Acrobacia, humor/artes cênicas, dança e tudo isso junto e misturado no seu jogo de capoeira

Tenho pensado sobre os ciclos atualmente. Um período onde nos dedicamos a algo, com condições ideias ou suficientes, e como perdemos oportunidades também.
Um ciclo muito claro que eu tive foi com o teatro. Era basicamente alheio a esse universo até entrar na faculdade. A primeira vez que subi num palco foi com 19 anos num workshop de improviso. Me senti completamente à vontade, e teve início um ciclo muito intenso e incrível pra mim. Nos próximos anos eu entrei em escolas de teatro, fiz apresentações, festivais, participação em programas de TV, várias oficinas, li livros, e cheguei a montar um espetáculo. Passei a ir mais no teatro, ter um olhar mais crítico, ter referências e sinto que esse ciclo fechou bonito, com a minha saída do grupo. Não abandonei o teatro, foi natural, além de sair da peça que fazia, meus horários não estavam mais batendo com as aulas de teatro e quando vi estava fora. O ciclo fechou naturalmente, suavemente. Sinto que aproveitei bem, que me dediquei ao máximo, que absorvi muita coisa, fiz amigos e vivi a teoria e a prática. O ciclo foi completo nesse sentido, e tenho certeza e quero que outro se inicie em breve. Não volto do mesmo lugar, começarei com outra experiência, outra perspectiva, de outro ponto. Nesse caso é mais uma espiral: você volta ao mesmo ponto, mas em outro lugar.

O ciclo da dança também foi curioso. Veio quando o das lutas terminou. Desde pequeno sou fascinado pelas artes marciais. Ia em museus e só queria ver as armaduras e cenas de batalhas. Fiz Judô e Karatê quando pequeno, mas lembro mesmo do Aikidô e Kung-Fú. Esses eu treinei mais, e em algum momento comecei a devanear cenários onde testaria minhas habilidades. Nunca fui violento, mas era natural pensar isso quando uma situação poderia de alguma forma terminar em briga. Achei que com esses pensamentos ia acabar atraindo alguma briga, e resolvi parar. Busquei outro foco, e foi quando caí na dança (e no polo aquático). Tinha um projeto de aulas de dança de salão na hora do almoço na faculdade e eu entrei. Curti, acabei virando bolsista de uma academia. Outro ciclo intenso e muito divertido. Aprendi muito também, mas como o conhecimento inicial era nada, isso não significa que eu saiba dançar. Mas no forró ainda consigo dar uma enganada. Nesse ciclo eu dei mole. Devia ter aproveitado mais as aulas de samba. Era a hora certa, mas isso eu só percebi depois. Tinha amigos e amigas pra praticar, professores disponíveis pra tirar dúvidas, bailes e festas pra dançar toda semana.. A janela de oportunidade passou e eu aproveitei menos do que poderia. Hoje quero retomar, como o aluno repetente que não estudou quando devia. Mas na época era fácil achar que tudo estaria disponível pra sempre. É lógico que as possibilidades ainda existem, mas aproveitar o embalo é mais inteligente e certamente eficaz.
Esse ciclo se fechou com a minha saída da academia, deixando de ser bolsista e passando a dançar só de vez em quando. Minha vontade é seguir pra dança contemporânea ou outras formas de expressão, mais ainda não chegou o momento.

Nessa jornada corporal acabei indo pro circo. Fiz alguns meses de aulas de acrobacia de solo (como já falei mais em outros textos). Outro ciclo legal, amigos, viagens, estrelas, rondadas, flic flacs e mortais. Terminou com o espaço fechando e eu mais uma vez órfão de uma prática que me desse tesão. Mas como em todos os casos, perto do fim desse eu já estava namorando a próxima. O fim e o começo nunca são tão bem demarcados assim, uma coisa vai migrando pra outra. Tinha essa capoeira que alguns amigos faziam, eu tinha feito quando era criança e comecei a pensar em voltar. Mal ou bem a capoeira é um pouco de luta, um pouco de dança, têm floreios e movimentos mais artísticos também, e pode ser jogo, luta e brincadeira. Em pouco tempo o espaço onde esse grupo treinava fechou e ele se mudou pra minha rua, do lado da minha casa. Timing ideal, um novo ciclo começou e estou adorando viver cada momento. Tenho percebido minha evolução na técnica, além da sorte de poder treinar com pessoas tão alto astral. Um ciclo se emenda no próximo e só olhando depois é que da pra ver como houveram momentos distintos. Em cada ciclo há aprendizados que se carregam ao próximo, e cada um está também em sincronia com outros eventos na minha vida, cada um é representativo à sua maneira.

Hoje tento ser mais consciente e aproveitar melhor as janelas de oportunidades de cada um. Que dor de cotovelo ao olhar pra trás e ver o quanto desperdicei de boas oportunidades, momentos únicos. Não só de aprender uma técnica ou me desenvolver nisso ou naquilo, mas de me relacionar com as pessoas à minha volta de forma mais profunda, mais completa. É como num video-game, treinamos e coletamos numa fase aquilo que vamos precisar na próxima.

Na capoeira tenho posto em prática o que trago da dança e acrobacia diretamente no jogo, na movimentação na roda e na troca como outro, mas também o espírito do improviso. Na predisposição ao desconhecido, no humor na relação com os amigos e mesmo durante o jogo, há espaço pra brincadeira e até um ar cênico. A capoeira tem a negaça, o enganar, a malandragem, e isso pra mim é pura encenação, é teatro com um quê de deboche e atitude, tudo o que conheço do improviso e outros tipos de jogos de cena. Não se faz teatro sozinho. O mesmo vale pra dança, pra capoeira. Há a troca com o outro, a relação com ele e o que você traz pra essa dinâmica, que energia vai e vem, o que você joga, como recebe o que o outro dá e como isso vai fluindo.

Vejo ciclos como momentos onde a atenção está mais focada numa atividade, num tema. Uma amiga me chamava de obcecadinho. Recebo como um elogio. Gosto de mergulhar num assunto, seguir minha curiosidade e ver até onde vai a toca do coelho. Se algo te interessa esse é o momento de cair dentro. Afinal, como dizia o coelho à menina Alice “é tarde, é tarde, temos que correr!”

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“Um Texto por Pessoa”, desafio do Rodrigo Cavassoni, vulgo Graveto. (Acrobacia, humor/artes cênicas, dança e tudo isso junto e misturado no seu jogo de capoeira).
Escrevendo esses temas vejo o quanto quero desenvolver melhor e com calma diversos pontos em que apenas toco aqui. Mais pra frente, sem dúvidas. Acho que ciclo das escrevinhanças está apenas começando.

Foto de Escrevinhanças.
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