo passou e não voltei a pensar nisso, até agora. Por isso comecei o texto de cara pulando o que chamei de questões técnicas. Incluo as questões legais aqui. Meu foco não era na parte legal pois não estava pensando localmente, (no Brasil, nesse momento, nesse ano) pelo menos não exclusivamente. Obvio que sou brasileiro e se posto isso em português deveria esperar que esse fosse o foco de muitos.

Gosto de discutir temas atemporais (e alguns temporais também), e nesse tópico o meu interesse estava em outro lugar. Dito isso, sem dúvida quando penso em leis vejo que há a diferença entre o ideal e o prático. Devemos ou deveríamos criar leis levando em conta a realidade e não o que é “ideal”. Concordo que na prática legalizar é uma questão também de saúde pública, e simplesmente por isso já seria motivo suficiente. Outro argumento que me fez pensar é no estado laico. Apesar de estarmos longe disso na prática, prefiro um estado que seja completamente desligado de motivos religiosos (ou próximos disso) do que um que seja “de vez em quando”. Assim sendo, agradeço todos os comentários que me fizeram refletir e me deram argumentos pra mudar de ideia, ou melhor, sair da zona de indecisão em que estava. Sou contra o aborto, porém a favor da legalização.

A maioria dos artigos e discussões que leio do assunto são de outros países (EUA ou da Europa). Comecei a ler esses sites e blogs pois queria treinar meu inglês e acabou virando hábito, e isso acabou deixando as questões locais menos evidentes pra mim. Fui leviano em pensar que poderia falar do aborto e não passar pela polêmica do momento – em minha defesa e autodepreciação, sou de fato culpado da alienação. Não é por mal, não acho certo ou melhor ser assim, vejo até como um defeito meu. Por isso prefiro falar de assuntos mais gerais ou mais pessoais. Ainda assim, lucrei muito lendo a opinião de amigos, e digo a todos que comentaram*, com absoluta sinceridade, muito obrigado!!

Os comentários foram todos no facebook e não aqui no site*

 

Arte é Quadro e Estátua

Quando pediram ao Winston Churchill cortar o orçamento da arte e redirecionar para os esforços de guerra ele respondeu: “Não. Senão, pelo que estaremos lutando?”

12230931_870619619722349_483746927_n.jpg Essa foto é do instagram mais interessante que já vi sobre arte. @tipsycurator, fornece dicas e comentários divertidos e com conteúdo sobre diversas exposições.

A “cultura” tem tido uma presença cada vez maior na minha vida. Quando era mais novo lembro ser ela um pano de fundo, uma curiosidade as vezes interessante, uma visita ao museu, admirar um quadro ou algo assim. Não via exatamente como arte, era algo que estava ali, assim como a música. As vezes tocava e eu ouvia, gostava de varias, mas não vinha de mim uma iniciativa de ouvir. Fui comprar meu 1o CD com uns 16 anos. Até hoje se comprei 5 foi muito. Não tive DiscMan, meu único aparelho de som foi um WalkMan que ganhei de meu pai, e eu tinha apenas 1 fita. Por falta de uso ficou abandonado.

Lembro de uma das primeiras peça que vi no teatro, que foi “Capitães da Areia”. Tinham umas cenas de capoeira, e uma música do Dorival Caymmi que me chamaram atenção. Depois disso foi o Z.É., Zenas Improvizadas. Ai fui de 0 a 100. Assisti mais de 50 sessões, achava aquilo o máximo. Certo dia o Caruso anunciou que daria uma oficina de “Teoria da Comédia e Prática da Improvisação”, com a Dani Ocampo. Fiz 8 vezes o curso. Durante algum desses entrei pro Tablado e em pouco tempo estava em cartaz com o recém-criado grupo de improviso “Sem Prévio Ensaio”, que depois de uma única apresentação se tornou o “5 Contra Nem 1”, do qual saí depois de 4 temporadas deliciosas.

Nesse meio tempo muita coisa aconteceu. Amigos, viagens, namoros. Fiz aulas incríveis de teatro, e conheci pessoas mais incríveis ainda, no Tablado e no Laura Alvim. Gradualmente essa pequena parcela do que chamamos de cultura foi entrando na minha vida. Brincava pra chatear a minha namorada dizendo que arte é “quadro e estátua”. Essa pessoa deslumbrante que conheci no teatro e que já nasceu imersa num caldo cultural tão rico que sempre me achou um ignorante na área (e com toda a razão). Só hoje consigo perceber a importância e o impacto que a arte tem na minha vida. Tenho outro olhar para filmes, peças, performances, músicas, poesias.

Meu respeito pelo trabalho do artista veio por 3 lados. Como plateia, da qual fui me tornando um espectador mais consciente e presente também. Tenho criado o hábito de ir a teatros, shows ao vivo, de viver mais esse tipo de experiência. Como “criador”, na minha pacata experiência de ator; e como consultor de gestão, por onde tenho tido a oportunidade de trabalhar mais nos bastidores, com empresas de produção, agenciamento, edição e direção de arte. É impressionante quão artístico mesmo um trabalho “técnico” pode ser.

O “insight” disso tudo veio outro dia, assistindo ao “Sal da Terra”, um documentário do Sebastião Salgado, que recomendo a todos. Na mesma semana assisti a estreia da peça “O Homem Primitivo”, do Pedro Cardoso e Graziella Moretto. Um pouco antes “Um Estranho no Ninho”, além de estar lendo alguns livros e tendo conversas instigantes. A vida do Sebastião é incrível. Assisti outro documentário dele e algumas entrevistas no mesmo dia. Me impressiona a imersão que ele tem em cada projeto, vivendo meses em cada tribo, anos viajando. Como fotógrafo ele é mais antropólogo em teoria e prática que 99% dos acadêmicos. Eu fiz engenharia ambiental, mas ele replantou 2.5 milhões de árvores por meio do Instituto Terra, e com certeza entende mais do eco-sistema que toda minha sala da faculdade. A visão de mundo de uma pessoa assim é espantosa, e entendo que as fotos produzidas são apenas a ponta do iceberg. O trabalho tem conteúdo, tem história por trás.

sebastiao_salgado73734.jpg Sebastião Salgado – fotógrafo

Me percebi tendo um grande respeito pela arte dele, mas também pela cultura de forma geral, da capoeira que adoro jogar, pela dança, e vejo que não haveria dança sem música. E esse mundo da música, que é infinito por si só, e que atualmente me fascina tão mais.. Vejo como a minha vida é mais rica, como a entrada da arte tem expandido meus horizontes. Citei aqui alguns momentos, que fizeram e fazem parte de um contexto maior em mim. E não tenho a menor sombra de dúvida de que há muito, muito mais a aprender e viver nessa área (e em tantas outras). Meu espanto, medo e admiração vêm ao pensar que, se senti todo esse impacto com a fração a que fui exposto, até onde posso ir?

 

O Futuro Agora: Gestão para o séc XXI

Odiar a segunda feira, ter medo do chefe e viver a corrida dos ratos é normal? Como as empresas podem se tornar mais inovadoras, mais lucrativas e com um melhor local de trabalho? Quem já fez e está fazendo isso, e o que podemos aprender com eles? Afinal o que é a gestão para o séc XXI?

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Interessante pensar na gestão para o século XXI. Por que haveria de ser diferente? Como a gestão pode estar em função do tempo?

Bom, a gestão surgiu como uma solução a um problema num determinado contexto. Com a revolução industrial, havia muito trabalho a ser feito, e muitas pessoas desqualificadas. Basicamente, até aquele momento, toda mão de obra disponível provinha de artesãos ou camponeses. O desafio era transformar seres humanos em robôs semi-automáticos. Como fazemos a pessoa chegar no horário, cuidar de uma máquina e fazer isso de novo e de novo? As ferramentas e os métodos que usamos para trazer as pessoas a um mesmo lugar, organizar e mobilizar recursos para fins produtivos, foram todas inventadas nessa época.

Até 1890, a média das empresas tinha até quatro funcionários. Isso não requisitava que a gestão fosse inventada, o bom senso era suficiente. Em poucos anos, a coisa mudou. O fordismo – que aprendemos no colégio – representa bem esse período. Os princípios, métodos e ferramentas que compõem a gestão atual são um legado do séc XIX, de pessoas que, invariavelmente, carregaram os preconceitos e visões predominates da época.

“Que problema a gestão veio a resolver? Não era o problema de como se criar um local de trabalho adaptativo, inovador e inspirador. A gestão foi bem sucedida em quebrar tarefas complexas em etapas menores, repetitivas, em reforçar a aderência aos padrões e procedimentos operacionais, em medir custos e lucros no centavo, em coordenar os esforços de dezenas de milhares de empregados, e mais pra frente em sincronizar operações numa escala global.

A gestão moderna nos deu muito, mas cobrou muito em troca também, e continua a cobrar. Talvez, seja hora de renegociar a barganha. Precisamos aprender como coordenar os esforços de milhares de indivíduos sem criar uma hierarquia pesada de supervisores; a manter uma rédea curta nos custos sem estrangular a imaginação humana; a construir organizações onde a disciplina e a liberdade não são mutuamente exclusivas. Nesse novo século, nos temos de nos esforçar para transcender as aparentemente inevitáveis trocas que têm sido o infeliz legado da gestão moderna.” (Tradução livre do “The Future of Management” – Gary Hamel).

É impossível criar uma empresa que esteja pronta para o futuro sem que ela seja adequada ao ser humano. No séc XIX a ideia que se tinha é que as pessoas eram preguiçosas e procurariam tirar vantagem sempre que possível. A prática mostrou que não é assim. A pirâmide de Maslow fala sobre o que nos motiva. Todo ser humano quer trabalhar, pois todo trabalho visa servir o outro, pode ser uma fonte de renda e segurança, permite e fomenta a interação social, estimula o desenvolvimento intelectual, manual. Enfim, o trabalho é um espaço com infinito potencial. Infelizmente foi formatado de forma a esperar o mínimo das pessoas, e o resultado são empresas onde apenas um seleto grupo têm um trabalho interessante. O resto é o resto, são mãos e braços a cumprir ordens. E como tem ficado cada vez mais evidente, isso não é mais suficiente. Os tempos mudaram, e muito, desde a revolução industrial.

O Isaac Asimov tem um conto onde num futuro distante as pessoas vivem muitos anos, são quase imortais, devido aos avanços da medicina e da tecnologia. Nesse mundo a punição para criminosos é proibi-los de trabalhar por tipo 100 anos. As pessoas quase enlouquecem com o ócio, com o não ser útil. Acho que esse conceito é lindo. Lógico, quando se está sobrecarregado é excelente ficar numa praia paradisíaca tomando água de côco, mas fazer apenas isso, mesmo que por algumas semanas, seria incrivelmente tedioso. Ninguém aguenta ficar sentado o dia inteiro, todos os dias, olhando as ondas.

O que precisamos é redesenhar o formato do trabalho, das relações patrão-empregador e mesmo a estrutura física dos escritórios, assim como a organizacional. Trabalhar remotamente, com a roupa que se quer, ter mais transparência na empresa, isso tudo já é quase certo, dependendo do setor. Há muito mais a ser feito.

O que temos de mais valioso a oferecer é nós mesmos. Nosso potencial de inovação, nossas ideias, nossa capacidade de empatia, de trabalhar em grupo, nossa motivação por resolver problemas, nossa dedicação e criatividade. Milhares de empresas e tantos outros exemplos mostram como isso é possível. Não apenas possível, mas necessário. As empresas que não se adaptarem à inovação irão simplesmente falir. Sempre foi assim, o que mudou foi o ritmo. Antes uma empresa podia estar 10 anos atrás da concorrente e ainda ter algum lucro, agora não mais.

A gestão foi inventada num contexto, e o contexto mudou. Antes queríamos basicamente maximizar a eficiência e confiabilidade em processos de larga escala. Fazer a mesma coisa ad eternum. Agora passam 6 meses e um software já esta obsoleto.

Ao se colocar as pessoas no centro todas as mudanças começam a brotar. Como estimular cada um a ser mais proativo e dedicado? Bom, pra ser mais proativo o funcionário tem que ter mais liberdade, mais poder de ação e de tomada de decisão. Então não dá pra ter um supervisor ou gerente autorizando tudo o que ele faz. Ok, vamos mudar isso. Mas sem o gerente, quem vai tomar conta? Ah sim, os funcionários são adultos responsáveis e inteligentes, se os incluirmos e e formos de fato transparentes eles vão saber o que fazer, e criamos mecanismos pra facilitar a troca entre eles. Só isso já causa um efeito dominó que derruba 90% das práticas de gestão da maioria das empresas. E seguindo o raciocínio podemos ir muito longe.

E exemplos não faltam. A Semco no Brasil, onde os funcionários decidem os próprios salários, as horas de trabalho e o cargo que terão. A Valve nos EUA, não têm absolutamente nenhuma regra, os funcionários tem mesas com rodinhas, podem simplesmente sair de um andar e ir pra outro, trabalhar no projeto que quiserem e como quiserem. Ela existe há 20 anos e deu lucro em todos. Produziu jogos como Half-Life e o Steam, a plataforma de jogos online. A Gore, famosa pelo Gore-Tex, é uma multinacional com intensa gestão participativa. O Wikipedia, onde tudo é gerido e coordenado basicamente por voluntários. A Mondragon, cooperativa que movimente Bilhões por ano, onde todo mundo é dono, faz o que quer e como quer. Em menor escala de liberdade mesmo a Google e a Pixar são incrivelmente inovadoras, transparentes e com um ambiente de trabalho focado nas pessoas. Há milhões de detalhes aos interessados, mas é indubitável a necessidade de inovação, e a forma de fomentá-la é necessariamente revendo o design dos locais e relações de trabalho.

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O maior obstáculo é, sem dúvida, o medo. O medo do novo, do desconhecido. É difícil abdicar do controle, aceitar que o outro pode ser melhor, que todos vão saber meu salário e podem votar minha demissão. Será que mereço o que recebo? Será que tenho que ser mais legal ou posso ser punido por isso? A prática mostra que não, as pessoas têm bom senso e conseguem separar bem a amizade da qualidade do trabalho. E quanto às inseguranças? Bom, se a empresa inteira, pessoas que estão nesse mercado e setor há anos não valorizam o meu trabalho, acham que eu não mereço tanto, talvez seja a hora de rever o que eu faço. De investir em cursos, de buscar ser mais útil. Essa é a real, não existem atalhos. Se você tem medo de uma gestão participativa pois pode ser prejudicado, é porque ou está com uma visão deturpada de si mesmo ou é melhor mudar logo.

Aceitamos a democracia como a pior forma de governo, exceto por todas as outras. Sim, ela é falha, trabalhosa e demorada, mas é melhor que as demais opções. Assim sendo, vamos com ela. Se eu luto por ela no meu país, porque não na minha empresa? Pra mim esses são os desafios da gestão no séc XXI. E Darwin dá duas opções às empresas. Se adaptar, ou falir. Nada mais natural.

Gestão Participativa, colaborativa e outros nomes têm sido usados pra falar desse fenômeno. Uma nova literatura têm surgido pra tratar do assunto, eis aqui os melhores na minha opinião. La Crème de la crème: Gary Hamel – “O Futuro da Administração”; Ricardo Semler é outra leitura obrigatória: “Você Está Louco” e “Virando a Própria Mesa” são inspiradores e contam um caso 100% brasileiro; Recomendo também “O Nascimento da Era Caórdica” do Dee Hock, sobre o processo que permitiu a cooperação entre diversos bancos e a criação do cartão de crédito Visa; “Creativity, Inc” onde Ed Catmull fala sobre a Pixar em detalhes, as reuniões de trabalho e forma de liderar equipes geniais; “Beyond Measure” da Margaret Heffernan mostra o poder do capital social e das interconexões; “Nação Empreendedora” pela dupla Dan Senor e Saul Singer mostrando como Israel tem consistentemente produzido empreendedorismo de sucesso e “O Banqueiro dos Pobres” do Muhammad Yunus, onde vemos o impacto do negócios sociais e a importância de se trazer os pobres para dentro do sistema financeiro. Todos esses livros além de bem escritos trazem histórias excepcionais, com exemplos práticos da importância e dos resultados da gestão participativa.

Boas leituras!

 

Sobre assédios, racismo, e minhas amigas

Coisas bonitas estão acontecendo, como a campanha #meuprimeiroassedio e outras que estão surgindo. Não é só uma modinha. Tem valor. Tem fundamento. Tem que vir.

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Tenho achado incrível ler as histórias do primeiro assédio das minhas amigas e conhecidas. Não apenas pois isso me mostra uma realidade para a qual eu era apenas marginalmente consciente, mas pela coragem de se expor dessa forma. Admiro e acho absolutamente necessário.

Sou branco, homem, heterossexual, nascido numa família de classe média alta e creio que nunca sofri de um preconceito real. Minhas únicas e risíveis experiências foram quando fiz intercâmbio pra Alemanha, com 15 anos, e alguém me tratou de uma forma estranha achando que eu era turco (eu tinha a pele um pouco mais escura que a média e falava com um sotaque estranho). Mas assim que a pessoa descobriu que eu era brasileiro e estava viajando, mudou totalmente de atitude. Isso e algum preconceito de idade, não ser levado a serio por ser novo demais (ou aparentar ser). É tão ridículo que deveria ter outra palavra que não preconceito. Talvez um pequeno desconforto.

No entanto acho que a opinião de alguém que não vive a coisa tem também seu valor. O distanciamento emocional facilita uma imparcialidade, pro bem ou pro mal. Me soa absurdo que abusos tão agressivos como assédios tenham uma incidência tão grande. Sempre soube que existiam, mas assim como existem assassinos de aluguel ou chefões da mafia se reunindo em algum lugar. É algo que existe, sim, mas pra mim era a excessão da excessão.

Meu priminho que mora no Paraná outro dia nos visitando perguntou aonde estava a tia marrom. Não entendemos até alguém perceber que era a Naia, a empregada da minha avó, que é negra. Ele tem 4 anos e nos poucos ciclos em que convive acho que não tem nenhum negro. Assim achou curiosa aquela pessoa de pele marrom. Isso é o oposto do pré-conceito. Pela idade e inocência ele de fato não tinha nenhum conceito pré-definido a respeito daquela pessoa. O oposto da maioria. E o que mais me incomoda é perceber o quanto deles estão profundamente enraizados na nossa cultura.

Temos toda uma estrutura predial de forma a ter elevadores separados pra criadagem, os prestadores de serviço. Atualmente se justifica por questões de segurança e higiene, pois o elevador de serviço é também o de banhistas e entregadores. Mas o contexto no qual ele surgiu é outro. Assim como todo apartamento tem um quartinho perto da cozinha. E é um quarto que nem é contabilizado na contagem de quartos da casa. “Essa casa tem 4 quartos, mais o de empregada”. O que dizer de seu ocupante? Será ele ou ela igualmente invisível? Nossa própria gramática favorece o homem, sendo o padrão o artigo masculino. Exceto talvez nos casos em que se refere a certos serviços – presume-se que a pessoa que venha a ocupar o tal quartinho seja mulher. Ai a norma é tratar no feminino mesmo. E com uma frequência maior que gostaríamos de admitir a norma nem é tratar, mas destratar.

O que mais machuca é perceber que em tantas vezes dei continuidade a diversos preconceitos. Conscientemente ou não. E acho bonito ler os casos, pois me mostram quão mais próximos eles estão. Sempre estiveram ali, só que estavam escondidos. Escondidos pela vergonha, pela máscara da hipocrisia, pelo medo. E assim como eu, tantos outros vivem alheios a esse mundo. E mesmo quem sofre de um tipo de preconceito pode precisar de um empurrãozinho pra ficar atento aos demais. É uma forma de ver o outro. Tão simples e tão difícil ao mesmo tempo. Se colocar no lugar do outro é algo que nunca foi intuitivo pra mim, como é pra tantas pessoas, mas um exercício que faz toda a diferença.

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Agradeço a todas e todos que compartilharam de alguma forma suas histórias, se abrindo e se permitindo conhecer um pouco mais. É um pequeno passo, mas, apesar de clichê, toda grande caminhada é composta de pequenos passos. Um atrás do outro.