A Seita

O que é a seita? É uma organização, uma comunidade, um grupo seleto de pessoas que seguem regras mais seletas ainda. Um homem pra entrar na seita segue seus mandamentos. Veste o que mandarem, faz o que for necessário. Há o período de sondar, de flertar, onde o homem é avaliado como potencial integrante da seita. Se aprovado, há momento do convite, que é solene, discreto porém grandioso. O homem se sente honrado, e recebe a senha e o local do rito de passagem. Finalmente reconheceram seu potencial, o destacaram da multidão. Ele aceita, se pensa mais importante, e anseia ser visto como um igual. A iniciação é tensa, perigosa, reforça a ideia de que cada membro merece estar lá. O homem faz suas juras, arrisca sua vida, provas de fogo, testes de habilidade e força. Horas intermináveis, esforços hercúleos, suar, medo, ansiedade e finalmente um pacto de sangue selando o fim, o novo início. Ele agora pertence à seita. Aceita suas regras, seus rituais, suas verdades. A seita cresce, assim, pouco a pouco. Se cresce demais outra nasce em seu seio. Uma seita dentro da outra, dentro da outra, dentro da outra…

“Eu não gostaria de pertencer a nenhum clube que aceitassem pessoas como eu como um membro” – Grouch Marx.
É natural querer pertencer a grupos. Evoluímos assim. Há milhares de anos os que não tinham essa necessidade provavelmente foram viver sozinhos e acabaram devorados por leões ou Tigres Dente de Sabre. Esses não viveram pra passar seus gens adiante. Quem tinha medo de ser excluído da sua tribo fazia por merecer sua permanência, e eram recompensados pela proteção, vida social e privilégios. Com o tempo evoluímos, criamos grupos cada vez maiores. Tribos viraram comunidades, que viraram sociedades, aldeias viraram vilas, que viraram cidades, que viraram metrópoles e os grupos aos quais pertencemos só cresceu. Com isso nasceu a necessidade de grupos dentro de grupos. Quão menor, mais exclusivo, mais importante. Quanto mais importante é um grupo, mais importante são seus membros. Ou é o contrário?

É curioso até onde vamos para sermos aceitos. O peso do social, da expectativa, o medo de ser excluído, de ficar de fora. O efeito “macaco de imitação” existe e por bom motivo. Ele funcionou em nos manter vivos por milênios. Hoje em dia não temos mais os riscos de vida da savana africana. Temos um software moderno num hardware antiquado. Nossos corpos estão preparados pra um estilo de vida de 10 mil anos atrás, a evolução é lenta demais. Por isso você gosta de gordura, tem medo de avião e quer trair a sua esposa. Os instintos que o mantiveram vivo ainda não foram atualizados para o mundo moderno.

Um deles, e um bem forte, é o do pertencimento. Isso que justifica adultos racionais, pais de famílias e homens inteligentes que se submetem a rituais ridículos, usando fantasias e respeitando regras aleatórias. Tratando com respeito rotinas absolutamente sem sentido, simplesmente pois ali todos fazem assim.
Mas seitas têm uma forma peculiar de preservação, que faz com que até hoje coisas sem razão sejam feitas. Na maioria dos ambientes temos a predominância da razão. Se eu faço algo de uma forma obtusa, outros apontam minhas falhas e a mudança se faz necessária. Não numa seita, ali os comportamentos são repetidos, respeitados, pois pra pertencer à seita deve-se estar no padrão.

Na história acima pouco muda se eu disser que o homem na verdade é um menino, que a seita é o grupinho dos seus amigos do colégio, que as provas de vidas constituem pular de um sofá pro outro sem pisar no tapete e que o pacto de sangue foi feito com ketchup. A intensidade é outra, claro, mas a essência é a mesma. Um garoto querendo ser aceito, fazendo coisas pois os outros definiram que é legal.
Quantas coisas não fazemos pra pertencermos às nossas seitas. Colocamos um casaco, calça e camisa de manga comprida em pleno verão, pois todo mundo faz isso. Chamamos ele de terno. Ao conhecermos alguém seguramos a sua mão e balançamos um pouquinho. Se for mulher você encosta a bochecha na dela e faz barulho de beijo. Algumas seitas exigem um beijo apenas, outras dois. Seitas muito distantes pedem que você apenas se abaixe, sem tocar. Se vestir é importante pras seitas. Tem fantasia pra tudo, até pra dormir. Sair com roupa de dormir na rua, só se você for da seita que se curva ao invés de apertar a mão. Se gostamos de algo, batemos uma mão na outra repetidas vezes. Fazer isso de pé significa mais que sentado. Se vamos embora, é só balançar a mão aberta, e as pessoas fazem isso de volta. Porque? Porque fazemos assim e não diferente?

Em diversos ambientes da nossa vida podemos nos dizer racionais. Temos bons motivos por exemplo para escovar os dentes, ou cozinhar alimentos antes de comer, ou aprender a ler e escrever. Mas tantos outros sobrevivem apenas pois queremos pertencer. Queremos ser da seita. Toda seita é um clube de vantagens. Algumas te oferecem bons contatos, oportunidades de emprego, convites VIP pra festas e eventos. Outras oferecem histórias, acesso à servidores mágicos e prêmios infinitos, em geral após a morte. Deve-se apenas pagar o dízimo.

Queremos as vantagens de ser do grupo, de estar por dentro. Queremos tratamento especial. Mas pra tudo se paga o preço. Qual o preço da sua seita. Você aceita?

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“Um Texto por Pessoa”, desafio do André Dale – A Seita.
Achei esse difícil de escrever, truncado, mas no final optei por postar mesmo assim. Afinal, pra isso servem desafios né..

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