Embaixadores da Moral

O papel da filosofia no dia-a-dia costuma ser muito negligenciado. Visto como monopólio de uma entediante elite acadêmica, temos perdido grandes oportunidades de crescer como pessoas e como sociedade ao evitar o debate público sobre temas como moral, ética e religião. A demanda reprimida se mostra mais claramente quando surgem figuras públicas com opiniões sólidas e bem apresentadas. Eis aqui dois dos principais embaixadores da Moral no momento.

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Sam Harris é um autor incomum. Não apenas pela habilidade em organizar os pensamentos, no uso da lógica na argumentação e clareza dos pontos de vista, mas em sua escolha em discutir publicamente temas polêmicos. Ele defende que é extremamente prejudicial haver quaisquer restrição em se falar abertamente sobre moral e ética de uma forma secular. Em seu livro “A Paisagem Moral” ele argumenta como é possível ter uma moral baseada apenas na razão e na ciência, que existem sim respostas certas e erradas quando se fala da experiência de seres conscientes. Ele deixa claro a diferença entre reconhecer a existência de uma resposta e nossa capacidade prática de chegar a ela.

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Outro autor têm feito um incrível trabalho em impulsionar o debate público sobre moral e ética. Michael Sandel é um professor de Harvard de Filosofia Política, além de autor de alguns livros como: “Justiça: o que é fazer o certo” e “Os Limites Morais do Mercado: o que o dinheiro não compra”. Seu curso foi o primeiro a ser disponibilizado gratuitamente online e virou uma sensação. Ele é tido como um Rockstar da filosofia. Em toda aula o formato é de debate, discutir a partir da posição de parlamentares, daqueles que criam uma lei, como deliberar sobre o que é o certo em cada situação. Isso por si só já seria suficiente pra um curso excepcional, mas aonde o Michael se destaca ainda mais é pela escolha dos exemplos. Atuais, reais e representando muito bem o tema em discussão. Uma das aulas é sobre deveres cívicos e se uma estrutura de mercado deveria se aplicar por exemplo ao preenchimento das fileiras militares. os alunos discutem com argumentos e contra-argumentos, aprofundando exatamente o que entra em questão quando falamos sobre alistamento militar, patriotismo e as obrigações morais do contrato social. Depois ele fala sobre a guerra do Iraque, onde houveram mais tropas contratadas do que do exército americano. Mais rodadas de argumentos contra e a favor, mas cada um sendo forçado a dizer exatamente o que há de errado em um exército mercenário ou porque seria importante para a sociedade ter seus membros lutando por ela. Em outra aula há o caso de uma empresa situada na Índia que provê o serviço de barrigas de aluguel. Assim um casal que não queria passar pelo desconforto da gravidez doa o óvulo e o esperma a uma indiana que terceiriza o serviço. Naturalmente a conversa toca na desigualdade social, nas diferentes escolhas das pessoas e exatamente quando uma preferência deixa de ser saudável.

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O principal ponto é o quão inexperientes somos em relação a debates. Quão incomum é à grande maioria o terreno de discussões profundas e respeitosas. Frases como “Política e religião não se discute” são representantes de uma visão onde discutir = brigar. Isso vêm de um contexto onde se valorizam as aparências mais que os conteúdos. Onde fazer sala é importante, há de se conversar, e o ato é tudo. Assim não importa o conteúdo, e, inclusive, se algum conteúdo afeta a forma, da a impressão de desarmonia, melhor evitá-lo. Discutir, conversar, argumentar sobre um assunto é a melhor forma de chegar a conclusões. Vivemos em sociedade, optamos pela democracia, então a arte do debate democrático é fundamental para tomarmos as melhores decisões enquanto grupo de pessoas.

Há ainda o incômodo que vêm da quebra da ilusão. Quem é apegado à auto-imagem de alguém culto, com opiniões racionais e bem fundamentadas muitas vezes evita colocá-las a prova, pois no fundo sabe que podem não resistir. E há o mito do não decidir. Se algo é difícil, controverso ou complicado demais, alguns dizem que preferem não se manifestar. Mais uma vez um sintoma do mundo das aparências. Numa visão de curto prazo realmente essa postura oferece uma saída pela tangente e evita uma gafe social. Mas no mundo em que vivemos as decisões são tomadas. Ou se é a favor ou contra. Não existe neutralidade. Posso até ter a minha opinião e não agir por outros motivos (não vale o investimento de recursos no momento ou outra razão) mas não há abstenção real. No Brasil por exemplo o aborto é ilegal. Ou você concorda com isso ou discorda. Há pontos mais completos a serem feitos, mas no final ou está de acordo com que a lei exista ou não. Isso não significa que vá de fato lutar pra mudar, cada um tem o ativismo político que preferir, mas dizer que não tem opinião sobre o assunto (e portanto não vai fazer nada) é seguir o status quo, e validar, mesmo que por inércia, a decisão vigente. Sobre esse ponto é cabível a frase “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Tanto Michael Sandel quanto o Sam Harris trazem ao grande público a importância do debate, da troca de ideias. Ambos conseguem falar a um grande número de pessoas sem simplificar os assuntos, mantendo a complexidade dos fatos onde ela é devida. Mostram que o lugar da filosofia (pelo menos de parte dela) é no dia-a-dia, que tomamos decisões e fazemos julgamentos a todo instante, e não discutir conscientemente o assunto é permitir diversas inconsistências e mesmo uma estagnação intelectual.

Somos adestrados a evitar o erro mais do que buscar o acerto. Temos medo do ridículo, de pagar mico e fazer papel de bobo, então buscamos ficar onde é seguro, onde sei que não vou errar. Seguindo essa tendência criamos uma série de regras sociais que não apenas é indiferente à conversas profundas, como costuma mesmo ser hostil a elas. Desestimulamos toda troca que possa ir por um caminho sensível, que possa gerar um desconforto mesmo que momentâneo. Pessoas como Michael e Sam evidenciam o preço dessa alienação semi-voluntária. Não decidir é uma ilusão que significa deixar seu voto ir com a maioria. E, em geral, tanto na esfera pública quanto na privada, quando outra pessoa decide por você o resultado não é o que você gostaria.

Além dos livros, Michael Sandel e Sam Harris têm palestras online, no TED e tantos outros eventos disponíveis a quem quiser experimentar o tom e estilo de cada um. É sempre importante estar atento às nossas imparcialidades. Assim como sabemos que nossos instintos alimentícios não são confiáveis e levariam à obesidade sem o controle da razão, o mesmo vale pra tantas outras esferas. Um debate consciente traz a tona novos pontos de vista, estimula a pesquisa sobre o assunto, evidencia nossas falhas argumentativas e é uma excelente forma de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. A cereja do bolo: esses livros contém uma escrita ímpar, que torna a leitura fácil e deliciosamente agradável.

 

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