Perfeccionismo

Toda moeda tem dois lados, e o perfeccionismo é assim pra mim.

Por um lado ele pode ser uma máscara atrás da qual nos escondemos. Não somos seres racionais, somos seres racionalizantes. Primeiro temos uma emoção a respeito de algo, e a partir dai buscamos as razões que justificam nossa preferência. Temos milhões de camadas e nosso funcionamento é certamente mais complexo, mas de uma forma geral sinto que usei muitas vezes o perfeccionismo como uma fuga. “Não vou publicar esse texto assim, deixa eu só dar uma ajeitada aqui e ali”.

Cada elogio ou crítica pesa fundo na nossa auto estima, no ego, no quanto eu me valorizo. Especialmente se estou num momento mais frágil, quero que o que vem de fora seja positivo, pois a fonte interna ta fraquinha. Preciso que outros reafirmem o que eu quero acreditar lá no fundo, que eu sou um gênio incompreendido, que em mim há muito potencial, que sou especial e que só por azar ninguém percebeu ainda. Ai espero a oportunidade ideal pra mostrar meu talento, um momento X onde, ai sim, vou fazer bonito. So que as vezes somos muitos, e um de nós, talvez o medo pra quem viu Inside Out (DivertidaMente, da Pixar) decide que não vai dar certo. E entramos num loop eterno onde justificamos o não agir com a eterna busca por um perfeccionismo irreal.

Aos que agem, ainda nesse lado da moeda temos o “o bom é inimigo do ótimo”. Essa frase é uma ode contra o conformismo. Somos preguiçosos e procrastinadores, se algo é suficiente, deixamos assim. O provisório-permanente. Já o perfeito ninguém conhece. É um conceito, uma ideia que não sei se podemos sequer conceber.

Tem momentos onde ele é positivo, ou apenas diferente – o outro lado da moeda. Quando usado em equilíbrio e como sinônimo de atenção aos detalhes. Um produto ou serviço é uma forma indireta de contato com alguém, e quando se dedica um tempo e esforço extra naquilo e o resultado é satisfatório, é um sinal de respeito. Além de ser uma grande realização, sentir que nos dedicamos 100%, que fiz meu máximo naquele momento é incrivelmente satisfatório. Os japoneses levam isso como estilo de vida.
Não apenas somos únicos, como cada momento é único. Já dizia o sábio chinês, “não se pode entrar num rio duas vezes”. Aquilo foi perfeito visto que foi o melhor que eu pude fazer naquele momento, naquele contexto. Mais pra frente as coisas mudam. Um desenho “perfeito” que fiz aos 5 anos é muito inferior tecnicamente ao que fiz aos 25. Mas o perfeccionismo existiu nos dois momentos, fiquei horas em cada um, dediquei toda minha atenção e trabalhei no meu limite. O resultado foi menos importante que a atitude. Afinal nem temos um conceito de perfeito claro o suficiente. Pra fazer sentido temos que restringir em muito a conversa. Por exemplo, o que é um livro perfeito? Bom, depende, em relação a que? E em qual tema, um romance, um livro técnico? Existem os clássicos, mas ser perfeito significa que todo mundo tem que gostar? Gregos e Troianos? Ou tem que ser impecável, livre de erros? Mas quem define o que é um erro?

O perfeito só existe na utopia, e pra ideias absolutamente bem definitas e delimitadas. No mundo das formas de Platão, na imaterialidade da matemática. Podemos definir um círculo perfeito, é a figura geométrica onde todos os pontos equidistam de um centro. No entanto nunca vimos um. Já vimos representações de círculos, mas nenhum é perfeito. Se der um zoom, uma aproximação absurda na sua fronteira veremos que há irregularidades, pontos mais e menos distantes do centro, em qualquer círculo feito pelo homem. Mesmo os de computador, somos incapazes de representar perfeitamente a perfeição. Representar é trazer ao plano material algo que existia como ideia, e assim está sujeito às limitações da matéria.

Mas discutir filosoficamente o significado de “perfeito” é fugir ao ponto. O fato é que a atitude perfeccionista é em si mesmo neutra, e pode ser usada tanto para a fuga e como desculpa à inação, como pode denotar um alto nível de dedicação e uma forma saudável de ser buscar a maestria. Uma mesma moeda, com dois pesos e duas medidas. E você, o que compra com a sua?

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“Um Texto por Pessoa” tema escolhido pela Manu – Perfeccionismo.

Foto de Escrevinhanças.
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