Sobre o Aborto e espiritismo

Onde o feminismo encontra o espiritismo.

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Sou a favor da legalização da Maconha e completamente a favor do casamento Gay. Me assusta e entristece ver que racismo, machismo e preconceito ainda existem. No entanto sou contra o aborto, e como essas opiniões tendem a vir no mesmo pacote gostaria de contar meus motivos.

Pra mim a discussão sobre o aborto têm as raízes mais profundas possíveis. Depois que passamos as questões técnicas (médicas, logísticas e financeiras) entramos em terreno delicado – e interessante. Quando começa a vida, e de quem ela é? O clássico “quem sou eu, de onde vim e pra onde vou?”. Bom, se não existe alma ou espírito e a vida é única e exclusivamente o conjunto de reações físico-químicas que ocorrem no cérebro, o início da vida ocorre no nascimento. Assim sendo, antes desse momento caberia apenas aos pais decidirem se um aborto é desejável ou não. Não tem mais ninguém envolvido. Agora, se existe uma alma que é anterior a essa vida e que permanece depois da morte, então o nascimento passa a ser uma passagem e não uma criação. A mãe, apesar de criar biologicamente o corpo da criança, não criou o principal, que seria a alma, e portanto não cabe a ela decidir se impede ou permite a entrada daquele ser no mundo. Estamos sujeitos às leis do universo. Se uma pessoa gosta ou não das leis da física, da gravidade por exemplo, é indiferente, ela simplesmente faz parte da condição humana. O mesmo vale para as leis do renascimento (caso existam).

Me considero suficientemente racional, acredito no pensamento crítico, na argumentação e em um ponto baseado em evidências. E sou espírita. Espiritismo não surgiu como uma religião, mas como uma doutrina. No Brasil virou religião por uma questão burocrática, para que os centros gozassem do nível de proteção reservado às religiões, e como a linha entre doutrina e religião é tênue, assim foi. Uma doutrina é mais próxima de uma filosofia, um conjunto de crenças. E pra mim não há necessidade de fé. Tudo em que acredito sobre o espiritismo tem sua explicação (que naturalmente pra alguns podem não ser suficientes). Ser espírita é acreditar na existência de um espírito (ou alma) que continua a existir após a morte do corpo. Fim. Todo o resto têm seu valor, como passes, centros, encontros e etc, mas se você acredita nisso é 100% espírita. Qual a minha razão pra acreditar nisso? Algumas; tentarei fazer um resumo das principais tão breve quanto possível.

Existem pessoas que dizem se comunicar com os espíritos, outras que vêem, ou apenas ouvem e tantos outros fenômenos chamados mediúnicos. 3 opções: ou essas pessoas estão enganadas, ou estão mentindo ou é verdade. Citar diversos exemplos pra contrapor cada argumento já foi feito, então vou seguir com um exemplo apenas. Chico Xavier escreveu em vida mais de 400 livros. Dizia ele ser medium e não o verdadeiro autor das obras. Além disso, há 2 famosos casos onde o Chico recebeu cartas do além com informações que inocentavam o réu, um deles apareceu no filme, onde a carta diz precisamente onde está a arma do crime. Fosse ele um louco funcional, poderia ser apenas incrivelmente criativo e esquizofrênico, mas a loucura não explicaria como soube dessas informações do caso e de tantas outras das milhares de cartas que psicografou. Fosse ele um mentiroso, cabe entender os motivos. De fato é possível que tivesse pesquisado informações sobre algumas famílias que perderam pessoas e com isso parecer saber demais. O primeiro motivo que pensamos é o financeiro, no entanto Chico doou os direitos autorais de todos os seus livros, isso ainda vivo. E cabe lembrar que enquanto é factível pesquisar em escondido informações sobre algumas pessoas para impressioná-las e parecer ter poderes sobrenaturais, fazer isso consistentemente, toda semana, por anos a fio já não é tão simples assim (ele viveu até os 92 anos, trabalhando até o fim) – enquanto se mantêm um emprego de auxiliar no ministério da agricultura (onde não há registro de faltas).

Há um estudo de caligrafia (que virou livro) onde um especialista analisa as diversas assinaturas de cartas psicografadas e a compara com a letra do espírito enquanto vivo. A conclusão é que são verídicas. Ainda que se diga que é possível falsificá-las, novamente o volume de cartas ao longo da sua vida é tão grande (somado ao tempo consumido por suas demais atividades) que creio que a mentira aqui é improvável – fazer tudo o que ele fez e ainda pesquisar sobre as pessoas que vêm vê-lo, treinar caligrafias em segredo, conseguir cartas dos que morreram, pensar tramas mirabolantes para seus livros e tudo o mais.. Possível, mas improvável na minha opinião. Até porque as ações dele em vida atestam am alguma medida o seu caráter, que não condiz, ao meu ver, com o nível de charlatanismo necessário para manter essa complexa farsa por tanto tempo. Esses são alguns dos motivos, e outros tantos existem, que me fazem crer que o Chico não era louco nem charlatão. Passei a crer assim na existência de espíritos.

Assim comecei a ler mais sobre o espiritismo e encontrei uma seriedade que não esperava. O fato de espíritos existirem e poderem se comunicar conosco não significa que todos o fazem, nem que tudo o que dizem é correto. Assim como falamos besteiras enquanto vivos, ter morrido não nos confere a sabedoria suprema. Bom, existe muito a ser dito sobre isso, tanto que centenas de livros foram escritos sobre o assunto. Allan Kardec é reconhecido como o codificador do espiritismo (ele não era médium, logo não psicografava nada) e, aos interessados, 2 livros dele se destacam na minha opinião: “O Livro dos Espíritos” – uma série de perguntas feitas aos espíritos e suas respostas, e “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. A doutrina foi criada de forma completamente experimental. A partir de fenômenos físicos (como mesas girantes na época) hipóteses iam sendo elaboradas e refutadas, e assim foi até que a única explicação plausível que permaneceu eram seres inteligentes. Quando a comunicação se intensificou começamos a ter respostas cada vez mais profundas e coerentes.

Bom, seguindo isso, o que li sobre o aborto sugere que há grande sofrimento ao espírito que é abortado. Que é diferente no caso do aborto natural. O espiritismo não proíbe ou obriga nada, apenas explica que cada ação têm suas consequências, deixando cada um usar o livre arbítrio como entender. Nesse caso em especial há grande sofrimento no futuro para mães que abortaram filhos, não causado por uma entidade punidora, mas pela própria culpa da mãe ao compreender o que não podia saber na época (sua relação passada com o filho, o porque da gravidez naquele momento e etc). O espírito do filho não veio por acaso, somos (na maioria) ligados uns aos outros por laços passados, e o esquecimento disso é mais uma das condições humanas. Mas li casos o suficiente pra perceber que em geral essa é a consequência. Assim como sei quais as consequências de uma criança que se recusa a aprender a ler. Cada caso é um caso, mas posso afirmar com alguma segurança que essa é uma má escolha, e faria tudo no meu poder pra convencer a tal criança a querer estudar. O mesmo vale para o aborto. Na medida em que li diversos relatos mostrando o que acontece depois, penso que é uma má escolha para a mãe – pois acarreta em consequências das quais ela mesma vai se arrepender depois. E mesmo sem isso, ao acreditar que há uma alma a caminho da encarnação por meio dela, interromper isso passa a ser mais complexo, pois envolve outra pessoa (pelo menos).

Quis ser breve, correndo o risco de ser leviano ou simplista. Se alguém tiver dúvidas ou interesse no assunto posso sugerir livros. Meu objetivo não é necessariamente convencer ninguém, mas colocar minha posição e mais importante, a razão pra ela.

Uma nota final – Somos responsáveis na medida dos nossos conhecimentos, e a intensão conta. Pode ser alguém leia isso e se preocupe por já ter feito um aborto. Bom, o que está feito está feito. Decidimos com o que sabemos e acreditamos, com o turbilhão de emoções do momento e tudo o mais. Cada caso é único. Acho que cabe fechar com uma famosa citação do próprio Chico: “Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

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Escrevi recentemente aqui e na minha página no facebook sobre porque sou contra o aborto. Inicialmente meu interesse era numa discussão mais filosófica, sobre aonde começa a vida e como algumas questões são mais profundas do que parecem. Vejo que claramente pequei por não ter dada a devida atenção ao ponto onde esse assunto é mais quente pra muitos – a faceta legal. Falhei na minha comunicação.

Não disse que sou contra a legalização do aborto, mas contra ele apenas. Opinião com a qual a maioria das pessoas parece concordar “eu nunca faria ou aconselharia ninguém a isso, mas não acho que deve (necessariamente) ser proibido”. De acordo. Já cheguei a pensar que legalizar o aborto é na prática uma forma de reduzir seu número (como pesquisas mostram), e há um tempo quando pensei no assunto fiquei na dúvida de como votaria se houvesse um plebicito. Acho que não cheguei a uma conclusão firme sobre como votaria, e o tempo passou e não voltei a pensar nisso, até agora. Por isso comecei o texto de cara pulando o que chamei de questões técnicas. Incluo as questões legais aqui. Meu foco não era na parte legal pois não estava pensando localmente, (no Brasil, nesse momento, nesse ano) pelo menos não exclusivamente. Obvio que sou brasileiro e se posto isso em português deveria esperar que esse fosse o foco de muitos.

Gosto de discutir temas atemporais (e alguns temporais também), e nesse tópico o meu interesse estava em outro lugar. Dito isso, sem dúvida quando penso em leis vejo que há a diferença entre o ideal e o prático. Devemos ou deveríamos criar leis levando em conta a realidade e não o que é “ideal”. Concordo que na prática legalizar é uma questão também de saúde pública, e simplesmente por isso já seria motivo suficiente. Outro argumento que me fez pensar é no estado laico. Apesar de estarmos longe disso na prática, prefiro um estado que seja completamente desligado de motivos religiosos (ou próximos disso) do que um que seja “de vez em quando”. Assim sendo, agradeço todos os comentários que me fizeram refletir e me deram argumentos pra mudar de ideia, ou melhor, sair da zona de indecisão em que estava. Sou contra o aborto, porém a favor da legalização.

A maioria dos artigos e discussões que leio do assunto são de outros países (EUA ou da Europa). Comecei a ler esses sites e blogs pois queria treinar meu inglês e acabou virando hábito, e isso acabou deixando as questões locais menos evidentes pra mim. Fui leviano em pensar que poderia falar do aborto e não passar pela polêmica do momento – em minha defesa e autodepreciação, sou de fato culpado da alienação. Não é por mal, não acho certo ou melhor ser assim, vejo até como um defeito meu. Por isso prefiro falar de assuntos mais gerais ou mais pessoais. Ainda assim, lucrei muito lendo a opinião de amigos, e digo a todos que comentaram*, com absoluta sinceridade, muito obrigado!!

Os comentários foram todos no facebook e não aqui no site*

 

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