Ambição

Como muitas coisas das quais tenho falado, acho que a ambição em si e por si é neutra. Fazemos dela o que queremos de acordo com o momento, ora demais, ora de menos.
Crescemos numa sociedade imersa num caldo cultural com grandes doses da culpa cristã. Nesse caldo, ambição é um tempero que não pode ir desacompanhado. Quem exagera então corre sérios riscos de egoísmo, materialismo, stress e pode causar até solidão. É recomendado usar junto com princípios fortes, moral, respeito ao próximo e um pouco de bom senso nunca é demais.

A ambição me move de várias formas. Ser capaz de visualizar um futuro no qual eu falo francês por exemplo me faz querer isso, e esse desejo me motiva a praticar, fazer aulas e percorrer o caminho ao fim do qual minha imaginação tornou-se realidade. Se não houvesse de fato ambição nenhuma, se eu estivesse satisfeito com tudo o tempo todo e realmente em paz, bem, ai eu não faria nada. Acabou. A ambição nasce daquilo que fundamentalmente nos separa dos outros animais. Nossa imaginação. É necessário ao progresso humano.

Quando ela aparece em exagero é extremamente prejudicial. A clássica visão do avarento, de alguém que se perdeu e deseja dinheiros e riquezas acima de tudo. Você pode ser ambicioso intelectualmente, ávido por aprender mais e estudar, ou mesmo espiritualmente, desejando ajudar o próximo, uma conexão maior e etc. Isso significa que você é movido pelo futuro que consegue vislumbrar. O perigo é quando vive apenas esse futuro, foca nele com tanta intensidade que esquece ou se torna incapaz de estar no presente. Ou quando maquiavelicamente age de forma imoral buscando o ambicionado fim. Mas sem algum nível de descontentamento com o estado atual não nos moveríamos, se todos estivessem satisfeitos iríamos estagnar.

É possível estar satisfeito com o que se tem e ainda assim desejar melhorar, ou pelo menos mudar. Ambição não depende de uma insatisfação ou infelicidade atual. Estou satisfeito com minha capacidade de comunicação, ela cumpre suas funções, mas também desejo melhorar.
Apreciar o que se tem e ainda assim buscar um progresso, seja ele moral, intelectual ou mesmo material é possível e mesmo desejável. O que contra-balança a ambição é a perspectiva. Quando coloco meus desejos frente ao quadro maior das coisas vejo se estou exagerando ou não. Realmente, passar nesse concurso é importante, e pra isso devo estudar, mas minha avó está doente e eu vou visitá-la. Ouvir seus problemas, conversar horas a fio, sim. Crescemos com os desafios, os obstáculos. Há sempre uma 3a alternativa, que em geral requer uma nova forma de se olhar o problema. Cada obstáculo traz em si a semente da solução, basta procurar.

Dito isso, é real que muitos se permitem levar pela ambição, tornando-se escravos dela e agindo de formas lamentáveis. Pra mim é que faltam os outros ingredientes. O respeito ao próximo, os valores, o fazer o certo. E a ordem faz toda a diferença.
Se a ambição está demais na sua vida busque se concentrar mais nos outros, desenvolver mais perspectiva, leia umas biografias (são boas pois têm-se a vida inteira de alguém), gaste um tempo apreciando e agradecendo o que já têm. Esse exercício é recomendado a todos na verdade. Todo dia, reconhecer algo pelo qual é grato. Não quer dizer virar um hippie que abraça árvores e diz “gratidão” a cada 2 minutos, mas é um hábito extremamente saudável.
Refletir sobre seus atos, se permitir tempo para compreender o que te move, porque deseja isso ou aquilo e como isso se encaixa num plano maior. O dinheiro por exemplo é apenas um meio. Ninguém quer dinheiro, que apenas o que ele significa, o que ele pode comprar. O que de fato você está buscando? Onde mais pode conseguir isso?

Eu ambiciono viajar mais, aprender outras línguas, dar aulas, ter mais sucesso profissional, ter mais amigos e aprofundar minhas amizades, ajudar mais pessoas, dançar melhor, rir mais, atuar, criar… São diversas ambições, diversos coisas que motivam a me mexer, a ler, a solucionar problemas. No fundo quero mais prazer, felicidade, bons momentos, variedade, um senso de conexão com os outros, de pertencimento a algo maior, de que contribuí e que tenho valor.
E você, o que te move?

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“Um Texto por Pessoa” desafio do meu amigo João Pedro – Ambição.

Foto de Escrevinhanças.
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