Deus existe?

Deus existe?

Acho essa pergunta difícil. Não pela dificuldade de provar se Deus existe ou pela dúvida do que falam diversas religiões, mas por não entender exatamente o que ela quer dizer. Duas palavras, mas uma delas é uma palavra ruim. Deus.
Não que Deus signifique algo ruim, mas simplesmente que essa palavra não serve bem à sua função. Uma palavra serve como um vetor, ela indica algo. Se digo a palavra piscina, ela indica algo claro pra você, e pra comunicação se fazer tanto quem fala como quem ouve deve ter, dentro de uma variação aceitável, a mesma “coisa” sendo indicada pela palavra. E essa variação aceitável é o motivo de infindáveis controvérsias.
Um palavra pode ser ruim por ser muito mal definida. Por exemplo, amor, ou mesmo comunidade. Comunidade pode significar qualquer grupo de pessoas. Pode ser sinônimo de favela, pode ser toda a raça humana, pode ser o pessoal do meu prédio ou as bactérias no meu estômago. Assim, mesmo dentro de um contexto o termo é vago, e o que uma pessoa quer comunicar ao usar essa palavra muitas vezes não chega ao ouvinte, ou chega com outra interpretação.
Se uma palavra é mal interpretada ou precisa de diversas outras palavras pra explicar o que ela quer dizer, é uma má palavra, visto que a palavra deveria simplesmente significar uma coisa.

A palavra é um acordo. Concordamos em chamar aquela coisa líquida e transparente que mata a sede de água. Assim quando eu digo isso você sabe, e podemos nos referir a ela facilmente. Mas alguns acordos foram mal feitos, ou não lembramos deles direito. Ninguém lê o livro dos acordos inteiro, aquele que concordamos em chamar de dicionário. As piadas, e quase todo tipo de humor, nascem das falhas desses acordos. A música e a poesia brincam nas fronteiras entre um e outro, e são as únicas com imunidade diplomática nesse terreno.

Quanto mais importante a conversa, mais importante é estarmos usando os mesmos acordos, as mesmas palavras. Por isso os contratos importantes começam definindo exatamente cada coisa, reforçando ou delimitando o acordo naquele caso.
Assim quando eu digo que acho a pergunta difícil é que nunca vi nenhum bom acordo quanto ao que significa a palavra Deus. Historicamente já significou seres mitológicos, figuras como Zeus, que são como homens super poderosos e com uma série de características, e tantas variações disso. Por um tempo minha imaginação de Deus girava em torno de uma bola de luz em algum lugar no universo, mas depois deixou de ser isso, e se aproximou de nada, de uma inteligência, mais próximo de uma fórmula matemática, algo sem corpo. Mas nunca fiquei satisfeito com a minha (in)definição. Mesmo meu acordo comigo mesmo me era insuficiente. Simplesmente aceitei que não tenho inteligência nem imaginação pra compreender de qualquer forma que satisfaça minha curiosidade esse conceito. Então nem chego na fase de acreditar ou duvidar de sua existência, pois não consigo vislumbrar do que se trata, o que é que pode existir ou não. No final minha definição fica tão vaga que pode significar qualquer coisa, e se pode ser tudo, pode ser nada também.

No espiritismo define-se Deus como o criador. Que a criação existe não há dúvida, o universos e nós (no momento) estamos ai. E que fomos criados também, mas essa palavra é capciosa. Fomos criados ou “aparecemos”? Na abrangência em que uso o termo não faz diferença. Passamos a existir, e se isso foi por algo “natural” e não consciente, é isso que designei por Deus então. Se foi de alguma forma intencional, por um “ser” onisciente e onipresente, então este “ser” é o que pra mim é Deus. Mas ambos cenários são tão distantes que não consigo ter uma conversa satisfatória sobre o tema. Simplesmente faltam informações, faltam conceitos, ideias, acordos, palavras. Assim como discutir com um cego sobre a diferença entre o azul e o vermelho.

Portanto, Ateísmo vira um código bem menos profundo. Na prática serve pra denominar pessoas que têm certas práticas e se inserem em certos contextos. Um aponta pessoas que vão a encontros ler livros que acreditam ser representações reais das palavras de um ser mais poderoso, outro pessoas que acham isso besteira. Ser ateu diz muito mais sobre as opiniões de uma pessoas a respeito da religião (outra palavra ruim, mas ok, por enquanto vamos com ela) do que se acredita em Deus ou não.

E, como diria Forest Gump, isso é tudo que eu tenho a dizer sobre ateísmo.

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“Um texto por pessoa”, o desafio do Guilherme Augusto, vulgo Guiga, foi “Ateísmo”.

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