Vegetarianismo e outras escolhas

Fazendo uma coisa, em geral aprendemos outras. Estar consciente das decisões nos permite uma melhor relação com ela. Comendo o que se quer, não estou pregando o vegetarianismo, apenas refletindo sobre alguns pontos.

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IMG_0304.JPG Foto tirada na Chapada Diamantina, onde tive minha primeira experiência sem comer carnes. Que lugar lindo..

Virar vegetariano foi uma decisão marcante na minha vida. É o tipo de decisão da qual você é lembrado ao menos 3 vezes por dia. E não é como se a carne deixasse de ser gostosa porque eu parei de comer. Na minha casa ela continuava presente em todas as refeições, e cabia a mim a disciplina de não pegar. Isso tem um lado muito bom. Fiquei uns 8 anos como vegetariano. Hoje voltei a comer peixes e frutos do mar, e assim pretendo ficar. Nem considero voltar à carne vermelha e de frango, mas talvez mais pra frente eu corte o peixe novamente.

Minhas razões foram primariamente de saúde. Sempre achei que seria mais saudável não comer carne, mas pra mim isso significava também quase que abdicar do prazer da comida. Achava que comida era ou saudável ou gostosa. Até que fiz uma viagem de uns 15 dias com um pessoal vegetariano e comi melhor do que esperava. Na verdade, a comida era mais saborosa que qualquer outra que eu me lembre. Percebi que minhas premissas eram fundamentadas em preguiça e preconceito.

Muita gente adere ao vegetarianismo por pena dos animais. Eu particularmente não tenho nenhuma questão com a morte. Se tivesse que caçar e matar animais pra comer, o faria sem problemas. O que me incomoda é o sofrimento desnecessário. A forma de vida que o animal tem até morrer. Um peixe que vive no mar até ser pescado teve sua vida normal. Mesmo um em cativeiro ainda é bem aceitável, na minha opinião. Mas as galinhas por exemplo, vivem em cubículos cheias de antibióticos em galpões num formato que pra mim mais se aproxima da tortura. Bois e vacas também, o que é acentuado pelo fato deles serem mais inteligentes que os peixes, então têm mais consciência do que acontece. Não que entendam tudo como um humano, longe disso, mas é normal eles perceberem quando vão morrer e irem pro abate chorando. Essa carne de uma vida e morte tão sofridas me incomoda. Se não tivesse jeito ok, mas têm.

Esse foi o meu motivo. Tem gente que diz que não gosta de vegetarianos pois eles ficam tentando te fazer sentir culpa por apreciar uma picanha. O motivo de você não gostar dessa pessoa não é porque ela é vegetariana. É porque ela é chata pra caralho. Mesmo se comesse carne continuaria chata. Só mudaria o tema da chatice. Minha política pessoal é de só falar disso com as pessoas quando me perguntam ou quando é necessário, como quando sou convidado pra um jantar e acho válido ressaltar. Nunca peço que mudem o cardápio por mim, pelo contrário, mas hoje em dia é cada vez mais simples e comum. Se me oferecem uma carne agradeço e recuso, só isso. Se alguém me pergunta porque digo que não como carne exceto peixe. E se a pessoa realmente quiser entrar no assunto, ai sim converso abertamente. Senão vira só uma curiosidade e menos um pra dividir a pizza de calabresa.

Primeiro eu cortei apenas a carne vermelha. Fiquei assim um ano, depois parei com qualquer animal, continuei comendo ovo, leite e derivados. Fiquei assim uns 7 anos, e depois voltei pro peixe e frutos do mar, como estou no momento. O curioso é que parar apenas com a carne vermelha foi muito mais difícil do que depois cortar todo o resto. Foi a primeira vez que tive tantas conversas sobre o assunto, que tive isso associado à minha identidade de alguma forma. Depois parece que foi só mais um passo. Eu sabia que conseguia, entendia o desafio que era e já tinha um modelo mental necessário. Porque nunca fez sentido parar de comer carne pra ficar sofrendo e com saudade. Um vontade ou outra no começo é natural, mas isso pra mim não devia ser um sacrifício. Adoro o prazer da comida, e adoro também me alimentar bem e de forma saudável. O que funcionou pra mim foi desconsiderar carne como comida. Simplesmente tomei uma decisão e nunca voltei atrás.

O ato de duvidar de si mesmo é que em geral traz o sofrimento, a angústia de que muitos reclamam. A pessoa fica olhando o sanduiche de filé do amigo, ou a fatia de bacon e tentando relembrar porque quis parar de comer carne, fica revendo se tomou a decisão certa ou não. E mesmo quando chega na conclusão de que está certa e prefere mesmo não comer aquilo, foram alguns minutos de sofrimento, de insatisfação e dúvida, ao meu ver, à toa. Isso vale pra qualquer decisão, é claro. Acho que faz muito mais sentido gastar um tempo maior uma vez, pensar com calma, ponderar cada argumento, prós e contras e, ai sim, decidir. É mais demorado, mas depois você tem certeza da sua decisão e pronto. Só volta a rever ela se alguém aparecer com um argumento muito bom ou uma informação nova. Assim você não precisa re-tomar a decisão toda vez, especialmente porque olhando pra uma coxinha vai ser muita mais difícil.

Depois de decidir, quando eu ia num lugar que só tinha carne era como se não tivesse comida. Já tinha aceitado as consequências da decisão. De que de vez em quando poderia “passar fome”. E isso é um exagero de um mimo incrível. Depois que fiz alguns jejuns vi o quanto dramatizamos ficar sem comer e tentamos justificar nossas vontades com racionalizações. De qualquer forma tem um estado mental de retirar a carne da categoria comida. Simplesmente não é mais uma opção. Isso facilita tudo. De tempos em tempos é saudável rever nossas decisões, mas sempre num ambiente com calma e tempo, não num bar em meio à pressão social.

Acho que o maior ganho na minha experiência, empatado com uma alimentação mais saudável (que não é sinônimo de não comer carne, mas pra mim a mudança foi uma só) é a confiança que vem ao fazer algo por um longo tempo. Eu sei que consigo. Vegetarianismo é uma boa pois você é testado pelo menos 3 vezes ao dia. Treinar num ambiente mais intenso faz o resto parecer mais fácil. Que nem jogar uma fase no nível mais difícil e depois voltar no normal.

Tenho buscado também não ter vergonha das minhas decisões. As vezes tenho uma opinião, mas quando confrontado prefiro mudar de assunto, fico inseguro. Sair desse armário faz toda a diferença. Cada um tem seu armário pra sair, ou vários armários. Hoje eu penso que ou estou confiante quanto ao que decidi ou é melhor voltar atrás. Se acho que usar terno é algo idiota mas só quando estou sozinho ou com amigos próximos das duas uma. Ou repenso minha opinião do assunto, ou saio desse armário e aceito falar abertamente do assunto caso a ocasião ocorra. Em geral tenho ficado com um pouco de cada. Pensando mais, vejo que nenhuma situação é tão extrema, e tem casos onde um terno é justificado, mesmo que seja apenas pra agradar o avô.

Em geral a forma de falar é muito mais importante que o conteúdo. Discorde, mas seja educado, calmo. Saiba ouvir o ponto do outro, e só dê a sua opinião se for requisitado. Educação e um pouco de bom humor me permitem ser firme sem ser desagradável.

 

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