Barani out

 

Tudo é relativo. O céu do tubarão é o inferno do mergulhador. O que pra mim seria um sucesso absurdo em termos de domínio corporal, pra um atleta pode ser só mais um treino de terça-feira.
Sempre me interessei por piruetas, ficar de cabeça pra baixo, assistir as movimentações dos outros. Talvez pela sensação de liberdade, ou mesmo pela beleza estética. Lembro com 15 anos quando fui pela primeira vez no Cirque du Soleil, La Nouba, na Disney. Nunca fiquei tão impressionado, aquilo me redefiniu o significado da palavra espetáculo. A música, as roupas, a maquiagem, tudo elegante, lindo, e o nível de habilidade dos caras, surreal. Achei que era humanamente impossível fazer aqueles saltos, aterrizar com precisão e em sincronia. Fiquei maravilhado.
Mais pra frente fui descobrindo o prazer de seguir minhas obsessões, de estudar aquilo que me encanta e entender mais sobre o assunto. Ao contrário do que alguns pensam, descobrir como são os bastidores em nada tira a magia. Ou se tira não era a magia que eu queria. É ainda mais encantador saber como aquilo foi feito, a quantidade de trabalho e dedicação pra realizar cada momento. Gosto de ficar encantando, mas gosto mais ainda de entender exatamente o que é, como é possível e como fazer mais, pra que outros sintam o que eu senti.
Fui ler sobre o Cirque como empresa, descobri livros, entrevistas, matérias e artigos. Tem um programa de TV chamado “Fire Within” que é uma espécie de reality show da criação do Varekai. Pelo meu interesse em gestão já era um hábito pesquisar sobre empresas que me interessam, seja pelo produto inovador, o tipo de serviço ou mesmo a relação entre funcionários e clientes. Ao pesquisar sobre o Cirque já tinha alguma bagagem e achei incrível mergulhar um pouco mais nesse mundo.

Um amigo da faculdade comentou que estava fazendo aulas de circo, de acrobacia de solo. Já tinha procurado várias vezes, mas todas que encontrei eram muito longe da minha casa ou em horários inviáveis. Essa era em botafogo, e por uns 6 meses pude experimentar em primeira mão o que é acrobacia, como se treina, os medos, a adrenalina e tudo o mais. Obviamente que nas devidas proporções. Tive facilidade com alguns movimentos e em outros veio o medo, e a raiva por estar com medo, e a vontade de superar, e o medo de novo, e as vezes um pequeno sucesso, depois de muitos pequenos fracassos. Conheci pessoas excepcionais e me diverti muito no processo.

Um dia ouvi meu professor comentando sobre um movimento obviamente muito além do meu nível, o Barani Out. Um duplo mortal com meia pirueta. Nunca cheguei nem perto de tentar, um mortal pra trás foi o máximo que consegui, mas virou uma piada interna perguntar se já dava pra tentar o Barani. E por mais idiota que seja, têm um lado legal essa brincadeira, a postura forçada de fingir que eu tenho coragem e que vou conseguir executar o movimento. E o mais louco é que as vezes funciona. Não no sentido de tentar um barani out, mas da atitute ser positiva e facilitar os outros movimentos, os que estavam no meu limite.

Boa parte dos momentos pedem mais confiança do que competência. Se me oferecem uma moto de corrida pra dirigir, meu medo é natural e saudável. Há uma falta de confiança, mas ela nasce da falta de competência, por eu não saber dirigir motos é realmente prudente esse medo. A questão é a falta de confiança aonde temos competência, como para falar em público sobre um assunto que dominamos. Aí o medo de nada serve, e a atitude certa faz toda a diferença. Entre grandes atletas é comum ouvir que a técnica ou preparo físico nunca é o diferencial (pra chegar a competir nesse nível o seu mínimo já é absurdo). O que mais afeta é o psicológico, o estado de espírito, a atitude.

A cada momento fechamos e reiniciamos ciclos. Com o fim do espaço Atua um pequeno ciclo se fechou, deixando amizades e boas memórias. Mas uma porta se fecha e outra se abre. Migrei pra capoeira, e tenho bebido um pouco nessa fonte agora. É divertido quando um ciclo se reinicia, pegamos de onde deixamos, com mais experiência, outros pontos de vista. Quem sabe mais pra frente não tenho um reencontro com a acrobacia, quem sabe um dia eu não dou um Barani Out!

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Desafio “Um Texto por Pessoa” – Barani Out. Rodolfo Rangel, meu incrível professor de circo!!!
Foto antiga, na Pedra da Gávea.

Foto de Escrevinhanças.
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