O Futuro Agora: Gestão para o séc XXI

Odiar a segunda feira, ter medo do chefe e viver a corrida dos ratos é normal? Como as empresas podem se tornar mais inovadoras, mais lucrativas e com um melhor local de trabalho? Quem já fez e está fazendo isso, e o que podemos aprender com eles? Afinal o que é a gestão para o séc XXI?

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Interessante pensar na gestão para o século XXI. Por que haveria de ser diferente? Como a gestão pode estar em função do tempo?

Bom, a gestão surgiu como uma solução a um problema num determinado contexto. Com a revolução industrial, havia muito trabalho a ser feito, e muitas pessoas desqualificadas. Basicamente, até aquele momento, toda mão de obra disponível provinha de artesãos ou camponeses. O desafio era transformar seres humanos em robôs semi-automáticos. Como fazemos a pessoa chegar no horário, cuidar de uma máquina e fazer isso de novo e de novo? As ferramentas e os métodos que usamos para trazer as pessoas a um mesmo lugar, organizar e mobilizar recursos para fins produtivos, foram todas inventadas nessa época.

Até 1890, a média das empresas tinha até quatro funcionários. Isso não requisitava que a gestão fosse inventada, o bom senso era suficiente. Em poucos anos, a coisa mudou. O fordismo – que aprendemos no colégio – representa bem esse período. Os princípios, métodos e ferramentas que compõem a gestão atual são um legado do séc XIX, de pessoas que, invariavelmente, carregaram os preconceitos e visões predominates da época.

“Que problema a gestão veio a resolver? Não era o problema de como se criar um local de trabalho adaptativo, inovador e inspirador. A gestão foi bem sucedida em quebrar tarefas complexas em etapas menores, repetitivas, em reforçar a aderência aos padrões e procedimentos operacionais, em medir custos e lucros no centavo, em coordenar os esforços de dezenas de milhares de empregados, e mais pra frente em sincronizar operações numa escala global.

A gestão moderna nos deu muito, mas cobrou muito em troca também, e continua a cobrar. Talvez, seja hora de renegociar a barganha. Precisamos aprender como coordenar os esforços de milhares de indivíduos sem criar uma hierarquia pesada de supervisores; a manter uma rédea curta nos custos sem estrangular a imaginação humana; a construir organizações onde a disciplina e a liberdade não são mutuamente exclusivas. Nesse novo século, nos temos de nos esforçar para transcender as aparentemente inevitáveis trocas que têm sido o infeliz legado da gestão moderna.” (Tradução livre do “The Future of Management” – Gary Hamel).

É impossível criar uma empresa que esteja pronta para o futuro sem que ela seja adequada ao ser humano. No séc XIX a ideia que se tinha é que as pessoas eram preguiçosas e procurariam tirar vantagem sempre que possível. A prática mostrou que não é assim. A pirâmide de Maslow fala sobre o que nos motiva. Todo ser humano quer trabalhar, pois todo trabalho visa servir o outro, pode ser uma fonte de renda e segurança, permite e fomenta a interação social, estimula o desenvolvimento intelectual, manual. Enfim, o trabalho é um espaço com infinito potencial. Infelizmente foi formatado de forma a esperar o mínimo das pessoas, e o resultado são empresas onde apenas um seleto grupo têm um trabalho interessante. O resto é o resto, são mãos e braços a cumprir ordens. E como tem ficado cada vez mais evidente, isso não é mais suficiente. Os tempos mudaram, e muito, desde a revolução industrial.

O Isaac Asimov tem um conto onde num futuro distante as pessoas vivem muitos anos, são quase imortais, devido aos avanços da medicina e da tecnologia. Nesse mundo a punição para criminosos é proibi-los de trabalhar por tipo 100 anos. As pessoas quase enlouquecem com o ócio, com o não ser útil. Acho que esse conceito é lindo. Lógico, quando se está sobrecarregado é excelente ficar numa praia paradisíaca tomando água de côco, mas fazer apenas isso, mesmo que por algumas semanas, seria incrivelmente tedioso. Ninguém aguenta ficar sentado o dia inteiro, todos os dias, olhando as ondas.

O que precisamos é redesenhar o formato do trabalho, das relações patrão-empregador e mesmo a estrutura física dos escritórios, assim como a organizacional. Trabalhar remotamente, com a roupa que se quer, ter mais transparência na empresa, isso tudo já é quase certo, dependendo do setor. Há muito mais a ser feito.

O que temos de mais valioso a oferecer é nós mesmos. Nosso potencial de inovação, nossas ideias, nossa capacidade de empatia, de trabalhar em grupo, nossa motivação por resolver problemas, nossa dedicação e criatividade. Milhares de empresas e tantos outros exemplos mostram como isso é possível. Não apenas possível, mas necessário. As empresas que não se adaptarem à inovação irão simplesmente falir. Sempre foi assim, o que mudou foi o ritmo. Antes uma empresa podia estar 10 anos atrás da concorrente e ainda ter algum lucro, agora não mais.

A gestão foi inventada num contexto, e o contexto mudou. Antes queríamos basicamente maximizar a eficiência e confiabilidade em processos de larga escala. Fazer a mesma coisa ad eternum. Agora passam 6 meses e um software já esta obsoleto.

Ao se colocar as pessoas no centro todas as mudanças começam a brotar. Como estimular cada um a ser mais proativo e dedicado? Bom, pra ser mais proativo o funcionário tem que ter mais liberdade, mais poder de ação e de tomada de decisão. Então não dá pra ter um supervisor ou gerente autorizando tudo o que ele faz. Ok, vamos mudar isso. Mas sem o gerente, quem vai tomar conta? Ah sim, os funcionários são adultos responsáveis e inteligentes, se os incluirmos e e formos de fato transparentes eles vão saber o que fazer, e criamos mecanismos pra facilitar a troca entre eles. Só isso já causa um efeito dominó que derruba 90% das práticas de gestão da maioria das empresas. E seguindo o raciocínio podemos ir muito longe.

E exemplos não faltam. A Semco no Brasil, onde os funcionários decidem os próprios salários, as horas de trabalho e o cargo que terão. A Valve nos EUA, não têm absolutamente nenhuma regra, os funcionários tem mesas com rodinhas, podem simplesmente sair de um andar e ir pra outro, trabalhar no projeto que quiserem e como quiserem. Ela existe há 20 anos e deu lucro em todos. Produziu jogos como Half-Life e o Steam, a plataforma de jogos online. A Gore, famosa pelo Gore-Tex, é uma multinacional com intensa gestão participativa. O Wikipedia, onde tudo é gerido e coordenado basicamente por voluntários. A Mondragon, cooperativa que movimente Bilhões por ano, onde todo mundo é dono, faz o que quer e como quer. Em menor escala de liberdade mesmo a Google e a Pixar são incrivelmente inovadoras, transparentes e com um ambiente de trabalho focado nas pessoas. Há milhões de detalhes aos interessados, mas é indubitável a necessidade de inovação, e a forma de fomentá-la é necessariamente revendo o design dos locais e relações de trabalho.

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O maior obstáculo é, sem dúvida, o medo. O medo do novo, do desconhecido. É difícil abdicar do controle, aceitar que o outro pode ser melhor, que todos vão saber meu salário e podem votar minha demissão. Será que mereço o que recebo? Será que tenho que ser mais legal ou posso ser punido por isso? A prática mostra que não, as pessoas têm bom senso e conseguem separar bem a amizade da qualidade do trabalho. E quanto às inseguranças? Bom, se a empresa inteira, pessoas que estão nesse mercado e setor há anos não valorizam o meu trabalho, acham que eu não mereço tanto, talvez seja a hora de rever o que eu faço. De investir em cursos, de buscar ser mais útil. Essa é a real, não existem atalhos. Se você tem medo de uma gestão participativa pois pode ser prejudicado, é porque ou está com uma visão deturpada de si mesmo ou é melhor mudar logo.

Aceitamos a democracia como a pior forma de governo, exceto por todas as outras. Sim, ela é falha, trabalhosa e demorada, mas é melhor que as demais opções. Assim sendo, vamos com ela. Se eu luto por ela no meu país, porque não na minha empresa? Pra mim esses são os desafios da gestão no séc XXI. E Darwin dá duas opções às empresas. Se adaptar, ou falir. Nada mais natural.

Gestão Participativa, colaborativa e outros nomes têm sido usados pra falar desse fenômeno. Uma nova literatura têm surgido pra tratar do assunto, eis aqui os melhores na minha opinião. La Crème de la crème: Gary Hamel – “O Futuro da Administração”; Ricardo Semler é outra leitura obrigatória: “Você Está Louco” e “Virando a Própria Mesa” são inspiradores e contam um caso 100% brasileiro; Recomendo também “O Nascimento da Era Caórdica” do Dee Hock, sobre o processo que permitiu a cooperação entre diversos bancos e a criação do cartão de crédito Visa; “Creativity, Inc” onde Ed Catmull fala sobre a Pixar em detalhes, as reuniões de trabalho e forma de liderar equipes geniais; “Beyond Measure” da Margaret Heffernan mostra o poder do capital social e das interconexões; “Nação Empreendedora” pela dupla Dan Senor e Saul Singer mostrando como Israel tem consistentemente produzido empreendedorismo de sucesso e “O Banqueiro dos Pobres” do Muhammad Yunus, onde vemos o impacto do negócios sociais e a importância de se trazer os pobres para dentro do sistema financeiro. Todos esses livros além de bem escritos trazem histórias excepcionais, com exemplos práticos da importância e dos resultados da gestão participativa.

Boas leituras!

 

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