Dois patinhos na lagoa

Eram 23:45 da noite e dois meninos desciam do ônibus em ipanema. Sair sem pagar a passagem foi a primeira vitória. Mexeram com as moças sentadas num restaurante, foram ignorados e à vista do homem de terno se aproximando apertaram o passo. Mesmo sem ter comido a fome era inexistente, apenas uma tonteira, riso frouxo e um leve mal estar, frutos da inalação intermitente da substância nas garrafinhas de água. Estariam mais sujos não fosse pelo banho de mar no canal Jardim de Alá. Caminharam a esmo e seus passos os levaram pra Lagoa, a essa hora quase deserta.
Um carro se aproxima, pisca suas luzes e buzina sua sirene. Os meninos param, tensos. Não valia a pena correr, não tinham feito nada de errado. Ainda. O homem fardado fala coisas, as palavras se perdem, mas o tom é indiscutível: ameaça. Algo como é melhor não fazerem besteira, e antes de uma resposta completa vem um tapa. Tudo gira, um casal que passa ao longe vê um menino caindo no chão. O policial vê um pivete, e o amigo não vê nada, só as sombras da injustiça por detrás da raiva enquanto olha pra baixo, pro cimento cinza e rachado, pros estranhos brilhos do asfalto. De onde vêm? O que reflete nesse chão tão preto e sujo? Será que escondido no asfalto têm brilhantes, ou pedras de valor? Mas se tivesse alguém já teria achado.
Um chamado no rádio e os dois policiais vão embora, cuidar de assuntos urgentes e sem importância.
Sentados num banco na sombra, mesmo o escuro tem suas sombras, eles olham as cores dos carros, as luzes dos faróis e freios se demoram mais que o normal em suas retinas. Mais baforadas nas garrafinhas. Dois moleques vêm andando, falando alto e rindo. Bem arrumados e olhando nos celulares de última geração. São playboys, são otários, são nossas vítimas. Vamos lá. Eles correm, todos eles correm, mas depois de gritos e sustos uma carteira com 20 reais, um relógio e um Iphone quebrado são os espólios da noite.
Os policiais seguem sua noite sem saber do ocorrido, que nunca foi nem será registrado. Acreditam que fizeram sua parte, mais até, pois trabalharam nas brechas do sistema, deram uma dura nos pivetes. A conduta é proibida, mas todo mundo faz, afinal, esses moleques têm que saber quem é que manda. Sem o medo correriam soltos por ai.
Os playboys voltaram pras suas casas. Um contou o ocorrido pro terapeuta e amigos. Pros amigos disse que eram 4 caras e um estava armado. Pro terapeuta que foram 3 pivetes. O outro postou sobre a violência e a injustiça do mundo no facebook. 47 likes e 12 comentários. Vistos do seu Iphone novo, maior e melhor.
Os pivetes voltaram pra casa, passaram o celular adiante e no dia seguinte ele estava na Uruguaiana. Pela tela quebrada receberam 50 reais, incluindo o relógio. Com mais 20 da carteira, era 35 pra cada um. Conta essa que nunca fizeram no colégio, nunca chegaram lá.

A noite segue, os dias passam, a pergunte fica. Quem foram os dois patinhos na lagoa?

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“Um texto por pessoa”, esse foi um formato experimental de história, conto ou crônica, nunca soube diferenciar muito bem. Desafio dado pela Mariana Lloyd: Dois Patinhos na Lagoa.

Foto de Escrevinhanças.
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